A Batalha do Mar de Coral


Os motivos que a levaram a acontecer e como se deu o embate entre as forças da Esquadra Combinada e a Força-Tarefa americana.

Na derrotada Alemanha, após 1918, a lenda da "punhalada pelas costas" foi avidamente aceita pelos que buscavam uma desculpa por terem perdido a guerra. Os japoneses foram muito mais honestos após a Segunda Guerra Mundial e, de modo geral, aceitaram uma expressão cunhada por um dos comandantes do esquadrão de Nagumo, o Contra-Almirante Hara. Era simples, expressiva e precisa: "Mal da Vitória". Os sintomas deste "mal" apareceram depois das primeiras vitórias inebriantes, resultando de início num delírio de excesso de confiança e, depois, nas primeiras grandes derrotas da esquadra de batalha do Japão.

A tomada da "Área Meridional” pôs sob controle nipônico vastíssima área em grade parte consistente de pequenos pontos de terra separados por milhares de quilômetros de oceano. Dentro desse perímetro, as rotas marítimas se estendiam até as ilhas metropolitanas japonesas. Além dele estava o continente australiano e outras ilhas, que os Aliados naturalmente usariam como bases para atacar os nipônicos. No plano de guerra original japonês, a 1ª Fase seria a tomada de um perímetro externo que situaria a "Área Meridional" sob controle japonês; a 2ª Fase consistiria na sua fortificação, para prevenir contra o que quer que viesse. Mas a rapidez com que se realizou a 1ª Fase tentou os Altos Comandos do exército e da marinha japonesa se entregarem a uma verdadeira orgia de cupidez estratégica. Os seus adversários pareciam-lhes muito mais desprezíveis do que pensavam. Portanto, qual a razão para se ater ao plano original de parar para consolidar? Por quê não ampliar ainda mais o perímetro enquanto ainda havia tempo?

 

Bombardeiros de mergulho americanos preparam-se para decolar



Para o leste, situava-se o Atol de Midway, o solitário "quebra-mar" do arquipélago havaiano. Se Midway fosse tomado, o Havaí poderia ser neutralizado definitivamente. Para o sul estava Port Moresby, na Nova Guiné; as Samoas, as Fiji e a Nova Caledônia. A tomada desses objetivos isolaria a Austrália. Esses dois feitos acrescentariam mais proteção ao novo e ampliado Império Japonês e, por isso, seriam tentados imediatamente, começando com Port Moresby e o isolamento da Austrália.

"Operação MO" foi o codinome aplicado ao golpe contra Port Moresby. Como de costume, o plano dependia da convergência de dois grupamentos navais muito separados. O Vice-Almirante Inouye, comandante-chefe da 4ª Esquadra, estava no comando, baseado em Rabaul. A força de cobertura do Contra-Almirante Goto, vindo de Truk, nas Carolinas, entraria no Mar de Coral com quatro cruzadores pesados e o porta-aviões leve Shoho. Além disso, rodeando a longa cadeia das Ilhas Salomão e aproximando-se pelo leste, vinha a força de porta-aviões do Contra-Almirante Hara (o Shokaku e o Zuikaku) e a força de ataque do Vice-Almirante Takagi, com dois cruzadores pesados e seis destróieres. A Ilha de Tulagi, nas Salomão, seria ocupada primeiro como base para hidraviões e depois a força de invasão de Port Moresby zarparia. O plano repetia a tática de "pular carniça", usada com êxito durante a conquista da "Área Meridional". Dessa vez, no entanto, os nipônicos se enganaram, quando admitiram que obteriam total surpresa. Os americanos estavam prontos.

 

Seqüência de figuras mostrando o ataque ao Shoho



Já a 17 de abril, os decifradores de códigos americanos haviam percebido que uma operação japonesa era iminente e o Almirante Chester Nimitz, Comandante-Chefe do Pacífico (CINCPAC), preparara seus planos para enfrentá-la. Os porta-aviões que tinham escapado à destruição em Pearl Harbor teriam agora a oportunidade de revidar: o Lexington e o Yorktown, com uma escolta composta de oito cruzadores pesados (três deles australianos) e 12 destróieres, sob o comando-geral do Almirante Frank Fletcher.

Tulagi foi devidamente ocupada pelos japoneses a 3 de maio, mas essa foi a primeira e última parte da "Operação MO" que saiu de acordo com os planos. Passadas 24 horas, os japoneses em Tulagi estavam sendo martelados por repetidos ataques aéreos desfechados do Yorktown. No dia 5, quando o Yorktown já se reunira ao principal corpo aliado, aviões de reconhecimento baseados em terra identificaram as forças de Port Moresby e de cobertura e Fletcher rumou para noroeste, a fim de interceptá-las. Mas somente no final da tarde do dia 6 é que a força Takagi-Hara foi identificada pelos pilotos de reconhecimento aliados e Fletcher foi informado de que tinha uma terceira força japonesa nas suas mãos.

O Shoho após violento ataque, queima furiosamente


O episódio que ficou conhecido como a "Batalha do Mar de Coral" ocorreu durante os dois dias seguintes. Foi a primeira colisão da história entre forças aéreas de porta-aviões e ambos os contendores se convenceram de que tinham muito a aprender - desde o reconhecimento e informes de identificação acurados a estimativas realistas dos tiros declaradamente certeiros e dos danos causados. Os aviões de ataque de Fletcher começaram alcançando a força de cobertura de Goto e afundando o Shoho. Os aviões de reconhecimento de Hara avistaram o petroleiro da esquadra americana, Neosho, e o destróier de escolta, Sims, e informaram que se tratava de um porta-aviões e um cruzador, provocando um violento ataque do Shokaku e do Zuikaku que afundou o Sims e o Neosho, mas deixou intocados os porta-aviões de Fletcher. Assim que os aviões desse ataque retornaram, Hara despachou-os novamente com ordens de atacar ao anoitecer. 

Mas a visibilidade era tão ruim - aguaceiros constantes, que ocultavam os navios, eram o problema - que os pilotos japoneses foram obrigados a deitar fora suas bombas e torpedos depois de uma busca infrutífera. Ao retornarem ao Shokaku e o Zuikaku, eles tiveram a humilhante experiência de sobrevoar diretamente a força-tarefa americana e receber uma surra dos caças Wildcat despachados para interceptá-los. Somente sete dos vinte e oito aviões japoneses que participaram desse ataque retornaram à sua "base"; seis pilotos japoneses, de tal forma perderam a direção, que se aproximaram do circuito de pouso do Yorktown como se fossem aterrissar nele.

Explosão no Lexington projeta um de seus aviões



A manhã do dia 8 foi testemunha de que a batalha atingia o auge com Hara e Fletcher desfechando ataques violentíssimos uns contra os outros.

Os americanos acertaram o Shokaku com duas bombas de 500 libras, danificando-lhe o convés de vôo e fazendo lavrar extenso incêndio. Os japoneses causaram também um ferimento mortífero no Lexington, acertando-lhe dois torpedos e duas bombas. O Yorktown escapou aos torpedos japoneses, mas foi atingido por uma bomba de 800 libras que explodiu bem no interior de seu casco. No ar, os americanos se saíram bem, derrubando 39 aviões japoneses e perdendo 33 dos seus. Abalado por repentinas explosões internas, o Lexington foi abandonado após cinco horas desesperadas de trabalho para controlar os danos. Puseram-no a pique cinco torpedos disparados por um destróier americano, às 18:53 h. A perda do Lexington introduziu grande modificação do balancete, que passou a acusar vitória dos japoneses.

Mas era apenas uma vitória tática. Na verdade os americanos haviam vencido a batalha no dia 7, pois o afundamento do Shoho forçara a retirada da esquadra de invasão de Port Moresby, e os acontecimentos do dia 8 fizeram com que Inouye adiasse toda a operação. Pela primeira vez, desde Pearl Harbor, uma operação anfíbia japonesa fora frustrada. Apesar de tudo isso, a luta no Mar de Coral foi apenas um incidente que antecedeu a decisiva demonstração de força entre a Esquadra Combinada e os efetivos de combate sobreviventes da Esquadra Americana do Pacífico. Force uma luta generalizada, depois arranje uma paz o mais breve possível - isto foi o que Yamamoto sempre quis.

A "Operação MO" não tinha a batalha como objetivo subjacente. Destinava-se apenas a desviar a atenção. Havia forte razão para forçar o ritmo: a "Incursão Doolittle" contra Tóquio (18 de abril), por bombardeiros baseados em porta-aviões, quando todos os efetivos da Esquadra Combinada não conseguiram impedir que as bombas caíssem sobre a capital do Imperador. A Incursão Doolittle foi um choque tremendo para Yamamoto, ferindo o seu senso de dever, e também para os integrantes da Esquadra Combinada. Ele saiu de sua cabine, após horas de contrita meditação, para estimular seu Estado-Maior. Juntos planejaram a "Operação Midway" como o golpe decisivo.

O Lexington arde pouco antes de ser torpedeado

 

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