A Bomba Atômica
Alguns meses antes de cair sobre Hiroxima a bomba atômica, muitos líderes japoneses já sabiam que haviam perdido a guerra. Procuraram conseguir que a Rússia - então neutra - os ajudasse a ter entendimentos para a paz com os Estados Unidos. A Rússia sabotou esses esforços e, por motivos do seu próprio interesse, fez deliberadamente prolongar-se a guerra. Quando o Almirante Kantaro Suzuki se tornou Primeiro-Ministro, em abril de 1945, pediu ao seu chefe de secretaria que lhe levasse um levantamento completo do potencial de guerra japonês. O resultado foi constrangedor. O Japão estava estropiado, sem remédio. A produção de aço caíra a 100.000 toneladas por mês. Menos de 700 aviões eram produzidos mensalmente; de setembro de 1945 em diante não haveria produção de qualquer espécie por falta de alumínio. As rotas de navegação tinham sido cortadas pelos submarinos americanos e dentro em pouco não chegariam mais alimentos ao Japão.
Os bombardeios se haviam tornado insuportáveis. Se continuassem, no fim daquele ano não restariam mais casas em nenhuma cidade de mais de 25.000 habitantes. "Os únicos navios de guerra grandes com que ainda contava a nossa marinha", disse Sakomizu, "estavam escondidos em portos secretos, camuflados com árvores. Os aviadores jogavam volantes nos quais se liam : "As suas florestas estão secando. Por que não tratam de renová-las ? Podemos ver tudo". O próprio Togo, Ministro do Exterior, não sabia dessas coisas exatamente, pois os militares as escondiam dele. "Quando o Primeiro-Ministro Suzuki tomou conhecimento desses tristes fatos, disse : ‘Temos de acabar a guerra na primeira oportunidade’. Isso aconteceu em fins de abril de 1.945." Suzuki promoveu uma reunião do Supremo Conselho de Guerra, o qual constava dele, do Ministro do Exterior, do Ministro da Guerra, do Ministro da Marinha, do Chefe do Estado-Maior da Marinha e do Chefe do Estado-Maior do Exército - seis pessoas ao todo. Sakomizu serviu como secretário nesse conselho. O Primeiro-Ministro leu ao conselho o calamitoso relatório e disse : "Devemos acabar a guerra o mais depressa possível" Os componentes do conselho concordaram em princípio.
Mas Anami, Ministro da Guerra disse : "Devemos esperar um pouco, pois dentro em breve as tropas imperiais expulsarão o Exército Americano de Okinawa até o mar. Poderemos então entrar em negociações de paz em posição mais vantajosa". Era uma atitude típica dos militares. Até o fim o exército afirmou, por um lado, que havia probabilidade de vitória e, pelo outro, reconheceu virtualmente a impossibilidade de continuar a luta, Suzuki, que era versado em letras clássicas, disse a Anami : "Faz-me lembrar o mercador da lenda chinesa que oferecia à venda um escudo que não podia ser penetrado por nenhuma arma e uma lança capaz de perfurar qualquer escudo".
No dia 3 de junho de 1945, enquanto se travava a decisiva batalha de Okinawa, Suzuki pediu ao ex-Primeiro-Ministro Hirota que conversasse secretamente com o embaixador russo em Tóquio a fim de pedir a mediação russa para a paz. Constitui uma das ironias da História o fato de que o embaixador russo, que iria arrastar aos pés através de todas essas manobras frustradas de paz, não fosse outro senão Jakob Malik, que depois se tornaria tão conhecido como obstrucionista nas Nações Unidas. Hirota concordou em falar com Malik, mas, segundo Sakomizu, tinha receio de que a política secreta do Japão descobrisse os seus desígnios e o prendesse como traidor. Para livrar-se de vigilância, mudou-se para Hakone, uma estância de águas termais perto de Tóquio, e alugou uma casa vizinha à de Malik, a fim de poder visitá-lo secretamente pelos fundos. Até então os jornais russos tinham falado apenas de vitórias americanas e reveses japoneses.
Nessa ocasião começaram a dizer que as forças americanas poderiam ser vencidas e expulsas de Okinawa. Isso deu a Hirota a esperança de que a Rússia concordasse em servir de mediadora. Mas, na sua terceira visita a Malik, o russo perguntou de repente : "Se a Rússia aceitar a mediação, que fará o Japão pela Rússia ?" Isso ocorreu a 24 de junho, três dias depois de haverem os japoneses perdido Okinawa. "Okinawa", disse Sakomizu, "foi um golpe mortal. Pela primeira vez a Rússia se via em condições de exigir corretagem". O imperador não era posto ao corrente, pelos militares, do andamento da guerra, mas quando Okinawa caiu nem os militares conseguiram ocultar ou atenuar o presságio fatal da catástrofe. Foi então que o Imperador determinou que o Supremo Conselho de Guerra se reunisse na sua presença e lhe fizesse uma exposição fiel da situação. Depois de cada qual dos ministros e dos chefes militares haver falado, o Imperador disse que o governo e os militares deviam elaborar algum plano para acabar prontamente com a guerra. "Isso é da maior importância porque agora o Imperador disse o que todos queriam dizer, mas hesitavam em sugerir", disse Suzuki e com toda razão, pois até a polícia militar estava prendendo a quem falasse em paz. "Depois que o Imperador falou", disse Sakomizu, "o Supremo Conselho de Guerra deliberou pôr têrmo a guerra. Discutiram-se quatro meios de efetuar as tentativas de paz :
1) Falar diretamente aos Estados Unidos;
2) Pedir a mediação da Rússia;
3) Enviar uma mensagem Imperial ao Rei da Inglaterra, invocando os velhos usos da diplomacia entre as cortes;
4) Pedir a Ching Kai-Shek que iniciasse as negociações.
O Ministro do Exterior Togo queria o primeiro alvitre, mas todos os outros ministros hesitaram porque os Estados Unidos nessa época exigiam a rendição incondicional, o que significaria a perda do nosso Imperador e da nossa pátria. Depois de longas discussões a respeito de todos os meios propostos, resolveu-se oficialmente pedir a mediação da Rússia". A única pessoa ainda viva das que figuravam no Supremo Conselho de Guerra, o Almirante Soemu Toyoda, disse que o Imperador queria que o Príncipe Konoye fôsse mandado imediatamente a Moscou como enviado extraordinário. Enquanto isso, pela quarta e última vez, a 29 de junho de 1.945, Hirota visitou Jakob Malik na embaixada soviética em Tóquio. Ao fim de muita insistência, Malik prometeu transmitir a Moscou a mensagem de Hirota, mas, segundo diz Sakomizu, "por um correio regular de trem, arrastando-se como uma lêsma através da Sibéria". Hirota esperou impacientemente durante alguns dias. Depois pediu outra audiência a Malik, mas este se escusou, dizendo que não se sentia bem. Enquanto isso acontecia em Tóquio, Sato, embaixador japonês em Moscou, foi falar duas vezes com Molotov a respeito das conversações entre Hirota e Malik. Segundo comunicou, Molotov se mostrava completamente indiferente.
A 12 de julho, o Imperador mandou chamar o Príncipe Konoye e lhe confiou pessoalmente uma mensagem para ir como Enviado Especial a Moscou pedir a mediação da Rússia para a paz. No mesmo dia, o Ministro do Exterior Togo passou ao Embaixador Sato o seguinte telegrama urgente : "Sua Majestade extremamente ansioso terminar guerra mais depressa possível". Isso foi comunicado ao Vice-Comissário do Exterior Rosovsky, que disse a Sato : "Molotov não pode recebê-lo agora porque está ocupado com os preparativos da viagem a Potsdam com o Marechal Stalin. "A 16 julho", diz Sakomizu, "Sato procurou novamente Rosovsky e solicitou com empenho que o governo russo nos desse uma resposta antes da partida de Stalin e Molotov para Potsdam. Mas Rosovsky disse : ‘As propostas japonesa são muito vagas e difíceis de compreender. É preciso esperar que Stalin e Molotov voltem a Moscou’". A 21 de julho, quatro dias depois de iniciada a Conferência de Potsdam, Sato recebeu novas instruções pelo seguinte telegrama : "Enviado especial mandado Moscou em obediência solicitação Imperador para pedir bons ofícios governo sentido obter condições paz diferentes rendição incondicional". Por alguma estranha razão, afirma Sakomizu, esse telegrama chego com atraso às mãos de Sato e este nada pode fazer antes de 25 de julho.
No dia seguinte foi divulgada a Declaração de Potsdam. "Ficamos animados", disse Salomizu, "ao vermos, depois de cuidadoso exame, que a declaração não falava de rendição incondicional para a nação, mas de ‘rendição incondicional de toda as forças armadas japonesas’. O Ministro do Exterior Togo disse : ‘É melhor aceitarmos isso logo’. Mas o Primeiro-Ministro Suzuki replicou : ‘Ainda não. Podemos agora entrar em negociações. Vamos esperar alguma resposta do governo russo aos muitos pedidos que fizemos para que nos servisse de mediador’". A 30 de julho Sato esteve de novo com Rosovsky, sem resultado. No dia 2 de agosto recebeu mais uma vez instruções para lembrar a Rosovsky a grande urgência necessária. Assim fez ele, mas responderam-lhe : "Não haverá resposta enquanto Stalin e Molotov não voltarem a Moscou". Stalin e Molotov voltaram a Moscou no dia 5 de agosto. "Ficamos então à espera de resposta da Rússia", disse Sakomizu. "Esperávamos ansiosamente, ‘com os pescoços esticados como o de uma cegonha’, conforme diz um provérbio japonês". No dia seguinte foi lançada a bomba atômica em Hiroxima.

Bomba em Nagasaki
Todas as comunicações com Tóquio foram destruídas. Só bem tarde naquela noite foi que o governo japonês soube que uma só bomba destruída toda a cidade. O Primeiro-Ministro resolveu então aceitar a oferta feita na Declaração de Potsdam e convocou uma reunião do gabinete. "Mas nesse dia, 8 de agosto, antes de nós podermos reunir, Molotov mandou chamar Sato e disse : ‘Já tenho a sua resposta’. Em seguida leu-lhe a declaração de guerra da Rússia ao Japão". Também nesse dia caiu uma bomba atômica em Nagasaki. Na manhã seguinte o Exército Vermelho invadia a Mandchúria. A última conferência dramática da guerra se realizou num pequeno abrigo antiaéreo de cinco metros e meio por nova, sob os terrenos do palácio Imperial. Ali se comprimiam o Imperador, todo o gabinete e o Supremo Conselho de Guerra. O Ministro da Guerra Anami, obstinado até o fim, afirmou que o Exército Imperial repeliria os invasores americanos até o mar se eles se atrevessem a pôr os pés na terra sagrada da pátria. Mas o Imperador disse que concordava com a maioria que estava disposta a aceitar a Declaração de Potsdam. Declarou que o Japão e o povo japonês lhe tinham sido transmitidos pelos seus antepassados e que era do seu dever transmiti-los aos seus descendentes. "Mas se continuarmos a lutar em nosso território", disse ele, "todo o Japão será destruído e todos os japoneses morrerão. Como, então, poderemos transmiti-los ?" "Os bombardeiros voavam acima de nós e as sirenas gemiam sem parar", disse Sakomizu, "mas lá embaixo o silêncio era tão grande que se poderia ouvir nossas lágrimas caindo no papel. Foi o momento mais triste dos 2.500 anos de nossa história". Febris negociações encheram os dias que se seguiram. "Mas finalmente", disse Sakomizu, "o Imperador afirmou que estava satisfeito com as condições de paz e passou-se um telegrama, aceitando-as e pondo têrmo à guerra.
No dia seguinte (15 de agosto), ao meio-dia, o Imperador falou à nação pelo rádio. "Foi a primeira vez que todo o povo japonês lhe ouviu a voz e todos choraram ao saber que a guerra estava perdida. Mas o Japão perdera a guerra antes da bomba atômica - e antes da entrada da Rússia no conflito. Por que a Rússia se negara a servir de mediadora? Por que a Rússia abafou os nossos esforços de muitos meses para fazer a paz? Foi tudo um sinistro plano para fazer a guerra continuar até que os russos pudessem intervir no último minuto - para colher resultados que hoje podemos ver com a maior clareza ?"
_________________________________________________________________
Ir para: Textos
Ir para: 2ª Guerra Mundial - Principal