Beda Fomm - Uma vitória clássica
Custaram aos britânicos cerca de 500 mortos, 55 desaparecidos e 1.373 feridos, o seu fantástico avanço de 800 km em dois meses, a destruição de um exército de 10 divisões e a captura de mais de 130.000 soldados, 180 tanques médios e mais de 200 leves, além de 845 canhões. “Acho que podemos considerar Beda Fomm uma vitória clássica...”
Sucesso antes de Rommel
A campanha do Deserto Ocidental do Egito e Cirenaica, em 1940 e 1941, contra os italianos, foi o primeiro sucesso real do exército britânico na Segunda Guerra Mundial, ocorrendo numa época em que era seriamente necessário. Essa vitória foi conquistada por um punhado de soldados, muitos dos quais oriundos da guarnição sediada no Egito antes da guerra; foram apoiados por um grupo igualmente bravo de aviadores e pela Marinha Real, ainda senhora do Mediterrâneo. Orgulho-me de ter servido com eles.
Mas foi fogo de palha. A vitória não seria conquistada com tanta facilidade quando enfrentássemos os alemães altamente profissionais e bem equipados em terra e no ar. Os hábitos da alegre desenvoltura adquirida nessa campanha nos custaram caro com a chegada de Rommel.
A narrativa de Macksey dá todo crédito aqueles que planejaram e executaram esse brilhante episódio da história da “Força do Deserto Ocidental”, a formação que eventualmente transformou-se no 8o Exército. Uma das suas fontes principais é o General Sir Richard O’Connor, que foi o principal artífice da vitória final em Beda Fomm. Ele também salienta o que a força deveu ao trabalho pioneiro de organização e treinamento realizado pelo Major-General Sir Percy Hobart, que formara a 7a Divisão Blindada do Egito em 1939 e a transformara, com grande vigor e previsão, numa força móvel apta para a guerra. Kenneth Macksey fez largo uso do material agora disponível de fontes italianas, que revelam as dificuldades sob as quais elas trabalharam.
Há muitos “poderia ter acontecido”. Foi acertado, em qualquer época, ter dado prioridade à campanha contra os italianos na África Oriental? Se não tivesse sido assim, a vitória de Sidi Barrani poderia ter sido explorada com muito mais rapidez e eficiência. Não se poderia ter deixado que os italianos na Eritréia e Etiópia fenecessem em isolamento? E o que dizer da fatídica decisão de partir em socorro da Grécia? Em retrospecto, vê-se que a limpeza da costa norte-africana estava dentro da nossa capacidade, se o esforço não tivesse sido desviado para a Grécia. Ela poderia ter tido resultados tão influentes sobre a África do Norte Francesa e sobre a situação naval e aérea no Mediterrâneo quanto a intervenção na Grécia, caso bem sucedida, sobre esta última e sobre a opinião neutra e a atitude da Turquia.
Ou teria sido melhor ter parado em Tobruk, caso em que os alemães jamais teriam intervindo na África do Norte? Mas isto teria representado o estrangulamento ou a invasão de Malta e o fechamento definitivo do Mediterrâneo para nós. Após todos os golpes que já sofrêramos, essa atitude teria sido recebida como política de derrotismo. As escolhas não eram fáceis. O livro de Macksey renova o interesse sobre esse período dramático e será valioso para todos os estudiosos da guerra, bem como para os velhos ratos do deserto que dela participaram.
Combate no deserto
A 11 de junho de 1940, numa noite sem lua no deserto, todos os três esquadrões do 11o Regimento de Hussardos britânico, equipados com velhos carros blindados Morris e Rolls-Royce do padrão de 1924, aguardavam, em expectativa, a oeste da fronteira entre a Cirenaica italiana e o Egito. Atrás ficava o alambrado italiano no qual horas antes os carros haviam aberto brechas ao entrarem pela primeira vez em território hostil; à frente estava a possibilidade de ação imediata, pois esses hussardos eram os arautos da guerra no deserto, respondendo imediatamente à sua declaração pelo ditador italiano, Benito Mussolini, a 10 de junho. Aliás, vários dias antes da declaração, o exército Britânico, diminuto em efetivos mas ansioso por entrar em ação, aproximara suas forças leves da fronteira. Enquanto isso, no mar, a Esquadra do Mediterrâneo, em inferioridade numérica em relação ao seu adversário italiano, levantara ferros sub-repticiamente em Alexandria e no Porto Principal para tomar posições de combate. E, em apoio de ambos, a RAF entrara de prontidão para o esforço ininterrupto face ao qual seus parcos recursos eram quase que inadequados. Assim, enquanto a Alemanha de Hitler conquistava sua fácil vitória na França e parecia pronta para ameaçar a Inglaterra com a Invasão, as forças inglesas também estavam começando a lutar com um novo inimigo - um inimigo que havia apenas um quarto de século fora seu aliado - numa região que alguns consideravam quase tão vital para a sobrevivência britânica quanto a própria Inglaterra.
Em pontos isolados ao longo da fronteira, vivas rajadas de metralhadoras anunciavam as emboscadas feitas a esmo contra os caminhões italianos que se moviam incessantemente, de faróis acesos, pelas trilhas do deserto. Em Sidi Omar, chamado Capuzzo, um comboio de quatro desses caminhões, cheios de soldados libios, que caiu numa dessas armadilhas preparadas por soldados do 11o de Hussardos, foi atacado a curta distância sem que o inimigo disparasse um único tiro em represália. A surpresa fora absoluta porque a notícia do começo da guerra ainda não chegara aos ouvidos desses soldados italianos, cujos oficiais mesclaram a justa indignação pela sua própria ignorância dos acontecimentos, com protestos contra um ataque desfechado do território egípicio “neutro”. Aliás, isto fora exatamente o oposto do que ambos os lados esperavam.
Ao examinar a possibilidade da guerra no deserto, os britânicos trabalharam com base na suposição de que os italianos invadiriam o Egito, avançando prontamente pela estrada costeira do Mediterrâneo, por uns 80 km, para tomar o terminal ferroviário e a base em Mersa Matruh. Ali, a maior parte do deserto era ideal para a livre manobra de forças mecanizadas, pois para o sul, onde a escarpa corria paralela à costa, a uns 16 km para o interior, ela dava amplo espaço para uma aproximação diversificada ao longo de numerosos eixos de avanço. Somente num ponto, perto do pequeno porto de Sollum, situado junto à fronteira onde a costa e a escarpa convergiam em meio a uma profusão de rochedos, é que um obstáculo natural impedia a mobilidade. Mesmo ali, onde a estrada que partia do porto subia a encosta e, em seguida, penetrava no território italiano em Capuzzo e mais além, na direção do porto de Bardia com sua guarnição maior, o gargalo costeiro podia ser facilmente flanqueado ao sul por suas forças mecanizadas movendo-se através de Sidi Omar e do campo em Sidi Azeis, para oeste de Bardia. No entanto, nesta terra subdesenvolvida e árida, o raio de ação de uma força que operasse longe da costa dependia em grande parte de quanto transporte mecanizado estivesse à sua disposição, do volume de suprimentos de alimentos, gasolina, peças sobressalentes e da água, que pudesse carregar - e que era de importância fundamental. Assim, os soldados que marchavam a pé moviam-se lentamente e com desvantagem tática, mas uma vez afastados da estrada, nos meses de verão, podiam ser reduzidos à exaustão em poucas horas pelo calor escaldante.
E a maior parte do Exército Italiano na Cirenaica, em junho de 1940, era um exército a pé, com carência de tanques, canhões e de transportes suficiente, a não ser no tocante às suas necessidades diárias para policiar o que ele considerava apenas como território colonial tribal. Não estava em condições de penetrar no Egito e, assim, por negligência, permitiu que os britânicos tivessem a iniciativa desde o começo da guerra.
Os britânicos também eram fracos, mas seu punhado de soldados estavam acostumados às condições do deserto e, na região fronteiriça, totalmente mecanizados. Tornavam-se também cada vez mais agressivos; encontrando tão pouca reação inimiga na noite de 11 para 12, o comandante da sua Força do Deserto Ocidental, Major-General Richard O’Connor, intensificou suas atividades na noite seguinte, mandando o 11o de Hussardos aprofundar-se ainda mais, para sondar até o Forte Maddalena e tomar Sidi Omar - duas operações que dariam importante compreensão da então vigente filosofia defensiva dos italianos. Em Maddalena, o comandante dos hussardos, SSM “Nobby” Clarke, imprudentemente levou dos de seus três carros, cuja blindagem era leve, até as portas do forte, onde foi recebido por uma saraivada de fogo de metralhadoras; mais tarde ele foi rechaçado até a fronteira por ataques prolongados de seis bombardeiros e nove caças Fiat. A tática dos seu carros blindados para se desviarem das bombas mudando de direção foi bem sucedida durante mais de uma hora, mas evidentemente os italianos eram mais aguerridos do que Clarke supunha. Sua estratégia parecia consistir, principalmente em defender o deserto utilizando o poderio aéreo. Em Sidi Omar, porém, encontrou-se o forte abandonado - indicando a O’Connor e ao seu Comandante-Chefe, o General Wavell, que os italianos, longe de visarem o prosseguimento de uma ofensiva, estavam recuando; 48 horas após o inicio das hostilidades, reconsiderara-se a primeira estratégia britânica baseada numa defesa agressiva.
Também no mar, onde os navios entraram imediatamente em ação quando do recebimento do comunicado da declaração de guerra, logo se evidenciou que, assim como em terra, os italianos pretendiam conduzir operações apenas com forças leves, apoiados por ataques aéreos. A esquadra de batalha italiana permaneceu no porto enquanto a esquadra britânica percorria os mares; Malta logo ficou na berlinda, recebendo seu batismo de fogo a 11 de junho - tornando-se imediatamente o centro da estratégia britânica do Mediterrâneo, exigindo ajuste sistemático e custoso para mantê-la como base de ação ofensiva contra as rotas marítimas italianas que abasteciam a Tripolitânia e a Cirenaica. Contra este amplo pano de fundo da batalha naval - os movimentos sutis das esquadras, escaramuças mortíferas entre cruzadores e destróieres, e o afundamento de três submarinos britânicos nas primeiras horas ao largo dos portos italianos - a guerra na fronteira egípicia assumira um papel insignificante. Ademais, a guerra no ar sobre o deserto era pouco mais que uma confusão, embora, nas primeiras horas, a RAF destruísse 18 aparelhos italianos surpreendidos despreparados em terra em El Adem, e danificasse um cruzador no porto de Tobruk, juntamente com outros navios, ao mesmo tempo que dava cobertura aérea para o exército que operava na área avançada, com seu caças Gladiator biplanos, tudo isto contra a perda de apenas três bombardeiros Blenheims. Se a retaliação ou com bombardeio de longo alcance italiano foi pouco mais que retribuição contra o 11o de Hussardos perto da fronteira, isto apenas confirmou a impressão de tratar-se de um inimigo que não estava disposto a lutar.
Enormemente estimulados pela hesitação do seu adversário, Wavell e O’Connor decidiram penetrar ainda mais profundamente na Cirenaica no dia 14, enviando um esquadrão do 11o de Hussardos, apoiado por Blenheims, para tomar Maddalena, e uma força poderosa de carros blindados, tanques, artilharia e infantaria blindada para tomar Capuzzo. Maddalena caiu com apenas umas poucas bombas e sem que se disparasse um tiro: a guarnição, exceto 18 homens, já partira. Mas Capuzzo poderia ser difícil, pois o próprio forte era seguro e os italianos consideravam-no chave das suas defesas e também o trampolim para qualquer penetração no Egito. Para esta tarefa, O’Connor destacou a 4a Brigada Blindada, comandada pelo Brigadeiro J. Caunter, e incluiu em seus objetivos não só o forte de sólidas muralhas como também o campo vigorosamente entrincheirado de Sidi Azeis, situado nas proximidades, na direção do norte. Caunter lançou seus elementos mais poderosos contra Capuzzo - o 7o de Hussardos com seus tanques cruzadores (A9 com blindagem de 16 mm e armados de um canhão de 2 lb) e tanques leves (blindagem de 15 mm e armados apenas de metralhadoras), apoiados por uma companhia mecanizada do 1o Batalhão do Real Corpo de Fuzileiros do Rei. Uma vez mais, porém, a oposição foi leve e, após um ataque breve e impreciso pela RAF e um duelo curto mas intenso entre os tanques britânicos e a artilharia e metralhadoras italianas que defendiam o forte, a bandeira branca foi hasteada. Ainda uma vez pôde-se tirar conclusões importantes para o futuro. A artilharia italiana lutara ferozmente, mas, uma vez destruídos seus canhões, a infantaria líbia se entregava muito antes que seus equivalentes britânicos tivessem tempo de desembarcar dos seus veículos e entrar em ação. O fogo dos tanques britânicos em Capuzzo foi, por si só, decisivo, apesar das perdas resultantes de enguiços - na aproximação do objetivo - de 40% dos cruzadores e 20% dos tanques leves. Mas em Sidi Azeis a artilharia italiana conseguiu deter plenamente os carros blindados e alguns tanques leves do 7o de Hussardos. Ali, fora do perímetro do campo, as minas destruiram três tanques, o ataque entrou em colapso e o restante da força do 11o de Hussardos retirou-se para a fronteira, travando vigorosa ação de retaguarda contra tanques leves italianos no caminho e ao anoitecer. Durante esta primeira escaramuça contra veículos blindados adversários no deserto, as tripulações do 11o de Hussardos para seu espanto, “mataram” um tanque italiano com um fuzil antitanque e permaneceram ilesas. Mas o exame subsequente de um tanque leve italiano, um L3, revelou que este era uma armadilha mortífera - pouco mais que um transportador de metralhadora com uma blindagem de apenas 12 mm de espessura - uma máquina indigna do nome de “tanque”.
No dia 16 houve novo combate, desta vez em Ghirba, depois que Caunter avançara para atacar ao ser informado de que 12 tanques italianos, 400 soldados de infantaria e 40 caminhões estavam na área de Capuzzo. Ele levou consigo um esquadrão do 11o de Hussardos, um esquadrão do 7o de Hussardos e a Bateria J da Real Artilharia a cavalo (motorizada) com canhões antitanques de 2 lb. Mas os dois carros do 11o que tinham avistados os italianos já haviam deparado com os tanques italianos, sem dúvida estimulados pelo sucesso anterior dos seus companheiros do 14o. Destes pequenos primórdios desenvolvia-se agora considerável batalha terrestre, à medida que se enviava ajuda para os dois carros imprudentes. Caunter entregou o conflito local ao Tenente-Coronel John Combe do 11o de Hussardos e lhe deu uma tropa de bateria de canhões de 12 lb. E mais um esquadrão do 7o de Hussardos - já então reduzido pelos enguiços a apenas alguns cruzadores e três tanques leves. Ao se aproximar, Combe viu algo indescritível, pois os italianos haviam voltado à tática do passado, formando um quadrado com sua infantaria na planície aberta, seus tanques no centro e seus canhões nos ângulos; tática outrora designada para a guerra tribal, com a qual este Exército Italiano estava muito familiarizado. Contudo, dificilmente se poderia esperar que, apesar da reconhecida base tribal da estrutura regimental do Exército Britânico, seus modernizados regimentos de cavalaria e artilharia se deixassem impressionar por essa tática como os dissidentes árabes.
Avançando diretamente para o ataque, o 7o de Hussardos logo se viu sob o fogo de artilharia e em seguida foi atacado por sete L3, que foram combatidos com a máxima bravura pelas suas treinadas tripulações da cavalaria - mas por um preço terrível. A curta distância um dos hussardos do 7o, para citar seu relato, viu “... um pequeno L3 disparando contra ele a sua metralhadora. Acelerou o seu veículo até que pudesse alvejar o L3 e então seu canhão de 2 lb. o reduziu a destroços”, assim como o resto foi reduzido a pedaços, deixando os tanques britânicos livres para cercar o quadrado, disparando os canhões contra a infantaria agrupada e seus caminhões, mas também atraindo o fogo constante dos canhões estacionados nos ângulos do quadrado. Uma vez mais, os artilheiros italianos lutaram até a morte e, à medida que os canhões se calavam, a infantaria, indefesa sem as armas antitanques, tentava escapar em seus caminhões mas era arrebanhada pelos carros blindados no deserto aberto. Era o aniquilamento. Entre os mortos, figurava o comandante italiano, Coronel D’Avanzo, que perecera cumprindo as ordens do comandante da 1a Divisão Líbia para “... destruir elementos inimigos que se infiltraram pela fronteira, e dar aos britânicos a impressão da nossa decisão, capacidade e vontade de resistir”. Mas conseguira-se precisamente o oposto, pois a “Batalha de Ghirba”, onde os italianos deixaram mais de 100 prisioneiros e perderam 4 canhões e 17 tanques leves, não custou aos britânicos uma única baixa. Isto também não foi tudo, pois, simultaneamente, outro esquadrão do 11o de Hussardos preparara uma emboscada na estrada entre Trobuk e Bardia e durante todo o dia capturou uma sucessão de caminhões - 40 ao todo - fez 21 mortos e 88 prisioneiros italianos, incluindo o Engenheiro-Chefe do 10o exército (um velho conhecido do General O’Connor), sua mulher, que estava grávida e um oficial de estado-maior. A senhora deu à luz seu filho em Alexandria.
Em breve as operações prosseguiram num ritmo mais regular, interrompido no dia 21 pelo bombardeio de Bardia com a Marinha Real e por outros ataques aéreos da RAF contra Trobuk. Estes últimos provocaram, finalmente séria retaliação aérea italiana - ataques noturnos contra Alexandria e Aboukir nos quais os italianos não tiveram qualquer perda porque os caças Gladiator da RAF eram lentos demais para os bombardeiros Caproni italianos, enquanto os canhões antiaéreos britânicos eram muito poucos. E quando, uma semana depois, no dia 29, a guerra na fronteira foi renovada por ataques italianos ao aeródromo da RAF em Sidi Barrani e em Mersa Matruh, houve uma luta vigorosa entre Gladiators e Fiats, na qual os italianos se saíram bem.
Os italianos estavam ficando mais fortes e pelo final de junho sentiram-se capazes de tomar a iniciativa, despachando duas divisões de infantaria apoiada por alguns tanques - M11/39 médios protegidos por 29 mm de blindagem e equipados com um canhão de 17 mm de qualidade inferior e que tinha um movimento lateral (deriva) muito limitado. Esta força ofereceu aos tanques britânicos, pela primeira vez, algo que eles não puderam superar facilmente, sobretudo porque a artilharia italiana era manobrada com agressividade e habilidade. Mantendo os britânicos a grande distância, eles criaram um problema tático e que foi claramente narrado na história do 7o de Hussardos, que teve dois esquadrões empenhados em combate a 29 de junho: “Se os tanques param de dar um combate preciso aos canhões, eles, por sua vez, tornam-se estacionários e alvos fáceis para os canhões. Se não param, ainda assim são alvos muito bons e ao mesmo tempo somente um tiro fortuito de um tanque em movimento poderia atingir um canhão inimigo”. Assim, o 7o de Hussardos foi persuadido a recuar enquanto os tanques do 6o Regimento Real de Tanques, despachados para a frente a fim de apoiá-los, receberam ordem de não atacar as três baterias italianas que estavam atirando de maneira verdadeiramente formidável. No entanto, quando começou a entardecer, decidiu-se tentar um ataque noturno “... e um avanço veloz contra as baterias inimigas, usando metralhadoras Vickers continuamente, durante este avanço”, para citar as ordens do 7o de Hussardos. Houve imediatamente o clarão dos disparos dos canhões italianos, com traçadoras cortando os ares em todas as direções; da escuridão surgiram três M11 italianos, um dos quais abalroou um tanque inglês. Os britânicos tornaram a recuar depois que um dos seu cruzadores desviara um disparo de 37 mm à queima-roupa e os artilheiros italianos ainda assim se arriscavam, posto que fossem agora alvejados pela artilharia inglesa de 25 lb. Ali, quando pela primeira vez os tanques ficaram num papel secundário e a batalha terminou em empate, estabelecera-se mais um padrão na guerra do deserto. Os tanques tinham limitações de combate e precisavam cooperar em equipe com os canhões, se quisessem prevalecer.
As batalhas de junho não resultaram em vantagens territorial para nenhum dos dois lados porque eles não esperavam nem tínhamos os efetivos para adotar uma estratégia aquisitiva. Mas fora um tempo de provas, não apenas das técnicas e equipamento, mas também de homens; se ambos os exércitos haviam demonstrado a fragilidade inerente do seu equipamento, nenhum dos dois descobrira qualquer disparidade em números. As técnicas operacionais britânicas se haviam revelado superiores às dos italianos. - uma superioridade nascida em parte da posse de equipamento um pouco melhor que permitia aos seus comandantes manobrar com maior liberdade e destreza. As perdas italianas haviam sido extremamente grandes em comparação com as dos britânicos cujas baixas foram insignificantes: por exemplo, somente a 29 de junho é que um soldado do 11o de Hussardos morreu em conseqüência de ação inimiga. Como pugilistas durante o primeiro assalto de uma luta prolongada, os adversários haviam usado de “sparrings” moderadamente, para descobrir as forças, fraquezas e aptidões um do outro. Quando soasse o sinal para o segundo assalto, os britânicos deixariam seu canto no deserto descansados e confiantes, ao passo que os italianos, estariam cautelosos e se esforçariam vigorosamente para ganhar tempo necessário para recuperar a calma e renovar sua força muscular. Os pugilistas bem sucedidos, porém, são os que treinaram mais arduamente antes da luta e já se evidenciava quem fora mais realista no dias estruturadores do período de paz.
Em compasso de espera-simulação
Como é que uma grande força italiana podia ser humilhada por um exército britânico tão pequeno? Aliás, porque é que o Império Fascista de Mussolini, tão ruidoso em suas afirmações e tão arrogantemente lançado à guerra ao lado de uma Alemanha vitoriosa, não estava para conquistar os louros à altura das suas bazófias? Para encontrar a resposta é preciso voltar os olhos para os primeiros meses da guerra de Hitler e para a história da expansão italiana durante a década de 30. A Itália fora a primeira das ditaduras a se rearmar após a Primeira Guerra. Mussolini sonhara com um novo Império Romano em torno do Mediterrâneo e na África. Os armamentos para ele, porém, só podiam ser mais as ferramentas de uma belicosa campanha de propaganda do que instrumentos de guerra esmagadores. Eles eram os meios para a realização da sua ambição pessoal, mas sempre na esperança de que se pudesse manter o combate no mínimo indispensável. Isto porque a economia e a capacidade industrial italianas estavam aquém da tarefa de suprir, ao mesmo tempo, a grande e moderna marinha, a requintada força aérea e o exército mecanizado capazes de manter uma guerra total, prolongada e de dimensões européias. A Itália dependia de outras nações para seus suprimentos de aço e combustível - da Inglaterra e da França, além do seu aliado jurado, a Alemanha. E esta última, bastante ciente da dependência da Itália, poderia sempre exercer uma pressão irresistível para dobrar os italianos à sua vontade.
Por esta razão, à parte os motivos de pura circunspecção provocada pelo bomsenso, Mussolini mantivera a neutralidade italiana quando, em setembro de 1939, Hitler cometeu um erro de cálculo político e viu-se em guerra com a Inglaterra e a França, após ter invadido a Polônia. Era opinião geral que o sucesso dos alemães seria transitório, mas após sua série de vitórias notáveis e esmagadoras na Polônia, Dinamarca, Noruega, Holanda, Bélgica e França, Mussolini de repente percebeu que se não tomasse das armas imediatamente, não teria direitos aos ricos espólios que resultariam da França e da Inglaterra na derrota. Assim, a 10 de junho arriscou-se e declarou guerra a estas duas últimas nações - os aliados da Itália na guerra anterior contra a Alemanha e a Áustria. Mas o fez com dúvidas, pois, como disse aos seus Chefes de Estado-Maior a 29 de maio: “Na frente terrestre... agiremos na defensiva”. Sua guerra devia se curta, com a batalha sendo uma consideração secundária. No entanto, mal fez o anúncio, sua vaidade o levou a enviar seu exército contra o sul da França, onde sofreu perdas cruéis em troca de ganhos insignificantes nos Alpes, contra um Exército francês já fatalmente enfraquecido - um vexame que não surpreendeu os que haviam testemunhado o desempenho do exército italiano em campanhas anteriores naquela década. Pois na guerra colonial contra as tribos abissínias de 1935/36 e, mais notadamente, na Guerra Civil Espanhola contra os espanhóis patrocinados pelos russos, ele tivera tantos reveses quanto sucessos.
Os reveses, porém, tinham sido tanto por culpa de equipamento inferior quanto do mau espírito de luta, e esta fraqueza fundamental seria mais tarde agravada por uma reorganização defeituosa das divisões de infantaria em 1938. Então, acreditando-se que resultaria em maior mobilidade, decidiu-se aumentar o número de divisões disponíveis, reduzindo-se o componente de infantaria e artilharia das divisões já existentes, de três apara dois grupos regimentais - causando apenas, na verdade, um aumento de comandantes, estados-maiores e serviços administrativos em proporção às tropas combatentes, e uma diluição do elemento profissional, num exército cuja liderança já estava comprometida pela injeção de poderoso elemento político fascista, a Milícia dos Camisas Negras, pois dentro das divisões dos Camisas Negras a fidelidade política era melhor recompensada do que a bravura militar, a disciplina era negligente e a prontidão para o combate era rara em comparação com as divisões metropolitanas regulares. Na verdade, a hierarquia do exército estava dividida entre os que fomentavam o verdadeiro espírito profissional do velho exército e os que conseguiam promoções mediante bajulação e intriga junto a Mussolini e seus sequazes. Esta divisão solapava inevitável e fatalmente a proficiência de toda a estrutura militar, ao destruir a confiança mútua no Alto Comando e estendendo-se até as fileiras. Desde que houvesse motivação e pelo menos um vislumbre da chance de sucesso, um italiano podia lutar tão bem quanto qualquer outro como ficara demonstrado em outras notáveis ocasiões, quando a honra ou a sobrevivência estava em jogo. Mas na guerra de Mussolini a honra estava em dúvida e a pergunta, que se encontrava na mente de muitos italianos importantes, era se eram seus inimigos ou sua aliada, a Alemanha, quem representava o maior perigo para a sobrevivência da Itália.
Entretanto, quando a França pediu a paz, Mussolini esperava ansioso as recompensas que desejava tão avidamente, para fortalecer uma situação política interna que nunca foi tão forte quanto parecia. Ele exigiu as possessões francesas há muito cobiçadas, especialmente a Tunísia, a Córsega e a Somália. Mas Hitler, ansioso pela cooperação de uma França derrotada, juntamente com o compromisso mínimo possível para policiar os territórios ocupados, não estava disposto a antagonizar ainda mais uma nação já ferida. Assim, em lugar de ser tratado como igual no acordo com a França, Mussolini viu-se encarado como um simples consultor e teve permissão de ocupar Nice - cuja conquista tivera a contribuição das suas armas. Seu povo ficou desapontado e compreendeu, tardiamente, que seus objetivos e desejos só poderiam ser adquiridos pela luta; mas pelo menos a neutralização da França eliminava a ameaça do seu exército na Tunísia contra a Tripolitânia. Mais tarde, em junho, com total encorajamento de Hitler, Mussolini pôde voltar-se contra os ingleses no Egito e na África Oriental, para realizar um serviço essencial de ajuda aos esforços de Hitler, visando forçar a Inglaterra a chegar a um acordo.
Na África, como em outros locais, o exército recrutado da Itália, que parecia imponente no papel, na verdade era medíocre. O 5o Exército, que, com o equivalente a 9 divisões, guardara a fronteira tunisiana à espera de um ataque francês jamais panejado, podia agora ser dispersado para reforçar 5 divisões pertencentes ao 10o Exército na Cirenaica. Mas esta massa, de cerca de 250.000 homens, era prejudicada por falta de transporte, enfraquecida por um baixo nível de treinamento dos oficiais e soldados e também pelo estado das suas armas de apoio. O moral das armas de artilharia e de blindados era o melhor de toda a força, mas a maioria dos canhões era de campanha e de calibre leve, com granadas de má qualidade, enquanto que as máquinas L3, que funcionavam como tanques, já haviam revelado sua fragilidade. E embora a força aérea fosse mais bem equipada, com 84 bombardeiros modernos, 144 caças obsoletos, além de mais 113 aviões de vários tipos e de valor duvidoso, e ainda de uma força adicional de 84 aparelhos variados estacionados não muito longe das ilhas do Dodecaneso, então pertencentes à Itália, essa força seria incapaz de manter operações prolongadas quando empenhadas num papel preponderante em terra e no mar.
No comando desta mistura ultrapassada estava um homem de estatura comprovada e reputação internacional entre os aviadores - o Marechal-do-Ar Ítalo Balbo - um homem dotado de imaginação e de alegria de viver. Ele fora a força impulsionadora por trás da aviação italiana e entendia melhor que seus contemporâneos os efeitos da tecnologia moderna sobre a guerra, compreendendo o valor de métodos arrojados para compensar deficiências técnicas. Na sua opinião, a única chance estratégica da Itália na África era uma ofensiva de surpresa. Mas, antes que a guerra fosse declarada, ele expressara sua dúvidas a Mussolini. “Não é o numero de homens que me deixa ansioso, mas as suas armas... equipados com peças de artilharia limitadas e muito antigas e quase carentes de armas antitanques e antiaéreas... É inútil enviar mais milhares de homens se não podemos abastecê-los com as necessidades indispensáveis para movimento e luta”. A retirada da França da guerra, porém, impôs precisamente esta condição ao 10o Exército, quando o 5o Exército começou a deslocar-se para o leste, enviando reforços para a Cirenaica, para adotar uma posição mais agressiva contra os ingleses no Egito.
Estas eram as forças desequilibradas que os ingleses havia atacado no começo da guerra. Mas, teoricamente, os ingleses não pareciam nem um pouco mais fortes. Tendo colocado uma proporção das suas parcas forças no policiamento de seus enormes mandatos e possessões no Oriente Médio, eles tinham de, sobretudo, garantir o Canal de Suez e os campos petrolíferos do Iraque, além de ficarem atentos para o caso dos italianos tentarem uma invasão direta do Egito pelo Sudão. Não havia nem 10.000 homens livres para defender a fronteira da Cirenaica, com apenas um punhado de aviões, tanques e canhões. Na verdade, a 17 de junho, a Força do Deserto Ocidental, criada a partir da 6a Divisão de QG e colocada sob o comando do Major-General Richard O’Connor, só pôde reunir uma única unidade blindada, dois regimentos de tanques e dois de artilharia e dois batalhões de infantaria motorizada na vizinhança de Mersa Matruh. Foi esta força regular, pequena, mas bem treinada, que fez os primeiros ataques aos italianos.
A liderança do lado britânico era bem fundada. O General Sir Archibald Wavell, Comandante-Chefe do Oriente Médio, era um oficial de enorme experiência no comando - um homem previdente e de inclinações eruditas, sobrecarregado com uma tarefa hercúlea. Ele outrora encorajara originalidade entre seus subordinados. Agora, estes mesmos subordinados precisariam esforçar sua imaginação ao máximo, e se Wavell tinha, na pessoa do Comandante das Tropas Britânicas no Egito, o Tenente-General Maitland Wilson, um oficial de caráter um tanto pesado, este era sutilmente compensado por O’Connor, que, como Wavell, estivera associado a algumas experiências britânicas com a guerra mecanizada e móvel entre 1923 e 1939. Na verdade, O’Connor viria a admitir que era uma grande responsabilidade ter-se a confiança implícita de Wavell.
As forças sob seu comando, embora pouco numerosas, logo haviam demonstrado sua bravura - sobretudo os homens pertencentes à 7a Divisão Blindada, sob o comando do Major-General M O’Moore Creagh. Esta formação crescera aos trancos e barrancos desde 1936, começando de uma pequena força de tanques que fora reunida em Mersa Matruh para deter as imprudências italianas durante o período de tensão associado com a Guerra da Abissínia... Desde então, cada crise sucessiva na Europa provocara um reforço marginal dos blindados até que, em setembro de 1938, no auge da crise de Munique, ela se tornara conhecida como a Divisão Móvel no Egito e foi colocada sob o comando de um dos mais importantes pioneiros dos tanques, o Major-General Pery Hobart. Embora seus efetivos permanecessem habitualmente subimplementados e em setembro de 1939 ainda estivessem abaixo do total em dois regimentos blindados, sua bravura e sua aptidão para lutar no deserto melhoraram rapidamente sob o estímulo vigoroso de Hobart. Mas em setembro de 1939 Wilson e Wavell acharam conveniente demitir Hobart, alegando que suas “idéias táticas são baseadas na invencibilidade e na invulnerabilidade do tanque, à exclusão do emprego das outras armas numa proporção correta” - razões estas não de todas justas, mas que na realidade resultavam de um fracasso nas comunicações mútuas e de uma falta de confiança entre Hobart e seus superiores. O’Connor, ao ver pessoalmente a Divisão Móvel, classificou-a como “A divisão mais bem treinada que já vi”- uma opinião que se justificara nas primeiras escaramuças contra os italianos.
Mas em geral, em termos de insatisfação com o seu estado, não havia muita diferença entre os ingleses e os italianos no verão de 1940. Todos os dias eles recorriam aos seus parcos recursos para obter os meios de criar bases seguras de onde esperavam, eventualmente, desfechar golpes poderosos. A Inglaterra, aturdida pela espantosa ameaça de uma iminente invasão alemã, estava em grandes apertos para reequipar seu exército interno, que fora virtualmente desarmado em Dunquerque, em maio. Os poucos reforços que podia enviar para o Egito demorariam, inevitavelmente, muito mais para chegar ao seu destino do que os enviados pelos seus adversários italianos para a Tripolitânia. A maior parte da esquadra italiana estava ancorada nos portos, mas sua simples presença, ameaçando o Mediterrâneo central, os ataques persistentes pelos seus submarinos, barcos de superfície leves e aviões bombardeiros e torpedeiros, não só bastaram para fechar a rota Gibraltar-Egito com escala em Malta para os navios ingleses, como também garantiam a navegação praticamente desimpedida aos comboios italianos. E embora Malta conservasse a capacidade de atacar os comboios italianos para a África do Norte, os ataques aéreos italianos diários contra a ilha desperdiçavam os recursos ingleses no Oriente Médio porque atraíam os caças ingleses para Malta, retirando-os da defesa direta do Egito. Ademais, a entrega dos caças Hurricanes, mesmo com os tanques de combustível de longo alcance para Malta, dependia da posse, pelos ingleses, do aeródromo de Sidi Barrani, situado dentro das fronteiras egípcias. No fim de maio, a RAF possuía no Oriente Médio um efetivo de 205 aviões, formados de 96 bombardeiros Blenheim Bombay obsoletos e bombardeiros Blenheim, 75 caças Gladiator, também obsoletos, e 34 aparelhos de outros tipos. Em julho, chegaram mais 4 caças Hurricane, porém somente um deles pôde ser enviado para o deserto, mas já então a força aérea sofrera perdas e os efetivos estavam diminuindo rapidamente.
O Primeiro-Ministro Britânico, Winston Churchill, e seus Chefes de Estado-Maior lembravam-se constantemente da necessidade de reforçar Wavell, muito embora a Inglaterra enfrentasse uma invasão iminente. Várias novas divisões estavam reunindo lentamente seus efetivos no Egito e, destas, a 4a Divisão indiana foi escolhida para aprontar-se para operações até novembro, enquanto que se esperava que a 6a Australiana estivesse equipada até o final do ano. Além disso, cada regimento de tanques leves, médios e pesados, bem como canhões antitanques e antiaéreos, deviam ser enviados da Inglaterra a 22 de agosto, mas iriam pela rota do Cabo da Boa Esperança porque Wavell achava (para inquietação de Churchill) que arriscá-los pelo Mediterrâneo para poupar algumas semanas seria errado sobretudo na ausência de indícios da iminência de uma ofensiva italiana. Maior número de aviões também estava a caminho, mas estes só chegaram em quantidade por volta de novembro.
Pensando bem, Mussolini gostaria de ter tomado a ofensiva imediatamente em junho, e Ítalo Balbo também pensava assim, apesar das suas desconfianças e das de todos os outros generais italianos. Evidentemente, era-lhes conveniente atacar logo, mas enquanto os ingleses agiam, os italianos apenas falavam. Um plano para transferir uma divisão blindada italiana da Albânia deu em nada. Um outro para ocupar a escarpa de Sollum entrou em colapso diante dos ataques ingleses na fronteira. A má qualidade dos blindados italianos provocou a sugestão para que se comprassem tanques melhores aos alemães - sugestão esta não muito bem recebida em Berlim, onde a opinião geral era de que a força de tanques alemã em breve estaria envolvida em outros compromissos, tais como a provável invasão da Rússia ou um ataque a Gibraltar através do território espanhol. Berlim também achava que as máquinas alemães seriam mais bem empregadas pelos próprios alemães. Balbo enviou longas listas de pedidos para toda sorte de material bélico - mil tanques, 100 carros pipas e mais tanques médios e canhões antitanques - material bélico de que a Itália não podia dispor, nem mesmo produzir. Uma proposta para se penetrar na Tunísia e despojar os franceses das armas necessárias foi rejeitada por motivos políticos, sendo vetada pelos alemães. O marechal Badoglio, Chefe do Estado-Maior italiano em Roma, fez promessas fúteis, apoiadas por exortações barulhentas: “... quando tiverem os 70 tanques médios, vocês dominarão a situação. O comando inglês mostrou que carece de iniciativa... Acelerem os preparativos para a ofensiva. O Duce está entusiasmado...”. Balbo pretendia atacar a 15 de julho, mas a 28 de junho ele já estava morto - derrubado por canhões italianos quando seu avião se aproximava para pousar em Tobruk, durante um ataque aéreo inglês - acontecimento que inspirou a RAF a lançar uma coroa de flores como sinal de respeito por um homem que os ingleses aprenderam a admirar nos tempos mais felizes do período de paz.
Para substituir Balbo, Mussolini nomeou o Marechal Graziani, soldado famoso pelo seu espírito ofensivo temerário - reputação esta conquistada numa série de guerras coloniais. Dele, porém, só partiu uma repetição das listas de pedidos de Balbo. Não haveria ofensiva em julho, sugerindo-se, em seu lugar, um avanço de 16 km para tomar Sollum - um plano frágil, imediatamente rejeitado por Badoglio. Concordou-se que não aconteceria nada de importante até que os há muito prometidos suprimentos chegassem em fins de julho. Então, eles atacariam a 4 de agosto, mas nesse dia Graziani já estava preparado com nova série de desculpas. O calor do verão seria excessivo. Um avanço para o Egito “... só pode ser realizado, muito embora ainda ofereça sérias dificuldades, no fim da estação quente, por volta de fins de outubro”- o que, com um exército a pé como o seu, era a pura verdade.
A mais apta de todas as unidades para lutar no deserto, o 11o de Hussardos, já descobrira os perigos da sede. John Combe “... ficou horrorizado ao descobrir que os homens se tornavam realmente apavorados com sua sede contínua sob o calor escaldante... ele disse ter visto um olhar atormentado nos seus rostos enquanto o khamseem continuava a soprar até que os carros blindados ficavam tão quentes que nem se podia tocá-los”. Mas, a cada dia que passava, a Força Britânica do Deserto Ocidental tornava-se mais confiante e, pelo fim de julho, a Marinha Real conseguira um domínio tão completo do Mediterrâneo Oriental que lhe permitia bombardear as posições costeiras italianas e transportar um fluxo quase ininterrupto de suprimentos pela costa até Mersa Matruh e mais além.
O objetivo principal para a marinha e a força aérea continuava sendo o apoio de longo alcance da Malta. As dificuldades da ilha preocupavam todos os comandantes ingleses e forçavam a estratégia aliada à sua ajuda. Aviões necessários para auxiliar a Força do Deserto ocidental eram desviados para proteger a ilha, mas, ao mesmo tempo, pedia-se a esta Força que defendesse Sidi Barrani para que a ilha ficasse ao alcance dos Hurricanes. Uns poucos aviões novos deviam chegar ao Oriente Médio pela nova rota transafricana, ainda em formação, que ia desde Takoradi, na Costa do Ouro, passando pela África Central e pelo Sudão. Esta nova e vital ligação começaria a funcionar em fins de setembro, contanto que os italianos não conseguissem - como realmente não conseguiram - penetrar no Sudão. Entrementes, o Marechal-do-Ar Sir Arthur Longmore blefava e preservava cuidadosamente suas reservas minguantes. Solicitou-se ao exército que não pedisse apoio aéreo, exceto para reconhecimento ou em caso de ataque iminente. Mas todas as noites realizava-se solenemente uma imitação de ataque aéreo contra o porto de Tobruk, com missões voadas individualmente por veneráveis bombardeiros Bombay, e o único Hurricane presente, fazendo demonstrações dramáticas perto da fronteira, de tal forma impressionou os italianos que eles chamaram desesperadamente seus próprios caças monoplanos novos para restaurar o equilíbrio.
A economia na manipulação inglesa da batalha aérea também teve de igualar-se à parcimônia em terra. A 4a Brigada Blindada que, com o 11o de Hussardos e o Grupo de Apoio da 7a Divisão Blindada, realizara a campanha de guerrilha preliminar no deserto, nas proximidades de Capuzzo, foi retirada para descansar, sendo substituída pela 7a Brigada Blindada no começo de julho. Os recém-chegados logo viram-se enfrentando um inimigo ao mesmo tempo mais forte e mais bem dirigido. Os esforços italianos para derrotar as colunas inglesas contavam agora com unidades móveis de canhões antitanques e antiaéreos, protegidas por metralhadoras, com tanques acompanhando de perto e apoiados por ataques aéreos. Desta vez os súditos de Mussolini poderiam cobrar tributos mais altos pelos ataques impetuosos dos grupos de tanques ingleses, que agora tinham de gastar mais tempo e entregarem-se a manobras complicadas para alcançar seus objetivos. As baixas começaram a aumentar. O 11o de Hussardos perdeu meio esquadrão ao tentar um ataque contra a estrada Bardia-Tobruk a 25 de julho, quando foi surpreendido, bombardeado e metralhado por aviões e finalmente eliminado por tanques. No dia 28, um bombardeiro italiano lançou uma lista de prisioneiros no QG da 7a Divisão blindada, juntamente com uma narrativa da ação e com os nomes dos mortos e feridos. Este registro da fidalguia italiana e um relatório sobre sua bondade não chegou às manchetes britânicas - os jornais simplesmente zombaram da inépcia dos italianos.
A 5 de agosto, entre Sidi Azeiz e Capuzzo, ocorreu uma refrega ainda maior, embora inconcludente, entre 30 tanques M11 italianos e o 8o de Hussardos. Os italianos se esforçavam por restabelecer seu domínio nessa área e Wavell concluiu que não estava em posição de impedí-los. O desgaste sofrido pela 7a Divisão Blindada atingia proporções de crise. As oficinas estavam sempre improvisando, pois a escassez de peças sobressalentes se acumulava. Nesse período, normalmente apenas metade dos efetivos dos tanques estava disponível para ação. Compreendendo que sua única força efetiva se desgastava sem qualquer objetivo estratégico, Wavell restringiu outras operações amplas e entregou a defesa da fronteira ao Grupo de Apoio comandado pelo Brigadeiro H. E. Gott, com um esquadrão de tanques, e com o 11o de Hussardos proporcionando um anteparo de postos avançados para alertar sobre qualquer aproximação italiana.
Mas a 13 de agosto, em termos de desempenho, o saldo ainda era favorável aos ingleses. Estes dominavam o deserto e os italianos, cujos primeiros reveses os haviam deixado desmoralizados. Os italianos não se sentiam seguros em parte alguma - nem mesmo dentro das defesas estáticas do seu próprio território e muito menos no deserto, onde estavam fora do seu elemento. Em dois meses de batalha no deserto eles perderam mais de 3.000 homens enquanto que os ingleses haviam perdido pouco mais de 100. E não tinham nada a mostrar em troca. Aliás, em meados de agosto, a única adição substancial às possessões italianas fora a colônia inglesa da Somália, conquistada ao preço de 2.052 baixas - quase 10 vezes as dos defensores ingleses que haviam sido evacuados para Adem por mar.
Durante a maior parte de agosto e nos primeiros dias de setembro, houve uma calma inquieta no deserto, apenas interrompida por escaramuças rápidas entre patrulhas e luta aérea intermitente. Ambos os lados tentavam conhecer as intenções mútuas numa competição na qual os ingleses estavam em séria desvantagem. Estes não tinham informação precisa sobre os efetivos locais porque estes últimos estavam também muito vagos a respeito. Para ajudar a sanar esta deficiência, Wavell formou nova unidade, em fins de junho, sob o comando do Major R. A. Bagnold, experimentado explorador de deserto antes da guerra. Esta unidade seria a Patrulha de Longo Alcance do Deserto, composta de oficiais e soldados aventureiros e pouco ortodoxos, usando caminhões e encarregados da tarefa de penetrar bem atrás das linhas italianas, flanqueando profundamente pelo deserto, para observar os movimentos italianos e comunicar pelo rádio os seus deslocamentos. Em setembro as primeiras patrulhas puseram-se a caminho e logo preencheram parcialmente a falta de informações que atribulava Wavell.
Os italianos, por outro lado, estavam tão bem servidos de informações sobre os ingleses a ponto de ficarem assustados. No Egito, uma rede formidável de espiões os mantinham bem informados sobre as chegadas de comboios e movimentos de tropas. A concentração de várias Divisões da Comunidade das Nações era tão bem conhecida que as estimativas eram o dobro da realidade e deram origem a uma apreciação alarmante da invulnerabilidade inglesa. O que as fontes de informações italianas não conseguiram revelar era a impotência da maior parte das poucas divisões inglesas realmente existentes, devido à escassez crítica de equipamento.
Contudo, com a aproximação do outono, Mussolini chegou ao fim da sua paciência. Ele fora à guerra para conquistar louros e entre seus seguidores havia os que procuravam ceticamente resultados rápidos. O marechal Graziani estava prestes a sofrer pressão irresistível pelos eu próprio lado - pressão que escalaria a guerra no deserto de um modo que não seria de todo vantajoso para os italianos.
Comandantes sob coação
Além de um nítido insucesso no verão de 1940, Mussolini sofria do que o Conde Ciano, seu Ministro do Exterior e genro, descrevia como “uma erupção de paz”. Pois, enquanto se interessava em buscar a paz com os ingleses em julho, Hitler adiou um ataque geral contra eles e recusou a oferta interesseira de Mussolini de enviar tropas italianas para participar da projetada invasão da Inglaterra. Firmemente repelido por Churchill, Hitler desencadeou, por fim de agosto, toda a fúria da Luftwaffe na Batalha da Inglaterra com a intenção declarada de invadir em setembro, se tudo corresse bem no ar. Mas os objetivos de Hitler já se estavam desviando para um golpe indireto contra a Inglaterra, pela captura de Gibraltar, passando por território espanhol, e por uma aproximação totalmente nova no leste - uma grandiosa invasão da Rússia em 1941. Mussolini não foi informado de nenhuma dessas idéias, embora estivesse plenamente cônscio de que seu desejo de expandir-se na França, Iugoslávia e, sobretudo, na Grécia, fora firmemente repelido. Somente seu plano para conquistar o Egito fora encorajado, porque se encaixava na estratégia indireta da Alemanha contra os ingleses.
Ardendo de impaciência quando, uma vez mais, Graziani cancelou a ofensiva originalmente prometida para 4 de agosto, Mussolini enviou instruções rigorosas ao marechal a 10 daquele mês. “A invasão da Inglaterra foi decidida, seus preparativos estão sendo completados. Quanto à data, ela deve ocorrer dentro de uma semana ou um mês, mas no dia em que o primeiro pelotão alemão pisar em território britânico, você atacará. Torno a repetir que não há objetivos territoriais. Não é uma questão de visar Alexandria e nem mesmo Sollum. Estou apenas lhe pedindo que ataque as forças inglesas que o confrontam”. Uma vez mais, o plano de uma guerra de envolvimento estritamente, limitado tornou-se mais importante apesar da epístola de 17 de julho de Mussolini, na qual ele escrevera a Hitler sobre “preparativos para um ataque ao Egito com vastos objetivos” já completos. Este era o grau de confiança mútua dentro do Eixo.
Uma vez mais Graziani acalmou seu chefe, enviando uma ordem beligerante ao General Berti, comandante do 10o Exército para que estivesse pronto para movimentar-se a partir de 27 de agosto. Mas nem Graziani, nem Berti (conhecido como o “assassino astuto”), nem qualquer general na África do Norte acreditava na viabilidade de uma ofensiva pela simples razão de que as promessas de vastos suprimentos e transportes, feitas por Badoglio, continuavam não sendo cumpridas. Embora seu plano original admitisse que os transportes essenciais chegariam a tempo, seu âmbito permaneceu estritamente limitado no espírito da diretiva de Mussolini datada do dia 10. O primeiro objetivo seria o platô de Sollum. Depois deste, se tudo corresse bem, far-se-ia uma penetração do passo de Halfaya e uma exploração até Sidi Barrani. Alguns chegaram a falar alegremente em se alcançar Mersa Matruh. Berti teria gostado de fazer a jogada-padrão do deserto - um avanço ao longo da costa, usando predominantemente as forças de infantaria do XXI Corpo, com três divisões metropolitanas, pouco experientes no deserto, flanqueadas ao sul pelas Divisões Líbias que eram mais experientes e pelo Grupo motorizado Maletti, as formações que haviam suportado todo o peso da guerra na fronteira. O apoio aéreo seria dado pela 5a Squadra, comandada pelo General Porro, com cerca de 300 aviões de vários tipos, organizados para acompanhar e apoiar o exército em campanha como formação independente. De apoio naval no flanco do Mediterrâneo não haveria nada de importância. Dez submarinos haviam sido perdidos desde o começo da guerra e a esquadra era preciosa demais para arriscar-se nessa conjuntura. De qualquer modo, havia uma séria escassez de combustível
Não há dúvida de que Graziani nunca pretendeu avançar e, certamente, tampouco fazer manobras. Ele devia saber que não haveria transportes suficiente a tempo para executar a conversão sul e devia ter preparado isto como desculpa, mas tão logo enviou seu costumeiro apelo para um adiamento, Mussolini abateu-se sobre ele. Ou ele atacava no dia 9 ou seria demitido. Ao mesmo tempo, o furioso ditador disse à esquadra para fazer-se ao mar e lutar - uma ordem que Graziani evitou cumprir com grande habilidade. Finalmente, a 8 de setembro, o marechal dignou-se a avançar no dia seguinte, embora com um plano modificado e seriamente condicionado pela escassez de transportes. O movimento de flanco pelo deserto teve de ser cancelado e as Divisões Líbias aproximaram-se mais da costa para serem a ponta-de-lança para o XXII Corpo sob o comando do General Bergonzoli, enquanto que o Grupo Matelli agia agora apenas como uma guarda de flanco. Na verdade, Berti foi obrigado a usar sua artilharia e seus tanques como escoltas para a penetração da infantaria em território hostil, às vezes lançando os canhões na dianteira e esperando que o punhado de tanques M11 e o grande número de L3 mantivessem os bandos ingleses a distância. Mas, mesmo que se tivesse adotado uma estratégia mais agressiva, o sistema de comando e controle não estava em condições de executá-la. Antes de 1940, o exército italiano realizara experiências com formações modernas e velozes, mas a experiência adquirida não chegara até o exército colonial estacionado no deserto, porque uma das suas formações envolvidas foi mantida a postos na Albânia para uma invasão da Grécia, enquanto que a outra permanecia na Itália. Graziani e seus generais, dirigindo as operações de um QG em Tobruk, mantinham o controle centralizado bem na retaguarda, obedecendo ao conceito de 1918. Os aparelhos de rádio eram raros e as mensagens entre os soldados na frente e seus comandantes na retaguarda eram demoradas e invariavelmente chegavam tarde demais. Se tivesse havido uma oportunidade de desfechar um golpe rápido e decisivo contra os ingleses, é quase certo que os líderes italianos não a teriam percebido nem estariam em posição de aproveitá-la.
As novas ordens provocaram séria confusão, enquanto que os primeiros ataques e varreduras aéreas feitos por aviões italianos sobre a fronteira e contra a localidade de Buqbuq provocaram a eclosão de lutas aéreas intensas - Fiats às voltas com Gladiators - e o reinício do bombardeio inglês de Tobruk e outros pontos-chaves na retaguarda italiana. Onde quer que voassem, os aviadores ingleses podiam ver a poeira soprada pelo vento traçando a convergência de forças terrestres na direção de Sollum, embora não pudessem perceber as dificuldades que atingiam o Grupo Maletti com seus motores superaquecidos e seu erro fundamental de navegação. Muito antes de entrar em ação, ele se perdera no deserto ao se dirigir para seu ponto de reunião antes da batalha de Sidi Omar e, com esse atraso, o ataque principal - transmitido para o mundo (e para o Serviço de Inteligência britânico) pela rádio italiana - demorou a começar. Somente a 10 de setembro é que os carros blindados do 11o de Hussardo, com persistência e às vezes eficazmente hostilizados por ataques aéreos bem dirigidos, avistaram algo importante, sendo então a vez dos Hussardos a acompanhar a lenta concentração das principais forças italianas. Um nevoeiro denso ocultava os italianos, mas quando este se dissipava, os britânicos tornavam-se alvos de todo avião hostil que aparecia, bem como de ataques de tanques e canhões. Mas somente no dia 13 é que o solitário pelotão do 3o Batalhão de Guardas de Coldstream em Sollum entrou em ação, vendo-se então alvo de toda a 1a Divisão Líbia - cuja presença na planície aberta foi revelada pelo nascer do sol - reunida em fileiras cerradas de canhões, caminhões e tanques - “... como uma festa de aniversário no Long Valley em Aldershot”, para citar uma testemunha ocular. Os postos avançados ingleses no platô foram então atacados por violento bombardeio, mas não havia necessidade desse excesso de cuidado, pois os ocupantes já se haviam retirado pelo Passo de Halfaya e estavam ocupados nas demolições finais da estrada e na colocação das suas últimas minas. Mas o troar dos canhões estimulou os soldados italianos que já estavam sendo hostilizados pelo fogo de forças inglesas leves que permaneciam quase invisíveis além do horizonte. Lentamente, a massa italiana formada de 4 divisões, entrou no passo e iniciou sua marcha laboriosa pela sua extensão, sofrendo baixas provocadas pelas minas espalhadas por todo o percurso. Aqui e ali, veículos ingleses destruídos testemunhavam a presença do seu ocupante anterior, mas raramente se viu ou prendeu um soldado inimigo.
O plano de O’Connor era a própria simplicidade: retirar-se atrás das forças de cobertura em Mersa Matruh, onde aguardaria o ataque à cidade com uma poderosa força de infantaria, enquanto que a 7a Divisão Blindada contra-atacaria pela escarpa e penetraria profundamente no flanco do deserto. O objetivo da força de cobertura - o Grupo de Apoio de Gott no flanco do deserto, com o 3o do Coldstream e alguns Fuzileiros Navais Motorizados franceses perto da costa - era, ao mesmo tempo que se manteria fora de dificuldades, dar sempre a impressão de ter muito mais homens do que realmente possuía. E tiveram êxito porque, quase que imediatamente, Graziani começou a se preocupar com as “enormes forças blindadas britânicas”- tal a aparente onipotência da força de Gott quando, na verdade, apenas um esquadrão de tanques e os carros blindados estavam na zona avançada. A retirada realizou-se por etapas sucessivas, com as tropas de cobertura, prevenidas com bastante antecedência de cada movimento italiano, recuando para escapar ao envolvimento. Somente uma vez, e mesmo assim apenas por instantes, no dia 16 de setembro, quando 50 tanques italianos avançaram repentinamente por uns 3 km da estrada para o interior na área de Alam el Dab, é que houve uma possibilidade de que a retaguarda fosse isolada. Foi certamente um mau bocado, pois coincidiu com o momento em que a artilharia britânica ficou sem munição, mas a intervenção do 11o de Hussardos, chamado às pressas pelo rádio, permitiu ao 3o Coldstream escapar. Naquela noite o restante do Grupo de Apoio de Gott passou por Sidi Barrani, dirigindo-se sem parar para Matruh, passando também por Maktila. Atrás dele estava o 11o de Hussardos, atento aos movimentos e esperando que o avanço prosseguisse no dia seguinte.
Mas Graziani avançara tanto quanto pretendia e se atrevia ir apenas naquela distância porque seus artilheiros haviam mantido os ingleses afastados - ou assim lhe parecia. Combustível e munição escasseavam, os tanques e transportes estavam num estado deplorável e a infantaria mostrava-se exausta. Mas as baixas foram poucas - apenas 120 mortos e 410 feridos - e agora parecia que Sidi Barrani serviria como base útil antes do próximo avanço até Matruh. Mas o sincronismo daquele avanço dependeria sobretudo de uma grande infusão de materiais e de combustível alento da força de vontade de Graziani. Assim, nesse meio tempo, os propagandistas podiam transformar um avanço local numa vitória brilhante - e os “vitoriosos” podiam entrincheirar-se para uma estada prolongada.
Wavell pôde congratular sua força praticamente ilesa. Se, no ar, os ingleses haviam estado em séria inferioridade numérica, em terra haviam perdido apenas 40 homens e pouco equipamento, e a força de tanques principais foi preservada sem ter entrado em luta. Para o General Dill, Chefe do Estado-Maior-Geral Imperial, ele pôde escrever a 19 de setembro, “... Se o inimigo não nos reservar nenhuma surpresa, estou seguro de que poderemos cuidar dele quando aproximar-se de nós”, mas prosseguiu salientando sua preocupação com a falta de reservas em material e equipamento de todo tipo. Já estava pensando no dia em que poderia tomar a ofensiva e a 11 de setembro, quando os italianos ainda se dirigiam às tontas para Sollum, ele pedira aos eu Chefe de Estado-Maior que estudasse a questão de uma ofensiva pelo final do ano, um avanço visando capturar Tobruk, com o apoio da marinha.
Wavell tinha de fazer algo para justificar seu exército e dar à Inglaterra uma vitória num ano de derrotas. Já atribulado por miríades de dificuldades, também ficara plenamente cônscio, em agosto, do espírito inquieto de Churchill, a prever problemas que mal existiam, imaginando planos, distantes da realidade, às vezes lidando com questões que não eram da alçada do Comandante-Chefe e muito menos do Primeiro-Ministro. Churchill demonstrava, na verdade, uma mal controlada desconfiança sobre Wavell; este, em vez de tranquilizá-lo, revidava com uma instintiva - mas talvez insensata - falta de informações completas ao Primeiro-Ministro. Enquanto Graziani estava avançando, Churchill desabafara com Anthony Eden, o Secretário de Estado para Guerra, referindo-se aos esforços enviados pela rota do Cabo em agosto: “Espero que a Brigada Blindada chegue a tempo. Não tenho dúvidas de que poderia ter sido levada com segurança pelo Mediterrâneo e que ela chegará tarde demais para evitar o perigo presente. Lembremo-nos de que o próprio General Wavell participou da declaração dos Comandantes-Chefes ... de que a situação do Egito não justificava o risco. Foi esta declaração que me impossibilitou de ignorar as objeções do Almirantado, como teria feito em outras circunstâncias”. E alguns dias depois, quando o perigo já passara, ele estava metaforicamente no cais de Suez, mandando os tanques desembarcar e lançarem-se prematuramente na batalha - com a resultantes erupção de comunicados entre Londres e o Cairo prejudicando Wavell em lugar de ajudá-lo. Este, porém, manteve-se firme no seu direito, como Comandante-Chefe, de continuar agindo na esfera puramente militar.
As dificuldades de Graziani não diferiam muito das de Wavell. Assim que suas forças pararam em Maktila - a 16 km além de Sidi Barrani - e começaram a construir um grande anel de campos fortificados dirigindo-se para o interior, Mussolini recomeçou a pressioná-lo - e as respostas que recebeu de Graziani foram as mesmas de sempre. O deserto a leste de Sidi Barrani parecia não ocultar qualquer inimigo e a distância até Matruh, onde estava o próximo ponto de resistência, era de 130 km. Graziani apresentou suas dificuldades exagerando-as ao máximo que se atrevia e, assim fazendo, também exagerou seu caso. Para Mussolini e Badoglio ele declarou que a marcha de aproximação até Matruh demoraria seis dias, porque teria de ser feita a pé. Entre outras coisas, ele pedia uma novidade - 600 mulas, pois parecia que perdera a esperança de receber mais caminhões.
A relutância italiana na última ofensiva também não passara despercebida no lado alemão: em Roma, seu Adido Militar, Major-General Enno von Rintelen, logo concluíra que Alexandria não constava dos objetivos imediatos de Graziani. Em conjunto com Berlim, ele começou a estudar quais as forças alemães que poderiam ser enviadas para estimular o avanço italiano. Primeiro discutiu-se a ajuda aérea, e depois um Corpo Panzer com duas divisões Panzer e uma motorizada. Como primeira etapa, um dos mais experientes dos pioneiros de tanques da Alemanha, Major-General von Thoma, foi enviado para estudar pessoalmente o problema na Cirenaica, e a 3a Divisão Panzer foi posta de prontidão para ir para lá, caso o relatório fosse favorável. Entrementes, a 4 de outubro, Hitler reunira-se com Mussolini no Passo de Brenner - com o Fuhrer sendo franco e ligeiramente na defensiva ao admitir que não haveria uma invasão da Inglaterra, prudente em suas esperanças de que a França e a Espanha colaborariam com a Alemanha e a Itália, belicoso em sua difamação do bolchevismo - mas calado quanto aos seus próprios planos de ocupar a Romênia, firmar-se nos Balcãs e finalmente invadir a Rússia no ano seguinte. Em resposta, Mussolini podia vangloriar-se alegremente sobre sua “vitória” no Egito, recusar como desnecessária a oferta de ajuda alemã para capturar Matruh, mas admitindo que talvez fossem necessários veículos blindados e bombardeiros de mergulho para executar o avanço contra a resistência muito mais vigorosa entre Matruh e Alexandria. Ele ficaria irritado se soubesse do relatório que von Thoma estava preparando e onde aparecia a afirmação: “Todos têm medo dos ingleses. Os dois adversários mal se encontram... O que os italianos temem é que a chegada de tropas alemães possa fazer com que os ingleses que, nesse meio tempo, haviam sido consideravelmente reforçados, se tornem bem mais ativos”.
Uma semana depois a alegre amizade demonstrada no encontro entre os ditadores no passo de Brenner ficou tensa. Agora, Mussolini estava doente de tanta raiva ante a notícia da ocupação alemã da Romênia. “Hitler sempre me confronta com um fato consumado. Mas desta vez vou pagar-lhe na mesma moeda. Ele verá pelos jornais que ocupei a Grécia. Assim se restabelecerá o equilíbrio”. Graziani receberia outro sonoro vitupério de Mussolini a 26 de outubro. “Quarenta dias após a captura de Sidi Barrani pergunto-me quem lucrou com esta parada prolongada - nós ou o inimigo? Não hesito em responder, ela foi mais útil para o inimigo... É hora de perguntar se você acha que deve continuar no comando”, Dois dias depois as tropas italianas penetraram na Grécia, desviando a atenção sobre Graziani, que, ainda querendo ganhar tempo, podia agora providenciar calmamente o avanço para Matruh, programado para ocorrer entre 15 e 18 de dezembro. Mas a guerra no Mediterrâneo estava novamente acelerando-se com uma rapidez para a qual nem Graziani nem os outros generais italianos estavam adaptados.
Mudam os fados e amadurecem os planos
Independente da mudança dos fados no deserto, da ameaça à segurança da sua base no Egito, do receio da intervenção alemã e da escassez espantosa de equipamento, Wavell desenvolvia calmamente as sua idéias para tomar a ofensiva na primeira oportunidade. Seu pedido original, a 11 de setembro, para que se estudasse a possibilidade de um avanço para Tobruk, concretizou-se quando os primeiros aviões começaram a chegar pela rota de Takoradi e os consideráveis recursos em tanques e artilharia chegaram a salvo a Suez, no momento em que o avanço italiano parava em Sidi Barrani. Agora a RAF, com número cada vez maior de caças Hurricane, poderia dominar o ar. Paralelamente, a 7a Divisão Blindada poderia ter completado os seus efetivos de seis regimentos blindados pela adição do 3o de Hussardos e do 2o Real Regimento de Tanques, enquanto que a 4a Divisão indiana seria completada com suas três brigadas totalmente equipadas e receberia também a ajuda de 50 tanques Matilda pertencentes ao 7o RRT, que eram vitais para suas chances num ataque. Estes tanques, com seus canhões de duas libras, capazes de destruir qualquer tanque italiano, e com blindagem de até 80 mm de espessura, que os tornava invulneráveis a qualquer arma italiana, exceto alguns canhões antiaéreos, eram quase únicos entre as máquinas de combate - um verdadeiro Rei dos Campos de Batalha. Irresistíveis e invulneráveis às forças inimigas então presentes, cada um representava uma peça de valor incalculável no tabuleiro de xadrez do deserto.
Ao mesmo tempo, a mente de Wavell, no Cairo, e de O’Connor, no deserto, transmitiam suas idéias a Wilson no QG BTE. A 21 de setembro Wavell enviou a Wilson a sua concepção de um contra-ataque contra os italianos, relatando em detalhes a estratégia e a tática que tinha em mente, enquanto que O’Connor, desapontado porque os italianos não haviam avançado mais, ponderou que eles deveriam ser atacados em suas atuais posições. Juntos, os três começaram a trabalhar nos planos táticos detalhados no mesmo momento em que - ironicamente - a alguns km do outro lado da linha, von Thoma examinava o reverso da mesma medalha. Neste meio tempo, Wavell também estava examinando a intervenção alemã - um acontecimento que na sua opinião seria anunciado pelo aparecimento de aviões alemães no Mediterrâneo. Mas ele não transmitiu nada disto a Churchill, pois este, em concordância com Eden, começava a preocupar-se com a possibilidade de que Wavell pudesse ter ficado com a desvantagem estratégica e vendo em suas disposições uma tendência para subestimar a importância de Malta e superestimar a guerra na África Oriental; além disso, também estava ansioso para que se considerassem as possibilidades de uma ofensiva de “inutilização”. Instruído para resolver estas dúvidas, Eden foi enviado para consultas com Wavell a 15 de outubro.
Assim, Eden estava no Cairo, embora não informado, quando Wavell pediu a Wilson, a 20 de outubro, que examinasse imediatamente as possibilidades de um ataque às posições avançadas italianas; embora não seja impossível que o Comandante-Chefe tenha sido pressionado pelo conhecimento dos desígnios de Churchill. “A operação que tenho em mente é breve e rápida, durando no máximo de 4 a 5 dias... Não proponho manter uma força grande na área de Sidi Barrani se o ataque for bem sucedido, mas retirar a maior parte das forças novamente para o terminal ferroviário...”. na verdade, ele não ambicionava mais que um ataque numa área que, na sua opinião, tinha apenas a importância de um flanco defensivo estratégico.
E então, a 28 de outubro, os italianos invadiram a Grécia e foi preciso reexaminar tudo. A reação imediata de Churchill à situação grega foi previsível e teoricamente certa. À parte uma obrigação diplomática de ir em socorro da Grécia, ali estava uma oportunidade de reentrar na Europa e ameaçar o flanco sul de Hitler. Mas quando Churchill disse aos gregos que “Dar-lhes-emos toda a ajuda que pudermos”, aquela ajuda só poderia partir do Egito e dos recursos que estavam sendo reunidos para atacar os italianos na África. Os desvios de aviões, navios e homens para defender Creta e estabelecer bases aéreas na Grécia eram, com efeito, sobretudo defensivos - embora o fato de que os bombardeiros britânicos baseados na Grécia poderiam bombardear os vitais campos petrolíferos romenos, se quisessem, não passasse despercebido aos alemães. A 2 de novembro Churchill cabografou a Eden, quando as forças italianas penetravam na Grécia, “A situação grega deve agora dominar todas as outras” e na mesma comunicação ele discorreu largamente, à maneira de Mussolini, sobre o número de homens - em oposição a equipamento - a caminho do Egito. Confrontado com esse pedido, feito por intermédio de Eden, Wavell decidiu revelar seu plano para uma ofensiva no deserto. “Não pretendia fazê-lo até que os planos estivessem mais adiantados, porque compreendia o temperamento ardente de Winston e seu desejo de meter pelo menos um dedo em qualquer pudim militar”. Mas o efeito foi eletrizante. Eden, convencido da integridade das intenções ofensivas de Wavell, retornou a Londres a 6 de novembro com a notícia do plano para atacar o 10o Exército italiano em Sidi Barrani. Se Churchill ficou indignado por ser mantido na ignorância, ele agora aplicava força considerável para obrigar Wavell a ultrapassar a marca da segurança na ofensiva iminente.
Durante todo o mês de outubro - um período de refinamento da estratégia italiana e britânica - a guerra no deserto prosseguiu com lutas breves e violentas entre patrulhas. Isto ocorreu quando Graziani quisera realmente partir de Sollum, mas agora uma patrulha do 11o de Hussardos tornava-se a primeira a obter provas positivas sobre a natureza dos preparativos defensivos italianos, com um dos seus comandantes arrastando-se até 200 m de um oficial italiano e de um civil trajando casaco de couro e chapéu de feltro a consultar planos e por operários a trabalhar em fortificações permanentes. Se, no dia 14 de outubro, o aparecimento de 30 veículos italianos a sondarem para leste, pela estrada costeira, fez desconfiar da renovação do avanço, isto não passou de uma pista falsa, pois a rápida troca de tiros que se seguiu convenceu os invasores a retornar aos eu ponto de partida. Então, a 23 de outubro, fora a vez dos ingleses se submeterem à prova as reações dos seus adversários - uma tentativa séria, realizada pela infantaria do 1o de Cameron Highlanders e tanques do 8o de Hussardos sob o comando do Grupo de Apoio de Gott, de atacar o campo em Maktila após uma aproximação noturna. Mas no Egito, e em particular no Cairo, onde facções antibritânicas trabalhavam vigorosamente pela causa italiana, boatos misturados com informações corretas corriam como champanha num casamento. Três dias antes do ataque falou-se da sua iminência. Na verdade, os italianos parecem ter estado mais bem informados que seus atacantes, cujo conhecimento da posição se baseava numa única fotografia aérea e uma estimativa de que o campo continha “um batalhão ou talvez uma brigada”- uma oposição muito séria - quando na verdade ele era defendido pela 1a Divisão Líbia completa, com tanques. Qualquer esperança de surpresa dissipou-se por completo com uma hora de bombardeio, de modo que quando os últimos soldados da infantaria avançaram, foram recebidos por uma torrente de fogo. Uma retirada hábil era inevitável e muitos dos Highlanders voltaram às suas bases, ao amanhecer, montados nos tanques dos Hussardos e sob o ataque de 20 tanques italianos - uma batalha duplamente difícil para os Hussardos porque seus veículos estavam superlotados de Jocks (escoceses). Talvez seja significativo que a história desta ação mal organizada não apareça nas páginas da História Oficial Britânica.
Estimulados, os italianos reforçaram suas defesas, acreditando serem elas à prova de ataque direto. Mas, além dos perímetros e dos campos minados, eles se abstiveram de qualquer atividade, parecendo satisfeitos em entregar a terra-de-ninguém aos ingleses. Se Graziani e Berti estavam satisfeitos com este estado de coisas, isto só lhes causaria perigo, pois não só abriram mão da iniciativa como também provocaram um mal-estar em seus homens, acrescido por uma sensação já existente de insegurança e de inferioridade. Enfadados e inativos no meio de um deserto, os pensamentos dos soldados voltaram-se da luta para o sonho sedutor do lar.
E penetrando as brechas ente os campos - notadamente a de Enba, com 28 km de largura, situada entre Nibeiwa e Rabia - incursores ingleses vagueavam praticamente impunes, detendo o movimento italiano entre os campos e impedindo a construção de novas defesas para tapar as brechas. Os incursores agora se organizavam em linhas semelhantes às adotadas pelos italianos em julho - pequenas colunas de canhões protegidas por infantaria mecanizada, chamadas Colunas de “Jocks” em homenagem ao seu idealizador, o Tenente-Coronel “Jock” Campbell da Artilharia Real. Mas estas colunas se utilizavam em algo que os italianos não tinham - um serviço de informações de primeira classe e reserva móvel na forma do 11o de Hussardos em seus carros blindados já desgastados. A 19 de outubro houve um choque intenso quando os italianos entraram na Brecha de Enba em bom número, mas a luta terminou com 5 tanques italianos destruídos e mais de 100 baixas, contra 5 baixas inglesas. Isto deixou os italianos praticamente tontos durante as três semanas seguintes.
Assim, durante todos os meses de outubro e novembro, as colunas de “Jocks” mantiveram a iniciativa para O’Connor enquanto que, em outro local, a sorte dos britânicos diminuía e aumentava. No Sudão, uma força italiana que tomara Gallabat, em julho, foi atacada pelos ingleses a 6 de novembro. O resultado foi uma repulsa calamitosa, com a perda de 167 homens, entre mortos e feridos, com 9 dos 12 tanques e todos os 6 caças Gladiators participando da luta. A 8 de novembro, porém, os gregos, tendo detido a invasão italiana, tomavam a ofensiva e passariam o resto do ano liberando seu próprio território antes de penetrar agressivamente na Albânia, em perseguição a um inimigo batido. E então, na noite de 11 de novembro, a Arma Aérea da Esquadra Britânica, atacando arrojadamente com bombardeiros-torpedeiros a Esquadra Italiana em Taranto, afundou um couraçado, pôs dois outros fora de combate por mais de 6 meses e danificou algumas outras belonaves, além de incendiar tanques de petróleo. O que restou da Esquadra italiana teve de ser retirado para a costa oeste da Itália. De um só golpe, as rotas de comboio da Itália para a Albânia e Líbia ficaram abertas para uma série de ataques arrasadores da Marinha Real, de modo que os reforços de que Graziani tanto necessitava demoraram ainda mais a chegar.
O’Connor, com pleno apoio de Wavell no Cairo e, assim, protegido contra as pressões de Londres, podia olhar para o futuro com equanimidade, sabendo que o ataque de 5 dias não precisaria ser desfechado até que estivesse totalmente pronto. Agora que os gregos estava fazendo mais do que apenas resistir, somente uns poucos esquadrões de bombardeiros e caças seriam desviados da força originalmente destacada para o Deserto Ocidental. Sua ausência seria crítica, mas a chegada imediata de caças Hurricane, com sua grande superioridade sobre os aparelhos italianos, compensou em grande parte essa desvantagem. A 2 de novembro, O’Connor recebera por intermédio de Wilson a única diretiva que Wavell escreveu em conexão com a Operação Compasso, “... para preparar uma ofensiva contra as forças italianas nas suas atuais posições (se elas não continuarem seu avanço), que deve ser realizada o mais breve possível”. Mais adiante, a instrução dizia: “Somos superiores ao inimigo em tudo, exceto em números”, mas isto não era de todo preciso. As forças italianas à disposição imediata de Graziani totalizavam uns 250.000 homens organizados no equivalente a umas oito divisões - nenhuma das quais era blindada. O’Connor tinha apenas 36.000 homens em duas divisões, mais uma só brigada, da qual uma das divisões era a 7a Blindada, altamente competente. Os italianos podiam reunir cerca de 400 peças de artilharia de campanha, os ingleses apenas 150 e, destas, o canhão de 25 lb. era melhor do que os 75 italianos. No ar, cerca de 191 caças e 141 bombardeiros italianos enfrentavam apenas 48 caças ingleses (32 deles Hurricanes) e 116 bombardeiros - e isto foi obtido em parte retirando-se os esquadrões do Mar Vermelho e reduzindo a defesa aérea de Alexandria. Em relação aos tanques, porém - a arma dominante na guerra do deserto - os italianos estavam inferiorizados em qualidade e em números. Eles só podiam reunir umas 300 máquinas, 60 das quais eram os M11, de qualidade medíocre, e uns poucos M13, algo melhores; o restante eram os L3, perfeitamente inúteis. Os ingleses, exceto uns 200 tanques leves, possuíam 75 médios (Cruzadores A9, 10 e 13), além de 45 Matildas, dando-lhes o total de uns 320 - número que podia variar loucamente devido a falhas mecânicas. Na qualidade, os ingleses eram superiores em todas as categorias - seu tanque leve Mk VI era melhor que o L3, seus cruzadores eram melhores que o M11 e o Matilda excelente por direito próprio.
Os homens de O’Connor, que estavam lutando em casa, conheciam perfeitamente o terreno, como Wavell percebia, e este seria um fator importante no preparo do plano final. A princípio, O’Connor quisera “...romper o flanco do inimigo na área de Sofafi, e então fazer uma varredura, descendo até a escarpa pelas terras baixas até BuqBuq e o mar, cortando assim a sua retirada para Sollum”. Mas os quatro campos no complexo do Sofafi Rabia, como O’Connor observara, eram “completamente inadequados para o emprego de tanques. Nosso êxito, portanto, não podia ser garantido...”. Assim, O’Connor pôs-se a desenvolver o que, em princípio, seria a solução final: “... atacar um ou mais dos campos inimigos entre Sofafi e o mar, enquanto que a Divisão Blindada mantinha o anel e impedia qualquer interferência... a arma atacante principal, neste caso, seriam os tanques T (Matilda) com infantaria vindo logo atrás, e a artilharia dando somente o apoio que pudesse ser realizado com o mínimo de atraso”.
Na verdade, O’Connor planejava penetrar com sua única divisão blindada a Brecha de Enba e lança-la sucessivamente contra as três divisões italianas que defendiam, do sul para o norte, Nibeiwa, Tummars Leste, Central e Oeste, o Ponto 90 e Sidi Barrani. Ao mesmo tempo, parte da Guranição de Matruh, com efetivos de brigada e conhecida como Força Selby, sairia para atacar Maktila. O plano originava-se das disposições italianas falhas, que atraiam o ataque minucioso porque os italianos construíram seus campos fora da distância de apoio mútuo e sem a estabilização de uma forte reserva móvel. Contudo, uma consideração preponderante sobre tudo o que O’Connor fazia eram as restrições administrativas impostas pela necessidade de avançar por uma distância de 160 km de deserto aberto, antes de entrar em contato com os italianos. As escassas colunas de transporte estavam sempre se matando de trabalhar; nunca havia um caminhão livre para eventualidades. E embora se tomassem as precauções mais rigorosas para manter a operação em segredo - somente no último momento é que os comandantes e soldados foram informados - a simples necessidade de se reunirem os suprimentos e reabastecer os depósitos desprotegidos no deserto e situados a meio caminho entre Matruh e a Brecha de Enba tinha de ser aceita como um risco justificável; do contrário os tanques ficariam sem combustível para o ataque final.
Taticamente, a operação era imposta pelo tempo e espaço. Para manter o segredo, a marcha de aproximação só podia ser feita à noite. Portanto, devia haver luar e este fator determinou que o avanço fosse feito no começo do quarto crescente. Velocidade seria essencial para que o movimento pudesse ser feito no último momento possível mas, sendo assim, não poderia haver nenhum reconhecimento prévio minucioso exceto por “... fotografia aérea e por oficiais de patrulha escolhidos especialmente e que fariam explorações durante pelo menos 24 horas de cada vez”. No interesse da velocidade, a artilharia não poderia fazer registração prolongada, o que a obrigaria a adotar o bombardeio de área - descrito como “fogo para desmoralização”. Na opinião de O’Connor, tudo dependia do sucesso da marcha de aproximação e, embora o estado-maior pudesse calcular isto, “Eu achava... que algum tipo de ensaio... era necessário, assim como o ataque real a Nibeiwa e Tummar”. Este ensaio, realizado a 26 de novembro, foi anunciado às tropas como “Exercício de Treino n° 1; anunciando-se a possibilidade de um segundo exercício realizar-se em dezembro.
O primeiro exercício mostrou a indubitável validade do trabalho do estado-maior, mas resultou em modificações no plano de ataque aos campos. A experiência no ataque a Maktila mostrara o erro de um ataque pela infantaria com tanques na leva de vanguarda, e soube-se que os campos estavam cercados de minas. Contudo, o reconhecimento indicou que as entradas de Nibeiwa e dos Tummars estavam em ângulos norte e noroeste dos campos e, portanto apenas tenuêmente minados. Ali, o 7o Real Regimento de Tanques com seus Matildas abriria o ataque pela 4a Divisão indiana e dominaria as defesas até que a infantaria desembarcasse dos caminhões e algumas centenas de metros do perímetro para, eventualmente, fazer o trabalho de limpeza para os tanques. Os Tummars seriam atacados da mesma forma, assim que os tanques e a artilharia pudessem ser avançados após o ataque a Nibeiwa. O que poderiam Wavell e Wilson - os homens que demitiram Hobart por basear suas idéias na invulnerabilidade do tanque e na exclusão das outras armas na devida proporção - ter pensado disso?
Embora muito dependesse do sucesso dos Matildas, a conveniência das operações da 4a Divisão indiana prosseguirem sem distrações era vital. A força aérea italiana devia ser eliminada dos céus mediante ataques aos seus aeródromos e surtidas de caças lançados sobre a área de batalha. A Marinha Real devia bombardear Maktila, Sidi Barrani e Sollum. A 7a Divisão Blindada devia penetrar na Brecha de Enba para isolar os campos de Sofafi Rabia e toda a área para o norte na direção de Buqbuq - expondo-se assim, pelo menos aparentemente, ao pior que duas divisões italianas podiam fazer.
E o que dizer dos italianos? Embora bem providos de informações sobre a chegada de novas tropas no Egito, de generosos relatórios aéreos sobre concentrações avistadas no deserto e dolorosamente cônscios de que a Brecha de Enba era o domínio inconteste das Colunas Jock e, portanto, representava um corredor aberto para sua retaguarda, eles insistiam em interpretar as intenções inglesas como se eles, os italianos, conservassem a iniciativa. Em outras palavras, supunham que os novos reforços ingleses seriam despachados para ajudar os gregos (apesar da prova inegável de que os gregos eram perfeitamente capazes de cuidar de si mesmos) e julgavam que os ingleses seriam tão pouco capazes de uma ofensiva no deserto quanto eles próprios o eram. Em Roma, o marechal Badoglio estava preocupado com a decadência do estado de coisas na Grécia, mas também combatia intrigantes que invectivavam sua incompetência - intrigantes que incluíam Graziani, o qual tinha as simpatias de Mussolini. A 26 de novembro, Badoglio demitiu-se e retirou-se para a propriedade de um amigo, a fim de caçar faisão. Não se nomeou imediatamente um sucessor porque as preferências partidárias fascistas tinham que ser resolvidas e era preciso providenciar os arranjos para publicar a mudança sem solapar ainda mais o moral. Alguns dias depois, o General Berti chegou para tratamento de saúde, deixando o comando do seu 10o Exército nas mãos do General Gariboldi. Em Roma, nesse meio tempo, o General Cavallero surgia gradualmente, de uma tremenda rede de intrigas, como o novo Chefe de Estado-Maior, posto que ele assumira formalmente a 6 de dezembro. Tomou posse quando os acontecimentos na Albânia pioraram e quando a intervenção alemã saiu do âmbito das especulações para a realidade - aliás, no mesmo dia, quando o marechal Milch chegou a Roma para resolver os problemas das operações da Luftwaffe no Mediterrâneo. Sua primeira tarefa era o abastecimento aéreo da Albânia e depois do domínio das rotas de comboio entre bases sicilianas e a África do Norte.
Assim, enquanto os comandantes italianos mudavam, e Graziani se esforçava muito para lançar sua ofensiva de dezembro, os primeiros sinais do que Wavell reconheceria como iminente a participação alemã começaram a aparecer e o Comandante-Chefe britânico ampliou (ou foi obrigado a ampliar) suas ambições. De início, e sem que O’Connor o soubesse, ele pretendera retirar a 4a Divisão indiana do deserto, após o término do ataque de 5 dias, e enviá-la para o Sudão, a fim de atacar os italianos na Eritréia. Mas a 26 de novembro ele notou que um ninho de vespas começara a se agitar em Londres, onde Churchill e os Chefes de Estado-Maior, a quem Wavell negara conscientemente informações precisas sobre a data do ataque, se empenhavam numa série exprobatória de perguntas e respostas sobre as intenções reais de Wavell. Churchill enviara a seguinte nota: “... se se alcançar o sucesso, suponho que você tem planos para explorá-lo plenamente”. Era evidente que Wavell não tinha plano algum porque, no dia 28, ele sentiu-se forçado a dizer a Wilson que: “Não estou alimentando esperanças extravagantes sobre esta operação, mas quero que você se assegure de que, se houver uma grande oportunidade, estaremos preparados moral, mental e administrativamente para usá-la ao máximo”. Mas, como O’Connor escreveu: “Era impossível aumentar os depósitos em tão pouco tempo, de modo que tudo o que se pôde fazer foi imaginar arranjos para enviar suprimentos o mais rápido possível depois que a batalha começasse”. Absorto pelo seu conceito original de um ataque, Wavell parecia ter ignorado a conveniência de um plano de exploração de contingência, obrigando Churchill a injetar este elemento essencial - um elemento de que todas as operações militares deveriam ser capazes até certo ponto. Naturalmente, se Wavell tivesse mantido Churchill plenamente informado dos fatores que controlavam a sincronização e a escolha da data por O’Connor, talvez não tivesse havido censura - e, portanto, nenhum lembrete sobre a necessidade de exploração. Mas podemos duvidar disso, porque Churchill estava doido para pegar Wavell. Não se pode negar que este último foi sensato em manter o mais rigoroso segredo: ele sabia muito bem dos perigos de uma divulgação de segredos no Cairo e estava plenamente cônscio de que por toda a História os governos tem falhado em respeitar a intocabilidade dos planos militares.
Finalmente, na noite de 6 de dezembro, quando tanques, canhões e caminhões começaram a percorrer o deserto banhado de luar, levantando nuvens de areia, Wavell enviou uma mensagem a Londres anunciando o dia do ataque - o amanhecer do dia 9. Ainda assim, Churchill continuava a remoer-se. “Se Wavell estiver apenas se limitando... teremos falhado em aproveitar as circunstâncias”. Mas só os acontecimentos diriam a verdade.
A batalha dos campos
Os primeiros sinais da ofensiva iminente apareceram nos céus da Tripolitânia e Cirenaica quando a RAF intensificou os ataques que vinha fazendo intermitentemente desde fins de outubro de 1940. A 7 de dezembro, 11 bombardeiros Wellington atacaram Castel Benito e destruíram 29 aviões italianos em terra. Na noite seguinte, uma incursão por 29 Wellingtons e Blenheims destruíram outros 10 aviões em Benina, enquanto que velhos Bombays, aparecendo sobre os campos italianos numa procissão constante, não só causaram danos ocasionais como também ajudaram a abafar com seu barulho o ruído da aproximação das colunas de tanques. E, do mar, a Marinha entrou em ação na noite do dia 8, com o monitor Terror com seus dois canhões de 15 pol. e oito de 4 pol., auxiliado pela canhoneira Aphis, tornando a vida em Maktila extremamente desagradável durante 90 minutos, enquanto que a canhoneira Ladybird lançava granadas contra Sidi Barrani.
Em todos os Q-G superiores italianos, as tendências da atividade britânica foram devidamente observadas - com interesse, mas sem alarma. Julgava-se, complacentemente, que os relatórios sobre movimentos de veículos para a frente representavam apenas substituição de unidades na linha, porque não se esperava uma ofensiva. As providências de segurança de Wavell foram totalmente eficazes: nem mesmo os mais sensíveis centros de informações italianos e egípcios haviam suspeitado de qualquer coisa. Um prisioneiro britânico, interrogado a 5 de dezembro, insinuara que alguma coisa estava sendo preparada e esta informação fora transmitida ao Q-G do 10o Exército e para a 5a Squadra, com pouco resultado, enquanto que a análise do aumento da atividade aérea, com a RAF fazendo patrulhas protetoras sobre a área de batalha durante todo o dia 8, tampouco inspirou quaisquer deduções dramáticas. A informação dada por um aviador italiano, que vislumbrou, pela névoa do meio-dia de 8 de dezembro, 400 veículos a uns 50 ou 60 Km a sudoeste de Nibeiwa, foi considerada importante por Graziani e, segundo se diz, transmitida ao 10o Exército - a 160 Km da frente, em Bardia - mas este parece não ter-lhe dado atenção e os soldados continuaram ignorando o perigo iminente; uma ignorância ainda completa, porque eles deixaram de patrulhar a Brecha de Enba e seus acessos.
O’Connor escreveu: “...a última fase da marcha de aproximação foi feita sem qualquer problema, com todas as unidades tomando suas respectivas posições à 01h (de 9 de dezembro)”. Nem tanto, porque, naturalmente, os melhores planos estão sempre à mercê de simples mortais. Os soldados de uma coluna pertencente à 4a Divisão Indiana chocaram-se, inesperadamente, com o 8o de Hussardos à luz do luar. “Onde está a droga da trilha de Enba?... Estou perdido”, bradou uma voz ao descobrir, em meio ao ruidoso engarrafamento de tráfego, que uma coluna estava indo para o sul em lugar de dirigir-se para o norte. Afinal, talvez haja alguma veracidade na afirmação de um cínico oficial de estado-maior, ao dar os toques finais numa longa Ordem de Movimento: “Isto não terá muita utilidade. A Cavalaria nunca as lê, os artilheiros fazem o que querem e a Infantaria não consegue compreendê-las”. Contudo, com a aproximação do amanhecer, as colunas rumavam livremente para o norte. A 4a Brigada Blindada da 7a Divisão Blindada ia bem ao longo do flanco oeste, rumando para a costa atrás dos carros blindados do 11o de Hussardos; a 7a Brigada Blindada e o Grupo de Apoio defendiam a Brecha de Enba e protegiam Rabia e os Sofafis; as três brigadas com a 4a Divisão Indiana iam uma atrás da outra na esteira das Matildas para Nibeiwa, enquanto seus canhões começavam a desengatar, preparando-se para as primeiras salvas do “fogo de desmoralização”. Entrementes, a infantaria da Força Selby, acompanhada por um grupo de tanques leves do 7o de Hussardos, tendo instalado uma “brigada” de tanques falsos no deserto, perto de Matruh, para distrair a força aérea italiana, aproximava-se de Maktila pelos acessos sul e leste.
Pelas 09h, as tropas do 11o de Hussardos se haviam infiltrado até a estrada costeira, a 13 Km a oeste de Sidi Barrani, e emboscado um comboio de caminhões italiano. Atrás delas vinha o 7o de Hussardos, atacando a 64a Divisão Italiana onde esta defendia os wadis ao sudeste de Buqbuq. Ali, durante toda a manhã, os tanques lutaram para conseguir posições em refregas confusas que simplesmente confirmavam que a infantaria metropolitana italiana tendia a render-se com mais facilidade do que seus artilheiros, que lutaram arduamente e com louvável precisão. Em geral, porém, a passagem até a estrada foi conquistada com rapidez e as linhas telefônicas e oleodutos foram cortados. Assim, Sidi Barrani foi completamente isolada, com facilidade em poucas horas. Aliás. Para a 4a Brigada Blindada o trabalho matinal fora um anticlímax. O 6o RRT, avançando à sua direita e, assim, ao alcance de Nibeiwa, esperava um choque com a principal força blindada italiana naquela área, mas sua presa se aproximara de Nibeiwa para passar a noite. Em vez disso, arrostando o bombardeio esporádico, o 6o RRT chegou à estrada costeira quase sem nenhuma dificuldade. O 7o de Hussardos, porém, tendo chegado à estrada, foi encarregado de expulsar os italianos do Wadi el Kharruba - uma ação que, à sua maneira, sintetizou o desempenho total da 64a Divisão Italiana. Segundo a história da 7a , “às 11h40 o ataque começou. Não houve resistência até que os tanques se aproximaram bastante, quando então o inimigo abriu fogo com metralhadoras. Mas como não tinham armas anti-tanques, os italianos não tiveram qualquer chance de vitória. Vários inimigos foram mortos e o restante apressou-se em se render. Um fanático, tendo-se rendido, pegou um fuzil e atirou contra o Major Jayne; ele foi prontamente fuzilado por um artilheiro de tanque”. Com cada objetivo conquistado rapidamente, o Brigadeiro Caunter, comandante da 7a Divisão Blindada na ausência do Major-General Creagh, que estava doente, podia congratular-se e dedicar-se em manter o isolamento dos campos italianos ao leste. Todos os olhos agora voltavam-se para os campos onde a ação era intensa, ação da qual tudo dependia.
Durante toda uma noite tipicamente fria no deserto, o experiente Grupo Maletti, de tocaia em Nibeiwa, fora vítima de tensão. Já acostumado às rondas das patrulhas britânicas, ele alinhou as defesas do seu perímetro por uma questão de rotina. Então, pouco antes da meia noite o grupo foi alvejado do leste - uma distração britânica deliberada, que provocou uma chuva de foguetes italianos, os quais iluminaram o deserto vazio. Às 05h houve outro estratagema; o grupo ficou novamente alerta, seguindo-se mais um anticlímax do que se supôs ser mais um falso alarma. Pelas 07h os homens estavam tomando o seu desjejum e as tripulações de 23 tanques M11, pertencentes ao II/4o Batalhão e alojado logo fora do perímetro, preparavam-se para um dia tão apático quanto os outros.
Naquele momento, a 7a Divisão lindada, em meio a uma nuvem de poeira, rumava célere para o mar, e, 15 minutos depois, sem qualquer aviso, o campo de Nibeiwa era alvejado pelo fogo de 72 canhões de 25 lb., enquanto que a alguns milhares de metros dali numerosos tanques de um tipo desconhecido se aproximavam do campo com os canhões a disparar.
Apesar das pequenas confusões da noite, os Matildas do 7o RRT avançavam no lugar e na hora certos. Significativamente, o esquadrão dianteiro já estava a meio caminho entre a crista mais próxima e o obstáculo antitanque que cercava o campo, antes que a artilharia italiana pudesse abrir fogo. Assim, como a surpresa fora completa, os Matildas podiam concentrar-se primeiro contra os M11, em vez de tentarem calar a artilharia ou cuidar das metralhadoras embasadas atrás dos obstáculos. Aliás, esta luta entre tanques durou pouco e foi totalmente unilateral. As tripulações italianas “...estavam trajadas de todas as maneiras e corriam para lá e para cá tentando ligar suas máquinas”. Além disso, o fato de que praticamente nenhum tanque abriu fogo em sua defesa é de interesse puramente teórico. Eles não poderiam ter penetrado a blindagem dos Matildas se tivessem tentado e, por sua vez, foram reduzidos a sucata em dez minutos de pontaria mortífera, com a distância entre os dois lados sendo entrecruzada por uma fuzilaria dos canhões de 2 lb. britânicos, os alvos irrompendo em chamas e fumaça enquanto as tripulações sobreviventes abandonavam suas máquinas destruídas.
Em meio a essa troca de tiros, o fogo persistente da artilharia italiana foi totalmente desperdiçado porque, mesmo quando suas granadas atingiam o alvo, elas não avariavam os Matildas, quando muito enguiçando uma ou duas torretas. A deprimida infantaria italiana ficou profundamente horrorizada e só pôde observar, impotente, o avanço desses tanques implacáveis pela brecha no campo minado e pelos obstáculos a noroeste, acompanhados das granadas de HE e fumaça de uma bateria de canhões de 25 lb. disparando com alça de mira em branco. Os Matildas manobravam em meio aos canhões, matando as guarnições e esmagando os que sobreviviam. Naquele dia, o sangue de muitos artilheiros italianos manchou as lagartas dos Matildas, tal a devoção dos que cumpriram o seu dever até o fim. Mas eles não tinham esperança de prevalecer, pois com os tanques vieram os transportadores de metralhadoras Bren do 2o de Cameron Highlanders e do I/6o de Fuzileiros de Rajputanam a disparar durante o avanço; enquanto isso, a uns 700 m atrás, era possível ver dois batalhões desembarcando dos caminhões e avançando rapidamente para limpar o que escapara aos blindados.
O campo de Nibeiwa media aproximadamente 2400 m por l800 m. Fora as defesas do perímetro, com um ninho de metralhadoras a cada 25 m, o centro estava repleto de trincheiras, tendas e veículos dispersos. A entrada dos tanques e da infantaria britânica expulsou os italianos dos seus esconderijos como vespas assustadas e irritadas. Alguns soldados de infantaria italianos, imitando os artilheiros, morreram lutando. Outros se entregavam imediatamente, enquanto os britânicos invadiam sistematicamente o campo, um setor atrás do outro. Ademais, Nibeiwa foi abandonado ao seu destino pelos campos de Tummar ao norte - onde as guarnições alinhavam as defesas em mórbido fascínio a ouvir os sons intermitentes das lutas de morte dos seus companheiros. Não tendo uma poderosa força de tanques móvel, eles não estavam em condições de intervir. Pelas 10h, a resistência estava desaparecendo e o comando central estava obliterado. O General Maletti, saindo da sua trincheira para participar da luta, foi ceifado pela metralhadora de um tanque. Pelas 10h40 tudo terminara, cerca de 4000 prisioneiros estavam sendo arrebanhados e o imenso botim era avaliado pelos Camerons e Rajputanas. Os estoques generosos de vinho italiano foram muito apreciados, mas os estoques militares também foram considerados dignos de atenção.
Para as tripulações dos tanques porém, não podia haver pausa e nem celebração imediata. O Comandante da 4a Divisão Indiana, o General Beresford-Peirse, observando de perto o êxito da sua 11a Brigada Indiana em Nibeiwa, já dera ordem para a 5a Brigada partir para o norte a fim de atacar o campo de Tummar Oeste às 11h - um prazo desafiador. Com a 5a Brigada foi também o esquadrão de reserva do 7o RRT. Em seguida iriam a artilharia concentrada, agora que sua tarefa em Nibeiwa terminara, e duas tropas compostas dos Matildas que haviam atacado Nibeiwa.
Mas, embora a exigência do intervalo mais breve possível para um ataque contra Tummar Oeste após Nibeiwa fosse psicologicamente excelente, ele também era excessivamente otimista. Após duas horas de luta em Nibeiwa, os Matildas tinham de ser reabastecidos e, feito isto, percorrer oito quilômetros até Tummar Oeste - jornada esta atrasada logo no início, quando encontraram um campo minado, perdendo sete dos seus tanques. Além disso, ao deixar o campo, os tanques se atrasaram ainda mais, devido à dificuldade em rumar para a posição de ataque através de um vento que aumentava de intensidade e levantava poeira, reduzindo seriamente a visibilidade. Surgiam agora ataques aéreos italianos esparsos, embora estes não causassem a mesma preocupação que o problema deparado pelo Comandante do 7o RRT, Tenente-Coronel Jerram: encontrar Tummar Oeste. Eventualmente, Beresford-Peise, sabendo que a infantaria e a artilharia estavam prontas e que os tanques estavam por perto, ordenou que o ataque se iniciasse às 13h35, enquanto Jerram, sem saber ao certo se estava confrontando Tummar Oeste ou Tummar Leste a uma distância de 400 m, “...decidiu arriscar nossa arma e lançar o ataque numa direção, na suposição de que Tummar Oeste fora corretamente anotada no mapa. Graças a Deus a coisa deu certo e os tanques acertaram em cheio”.
Aliás, nos Tummars, a sorte sorriu apenas para os arrojados. Se, aparentemente, houve uma repetição dos acontecimentos em Nibeiwa, porque os tanques chegaram rapidamente ao centro do campo e saíram vencedores no duelo com a tenaz-artilharia italiana, a infantaria da 5a Brigada não tivera nem de longe a mesma sorte, porque a 2a Divisão Líbia lutou pela posse de cada palmo do terreno. Ali, os homens do 1o de Fuzileiros Reais chegaram até 150 m do campo, levados por um grupo de entusiasmados motoristas de caminhão neozelandeses que atravessaram o terreno a 50 Km/h e então abandonaram os veículos a fim de participar do ataque. Mas muitos dos fuzileiros logo caíram vítimas de uma saraivada de fogo de armas de mão. Ao contrário da 11a Brigada em Nibeiwa, a 5a Brigada mantivera seus transportadores fora da batalha, na reserva; mas, com os tanques se concentrando sobretudo na artilharia inimiga e com a infantaria líbia lutando com vigor, era inevitável e cara uma luta violenta com granadas e baioneta em meio às trincheiras. Esta se transformou numa batalha de soldados que durou umas duas horas, travada para capturar o último ponto forte - uma batalha que culminou os Sikhs do III/1o Punjabis se distinguindo ao aceitar a rendição do General Piscatori, o comandante divisional, e a de 13 oficiais superiores, que saíram do seu esconderijo de concreto uniformizados e de botas e esporas. Pelo menos mais 2000 prisioneiros haviam sido agora reunidos - e sua guarda já era um problema em si. Mas Tummar Leste e o campo no Ponto 90 ainda estavam por ser capturados, e Sidi Barrani assomava mais além. A batalha estava longe de terminar.
Jerram só tinha agora 16 Matildas, aos quais logo se juntou o 4/6o Rajputanas para a viagem de oito quilômetros até Tummar Leste. Contudo, um elemento agressivo, caminhões liderados por tanques, saiu da guarnição para recebê-los, com a intenção de desfechar violento contra-ataque, visando recuperar a situação em Tummar Oeste. Sete Matildas estavam ali, mas acontece que a infantaria indiana cuidou pessoalmente de tudo, enfrentando a arremetida com uma tempestade de fogo de metralhadoras e artilharia que em poucos minutos acabou com os caminhões italianos e matou cerca de 400 dos seus ocupantes. Entrementes, nove Matildas, deslocando-se em majestoso esplendor contra o resto dos Tummars, capturaram mais uma leva de prisioneiros, composta sobretudo de refugiados, mas não conseguiu completar a captura de Tummar Lesta antes do anoitecer. O 7o RRT, por enquanto, estava praticamente esgotado. Mesmo assim, ele conseguira nada menos que três assaltos sucessivos e vitoriosos, sofrendo apenas um punhado de baixas em homens, e tal era sua confiança que, no ataque final contra Tummar Leste, Jerram lançou à luta dois tanques cujas torretas estavam enguiçadas. “Julguei justificável mandá-los por causa do seu efeito moral”. A infantaria se entusiasmou e inspirou as tripulações dos tanques, que não comiam há 24 horas, “mas todos nós estávamos bem no topo do mundo”. Jerram, porém, criticou severamente uma tripulação que lançou seu Matilda num poço de canhão onde a munição estava em chamas. Provavelmente um espírito agressivo exagerara demais.
No centro da batalha encontrávamos O’Connor, andando primeiro nos veículos do Q-G do pequeno grupo de comando atrás da 7a Divisão Blindada. Ele estava à mão para mandar Caunter despachar o 8o de Hussardos a fim de patrulhar a oeste do grupo de acampamento de Safafi, para dissuadir esses italianos de escapar; manter o Grupo de Apoio a leste e no mesmo instante sugerir o envio de um oficial de estado-maior graduado ao Q-G da 4a Divisão Indiana para ajudar a coordenar as atividades das duas formações. Em seguida O’Connor foi para o norte, a fim de juntar-se a Beresford-Peirse em Tummar Oeste, no exato momento em que o contra-ataque italiano estava sendo repelido. Ignorando a sorte da Força Selby naquele momento, ele agora mandava Beresford-Peirse usar a 16a Brigada para tomar Sidi Barrani no dia seguinte, como uma operação paralela ligada à eliminação da oposição nos Tummars e no Ponto 90 pela 5a Brigada. Não haveria trégua por um instante, como o assegurava a presença calma mas dominante de O’Connor, junto de cada comandante graduado no local e na hora certos.
Acontece que o Brigadeiro Selby era o único dos comandantes de O’Connor que carecia de informações precisas ou instruções revistas. Durante todo o dia 9 ele obedecera suas ordens e vigiara Maktila, enquanto as batalhas se desenrolavam a oeste. Mais tarde, quando soube do êxito imediato de Caunter e teve notícia de que a estrada de Buqbuq fora bloqueada, foi levado a tentar, por iniciativa própria, o cerco do campo. Já então, porém, era quase noite e o 3o de Guardas de Coldstream só podia avançar lentamente, não alcançando a estrada antes da manhã seguinte. Tarde demais. A 1a Divisão Líbia evacuara Maktila e, descendo em colunas as estradas para Sidi Barrani, estava sendo atraída diretamente para o vórtice de batalha onde a 4a Brigada Blindada avançava do oeste e a 16a avançava do sul.
Ao amanhecer o dia 10, numa violenta tempestade de areia, a 16a Brigada estava exposta no deserto aberto e pronta para atacar a extremidade oeste de Sidi Barrani - aguardando, na verdade, a artilharia e os tanques Matilda que ainda não tinham chegado. Para o Brigadeiro Lomax parecia temerário ficar parado à vista de todos. Ele pensou que seria preferível atacar imediatamente a correr o risco de os efeitos da artilharia italiana agir no espírito de toda a ofensiva. Mas quando os caminhões que levavam o 1o de Argyll and Sutherland Highlanders iniciaram o avanço, deslocando-se o mais depressa possível pelos 5,5 km de deserto aberto, os canhões italianos abriram fogo. Veículos foram atingidos, seguindo-se a confusão enquanto os sobreviventes desembarcavam dos caminhões e se protegiam atrás de tudo o que encontravam. Instantes depois, o 2o de Leicester, aproximando-se pelo flanco, teve um destino um pouco menos desastroso. Mas o fragor da custosa represália não só distraiu os italianos como trouxe a salvação imediata para aqueles Britânicos que estavam retidos no deserto. Movendo-se na direção do som dos canhões, 10 Matildas uniram-se ao 2o da Rainha, o batalhão de infantaria da reserva, e contornaram para a esquerda mais ou menos no instante em que a artilharia britânica punha-se a espancar seus adversários italianos. Deu-se uma batalha tumultuosa em meio à poeira sufocante, nos arredores oeste da posição de Sidi Barrani, com cada subunidade travando sua batalha particular, oculta à vista das outras tempestades de areia. Em determinado momento, foi tal a confusão, que os Argylls travaram uma batalha vigorosa com os da Rainha. Mas, peça a peça, os canhões italianos foram destruídos pelos Matildas e a posição aos poucos dominada pela infantaria - vários italianos renderam-se alegremente ao comandante de um Matilda que era, ostensivamente, seu prisioneiro. Vez por outra, aviões italianos da 5a Squadra atravessavam a escuridão da tempestade para ajudar no que podiam os seus compatriotas em terra; mas finalmente, pouco depois do meio-dia, os Leicesters, rompendo pelo perímetro sul, viram: “Um corpo formidável de homens saindo de suas trincheiras... como que um ataque em massa; mas eles saíram cambaleantes, com as mãos levantadas; 2000 Camisas Negras já estavam fartos”.
Vista do Q-G do General Gallina, comandante do Grupo Líbio em Sidi Barrani, a situação era desesperada. No dia 9 ele comunicou sua premonição de desastre a Graziani. “O território entre Sidi Barrani e a 2a Divisão Líbia está infestado por um exército mecanizado contra o qual não tenho meios adequados”. No dia 10, o abastecimento de água já fora cortado havia 24 horas; a tensão aumentava à medida que a evidência de um desastre por demais óbvio no sul era transmitida pelos sobreviventes que voltavam dificultosamente. Os britânicos não só bloquearam todos os caminhos para o sul e oeste, como também o ângulo acidental da posição de Sidi Barrani já estava em mãos hostis. Para o leste, a 1a Divisão Líbia, tendo abandonado Maktila durante a noite, estava paralisada e era hostilizada por forças britânicas que se reuniam a meio caminho de Sidi Barrani. Uma sensação de desespero começou a tomar conta de Gallina e dos homens da 4a Divisão dos Camisas Negras.
Agora, sensatez de O’Connor em enviar um oficial de estado-maior da 7a Divisão Blindada para o Q-G da 4a Divisão Indiana mostrava resultados. Com os Matildas reduzidos a 10 e quase no fim, mas com as unidades blindadas da 7a Divisão Blindada disponíveis e praticamente descansadas, a questão era apenas de simples desenvolvimento, ajudado por boas comunicações radiofônicas, para transferir o 6o RRT do oeste de Sidi Barrani, juntando-o à Força Selby no oeste e mandar o 2o RRT como ajuda adicional para a 4a Divisão Indiana. Entrementes, Beresford-Peirse, embora constrangido pelas pesadas perdas sofridas pela 16a Brigada, recebera uma vantagem inesperada com a rendição espontânea, às 07h30,