O Cerco de Leningrado
Em fins de 1941 o Presidium do Soviete Supremo instituiu uma medalha pela corajosa defesa de Leningrado. No dia mesmo em que tal medalha era instituída, 3.700 habitantes da cidade morriam de fome! Mas o pior estava para vir: a antiga São Petersburgo, capital dos czares, sofreria ainda 900 dias de fome.
A cidade heróica
Seja qual for o julgamento que a História venha a fazer da, para nós lamentável, experiência comunista, não há dúvida de que Leningrado e Stalingrado, cidades que levam os nomes dos mais famosos (ou infames) líderes comunistas, é que mais merecidamente simbolizaram o desafio a Hitler e a derrota do nazi-fascismo. Assim como Leningrado precedera Stalin, a cidade de Leningrado teve precedência sobre Stalingrado no processo de espantosa tribulação, que começou no inverno de 1941, a que Hitler submeteu os grandes centros russos.
As primeiras granadas alemãs caíram sobre a cidade de Leningrado a 1o de setembro de 1941; o anúncio da suspensão do bloqueio foi feito a 27 de janeiro de 1944, e a cidade ainda permaneceu cercada pelo inimigo por três semanas depois disso - de modo que o sítio durou 900 dias. Foi o sítio mais prolongado dos tempos modernos e por certo o mais violento de toda a História. Isto porque não só a moderna tecnologia desenvolveu muito o método do massacre, como também as ordens que deram aos sitiantes eram para arrasar a cidade inteira e aniquilar os seus habitantes, sem exceção.
Embora não estivessem muito bem a par das intenções de Hitler para com eles, os habitantes de Leningrado agiram, desde o momento em que perceberam o perigo, com admirável e mesmo espantosa unanimidade de propósito. Uma das grandes virtudes do emocionante e evocativo texto de Alan Wykes é que dele ressuma um pouco da maneira de ser do povo da capital setentrional, do seu espírito de independência, imposto por fatores adversos, como o inverno e a crônica e grosseira antipatia de Stalin.
Também ficou provado que eles tinham de depender de si próprios. Os dois primeiros meses do sítio foram bastante rigorosos, pois uma população de três milhões de almas devora diariamente espantosa quantidade de alimento - e toda a Rússia vacilava ao impacto do golpe desferido pelos alemães, com resultados cataclísmicos sobre todos os meios de comunicação e abastecimento. A 9 de novembro o terminal ferroviário de Tikhvin caiu em poder dos alemães e, como o autor narra tão vividamente, “eliminou toda e qualquer possibilidade de fazer chegar a Leningrado um grama sequer de alimento”.
Ninguém jamais saberá quantos leningradenses morreram naquele primeiro e terrível inverno, pois o ato de manter-se vivo era por demais pesado, não conseguindo os que a ele resistiram a energia necessária para a contagem dos mortos; bastava-lhes a certeza de que o frio que mata, impede também a decomposição dos corpos e a onda de doenças que dela decorre. A neve recobriria os corpos daqueles que morreram nas ruas, onde se manteriam sepultados até que a primavera trouxesse o degelo. Enquanto isso não se verificava, o importante era tentar suportar as armadilhas da morte.
Mas, para os que viram chegar o amanhã, os problemas diminuíram muito pouco durante os meses seguintes. Apesar da absorção gradativa, por parte dos exércitos vermelhos, dos golpes vibrados por Hitler; apesar da série de extraordinárias vitórias conquistadas pelas forças russas no sul, Leningrado, no norte, permaneceu sob o férreo domínio da Wehrmacht até muito depois de libertas grandes faixas de terra ocupadas pelo invasor. Somente muita determinação e a força de alguma coisa mais que o vigor físico poderiam ter conferido àquela gente meios para suportar tanta provação por tanto tempo.
“Eles estavam defendendo a cidade que Pedro construíra sobre os ossos dos seus ancestrais”, escreve Alan Wykes em merecido tributo à força por eles demonstrada, “e talvez isso lhes desse, sem que se possa explicar, a coragem que jamais lhes faltou”.
Os atacantes
Hitler promoveu-se a comandante supremo das Forças Armadas alemães a 4 de fevereiro de 1938. Assim fazendo, ele atendeu à sua irresistível megalomania, enfeixando nas mãos o controle dos assuntos civis, políticos e militares do Terceiro Reich. A prolongada batalha que travou para provar a seus generais que lhes era superior em habilidade terminara em triunfo. Para tanto, ele usou de tudo contra os seus opositores, desde o assassínio (no qual as SS eram os assassinos de aluguel) as falsas acusações de sodomia, como a que fez contra o comandante-chefe von Fritsch. O longo exercício da atividade golpista dirigida contra os inimigos pessoais e os que se opunham ao partido nazista serviu-lhe de treinamento em estratégia psicológica de que se utilizou proveitosamente no período que precedeu a Segunda Guerra Mundial.
Quando os Aliados declararam guerra a Hitler, a 3 de setembro de 1939, a estratégia por ele posta em prática, evitando abrir campanhas simultâneas nas frentes Oriental e Ocidental, foi bem sucedida. Embora inimigo declarado do comunismo, ele não podia dar-se ao luxo de combater a Rússia simultaneamente com os Aliados. O plano que havia traçado para o domínio da Europa previa inicialmente a derrota das potências ocidentais, por isso que o volume das forças que possuía e os planos que tinha preparado se limitavam àquele objetivo. Ele não tinha ilusões sobre os efetivos reais e a eficiência do exército vermelho, só teoricamente mais forte do que eram. De qualquer forma, uma campanha na frente Oriental envolveria o estabelecimento de linhas de comunicação imensamente longas sobre terrenos difíceis e em condições climáticas que reduziriam as chances de sucesso.
Para evitar tal campanha, ele astutamente fizera um Acordo Comercial e um Pacto de Não-Agressão com a Rússia em agosto de 1939. O Acordo Comercial; lhe garantiria matérias-primas em troca de equipamento industrial alemão, e o Pacto de Não-Agressão lhe renderia - assim esperava - a confiança do povo russo em suas intenções pacíficas. O povo russo depositava, provavelmente, tanta confiança no Pacto quanto a Inglaterra no “pedaço de papel” de Chamberlain; mas Molotov o assinara e Stalin o subscrevera e, naturalmente, ambos eram infalíveis. O Pravda abriu a boca oficial e murmurou sua aprovação. Estava garantida a paz entre os dois países por, no mínimo, dez anos. Estava também proibida aos dois signatários a vinculação a qualquer potência que pudesse abrigar objetivos antagônicos a qualquer dos dois, e prevista “consulta em questões de interesse comum”.
O verdadeiro valor do Pacto pode ser medido pela revelação que Hitler fez do seu objetivo final, em conferência com seus chefes militares, realizada a 22 de agosto de 1939 - no exato momento em que Ribbentrop retornava a Moscou para assinar o Pacto: “O Pacto, senhores, é apenas um meio de ganhar tempo... esmagaremos a União Soviética”. A revelação foi feita sem qualquer ênfase especial. A maioria dos oficiais presentes aceitou-a apenas como parte dos desígnios de Hitler de levar finalmente a Alemanha ao domínio do mundo, uma vez concluída vitoriosamente a guerra com as potências do Ocidente, porquanto todos concordavam em que era impossível brigar ao mesmo tempo nas duas frentes. No momento em que tal revelação foi feita, a Alemanha não havia sequer iniciado a tenebrosa jornada, embora Unidades da Caveira das SS já estivessem a caminho da Polônia para dar cumprimento à ordem de Hitler de “Matar sem piedade todos os homens, mulheres e crianças de raça ou língua polonesa”.
Pode-se dizer que esses acontecimentos tiveram os freios arrancados violentamente quando a Grã-Bretanha se viu compelida à declaração de guerra, a 3 de setembro de 1939. Passada uma quinzena, a Polônia ocidental foi ocupada pelos alemães, e a Polônia oriental pelos russos. A intenção de Hitler de destruir a nação polonesa já estava claramente demonstrada, despojada de qualquer pseudojustificativa, como “direitos territoriais”. Mas a Rússia necessitava de uma desculpa, para manter-se nos limites dos termos do Pacto, embora a intenção de seus dirigentes ao ocupar a Polônia oriental fosse dar uma demonstração de força, uma garantia contra possíveis - e aliás, prováveis - atos de agressão de Hitler.
Pretextaram os russos que a Polônia mergulhara no caos, que o governo se encontrava onde ninguém sabia e que os 11 milhões de ucranianos e russos brancos que viviam na Polônia precisavam de “cuidados e proteção”. Assim, os exércitos vermelho e alemão, no avanço que realizaram, dividiram em duas partes a Polônia, no sentido norte-sul, ocupando cada qual o pedaço que conseguiu dominar. A 28 de setembro, Molotov e Ribbentrop assinaram mais outro acordo, reforçando o Pacto. Para salvar as aparências, atiraram à face do mundo o absurdo de que a transa foi feita para evitar “a desintegração da Polônia”. O acordo foi assinado na fronteira, seguido de lauto jantar, após o qual “o Camarada Molotov e Herr von Ribbentrop fizeram discursos de boas-vindas”. A divisão da Polônia entre os dois grandes rapinantes estava consumada.
Trocando juras de imorredouro e mútuo afeto, Alemanha e Rússia saíram a apregoar, a primeira, desejos de paz, a segunda, absoluta neutralidade. Hitler ofereceu termos de paz à Grã-Bretanha e França a 8 de outubro, e Molotov disse, em 31 de outubro: “Nossas relações com a Alemanha melhoraram sensivelmente - somos neutros na luta da Alemanha contra a agressão britânica e francesa”. Exultante com a conquista praticamente sem luta da Polônia oriental, a Rússia começou a tentar obter ardilosamente “um pedaço” da Finlândia. Territorialmente, na verdade, tratava-se de uma pequena área na fronteira russo-finlandesa, à 32 km a noroeste de Leningrado. A obtenção do pedaço visado avançaria a fronteira da Rússia para o norte e lhe daria o porto marítimo de Hangö, onde instalaria uma base naval para proteger a passagem vital pelo Golfo da Finlândia até Leningrado. Nas várias semanas de negociações, os russos tentaram inclusive trocar grande parte do território da Carélia pela cidade de Hangö e uma faixa de menos de 160 km de largura ao longo da fronteira.
As negociações deram em nada. Houve um “incidente” de fronteira - provavelmente forjado - em fins de novembro e a Rússia ab-rogou o Pacto de Não-Agressão que tinha com a Finlândia e invadiu-lhe as fronteiras sem prévia declaração de guerra. Passados alguns dias, um governo-títere russo foi ali instalado e - segundo o Pravda - “Foi recebido com júbilo pelo povo finlandês”, mas os finlandeses jubilosos eram apenas os simpatizantes comunistas. O Feldmarechal Mannerheim reuniu em torno de si imensa maioria do povo com emocionante chamado para defender a integridade do solo pátrio. Tornou-se logo evidente que a concretização das exigências territoriais à Finlândia não seria nada fácil.
Durante três meses registrou-se violenta luta na qual as perdas russas, considerando-se a área de território conquistada, foram excepcionalmente grandes. Os finlandeses, protegidos pela “Linha Mannerheim”, e muito mais experientes que os russos no uso de esquis e na arte de camuflagem na neve, superavam-nos em mobilidade e artifício quando se pegavam em batalhas regulares, enquanto que as fortificações da “Linha Mannerheim” se mantinham inexpugnáveis diante dos bombardeios defeituosamente feitos pela artilharia russa. Impunha-se, desse modo, uma formulação de todo o planejamento. O ataque foi cancelado; explicações tranqüilizantes para o fracasso do invencível exército russo foram inventadas; o Alto Comando nomeou o Marechal Timoshenko Comandante-Chefe e, durante cinco semanas, foi ponderadamente planejado novo ataque à “Linha Mannerheim”.
Mesmo assim, quando ele começou - a 11 de fevereiro de 1940 - não houve vitória fácil. Grandes forças foram lançadas contra os finlandeses, que resistiam ferozmente, e só depois de 48.000 soldados russos mortos é que o Feldmarechal Mannerheim se rendeu. De Moscou, um grande brado de triunfo resoou pelo exterior. “Naturalmente, nossas condições para a paz são muito mais rigorosas à luz da retumbante vitória do que as oferecidas durante as negociações pacíficas; mas o povo finlandês, obrigado à resistência estúpida pelos sicários de Mannerheim, nada sofrerá. Que ninguém diga que o povo soviético não tem compaixão ou que a cupidez motiva as exigências que fez. A capital do país, que poderia ter sido tomada, permanece livre, assim como todas as regiões da Finlândia que não têm valor para a defesa da Rússia”. Ironicamente, ao apresentarem termos mais rigorosos, os russos também estavam preparando uma vara para surrar as próprias costas; mas, por enquanto a vara não seria usada.
O Tratado de Paz com a Finlândia foi assinado a 12 de março de 1940. No começo de abril os alemães invadiram a Noruega e Dinamarca e em princípios de maio sete divisões blindadas suas penetraram na França, e três na Bélgica e Holanda. A tristemente insignificante e mal armada F. E. Britânica, com suas linhas de comunicações muito extensas e com apenas uma esquadrilha de bombardeiros e uma de caças da RAF em seu apoio, foi obrigada a recuar para a costa, enquanto o exército francês se desintegrava gradualmente até que, a 14 de junho, o General Weygand anunciou não ser ele mais capaz de oferecer qualquer resistência organizada. A evacuação de Dunquerque começou a 24 de maio e a 17 de junho a França pediu armistício.
Com a queda da França e a aparente derrota da F. E. Britânica, Stalin considerou que a guerra no Ocidente estava praticamente terminada. Começavam a ver, os russos, sinais de perigo. Com ou sem pacto, não podia deixar de ser levada em conta a ameaça representada pela Alemanha, que perdera na campanha contra a França apenas a metade do que perdeu a Rússia na guerra relativamente pequena com a Finlândia. A Alemanha não estava exaurida: a guerra no Ocidente fora muito rápida, e os recursos com que contava o Alto Comando eram suficientemente grandes para que aquela guerra representasse mais que insignificantes mossa na máquina militar germânica. Stalin pôs a Rússia a trabalhar imediatamente, impondo uma semana de seis dias a todos os trabalhadores, a produção de material bélico foi acelerada e ao povo foi comunicado que “A situação internacional exige que fortaleçamos a defesa do nosso país e o poderio das nossas forças armadas a cada dia que passa”.
Mas, naturalmente, era preciso continuar as relações amistosas com a Alemanha, ainda que apenas de maneira superficial. Enquanto o exército vermelho era reorganizado e preparada a máquina de produção, havia, nas colunas do Pravda, freqüentes e ardorosas referências ao clima de concórdia existente entre as duas nações.
Contudo, a concórdia praticamente de nada adiantou, pois a 28 de junho tropas do exército vermelho ocuparam sem derramamento de sangue o estado Balcânico da Bessarábia, que era na realidade possessão romena desde 1920 - embora não fosse reconhecida como tal pelos russos. A ocupação era uma ameaça muito grande às fontes petrolíferas romenas para que a Alemanha não reagisse com alarma, e durante o restante do verão de 1940, enquanto mantinha as aparências de obediência ao Pacto Germano-Soviético, a Alemanha ocupou a Romênia e a Bulgária com tropas eufemisticamente chamadas de “missões militares” e depois invadiu abertamente a Iugoslávia e a Grécia.
Seguiram-se protestos russos contra a infiltração, com objetivo de posse, de forças alemãs nos Bálcãs. Ao invocarem os russos a cláusula do Pacto que exigia “consulta em questões de interesse comum”, Ribbentrop respondeu - não sem alguma justiça - que eram despiciendas as alegações soviéticas, pois com a ocupação da Bessarábia, os russos revogaram o Pacto.
Seguiram-se semanas de recriminações. O que é que as tropas alemães estavam fazendo na Finlândia? Por que os russos estavam mostrando o poderio do exército vermelho em todas as ocasiões possíveis? Por que os alemães manobravam no sentido de estabelecer aliança com a Itália e o Japão? E assim por diante. Mas a ferida continuou aberta até outubro, quando Molotov foi convidado a visitar Berlim, ostensivamente para discutir o colapso iminente do Império Britânico e a partilha dos despojos entre a Alemanha, Itália, Rússia e Japão. Em vista da incapacidade de a Luftwaffe derrotar a RAF na Batalha da Inglaterra, havia no ar muita dúvida de que viesse a ser o Império Britânico partilhado nessa época. De qualquer modo, Molotov estava interessadíssimo nos Bálcãs, e assim falou com rudeza nada diplomática a Hitler e Ribbentrop durante a reunião de Berlim, realizada em grande parte num abrigo antiaéreo, enquanto a RAF passava barulhentamente pelos céus da região. A atmosfera, que segundo o Pravda era “animada e amistosa”, na verdade foi frígida e provocou a famosa pergunta de Molotov: “Se vocês estão assim tão certos de que a Grã-Bretanha está derrotada, o que estão fazendo aqui neste abrigo?” A reunião terminou sem que se chegasse a um acordo, retornando Molotov a Moscou, a 14 de novembro de 1940.
A flagrante descortesia de Molotov para com Hitler teve amargo efeito sobre a megalomania do Führer. Ainda que tudo aconselhasse o adiamento da realização do desejo que tinha de esmagar a União Soviética, é de duvidar que ele tivesse tolerado mais um atraso após a reunião com Molotov e Berlim. Mas, na verdade, não havia necessidade de atraso. Seu objetivo fundamental em relação à Rússia, revelado quase que casualmente na conferência de 22 de agosto de 1939, recebera forma operacional numa sessão de planejamento secreto realizada em Bad Reichengall a 29 de julho de 1940. A França caíra e a Operação Leão-Marinho, plano para invadir a Inglaterra, fora abandonada devido à incapacidade de a Luftwaffe conquistar o domínio dos céus sobre a Inglaterra.
Era chegado o momento de cuidar da “ameaça da União Soviética”. A Inglaterra, mesmo que na realidade não tivesse sido reduzida a pó, podia ser posta de lado como inimigo eficiente, ao passo que a França, à parte alguma resistência simbólica oferecida pelo arrivista De Gaulle, estava completamente vencida. O ataque à Rússia ganhara conotação diferente de desvio perigoso de tropas para uma segunda frente. Fazia-se necessário apenas elaborar um plano minucioso para a invasão. As linhas gerais do plano, denominado Operação estrutura Leste, foram traçadas em Bad Reichengall e entregues ao Alto Comando para elaboração, recebendo aí o novo codinome - Barbarossa.
O nome era característico da fixação insana de Hitler nas lendas teutônicas. Barbarossa - quer dizer Barba Ruiva - era o patronímico de Frederico I, o rei da Alemanha no século XIII. Ele morreu em 1190 e foi sepultado numa caverna, na Turíngia, com seus cavaleiros. A lenda diz que ele está sentado a uma mesa de pedra, esperando para despertar do seu sono terreno - o que acontecerá quando sua barba tiver crescido suficientemente para dar três voltas completas pela mesa. Ele então libertaria a Alemanha da escravidão e a conduziria à conquista do mundo. Lendas idênticas estão ligadas a Mansur, o sacerdote muçulmano, Artur da Távola Redonda, Desmond de Limerick e D. Sebastião de Portugal, todos aparentemente dependendo das suas barbas para retornar à vida e conduzir seus países à dominância. Evidentemente, esses conquistadores se empenharão numa refrega, se suas barbas completarem as voltas à mesa ao mesmo tempo.
Desnecessário dizer que o povo russo fora completamente tranqüilizado quanto ao sucesso da reunião de Berlim, em novembro. Nos dias 13, 14 e 15, o Pravda não falou de outra coisa. Sem dúvida nunca foi publicada tanta besteira sobre atmosferas de cordialidade, importância política, recepções festivas, multidões entusiasmadas e despedidas calorosas; raramente foram tão otimistas as verdadeiras causas de uma reunião. As notícias do fracasso de Molotov em obter qualquer explicação de Hitler sobre a ocupação dos Bálcãs ocidentais por tropas alemães eram perturbadoras demais para ser divulgadas. O mês de dezembro passou e 1941 começou com os jornais estampando freqüentes e ardorosas referências à confiança que o Camarada Stalin depositava no futuro. A 11 de janeiro de 1941, o Pravda anunciou alegremente a assinatura de um amplo Acordo Comercial Germano-Soviético. “Ele estabelece um volume muito maior de comércio do que o realizado no período anterior. A URSS. enviará matérias-primas industriais, produtos petrolíferos e alimentos, particularmente cereais. A Alemanha nos enviará equipamento industrial. O acordo representa um grande passo à frente”. Na verdade representou - para os alemães, que sem dúvida acharam muito satisfatório armazenar cobre, manganês, cromo, madeira, petróleo e algodão russos que em breve seriam usados na Operação Barbarossa. O equipamento industrial que devia ser enviado em troca parece que jamais chegou a ser entregue.
Durante os meses seguintes, a situação na Rússia foi obscurecida pela atitude misteriosamente ambivalente de Stalin. Alexander Werth, em Rússia at War, diz que Stalin deixou claro, numa recepção, realizada no Kremlin, oferecida aos oficiais recém-graduados do exército, que “não se pode ignorar a possibilidade de sermos atacados em futuro próximo pela Alemanha”, que o exército vermelho estava mal equipado para enfrentar tal ataque e que se deveria utilizar todos os meios diplomáticos possíveis para adiar o ataque até 1942. Isto foi a 5 de maio de 1941. A 14 de junho, ele despachou um comunicado negando que a Alemanha tivesse feito quaisquer exigências a URSS, que aquele país estava “cumprindo corretamente as condições do Pacto de Não-Agressão Germano-Soviético”, que os movimentos de tropas alemãs nos Bálcãs não tinham qualquer importância para as relações entre os dois países, e que os amplos movimentos de tropas russas que se estavam verificando destinavam-se unicamente a treinamento. Esse comunicado destinava-se indubitavelmente a acalmar a Alemanha e a adiar o ataque. Evidente que ele não consegue qualquer efeito. O gatilho da Operação Barbarossa foi apertado às 03:00h de 22 de junho e as tropas alemãs reunidas ao longo da fronteira deram início ao ataque. Às 05:30h, o Conde Werner von der Schulenburg, embaixador da Alemanha em Moscou, compareceu ao gabinete de Molotov para comunicar-lhe que seu país decidira atacar a Rússia por causa da concentração de tropas soviéticas ao longo da fronteira. Era o método alemão familiar: guerra sem ultimato, sem declaração prévia, sem justificativa razoável.
Os três feldmarechais que dirigiam a invasão eram Ritter von Leeb, no norte, Feodor von Bock, no centro, e Gerd von Rundstedt, no sul. Cada qual tinha um Grupo de Exércitos sob seu comando, e o Grupo de Exércitos Norte, de von Leeb, recebeu “a tarefa de destruir as forças inimigas que lutavam na área do Báltico e privar a esquadra soviética das suas bases através da ocupação dos portos do Báltico e, posteriormente, pela eliminação de Leningrado e Kronstadt. Para cumprir tal tarefa, o Grupo de Exércitos Norte penetrará a frente inimiga com seu peso principal na direção de Dünaburg e avançará sua poderosa ala direita de tropas motorizadas para cruzar o Duna o mais depressa possível e penetrar a área a nordeste de Opochka, com o objetivo de impedir a retirada de forças inimigas da área do Báltico para o leste e criar o requisito prévio para outro avanço rápido na direção de Leningrado”.
Para realizar isso, von Leeb dispunha de meio milhão de homens, em 30 divisões seis delas blindadas e motorizadas - e uma esquadra aérea de 430 aviões. “Leningrado e Moscou têm se ser arrasadas e tornadas inabitáveis”, disse-lhe Hitler. “Do contrário, a população terá de ser alimentada no inverno. A força aérea as arrasará. Os ninhos de bolchevismo têm de ser destruídos. Isto será um desastre nacional para os russos”. Von Leeb respondeu que obrigaria Leningrado a render-se até 21 de julho. “No que me toca, Führer, Leningrado já é uma cidade de morte e desespero”.
As ordens emanadas do gabinete de Hitler não previam qualquer espécie de sítio. Os sítios não funcionam bem com os modernos métodos de guerra. Na verdade, o sítio em sua forma original, como um ataque direto contra as portas de uma cidade com aríetes e outros engenhos de força rompedora, começou a perder eficiência quando se tornou possível disparar mísseis por sobre as muralhas. A outra forma de sítio, pela qual os defensores se uma cidade, de um prédio, ou mesmo de um país inteiro, são levados à rendição pela fome, continuou sendo útil por muito tempo. Mas pode transformar-se numa prolongada e dispendiosa forma de levar à lona o inimigo, pois o sucesso não é inevitável; o espírito humano muitas vezes permanece inquebrantável, apesar da fome do corpo. O bombardeio aéreo e de artilharia normalmente é mais rápido e mais barato; mas exige condições que o tornem possível. Quando essas condições não predominam, o espectro da fome, pelo menos, reveste sempre a figura lúgubre do emissário do atacante que não logrou vencer os defensores pelo massacre rápido promovido pelos canhões e aviões. Na história da guerra há inúmeros exemplos de cerco deste tipo, aplicados como recurso extremo. Muitos deles funcionaram, muitos, porém, fracassaram. O sítio de Leningrado fracassaria.
A cidadela
Pedro, o Grande, homem de inexcedível coragem e determinação, fundou a cidade em 1703. Na época, ele estava em guerra com os suecos, para arrancar-lhes o domínio do Báltico e, ao construir a cidade, era seu desejo livrar a Rússia das tradições orientais, nela implantando os métodos industriais europeus. Viajara muito para satisfazer a curiosidade insaciável, passando muito tempo na Inglaterra e na Holanda, onde estudou construção naval e navegação e absorveu alegremente a ambiência da cultura ocidental; era dotado de enorme conhecimento prático e cultura, pois trabalhou incógnito em estaleiros, oficinas, na indústria de construção e instituições várias, assimilando tudo quanto ambicionava aprender. Quando retornou, em 1698, levou consigo cerca de quinhentos médicos, engenheiros, astrônomos, artífices, artilheiros e artesãos de todos os tipos para instruir seu povo.
Dois anos depois, em 1700, ele aliou-se aos reis da Polônia e Dinamarca e desfechou um ataque à Suécia, sendo um dos seus primeiros objetivos parte do território sueco de Íngria, “Onde erguerei uma cidade que será a janela da Rússia para a Europa”. Não lhe foi difícil apoderar-se da aldeia ali existente, onde havia um velho forte sueco. Com a construção da cidade deu-se, entretanto, coisa muito diferente.
A escolha daquele local foi influenciada por motivos de ordem militar, posto que, dominando o Golfo da Finlândia, dispunha de boa situação para opor-se a qualquer ataque marítimo; esteticamente, a escolha deveu-se ao desejo do fundador de construir uma cidade onde, como em Veneza, predominasse o elemento líquido, e água, certamente, é o que ali não falta, por ser onde se localiza o delta do Neva. O rio divide-se em três, pouco antes de desembocar no Golfo; o terreno é baixo e há em abundância pântanos, lagos e cursos de água. No inverno, tudo isso congela totalmente, e o degelo da primavera traz consigo imensas enchentes. Nada disso, entretanto, desencorajou Pedro. Seus engenheiros e arquitetos, num rasgo de visão criadora, informaram que a cidade teria de ser construída sobre estacas enterradas profundamente nos pântanos. Milhares de camponeses foram levados para a Íngria (a região circunvizinha) e postos a trabalhar - talvez a expressão justa seja “foram forçados a trabalhar como escravos”. E trabalharam como os construtores de túmulos do Egito. Os blocos de pedra eram transportados, de pedreiras situadas a centenas de quilômetros de distância, em pequenas embarcações desde a foz do Neva, porque um banco de areia impedia a entrada de navios no rio. Quilômetros de florestas que orlavam os pântanos e se estendiam para o leste tiveram de ser derrubados. Pontes provisórias e pontes flutuantes tiveram de ser construídas sobre os alagados e tributários e as estacas foram enterradas profundamente na lama. Um autor contemporâneo disse que “Os ossos dos servos que morreram de exaustão são as fundações da cidade de Pedro”. E disse a verdade. Os trabalhadores, obrigados a jornadas excessivamente penosas, morreriam às centenas nos invernos rigorosos; mas se é verdade que seus ossos foram incluídos nas fundações da cidade de Pedro, é igualmente verdadeiro que a antiga memória do suplício a que foram submetidos esses homens foi incluída nas fundações do bolchevismo.
A cidade era realmente bela. A velha cidadela e a nova catedral formavam o seu coração, e as avenidas e bulevares foram abertos concentricamente em torno delas. Pontes, torres, galerias e igrejas erguiam-se majestosamente dos pântanos, colunatas e obeliscos davam-lhe elegância, as fachadas de mármore dos palácios brilhavam à luz do norte. Pedro chamou-lhe São Petersburgo - A Cidade de São Pedro - e disse: “Sou Imperador duma nova capital da Rússia”. Quando o escritor francês Diderot lá esteve, em 1774, comentou secamente: “Uma capital na fronteira de um país é como um coração na ponta de um dedo ou um estômago no calcanhar”, e este comentário sobre a vulnerabilidade da cidade se mostraria perfeitamente verdadeiro. Mas São Petersburgo tornou-se famosa por sua beleza. “A magnificência de todas as cidades da Europa não se iguala a de São Petersburgo”, disse Voltaire, mas acrescentou sotto você, “embora o local onde foi construída sirva melhor para covil de lobos e ursos do que para morada de homens”.
Talvez fosse inevitável, mas, não obstante, chega a ser irônico que a capital da Rússia czarista viesse a tornar-se o berço da revolução de 1917. pelo fim daquele ano, seu nome evocativo foi castrado para Petrogrado – o patriotismo guerreiro dera-se conta de que o nome São Petersburgo era de formação germânica: Petrogrado (Cidade de Pedro) era denominação puramente russa. Sua importância fora diminuída pela mudança do governo bolchevista para Moscou em 1918. Com o completo desaparecimento do regime czarista e com a morte de Lenine, em 1924, a cidade passou a chamar-se Leningrado e teve sua importância restabelecida - embora como cidade industrial. Mas suas indústrias eram sobretudo de papel, gráfica, de roupas, madeireira, de pesca, curtumes, de vidro, de sabão e produtos químicos. A cidade nunca fora e nunca se tornaria auto-suficiente; o carvão, o óleo, a lenha e a maior parte do alimento ali consumido tinham de ser trazidos por mar e ferrovia e, nos longos invernos, seus 3 milhões de habitantes usavam lenha no aquecimento das casas.
Quando a guerra contra a Finlândia começou, em 1939, a cidade, estando na linha de frente, foi imediatamente posta na defensiva. Deu-se prioridade aos movimentos de tropas e ao abastecimento dessa gente. Desse modo, a população civil da cidade começou a enfrentar dificuldades para obter alimento. Tendo-se desencantado os leningradenses com a liderança e a proclamada invencibilidade do exército vermelho, o moral do povo caiu muito. Nada abate tanto o moral da população do que as filas para a obtenção de alimentos que podem ou não ser distribuídos, enquanto em casa o rádio grita elogios à liderança do Comintern e de um exército que, na verdade, sofre derrotas e perdas de homens em grande quantidade diante de forças bem menos volumosas, mas bem melhor dirigidas.
Vingativamente, os leningradenses escamotearam alimento e prejudicaram o sistema de racionamento e, embora não fossem ativamente hostis à administração da cidade, estavam muito longe de ser cooperativos. Quando os finlandeses foram derrotados, em março de 1940, cerca de 50.000 habitantes da cidade haviam morrido, os estoques de alimentos e de combustíveis estavam perigosamente reduzidos, enquanto os órgãos de assistência médica que os líderes e oficiais locais do partido tentavam fazer funcionar permaneciam emperrados em virtude dos ressentimentos e da indiferença que a todos contagiaram. A pergunta que Molotov fez a Hitler – “Se a Grã-Bretanha está derrotada, o que estamos fazendo neste abrigo?”- tinha o mesmo sabor da que os leningradenses, entre o fim da guerra com a Finlândia e o começo da invasão alemã, fizeram: “Se as relações germano-soviéticas são tão firmemente cimentadas em amizade, por que nos apressarmos em fazer cursos intensivos de defesa civil e em nos entrincheirar?”A pergunta era provocada pelo cansaço diante de tanto cinismo demonstrado pela liderança política, o que agradou imensamente a Hitler, que foi informado disso pelo Serviço de Inteligência.
A meio-dia de 22 de junho de 1941, Leningrado ouviu a primeira comunicação oficial da invasão. Molotov falou:
“Esta manhã, sem prévia declaração de guerra e sem qualquer exigência feita à União Soviética, tropas alemães atacaram nosso país e bombardearam, pelo ar, Zhitomir, Kiev, Sebastopol, Kaunas e outros lugares. Há mais de 200 mil mortos e feridos. Idênticos ataques aéreos e de artilharia também foram feitos de áreas da Romênia e da Finlândia”. E prosseguiu falando de perfídia, de escravização, de esmagamento do inimigo etc. - palavrório convencional que o povo deve ter recebido com estupefação, pois até uma semana antes fora informado oficialmente de que a Alemanha era um país amigo e que não guardava ressentimentos contra o povo russo e ambições sobre território soviético (independente da evidência). Especialmente em Leningrado, a 800 km da fronteira, onde não houve pânico e, até então, nenhuma baixa, mas onde os meses que medearam entre o fim da guerra com a Finlândia e a invasão haviam revelado provas muito claras de despreparo e vacilação.
Contudo, a hora não comportava recriminações. Deveria ter sido o momento para o líder despertar a imaginação do povo. Mas Stalin permaneceu inexplicavelmente silencioso por quase duas semanas. Os leningradenses não esperaram que lhes despertassem a imaginação: seu instinto de conservação supriu a falta da orientação que os líderes lhes deviam fornecer. Correram aos centros de mobilização, e foram envolvidos na confusão que ali reinava, por puro despreparo. O Soviete Supremo havia decretado mobilização geral e estado de sítio, mas o Soviete da Cidade de Leningrado é que devia incumbir-se dos detalhes locais, o que demorou cinco dias, pois só a 27 de junho é que o esquema de mobilização do povo e de ampliação das defesas da cidade começou a funcionar. Durante esses cinco dias, muita comida foi guardada - como era fatal acontecer com um povo que sabia por experiência própria até onde os estoques de víveres se tinham reduzido, pois experimentara privações determinadas pelas prioridades militares.
A administração cuidou do aprovisionamento num decreto de 27 de junho, que previa pena muito severa para aquele que transgredisse as suas disposições. E os leningradenses passaram imediatamente à defesa da cidade. E foi bem a tempo.
O avanço
O registro feito por defensores de qualquer praça pegados de surpresa é sempre confuso demais para que se possa tirar algum sentido histórico dele. Os russos não tiveram tempo de levá-lo a efeito no dia em que os alemães os atacaram, e quando houve oportunidade para isto, muitos dos que poderiam tê-lo feito estavam mortos. Alan Clark, em seu livro Barbarossa, diz: “Os guardas da fronteira, despertados pelo ruído das lagartas dos tanques, eram mortos quando deixavam apressadamente, seminus, os alojamentos”. Os documentos e registros existentes a respeito do que se teria passado naqueles momentos falam de tanto pânico e desordem que qualquer análise se torna impossível. Não que a análise seja particularmente necessária. Uma sinopse atende bem a nossa curiosidade. E a apresentação dos fatos, por mais resumida, não poderia deixar de ressaltar a força do golpe vibrado contra uma defesa completamente descoordenada.
No norte, onde o 16o, o 18o Exércitos e o 4o Exércitos Panzer, de von Leeb, estavam encarregados de capturar Leningrado e Moscou, houve, por exemplo, ataques de contenção impossível, como aqueles em que duas divisões de infantaria e três de tanques alemãs foram lançadas contra uma única divisão russa de fuzileiros - e isto numa frente de apenas 40 km. A Luftwaffe, em apoio, metralhou e bombardeou até a destruição final toda a força aérea soviética no ocidente antes mesmo que os aviões que a compunham pudessem levantar vôo (seu comandante, general Rychagor, foi submetido a conselho de guerra e condenado à morte, considerado que foi ineficiente). E, naturalmente, as estradas estavam entupidas de gente que recuava das cidades fronteiriças. Em muitos casos, ela desviou o curso de forças soviéticas, levando-as para armadilhas preparadas pelos invasores. Estes, naturalmente, não observavam detalhes como desvios de rumo por causa dos refugiados civis; eles simplesmente os metralhavam e iam em frente.
Às 07:00h Hitler declarou o seguinte ao povo alemão, pela boca de seu chefe de propaganda, Goebbels: “Povo alemão! Condenado a meses de silêncio, posso agora falar livremente. Teve hoje início uma marcha que se compara, por sua extensão, à maior que o mundo já tenha visto. Decidi hoje, uma vez mais, depositar nas mãos de nossos soldados os destinos do Terceiro Reich. Que Deus nos ajude, especialmente nessa luta”.
A julgar pelo exame da frente de batalha no final de 22 de junho, não havia muita necessidade da ajuda de Deus. De um extremo a outro da linha de invasão, os três Grupos de Exércitos alemães haviam avançado praticamente sem obstáculos. Registraram-se tentativas corajosas, feitas por comandantes soviéticos, de resistir firmemente, de desfechar contra-ataques e de deslocar a esquadra aérea soviética sediada na Rússia Central para substituir a que fora destruída antes que pudesse decolar. Mas todos os esforços por eles feitos frustraram-se pela confusão reinante, pelos efetivos colossais dos invasores, pelo brilhantismo da estratégia que puseram em prática e, sobretudo, pela desorientação de Stalin, aparentemente ainda vivendo no paraíso de trouxas criado pelos Pactos de Não-Agressão, que havia ordenado que não se dirigisse fogo de artilharia contra o inimigo e que os aviões soviéticos limitassem suas atividades a “reconhecimento aéreo a 56 km da fronteira inimiga”.
Há registros de indiscutível autenticidade que provam que alguns comandantes russos não foram surpreendidos pela invasão, como a história oficial russa quer dar a entender. Eles são citados em Rússia at War, de Werth. Mas, conhecer os fatos é uma coisa, e portar-se com acerto diante deles é outra muito diferente. Os informes do Serviço de Inteligência, que diziam que tropas alemãs se agrupavam ao longo da fronteira, a partir de abril, chegavam a Stalin através da cadeia de comando, e eram ignorados ou considerados perigosamente subversivos.
Essa indiferença e a incapacitação dela decorrente contribuíram muito para os grandes sucessos iniciais dos invasores. Passada uma semana, a defesa da fronteira russa havia sido superada. No norte, para deter o avanço para Leningrado, o General Pavlov tentou, em desespero de causa, parar os Grupos Panzer de von Leeb com canhões que nem sequer tinham munição perfuradora de blindagem. Nos pânicos esforços que fez com tal objetivo, lançou em batalha, como o mais inexperiente estudioso de estratégia militar podia ver facilmente, unidades e unidades sem a menor possibilidade de recuperar um centímetro sequer do terreno perdido, e que todos iam para a morte certa, sem se darem conta disso, provavelmente movidos mais pela idéia de salvar a pele que pelo ato consciente de cometer ação heróica. De nada, porém, lhe valeu tanto esforço, tanto sacrifício. Como Rychagor, ele foi fuzilado por incompetência.
Pelo fim de junho, o grupo de Exércitos Norte chegara à linha do Rio Duna, a um terço do caminho para Leningrado, onde se reagrupou. Uma semana depois, ele havia avançado até a chamada “Linha Stalin”- uma série de fortificações inadequadas que iam desde Pskov, na extremidade sul do Lago Peipus, até Odessa. A “Linha” foi rompida com muita facilidade e a 8 de julho os alemães do grupo de Exércitos Norte capturaram Pskov. Só faltavam 230 km para chegarem a Leningrado. Envaidecidos com o sucesso, eles pararam para respirar. Seus feitos eram extraordinários: em duas semanas, haviam ocupado, com perdas relativamente insignificantes, uma área incrivelmente grande da Rússia Ocidental. No dia do aniversário do Chefe de Estado-Maior, 30 de junho, o Führer os visitou e eles ouviram sua arenga sobre o futuro império alemão, enquanto comiam morangos com creme numa mansão outrora pertencente a um latifundiário russo e que era extravagantemente decorada com coroas de louros e rosas vermelhas. A área por eles dominada estava juncada de cadáveres de russos. Aparentemente, eles tinham toda razão de contar com os ovos antes de a galinha pô-los.
Mas a 3 de julho Stalin, finalmente, rompera o silêncio em que se fechara. Dirigindo-se ao povo na tarde daquele dia classificou de “pérfido” o ato cometido pela Alemanha nazista. Resmungou, em aparente inocência, sobre o disposto no Pacto de Não-Agressão assinado, nomeou algumas das imensas áreas agora em Mãos alemães (“...Lituânia, parte da Ucrânia, Letônia, parte da Rússia Branca...”), falou dos planos de Hitler de transformar os russos em “escravos dos príncipes e barões alemães”, agradecer à Grã-Bretanha por se colocar ao lado da União Soviética (Churchill ficara do lado de Stalin na noite de 22 de junho) e terminou o preâmbulo da sua transmissão com uma frase significativa de grande atenuação da verdade: “Uma séria ameaça paira sobre nosso país”.
Ele passou então a pronunciamentos mais emocionantes, inclusive à sua famosa instrução sobre a política de “terra arrasada”. O discurso foi breve, hesitante, feito em tom baixo, e nada retórico; ele o iniciara com as palavras: “Camaradas, cidadãos, irmãos e irmãs... Eu lhes estou falando, meus amigos!” o que prendeu a atenção do povo e fez que desaparecesse de sobre ele a sombra dos expurgos dos anos 30 - que, de certo modo, produziu tanto terror na Rússia quanto Hitler inspirou na Alemanha - transformando-o num líder aceitável. Embora pareça insípido e cheio de chavões, evidentemente era o discurso certo para o momento certo. Poder-se-ia dizer que as sementes da vitória germinaram na “terra arrasada”.
Os comandantes alemães, brindando seu Führer e fazendo uma pausa enquanto reagrupavam suas forças para um avanço napoleônico para leste, na direção de Leningrado e Moscou, e “para esmagar os ninhos do Bolchevismo”, tiveram o destino selado a partir do momento da transmissão radiofônica de Stalin. Seria fútil pretender que apenas isso pudesse ter mudado a situação; mas não há dúvida de que a palavra de Stalin foi o eixo em torno do qual girou a primeira crise dos exércitos alemães.
O esboço original da Barbarossa era direto e simples: “Destruir o grosso do Exército Soviético localizado na Rússia Ocidental por meio de penetrações profundas feitas por pontas-de-lança blindadas; impedir a retirada de elementos aptos para combate para o interior russo.
A segunda parte do plano era mais importante. Os outros invasores da Rússia, Carlos XII, da Suécia, e Napoleão, tinham descoberto, em detrimento seu, que as grandes distâncias implicadas na perseguição ao exército russo para o leste e o estiramento de suas linhas de comunicação, tornavam impossível uma rápida ocupação da Rússia. O país era grande demais. Sempre havia, mais para leste, algum lugar para onde recuar e de onde revidar. A campanha de Napoleão, de 1812, provou isso. Clausewitz, o teórico da guerra, que lá estivera, disse que a única medida capaz de solucionar o problema da guerra na Rússia era a completa destruição das forças defensoras por meio de cerco e bombardeio, regimento por regimento. Logo, a Diretiva de Hitler, de “impedir a retirada para o interior dos elementos aptos para batalha”, estava de acordo com Clausewitz.
Mas seus comandantes não haviam executado isto. Há evidências de que não quiseram fazê-lo, de que eram totalmente favoráveis à ocupação triunfal de Leningrado e Moscou - depois do que, segundo supunham, toda a Rússia se deitaria a seus pés. As forças russas responsáveis pela defesa da frente ocidental do país sumiram diante da carga dos atacantes. É possível, embora praticamente improvável, que fosse deliberada a desorganização demonstrada pelos russos, assim como a maneira visivelmente errada com que Stalin tratou toda a situação militar antes de 22 de junho fora um truque sutil para atrair o inimigo. A verdade, no entanto, é que os alemães não impediram a retirada para o interior de elementos aptos para batalha”.
Von Leeb , von Bock e von Rundstedt por certo sabiam que o exército vermelho era muito mais forte no papel do que de fato (embora fosse enorme, do ponto de vista de quantidade, e seu equipamento era em grande parte obsoleto), mas também haviam subestimado o seu poder de recuperação. A exultação, o fletir de músculos quando nos umbrais da conquista completa deveriam ter sido um pouco mais moderados: assim, eles não teriam parecido tão tolos mais tarde. Eles se teriam livrado das conseqüências das diatribes do seu Führer, que se não estivesse com tanta pressa em obter vitórias políticas e geográficas da importância de Leningrado e Moscou poderia ter-lhes permitido executar a doutrina clausewitziana tal como ordenara.
Contudo, o próprio Hitler vacilava entre o que aconselhavam seus generais e a ânsia de que as forças russas ainda existentes a oeste da linha que ia de Narva até o Mar Vermelho fossem completamente aniquiladas antes que seus exércitos rumassem mais para leste. Na diretiva 53, ordenava ele especificamente que os 5o, 6o e 12o Exércitos - que se mostravam espantosamente resistentes, apesar das imensas perdas e contínuas retiradas - deveriam ser dizimados antes do prosseguimento do avanço para Leningrado. Estabelecia também a Diretiva que o grupo de Exércitos Centro lançasse sua infantaria na direção de Moscou. Como esses dois movimentos estavam inextricavelmente ligados, devido à disposição das forças que os deveriam executar, a Diretiva era um tanto ambivalente. Era também uma espada de dois gumes, porque, se qualquer dos elementos contraditórios contidos na diretiva saísse errado, o golpe poderia virar-se contra os golpeadores.
De qualquer modo, o problema, como diz Alan Clark, em Barbarossa, “era de esboço simples, mas muito complexo e ardiloso em substância”. Prosseguia a diretiva: “Após os primeiros sucessos, a Wehrmacht estava perdendo impulso, devido, em parte, à questão de suprimento. Alimento e munição, serviços auxiliares, manutenção de maquinaria, tudo isso foi-se tornando gradativamente mais difícil à medida que a frente se ampliava e as divisões se abriam em leque. Os detalhes do plano... já tinham sido superados, e a dispersão dos exércitos aumentava à medida que penetravam mais profundamente ao longo do eixo prescrito para cada um deles, evitando resistência e explorando as debilidades do adversário. Muito distanciados do QG, os comandantes-de-exércitos e comandantes-de-divisão agiam cada vez mais por iniciativa própria, travando, alguns, variadas ações locais, embora sem a necessária coordenação, nas profundezas da retaguarda russa, enquanto colegas seus, por menos móveis e menos afoitos, permaneciam pacientemente nos cercos em torno das partes do exército soviético que haviam sido isoladas”.
O avanço Rússia adentro prosseguiu - ainda que mais lento e contra resistência exasperantemente crescente. Com freqüência, as linhas de comunicação alemãs eram cortadas por efeito da reação de tropas soviéticas surpreendentemente grandes. Os próprios alemães, que vinham promovendo cercos e destruição de tropas russas, passaram a ser cercados também durante todo o tempo e também destruídos, por atividades guerrilheiras desenvolvidas na retaguarda de suas unidades facilitadas pelas difíceis condições do terreno que os alemães enfrentavam. Chegara ao fim a parte mais fácil da incursão pela Rússia. Os alemães teriam de mudar de marcha, mudar de tática, mudar de ponto de vista sobre o conceito da Barbarossa. Era de preocupar.
Os defensores
Os defensores da cidade de Leningrado nada sabiam dos objetivos da Barbarossa, originais ou modificados. Sentiam que a intenção do inimigo era ocupar ou arrasar a cidade, ao mesmo tempo que eram envolvidos pela confusão administrativa que ameaçava generalizar-se. Eram martelados pela propaganda, humilhados por referências publicamente feitas à não cometida traição de terem deixado de atender na devida oportunidade ao chamado oficial, aturdidos por ordens conflitantes, exaustos de tanto trabalho, isolados de suas famílias, e até da transmissão radiofônica de Stalin, sentindo, enfim, todo o efeito do despreparo em que se encontravam.
Também estavam a braços com as dificuldades criadas com a chegada dos que fugiam dos pontos já batidos pelo invasor, carentes de abrigo, de alimento, já escasso para os habitantes da cidade, de socorros médicos, etc. Leningrado seria ocupada, arrasada ou sitiada. Gradativamente, com o passar de junho, julho e agosto, estas muitas dificuldades isoladas se fundiram nas emoções dos que ali viviam, numa única preocupação: sobreviver.
A 22 de junho, imediatamente após a transmissão, feita por Molotov, da chocante notícia da invasão, o Presídio do Soviete Supremo ordenou a mobilização geral e proclamou a Lei Marcial em todas as cidades. Por conseguinte, o Tenente-General M. M. Popov, comandante da guarnição de Leningrado, tornou-se, pelo menos teoricamente, o senhor, o árbitro de todas as decisões a serem ali tomadas. Na prática, porém, o general trabalhava ligado ao secretário do comitê do partido da cidade, A. A. Zhdanov, e com o Presidente do Soviete da cidade (isto é, do Conselho), P. Popkov.
Contudo, as ordens administrativas desses três camaradas foram vetadas pelo presídio; em Moscou, onde não escapavam aos olhos de Stalin, que freqüentemente as revogava ou alterava de acordo com as teorias vigentes no órgão de coordenação; como, por exemplo, quando ele adiou (mas finalmente permitiu) a produção de garrafas para coquetéis Molotov alegando que a fábrica que as produzia “estava servindo melhor nossos irmãos e irmãs” continuando a fazer vasilhames para acondicionar “brandy” de baunilha. Mas, como não havia “brandy” de baunilha para engarrafar, esta decisão era até ridícula.
Durante alguns dias, após 22 de junho, os efeitos dos decretos de Moscou foram mínimos. Popov parecia não saber como aplicar a lei marcial. Somente depois que a primeira ordem do comandante da guarnição de Moscou foi publicada (o que se verificou três dias após o início da invasão) é que Popov a copiou literalmente, aplicando-a a Leningrado, onde entraria em vigor no dia 29. A ordem impunha toque de recolher da meia-noite às 04:00 h, limitava o período de funcionamento de restaurantes e lugares de diversão e fixava as horas para o começo do trabalho - que não diferiam das horas normais. É possível que o atraso verificado na aplicação da medida e a sua brandura tivessem apenas o objetivo de evitar o pânico. Se assim era, os leningradenses não permaneceram acalmados durante muito tempo, embora não se possa dizer que tivessem entrado em pânico. Ordens começaram a chover sobre eles. As provindas de Moscou, esclarecendo-os sobre como proceder diante da situação, freqüentemente se chocavam com as emanadas de Popov, Popkov e Zhdanov.
Simultaneamente com a palrice marcial de Popov, a 27, o Soviete da cidade mobilizou “toda a população da cidade para o trabalho de defesa”. Depois de especificadas as obrigações do povo, passaram a dar as exceções - mulheres grávidas, doentes, os que já estava no trabalho de defesa e os que se encontravam fora dos limites de 15 a 50 anos. Nesse mesmo dia, porém, o comitê do partido chamou 200 mil homens para formar um exército popular a ser recrutado imediatamente e, com apenas algumas horas de treinamento, despachado para a frente de batalha. Estes eram apenas duas das muitas ordens que faziam exigências conflitantes a uma população já de si não muito elástica, por mais ansiosa que estivesse em mostrar-se grata aos patrões e evitar o que era eufemisticamente chamado de “privação da liberdade”. Pouco depois foi determinado o recrutamento de 15 mil guerrilheiros para operar atrás das linhas alemãs e para duplicar a força da Defesa Civil da cidade, então com 14 mil homens.
Era tudo tão confuso, que nos primeiros dias da invasão, enquanto os alemães ainda se encontravam a quilômetros de Leningrado e o serviço de informações enchia o ar de contraditórias notícias sobre as atividades do exército vermelho, os leningradenses preferiam obedecer ao comando que no seu entender melhor lhes servia - assim como sucedeu na Inglaterra, quando muitos correram a ingressar na Guarda Nacional, tentar fazer com que seus empregos fossem rotulados como “ocupação reservada’, tornarem-se executivos da Defesa Civil, ou, de uma forma ou de outra, ingressar no que consideravam ser ninhos bem protegidos - erroneamente, como verificaram mais tarde.
A série de medidas conflitantes era um sintoma da inquietação que ia pela alta direção do país. Kruschev admitiu isso após a guerra. “Nosso serviço de divulgação e nosso trabalho político-educacional eram caracterizados pelo tom de bravata: ‘Quando um inimigo viola o sagrado solo soviético, para cada golpe seu responderemos com três golpes e o combateremos em seu próprio solo e o venceremos sem sofrermos muitos danos...’ A ciência e a tecnologia soviéticas produziam excelentes modelos de tanques e peças de artilharia antes da guerra. Mas a produção em massa não estava organizada e só às vésperas da guerra é que começamos a modernizar nosso equipamento militar ... A situação da artilharia antiaérea e antitanques era particularmente ruim, porque não dispúnhamos de produção organizada nem de munição apropriada. Muitas regiões mostraram-se indefensáveis tão logo foram atacadas, porque as armas antigas haviam sido retiradas e as novas ainda não tinham sido instaladas. Infelizmente isto também se aplicava às armas portáteis. No começo da guerra nem sequer tínhamos quantidades suficientes de fuzis para armar o potencial humano mobilizado.”
O sagrado solo soviético fora bastante violado sem que se verificasse, os três golpes para cada um em retaliação. As diretrizes freqüentemente baixadas ao povo eram de tal ordem impressionantes que não seria lícito culpa-lo por acreditar na eficiência da cúpula que o dirigia. Assim é que a enorme frustração que os leningradenses experimentaram nas duas primeiras semanas de invasão, quando sentiram que não estavam de fato preparados para o choque com que não contavam, foi logo dissipada pela medida de impacto então tomada pelos dirigentes: a convocação quase geral para o serviço de defesa.
Essas clarinadas, soando simultaneamente, eram uma verdadeira cacofonia. Naturalmente, a tônica era a defesa, feita em termos de valas antitanques, fortificações e demolições. Nos primeiros dias da invasão pouco mais foi feito que proteger os prédios com sacos de areia, cavar trincheiras e construir abrigos antiaéreos. Certa perplexidade ainda persistia. “Era verão. Às vezes víamos aviões voando alto e ouvíamos o soar ocasional e distante da artilharia, mas era quase inacreditável que os nazistas estivessem ali, na Rússia.” Mas, a 8 de julho Pskov foi capturada, tornando-se então suficientemente claro que os nazistas não sós estavam na Rússia como também, praticamente, em Leningrado. É verdade que a velocidade com que avançavam caíra bastante, porque precisavam reagrupar-se. Nada, porém, podia negar que a força e a mobilidade que demonstraram seriam capazes de leva-los a desfechar um ataque direto contra acidade dentro de dias, se não de horas.
De repente, as turmas de defesa mobilizadas viram-se reunidas nos parques, nos jardins e nas praças, equipadas com os mais variados e precários instrumentos que puderam encontrar, e seguiram a pé, em trens e caminhões abarrotados para os locais que lhes foram determinados.
O mais distante destes corria paralelo ao rio Luga, cerca de 80 km a sul-sudoeste da cidade. Do lado inimigo do rio, por uma distância de 160 km, casamatas, dentes-de-dragão e fossos antitanques foram construídos e escavados com frenética rapidez por 300 mil pessoas - em duas semanas, segundo fontes soviéticas. Ao mesmo tempo, mais próximo da cidade, anéis mais ou menos concêntricos de defesas estavam sendo erguidos - com os internos não passando de simples barricadas nas ruas feitas com madeira. Havia elevada cota de mulheres e adolescentes entre os trabalhadores. Eles revezavam-se em turnos de trabalho de doze horas, suando cruelmente, misturando concreto, cavando até a exaustão. Quando vencidos pelo cansaço, ficavam ali mesmo onde caíam, tratados com rude ternura pelos mais próximos - que, por sua vez, poderiam tombar a qualquer momento e receber o mesmo tratamento dos que se recuperavam. À medida que cada projeto ficava pronto, eles eram levados a executar outro, recomeçando tudo, mal alimentados, curvados, enfim, ao peso do tormento a que estavam submetidos.
É impossível dizer com alguma precisão quantas pessoas construíram as defesas de Leningrado. Talvez um milhão. Mas é certo que todas se viram compelidas pelo espectro do desespero que, em poucas semanas, fez que desaparecesse a sensação de segurança que os líderes do Comintern lhes infundiram. Não havia tempo para o julgamento das atitudes dos camaradas da classe dirigente, pois a grande preocupação de todos passou a ser a sobrevivência, preocupação perfeitamente humana, mas como na guerra e no jogo, aceitar a derrota é típico de personalidade perturbada, sem qualquer conteúdo de dignidade. A reação coletiva dos leningradenses - e a dos russos em geral - era invariavelmente de desdém quanto às violações da sua terra, mas não derrotista.
Além dos construtores das defesas havia o opolchénie, o exército popular. Este era, para começar, uma força básica de 200 mil homens e mulheres, recrutados de início dentre voluntários, embora os oficiais do partido que iam às fábricas, às oficinas e escritórios com o objetivo de recrutar voluntários usassem expressões que dificilmente deixavam de sensibilizar quem quer que os ouvisse. “Você parou de surrar sua mulher?” “Você quer ajudar a Rússia?” - eram perguntas que produziam o resultado esperado. Os voluntários acorriam em bandos, muitos deles convencidos de que devido à idade ou defeito físico jamais seriam admitidos senão como soldados meramente simbólicos, mas cuja rapidez em responder ao chamado para o serviço militar impressionaria o inimigo.
Não havia alojamentos suficientemente grandes para acomodá-los todos, enquanto eram escalonados em divisões ou batalhões; porém, mal o eco do chamado à defesa do sagrado solo russo lhes morria nos ouvidos, eles já estavam realmente na linha de frente, defendendo-o. “Defendendo” é exagero, pois não tinham a necessária habilidade, nada sabiam da rotina militar e provavelmente foram um constrangimento para os homens treinados do exército vermelho. Mas foram lançados, sem distinção, nas brechas abertas na defesa e às vezes, pelo simples peso dos números, venciam um que outro posto avançado alemão ou corriam perigosamente para fazer calar uma guarnição de canhão inimiga. Os que não tinham armas eram instruídos a lançar contra o invasor recipientes com água fervente, acercar grupos a eles pertencentes com anéis de querosene em chamas etc. Cerca de 100 mil homens do opolchénie não retornaram. Eles estavam defendendo a cidade que Pedro construíra sobre os ossos dos seus ancestrais, e isso bastava para lhes dar coragem, coisa que na realidade jamais lhes faltou.
Também recrutadas antes que o espantoso relato das ocorrências verificadas nos primeiros dias da invasão houvesse cessado, as unidades de guerrilheiros, cujas guerrilhas e atos de sabotagem punham tontos os alemães, infiltravam-se nas linhas inimigas, destruíam trens de abastecimento, faziam explodir pontes e estradas, plantavam pistas falsas, constituindo-se, enfim, num verdadeiro transtorno para os invasores. Ao contrário do grosso do opolchénie, eles tinham treinamento especializado. De qualquer modo, eram pequenos trabalhadores do partido, membros do NKVD, ou operários civis lotados no QG da guarnição, mas preparados e treinados para o exercício desse tipo de trabalho especializado e perigoso. O número desses elementos cresceu de algumas centenas, organizadas em base nacional quando do início da invasão, para 15 mil; e Leningrado parece ter sido a cidade que entrou com o contingente que gerou aquele enorme aumento. De todas as forças defensivas formadas enquanto os alemães se espalhavam pela Rússia, vindos do oeste, os guerrilheiros foram os que os soldados germânicos mais freqüentemente citavam como empecilhos à execução da estratégia estabelecida.
Naturalmente, havia o exército vermelho, os defensores profissionais do país - uma enorme organização que com facilidade se desorganizava, que somente em agosto começou a resistir com sucesso e, às vezes, inverter o avanço alemão, e isto mais pela tenacidade que pela capacidade de superar o inimigo em estratégia. No tocante a Leningrado, porém, o exército vermelho ainda levaria muitos meses para reunir condições de poder afastar de suas portas o inimigo.
Com o passar do verão, os leningradenses começaram a ouvir e a ver os atacantes se aproximando. A 21 de agosto, eles pararam por momentos o trabalho que executavam para ler a sombria proclamação assinada por Popov, Zhdanov e Popkov:
“Camaradas Leningradenseses! Caros amigos! Nossa amada cidade corre perigo de ataque inimigo... o exército vermelho está-se esforçando valentemente para defender os acessos da nossa cidade... mas o inimigo ainda não foi dobrado, seus recursos ainda não se esgotaram... ele quer destruir nossos lares, inundar nossas ruas e praças com o sangue de vítimas inocentes, ultrajar nossa pacífica população, escravizar os filhos livres da Mãe-Pátria. Isto jamais poderá acontecer. O inimigo está às portas. Ergamo-nos como um só homem em defesa de nossa cidade, de nossos lares, de nossa família, da honra e da liberdade...”
Durante dez dias eles leram e releram aquelas amargas palavras; e a 1o de setembro caiu sobre a cidade a granada que deu início ao seu bombardeio. Leningrado começava a sangrar ao sol brilhante do verão.
O sítio: para o desespero
Naquele domingo um esquadrão de aviões sobrevoou a cidade e lançou um milhão de panfletos. “Homens, mulheres e crianças de Leningrado”, anunciavam eles, “sua cidade está completamente cercada pelos exércitos alemães. O Alto Comando não deseja impor sofrimentos à população civil. Mas a rendição é a única alternativa para o aniquilamento completo ou a fome. Convençam seus líderes de que o bolchevismo tem de ser sacrificado no altar da paz. É melhor ser um súdito saudável dos seus conquistadores incontestes do que um bolchevique faminto!”
Esta informação foi recebida impassivelmente pela população da cidade. A máquina de propaganda do Dr. Goebbels raramente cuspinhava tanto como quando era levada a supor estultamente que bastava soprar para que o moral de suas vítimas caísse. O efeito de bobagens desse tipo foi muito bem sintetizado pelo artista inglês Graham Laidler, num desenho publicado no Punch em 1940. O desenho mostrava um bar de interior, no qual um rádio transmitia a informação, sem dúvida errada, de que “... na Grã-Bretanha, a população civil, confrontada com a ameaça de invasão, encontra-se completamente em pânico...” A audiência, que se poderia considerar representativa da população, consistia de dois caipiras fumando cachimbo e um senhor rural, todos ouvindo série de desgraças e desastres com total tranqüilidade, no rosto apenas ligeiro ar de surpresa.
Naturalmente, a exigência feita aos leningradenses para que se rendessem era um contradição do que pretendiam os alemães. A declaração de von Leeb a Hitler de que transformara Leningrado “numa cidade de morte e desespero” e que a forçaria a render-se até 21 de julho não fora mais que simples golpe para que o chefão reconhecesse nele toda a sua desumana eficiência. Os leningradenses não sabiam de nada disso e von Leeb sabia muito bem que Hitler não tinha intenção de alimentar três milhões de habitantes, mesmo que estes se curvassem abjetamente à sua mercê pela rendição. Eles deveriam ser massacrados, ou dados, com a cidade e tudo, à Finlândia, como gorjeta pela ajuda prestada na campanha do Leste.
Mas o Feldmarechal Mannerheim declarou-se contrário a tal sugestão: “A Finlândia não está interessada em anexar parte alguma da Rússia”, declarou ao Feldmarechal Keitel, que Hitler enviou à Finlândia em missão de persuasão a 4 de setembro. Assim, quando a artilharia de longo alcance iniciou o bombardeio da cidade permanecia ainda o problema: o que fazer com a cidade - ou, mais especificamente, o que fazer com a sua população civil?”
Um dos oficiais do Estado-Maior de planejamento de Hitler, Tenente-General de planejamento Walter Warlimont, formulou o problema, porém o disfarçou ardilosamente como uma solução. Na verdade, ele estava apenas explicando a situação que tinha sido imposta aos exércitos alemães pelo opolchénie e pelas centenas de quilômetros de muralhas de terra, fossos antitanques e barricadas de arame e pelos milhares de casamatas defensivas, que haviam sido desesperadamente construídas em torno de Leningrado nos meses de julho e agosto. Foi isso, além do bombardeio, feito pela marinha russa, no Báltico, contra as tropas Panzer alemãs, emaranhadas nas defesas, e a atividade hostilizadora dos tanques russos que operavam sozinhos ou em pares, que criou a situação que Warlimont agora virava do avesso como um mágico e apresentava sua solução.
“Fechem Leningrado hermeticamente”, ordenou ele em seu memorando, “e depois façam-na tremer pelo terror (isto é, ataques aéreos e bombardeio de artilharia) e pela fome cada vez maior. Na primavera, ocuparemos a cidade, levaremos os sobreviventes para o cativeiro, no interior da Rússia, e arrasaremos Leningrado com cargas de alto explosivo”.
Naturalmente, Leningrado já estava virtualmente isolada pelas suas defesas e pelo exército vermelho, que resistia obstinadamente. Obrigados a sitiar a cidade, os alemães tinham de enfrentar o fato de que seus exércitos empenhados no cerco - já meio cansados pela exaustiva carga disparada pela Rússia Ocidental, e sentindo os efeitos do alongamento de suas linhas de comunicação - estariam ocupados em eliminar “o ninho do bolchevismo”, em vez de avançar triunfalmente para conquistar o resto da Rússia.
Embora Warlimont procurasse dar a impressão de que os seus problemas eram apenas parte de um plano, a situação não deixava de ter suas nuanças humilhantes. Assim como aquela chuva de panfletos que em setembro desabou sobre a cidade ameaçava a todos de norte pela fome, também as folhas que começavam a cair das árvores insinuavam a aproximação do inverno e, por conseqüência, de tempos difíceis para o invasor.
Sem se deixarem abater pela ameaça da fome, os leningradenses dedicaram-se ao balanço do alimento que tinham em estoque. O homem que levantou o problema e ordenou o exame imediato das despensas da cidade foi Dmitir Pavlov, um administrador inteligente, então com 36 anos, grande parte dos quais dedicada ao setor da produção de alimentos. Ele foi nomeado para o controle do comissariado de Leningrado no dia em que o sítio começou.
Naturalmente, como controlador, Pavlov estava sujeito à interferência burocrática normal, tanto do Comitê do Partido de Leningrado como de Moscou. O levantamento que fez do alimento existente e que, muito razoavelmente, levava em conta não só as necessidades da população civil como também as do pessoal da marinha estacionado no Báltico e os do exército vermelho que defendia a cidade, diferia em muito do inventário preparado pelo Comitê do partido da Cidade de Leningrado, que informou a Moscou que havia, na cidade, estoques de farinha para 14 dias, de cereais para 23 dias, de carne para 18 dias, de gordura para 20 dias e de açúcar e confeitos para 47 dias.
As estimativas de Pavlov eram um pouco mais otimistas, porquanto incluía os suprimentos de trigo em grão e de farinha, de gado e porcos em pé, assim como a carne existente nos frigoríficos, e de aves e alimentos enlatados que haviam sido omitidos pelos inexperientes funcionários do Comitê do partido; mas, mesmo assim, suas previsões eram bastante sombrias. Ele calculou que a farinha e o trigo em grão durariam 35 dias; os cereais, 30 dias; a carne, de animais em pé e a já nos frigoríficos, 35 dias; gordura, 45 dias, e açúcar e confeitos, 60 dias. Embora, felizmente, ninguém soubesse disso, na época, esses suprimentos, suplementados pelo que era possível trazer por sobre ou através do território ocupado pelos alemães, durariam 872 dias.
Ainda que “otimista” e embora não fosse possível qualquer prognóstico sobre a duração do sítio, o inventário feito por Pavlov era uma verdadeira sugestão de desastre. Ser informado de que o alimento bastava para menos de dois meses - e consistindo sobretudo de carboidrato - deixava apenas a sensação de que talvez o pior acontecesse. (Embora nada de inesperado ocorresse durante os dois anos e meio de sítio, os dietistas e químicos de Leningrado tiveram que fazer milagres para transformar a comida teórica em real, ainda que repugnante.) Os habitantes da cidade não foram informados de tudo pormenorizadamente. Não era necessário. Os cortes nas rações eram os arautos mais eloqüentes da fome.
A 2 de setembro, anunciado como medida de urgente necessidade, foi implantado o racionamento. Como o próprio Pavlov diz, “A invasão da União Soviética e o avanço rápido do inimigo para o interior do país colocaram a economia nacional sob forte tensão. Os territórios ocupados pelos alemães, até outubro de 1941 produziam 38% do cereal consumido pelos russos, 84% do açúcar, 63% do carvão, 68% do ferro fundido e 60% do alumínio. Criavam-se na área dominada um terço do rebanho bovino e 60% de suínos da pecuária do país. A produção de matérias-primas ficou seriamente afetada, desajustando toda a economia russa, enquanto que, paralelamente, cresciam as solicitações de alimentos, combustível, munição e outros materiais. Ademais, muitas fábricas instaladas nas regiões ocidentais do país, programadas para produzir, com base em planos de tempo de paz, bens de consumo essenciais à economia nacional, tiveram que ser desmanchadas e removidas para o leste. Estabeleceu-se enorme fluxo de máquinas, equipamentos, animais, homens, mulheres, crianças de um lado para o outro do país. Era como se a terra se houvesse erguido e tudo, animado e inanimado, rolasse do oeste para o leste”.
Por volta de 21 de agosto, os alemães haviam cortado a linha ferroviária em Chudovo, rompendo assim a comunicação entre Leningrado e Moscou; no dia 30, eles capturaram o entroncamento ferroviário em Mga, 20 km abaixo da extremidade sudoeste do lago Ladoga. Com isso a cidade ficou sem possibilidade de comunicar-se por ferrovia com qualquer lugar. O terminal ferroviário mais próximo ficava em Tikhvin, a 240 km para leste, e praticamente a única maneira de fazer chegar alimento à cidade era por via aérea, sobre o território ocupado pelos alemães. Desse modo, depois de 30 de agosto, Leningrado, virtualmente isolada de tudo, ficou na dependência de uma precária ponte aérea cujo funcionamento era quase anulado pela aviação alemã e pela artilharia antiaérea inimiga. A única outra rota de abastecimento - sobre a qual falaremos mais adiante - era através do Lago Ladoga. E esta, mesmo antes que o inverno impossibilitasse a navegação, se revelaria muito ineficiente.
Num sentido, o rompimento de todas as ligações ferroviárias com o mundo exterior foi uma pequena bênção. Se ele pôs fim à evacuação em massa de que Pavlov fala, também acabou com a confusão e perda de alimentos que tal movimento causava. “Em meio ao tumulto daqueles dias”, prossegue ele, “muitos erros foram cometidos em rotas ferroviárias. Em vez de despachar trens carregados de alimentos - retirados da área de Pskov antes que o inimigo a ocupasse, a 8 de julho - diretamente para Leningrado, liberando os vagões para outras cargas, enquanto o alimento era armazenado para as reservas da cidade, muitos trens foram mandados para lugares onde cairiam em mãos inimigas”. Agora, pelo menos nada poderia sair da cidade ou passar por ela e perder-se para sempre.
Mas esta compensação era insignificante, e se havia alguma bênção nisto, estava completamente disfarçada. Como um leningradense, um estudante que agora reside na Inglaterra, disse posteriormente: “Não teríamos reconhecido qualquer bênção, mesmo que a víssemos. Estávamos por demais confusos. Jamais acreditamos realmente que os nazistas se aproximassem tanto de Leningrado como aconteceu. Havíamos sido condicionados a confiar nos nossos senhores e no poderio do exército vermelho. Éramos complacentes como a cigarra da fábula. Naquele domingo, quando as primeiras granadas foram disparadas, eu estava a cerca de 800 m da usina do Lago Ladoga, que foi atingida por uma delas. Na trincheira onde me abriguei, permaneci agachado perto de uma mulher que me sussurrou, totalmente confusa e espantada, que fora um engano dos nosso artilheiros”.
“Eles apontaram seus canhões para o lugar errado”, repetia ela sem cessar. E acrescentou, como que para explicar um engano justificável no ardor da batalha: “Pobres rapazes, pobres rapazes - eles ficariam chocados se soubessem do resultado do erro cometido. E pensar que alguns deles talvez tenham sido alunos meus - aos quais sempre disse que um erro é um erro e tem de ser confessado. Isto era parte daquilo que considero ensinar. É preciso reconhecer quando se comete um erro, seja ele qual for”
“Ela continuou falando enquanto a poeira levantada pela explosão nos cobria e os bombeiros corriam para a Fábrica Salolin, o próximo local atingido. Aturdido pela surpresa, estava meio perplexo quando um guarda da Defesa Civil me mandou embarcar num bonde e correr em ajuda dos trabalhadores da usina que fora atingida. Fiquei ainda mais aturdido quando voltei para casa, naquela noite, e vi os restaurantes e teatros ainda abertos. Era possível conseguir comida nos restaurantes sem cartões de racionamento e, embora não houvesse ali muita gente, fiquei espantado ao ver que nem todos se tinham refugiados dentro de suas casas. O bombardeio deixara-me aterrado. Era muito jovem, na época, e, como disse, tinha a fé muito abalada”.
Mas, no dia seguinte, quando as rações foram reduzidas, não foi ele o único a ter a fé abalada. Até, se a pessoa trabalhava em qualquer lugar que não num escritório, tinha direito a 815 gramas de pão por dia. Tinha-se direito a pouco mais de 450 gramas de carne por semana, 450 gramas de cereais, 240 gramas de todos os tipos de gordura e cerca de 670 gramas de açúcar. Como nosso entrevistado observou, as refeições nos restaurantes não estavam sujeitas a racionamento. Assim, a quantidade total de alimentos obteníveis, embora não desse para uma refeição opípara, era bastante generosa para uma nação em guerra.
Era mais generosa que prudente, fato este que não foi notado no anúncio oficial dos cortes nas rações feito a 2 de setembro. A ração de pão foi reduzida em um quarto, a carne em um terço e os cereais em um quarto. As gorduras e o açúcar foram ligeiramente aumentados e as refeições nos restaurantes e cantinas passaram a fazer parte do racionamento. Mas tudo dependia da existência de alimentos para distribuição, e a disponibilidade deles diminuiu rapidamente. A insinuação de fome feita pelo inimigo como uma bravata em 24 horas transformara-se em realidade.
Fora da cidade, embora, de modo geral, se tivesse chegado a um impasse militar, os alemães continuavam a avançar lentamente em ataques de penetração reduzida.
A despeito do estoicismo demonstrado pelos leningradenses durante o sítio, há evidência de que houve desertores e derrotistas em quantidade até alarmante, tanto no exército vermelho como no opolchénie. Não há números especificados nos registros russos, e embora os alemães informassem que “muitas centenas estavam passando para o seu lado, na linha de frente, provavelmente nisso havia bastante de bazófia propagandística”. Mas, ainda que pequeno o número de desertores, num estado totalitário o negócio ganha contornos alarmantes, e a rude garra da justiça vigente nesses estados logo se faz sentir: “A Seção Especial do NKVD da frente de Leningrado tomou logo providências no sentido de prender e submeter a julgamento os familiares dos traidores da pátria... Todos os soldados dessa frente devem ser informados de que aquele que deixar de agir contra traidores e criminosos, deixá-los escapar, ou revelar covardia e desordem diante do inimigo será implacavelmente punido como colaborador dos fascistas”. Para que todos sentissem que não se tratava de vã ameaça, o Pravda publicava o nome dos desertores, que eram presos e submetidos a julgamento, bem como os detalhes das represálias tomadas contra suas famílias.
Naturalmente, todos os exércitos dispensam tratamento muito duro aos desertores presos, mas os exércitos dos estados totalitários têm necessidade de estender a punição aos que apenas revelam sinais de fraqueza, de derrotismo, porquanto o moral de um regime que proíbe a livre expressão de pensamento e de opinião necessita de estímulo de contínuos triunfos; do contrário, logo aparecem fendas na fachada. Os resmungos, as reclamações, um certo desprezo para com os superiores hierárquicos, característicos do comportamento do soldado britânico, eram punidos no exército vermelho com a execução, e em tempos de desespero, como no sítio de Leningrado, a execução era sumaríssima. Os resmungos do soldado comum eram vistos como perigoso sinal de derrotismo, e não cometemos nenhuma exageração ao afirmarmos que um homem do exército vermelho era fuzilado ao amanhecer se expressasse desagrado diante da refeição que lhe forneciam.
Os traidores que tinham guardado em casa qualquer tipo de alimento não declarado aos controladores do abastecimento da cidade, os que falsificavam ou roubavam cartões de racionamento, os que, enfim, cometessem qualquer ação dolorosa envolvendo mercadoria de consumo obrigatório pelo povo, esses eram levados ao paredão.
Na primeira semana de racionamento, quando houve apenas leve insinuação da fome que se generalizaria na cidade, houve compras feitas em pânico, principalmente bens enlatados e conservas de luxo, e alguns funcionários de escritório tentaram passar para a classe de trabalhador braçal para que pudessem receber mais alimentos do que tinham direito como burocratas. Este tipo de coisa vinha acontecendo, sem maiores conseqüências, desde o começo da guerra, em junho. Quando, porém, a coisa começou a ficar preta, qualquer ato menos lícito, ainda que de ínfima significação, era interpretado como atentatório dos interesses do povo e punido com extrema severidade.
Contudo, os avanços de frente reduzida que as forças alemãs faziam não tinham o apoio suficiente para pôr a cidade sob ameaça de captura e ocupação, ainda que Hitler houvesse aprovado a jactanciosa intenção de von Leeb . Por volta de 8 de setembro, tanques alemães - pequeno número deles - chegaram a cerca de 16 km da cidade, o máximo que se aproximariam dela, pois o Alto Comando alemão voltava suas vistas para Moscou, afirmando que Leningrado, cercada como se encontrava, “cairia como uma folha”, sozinha, como Warlimont explicara, delicadamente, ao chefão.
Dentro da cidade, o acúmulo de desastres aumentava inexoravelmente. A 8 de setembro, um bombardeio aéreo e de artilharia, combinados, provocou quase 150 incêndios, alguns dos quais destruíram completamente armazéns e fábricas de alimentos. Um armazém, com quase três mil toneladas de açúcar, foi completamente destruído. Três mil toneladas de farinha também se perderam no ataque. Depois disso, tomou-se a decisão sensata, ainda que um pouco tardia, de dispersar os estoques de alimento, em lugar de concentrá-los nuns poucos armazéns de madeira, extremamente vulneráveis, situados na zona sul da cidade, onde estavam ao alcance da artilharia inimiga.
Ao escrever a respeito, Pavlov evita mencionar que ninguém fizera coisa alguma para impedir tal desastre; mas o fato é que os líderes só puseram trancas nas portas depois de arrombadas, assim recaindo sobre eles responsabilidade por tudo aquilo, que só fez piorar os efeitos do sítio. Também dificilmente se pode creditá-los com visão, quando permitiram que as rações de açúcar e pão continuassem inalteradas após o ataque destruidor de 8 de setembro; mas isto é verdade.É de Pavlov o seguinte comentário: “Hoje, passado o tormentoso período que enfrentamos, quando é fácil calcular até os gramas, pode-se dizer que a ração de açúcar não deveria ter sido aumentada em setembro. Contudo, na época, o véu da incerteza obscurecia muita coisa agora perfeitamente clara. Os sitiados simplesmente não imaginavam que o bloqueio da cidade duraria tanto”.
Seria de pensar que os figurões tivessem um pouco mais de imaginação; mas é de admitir também que houvesse alguma verdade na afirmação de que Stalin tinha certa birra com Leningrado, que procurava ardilosamente disfarçar procedendo com alguma generosidade quando interferia na administração da cidade durante o sítio - sempre, no entanto, para aumentar a confusão entre seus habitantes.
Aquele ataque e bombardeio, sobre o qual tanto se escreveu - sobretudo em ficção - foi apenas um de centenas que o inimigo agora desfechava. É verdade que os alemães não tinham ali aviões em quantidade suficiente para fazer ataques idênticos aos desfechados contra Londres em 1940; mas eram bastantes para se concentrarem sobre as fábricas do setor industrial da cidade, contra os terminais da ponte aérea e contra a única linha de abastecimento não-aérea disponível: a rodovia, a ferrovia, o lago e o rio de Leningrado a Tikhvin.
Este caminho era tão vulnerável que somente pequena percentagem dos suprimentos enviados chegava intata ao seu destino, e assim mesmo porque havia uma brecha de poucos quilômetros entre os alemães, em Schlusselburg, na extremidade sudoeste do Lago Ladoga, e os finlandeses, que ocupavam o istmo da Carélia. Por esta brecha passava uma ferrovia de bitola estreita, desde o Golfo da Finlândia até Osinovets, a pouco menos de 24 km ao norte de Schlusselburg. Em Osinovets havia, teoricamente, uma passagem para navios, pela parte sul do lago, até Novaya Ladoga, na extremidade sudeste, de onde fluía o rio Volkhov, e rio abaixo até a cidade de Volkhov. Dali, uma ligação ferroviário com Tikhvin ainda funcionava, embora o inimigo estivesse perigosamente próximo e houvesse freqüentemente batalhas nos arredores da cidade e de seu terminal ferroviário.
Todo trem e toda barcaça tinham de passar pelo trecho mortífero da brecha de Osinovets, facilmente ao alcance da artilharia inimiga montada em Schlusselburg, enquanto os bombardeiros de mergulho alemães operavam continuamente sobre toda a região sul do lago. Daí porque, do suprimento enviado à cidade sitiada, a quantidade que se perdia era sempre bem maior do que aquela que conseguia alcançá-la.
No começo, porém, a rota do lago era a única que a cidade possuía. Cais e trapiches foram construídos em Osinovets em espaço de tempo fenomenalmente curto, a praia foi escavada para aumentar-lhe o calado e construíram-se armazéns para estocagem temporária dos suprimentos que chegassem. Toda essa atividade foi protegida pela densa floresta que se estendia até as margens do lago, e por volta de 12 de setembro as duas primeiras barcaças, tendo a bordo, 800 toneladas de trigo, chegaram ali, após uma viagem tranqüila desde Novaya Ladoga. Os trabalhadores que haviam construído as instalações portuárias receberam-nas jubilosamente e a notícia do sucesso da linha vital se espalhou pela cidade com mais rapidez do que os incêndios nela provocados pelas numerosas bombas incendiárias que lhe foram lançadas. Todos sentiam que se restabelecera uma ligação com o exterior. O estado de espírito do povo melhorou. Chegaram mesmo a dançar alegremente nas ruas.
Mas o moral não permaneceu elevado por muito tempo. A 15 de setembro, chegaram três barcos maiores, cada um trazendo em seus porões mil toneladas de trigo que, para poupar tempo no terminal de Novaya Ladoga, foram despejados dentro dos barcos diretamente, sem serem ensacados. O processo adotado não foi nada prático, pois o cereal tinha de ser ensacado antes de descarregar e isto, naturalmente, tomou muitas horas. Como o porto, precariamente construído, só permitia o descarregamento de um barco de cada vez, os outros eram obrigados a ficar a descoberto no lago, onde não demoraram a ser vistos por um avião de reconhecimento inimigo.
Meia hora depois os Stukas chegaram, afundando dois dos tais barcos. Daí por diante, o inimigo passou a patrulhar toda a rota do lago com bombardeiros, mantendo também Osinovets sob constante fogo de artilharia. Embora, desse dia em diante, os barcos empregados no transporte de gêneros para a cidade partissem dos dois terminais à noite, os aviões atacantes esperavam que eles alcançassem a metade do caminho a percorrer para atacá-los à luz do dia, uma vez que a travessia do lago era feita em 16 horas de viagem.
Era uma tarefa quase desesperada a de manter o caminho desimpedido, mesmo quando canhoneiras da marinha soviética acompanhavam os barcos de abastecimento; a substituição de barcaças afundadas por ação inimiga também era muito difícil. Mas, durante um mês, tudo quanto conseguiram colocar na cidade foi feito por barcaças puxadas por rebocadores através do lago, não alcançando, no entanto, um décimo da quantidade embarcada em Novaya Ladoga, mal dando para oito dias de abastecimento da cidade. O resto, juntamente com as barcaças e tripulação, estava no fundo do lago.
No fim daquele mês de esforço heróico, a linha de abastecimento foi duplamente fechada pela chegada de outro inimigo igualmente implacável: o inverno.
Leningrado, uma cidade verdadeiramente setentrional, normalmente se realizava no inverno. Enquanto a neve caía sobre a grande estátua eqüestre de Pedro o Grande, a temperatura descia e o grande lago ia gradativamente congelando. O aniversário da Revolução de Outubro era festivamente comemorado por toda a parte. Alma Mahler, a mulher do compositor, diz em suas memórias que quando ela e o marido visitavam a cidade nessa época de carnaval, ficaram encantados com os bondes correndo sobre trilhos instalados no lago congelado, enfeitados com lanternas cuja luz se refletia no gelo.
Nesse alegre período, em tempo de paz, os leningradenses andavam, a pé, ou de trenó, pela neve, com latas de querosene para seus fogões (muito pouca gente usava aquecimento a gás ou elétrico) e os teatros e salas de concertos ficavam repletos todas as noites. No verão, o jardim botânico, os canais amenos e a pálida luz solar setentrional sobre as fachadas dos palácios e bibliotecas de Pedro o Grande, são belos e revigorantes. Mas os leningradenses são gente invernal numa cidade invernal. Calçados de botas e bem agasalhados, eles vêem todos os anos a cidade desaparecer sob seu manto branco. Repetem anualmente a remoção da neve que se acumula nas ruas, debaixo do vento cortante que sopra das planícies da Sibéria, e se orgulham da resistência que demonstram possuir.
Mas não viviam tempo de paz. Em 1941, o 12 de outubro não era aguardado com a alegria dos anos anteriores. A desolação pairava sobre a cidade. Prédios bombardeados erguiam suas paredes calcinadas sombriamente contra os céus gélidos; os bondes só corriam quando o suprimento de energia permitia e, mesmo assim, eram verdadeiras cavernas escuras e abarrotadas de trabalhadores cansados e que começavam a sentir os efeitos da falta de alimento. O jornal da cidade já estava saindo irregularmente, devido às restrições no consumo de energia provocadas pela escassez de combustível, e nele, além das tristes ordens oficiais do Comitê do partido e das notícias censuradas vindas da frente, começavam a aparecer sinais de desespero: tapetes, móveis e máquinas fotográficas estavam sendo trocados por comida, peixe, aves, enlatados e confeitos importados. Naturalmente, em teoria não devia haver alimentos guardados, mas por serem considerados artigos de luxo, estavam disponíveis fora do regime de racionamento, no começo da guerra.
Porém, tão desconcertante para a população da cidade quanto aquele inverno sem celebrações, e no momento mesmo em que foi cortada a ligação com outras cidades através do lago, causando em todos terrível apreensão quanto ao futuro, os alemães desistiram oficialmente de capturar Leningrado por meio se um assalto. A Diretiva de Hitler, assinada em seu nome pelo General Jodl, ordenava a von Leeb que desistisse da tentativa e se recusasse a aceitar a rendição da cidade. (Tal recusa era apenas um gesto para salvar as aparências: ninguém na cidade pensava em rendição, mas, naturalmente, também não sabiam da existência de tal diretiva. E se soubessem, para eles não fazia a menor diferença. Somente um rompimento do bloqueio é que poderia alterar a situação).
O passar dos dias e o frio cada vez mais intenso começavam a dar aos alemães a impressão de que o bloqueio era invencível. Havia inúmeros boletins oficiais informando os leningradenses das “ações travadas pelo Exército Vermelho para repelir as bestas fascistas do sagrado solo russo”- e, na verdade, as ações travadas eram tão numerosas quanto os boletins.
Invariavelmente se anunciava que a luta era “na direção de” determinado lugar, mas não se revelava quem se movia e em que direção. Em tempo de guerra, é compreensível que os informes sobre as atividades na linha de frente sejam reticentes, a menos que o lado informante tenha de fato muita coisa favorável a divulgar, mas, levando-se em conta a necessidade de tal cautela, é evidente que a imagem de um exército vermelho inconquistável, perfeito do princípio ao fim, tinha de ser preservada.
Não há nenhuma evidência de que os leningradenses, que suportavam terrível pressão, se mostrassem céticos ou cínicos diante do nebuloso noticiário que lhes faziam chegar, pois isso seria facilmente confundido com derrotismo ou quinta-colunismo, mas há provas de que, por menos que soubessem sobre o que verdadeiramente se passava na frente de Leningrado, eles se alheavam cada vez mais, com o passar dos dias, do que ocorria fora das linhas defensivas da cidade.
Pelo final de setembro, o carvão e o querosene disponíveis para o uso doméstico acabaram e havia muito pouco para a indústria. A ponte aérea tinha de ser usada exclusivamente para alimentos e, de qualquer modo, era inútil para o transporte de carvão e óleo na quantidade necessária. Assim, embora a fome rondasse muito perto, foi o frio que atacou os leningradenses primeiro. E a única resposta possível para o problema era a madeira - aliás, em Leningrado e na região do Lago Ladoga havia florestas capazes de remediar a situação, mas essas imensas áreas arborizadas estavam em mãos inimigas.
“A 8 de outubro, os Comitês da Cidade e da província executaram um plano para cortar madeira nas áreas de Paragalovo e Vsevolozhsk, no norte da cidade. As equipes de madeireiros eram formadas sobretudo de mulheres e adolescentes, que se dirigiam às florestas sem ferramentas e sem roupas adequadas, sem transporte e sem contar com acomodações para repouso. O plano tinha tudo para fracassar; pelo final de outubro, apenas um por cento dele fora cumprido. Numa das áreas, somente um quarto das 800 pessoas estavam trabalhando. Considerando-se as condições de trabalho que enfrentavam, padecendo fome e frio, realizaram milagres. Trabalhando a 40 graus abaixo de zero, eles estenderam uma linha até a ferrovia mais próxima, construíram alojamentos e enviaram quantidade considerável de madeira para a cidade.”
Mas, embora bem razoável, a madeira enviada ainda não era suficiente. Foi preciso abandonar a calefação central em escritórios, apartamentos e fábricas. Os trabalhadores de escritório passavam o dia inteiro envoltos nas pesadas roupas de saída; os operadores de máquinas, nas fábricas, encontravam-nas tão geladas, que as mãos chegavam a grudar nas superfícies de ferro. A caminho de casa, as pessoas muitas vezes desviavam-se quilômetros do rumo para ir aos lugares bombardeados na esperança de encontrar madeira para o aquecimento doméstico. A água congelava nos canos, tornando impossível a sua utilização para o que quer que fosse. Depois de algum tempo, tornando-se ainda mais intenso o frio, o mobiliário das casas passou a ser usado como lenha, e isto frugalmente - uma perna de cadeira ou de mesa dava calor para meia hora, mais ou menos, enquanto toda a família e alguns vizinhos se aconchegavam em torno do fogo antes de irem para a cama, para as poucas horas de sono possíveis entre um dia de trabalho e o outro.
O termômetro continuava a cair inexoravelmente. O Lago Ladoga começou a congelar, anulando até mesmo a frágil linha de barcaças que traziam alimentos de Novaya Ladoga. Apenas 45.000 toneladas de alimentos tinham sido transportadas para Leningrado desse modo, mas já era alguma coisa. Agora, restava só o recurso da ponte aérea.
O aniversário da Revolução de Outubro foi marcado por violento bombardeio da cidade. Não houve festas, embora algumas crianças recebessem uma caixinha de creme azedo e uma colher de farinha de batata e alguns adultos ganhassem uns poucos tomates salgados. Não havia nada além da ração-padrão de pão, carne e cereais que vinham pela ponte aérea. O pão estava reduzido a poucas gramas por dia e o povo passava horas na fila, à espera dos caminhões das padarias, que não tinham praticamente nada para aquecer os fornos. Quando os caminhões chegavam, havia na fila ligeira pressão para a frente, mas não se registravam tentativas de assalto aos caminhões de entrega do alimento, embora todos estivessem premidos por grande fome. A situação se tornaria muito mais desesperadora antes de se verificarem as primeiras manifestações da luta pela autoconservação.
O violento bombardeio com que alemães celebraram a Revolução de Outubro pôs em destaque a incapacidade dos serviços da Defesa Civil de enfrentar adequadamente as tarefas de salvamento e combate a incêndios. Em muitos locais, os danos causados pelas bombas e o frio enregelante cortaram o abastecimento de água, tornando virtualmente impossível a extinção de incêndios com jatos de alta pressão. Em toda parte, os próprios trabalhadores dos serviços de salvamento, de tão enfraquecidos pela desnutrição, tombavam quando escavavam para retirar mortos e feridos. Os incêndios, estimulados pelos ventos das nevascas, se espalhavam até se esgotarem nos cruzamentos entre quarteirões, onde não havia nada mais para consumir. A carne e os ossos das vítimas misturavam-se às estruturas destruídas, e tudo acabava recoberto pela neve que caía incessantemente.
Em meio a tanta adversidade, não seria de surpreender que o desespero viesse a secionar os últimos fios de esperança. Mas tal não aconteceu. Embora o ritmo geral da vida diminuísse pelo cansaço e exaustão, chegando quase a parar, realizaram-se milagres de trabalho e engenhosidade.Pavlov e vários químicos pesquisadores inspecionaram os restos das 3.000 toneladas de açúcar destruídas no armazém atingido no ataque aéreo de 8 de setembro. Verificaram que o calor reduzira tudo a uma massa enegrecida, cheia de cinzas, repugnante, endurecida pelo frio. Essa massa foi retirada dos escombros, aquecida, filtrada e transformada em confeitos.