A Reconquista do Pacífico -  De Guadalcanal a Tóquio

 

Na primavera de 1943, a terceira fase da guerra do Pacífico estava prestes a começar. Na primeira, o Japão conquistou todo o Sudeste Asiático e o Pacífico Ocidental. Na segunda, foi derrotado no Mar de Coral, em Midway, Guadalcanal e Papua. De agora em diante, o Japão estaria na defensiva.

 

A conquista do Pacífico, 1943 a 1945

Na primavera de 1943, o Sol Nascente ainda tremulava orgulhoso sobre a ampla extensão territorial do recém-adquirido Império Nipônico. A área de domínio japonês fora bastante ampliada, em tempo ridiculamente pequeno, com a captura de Hong-Kong, da Malásia, de Cingapura, das Índias Orientais Holandesas, da Birmânia e das Filipinas. O exército japonês espalhara-se pelo Extremo Oriente como tinta num mata-borrão particularmente absorvente, deixando a impressão, pelo menos por algum tempo, de que força alguma o bateria. Dentre as inúmeras conquistas que fez, dobrou, algumas vezes, forças numericamente mais poderosas, sempre confiante na vitória final e totalmente convencido da justiça da causa por que lutava. Com moral elevado, o exército nipônico fazia prevalecer o seu adestramento e a sua disciplina em combate sobre as forças que enfrentava, forças que, em desespero, pareciam afogar-se nas ondas de mar cheio levantadas pela máquina de guerra do Japão.

 

Mas, ainda na primavera de 1943, os japoneses já haviam provado o amargo sabor da derrota. Doze meses antes, em junho de 1942, eles haviam sofrido um grande revés, no encontro com a Marinha dos Estados Unidos, na Batalha de Midway. Os americanos complementaram o êxito obtido no mar com um ataque a Guadalcanal, em agosto - as primeiras demonstrações do vigor de um jovem gigante que em breve se transformaria na maior força do Pacifico. Começava agora o que o Dr. Kennedy chama de a "Terceira Fase" da guerra do Pacífico - a reconquista dos territórios anexados pelos japoneses.

 

Que caminho os americanos deveriam tomar? Seguir a linha Filipinas-Nova Guiné, ou atacar pelo Pacífico Central, capturando os vários grupos de ilhas da Micronésia? Qual destes dois eixos seria o mais eficaz na luta por subjugar o novo Império Japonês? Cada rota tinha seus defensores e na "Conferência Tridente", realizada em Washington em maio de 1943, decidiu-se em favor de um avanço pelos dois caminhos, o que acabou sendo uma escolha sensata e proveitosa. Com tantas e tão espalhadas possessões, os japoneses tinham dificuldade em prever a direção do próximo ataque americano e, com duas linhas de avanço para seguir, os americanos podiam mantê-los na incerteza.

 

A reunião de forças e material bélico suficientes para a ofensiva em duas pontas era, em si, uma tarefa de proporções gigantescas. Os Estados Unidos dispunham de recursos industriais para produzir as armas de guerra necessárias para lhes dar esmagadora superioridade material. E quando esta enorme capacidade industrial se somasse ao gênio natural para a organização do americano, poder-se-ia então prever o resultado da guerra no Pacífico. A derrota do Japão era inevitável.

 

Para se apresentar um quadro completo da guerra no Extremo Oriente, é preciso incluir as operações dos britânicos na Birmânia e as campanhas desenvolvidas na China. Na Birmânia, como nos outros locais, os japoneses lutaram sempre com muita coragem e obstinação, tornando a campanha extremamente difícil e violenta. Os britânicos haviam experimentado, nesta frente, inovações, como as colunas dos "Chindits", criação de Orde Wingate, que operavam independentemente, travando guerra de guerrilha atrás das linhas inimigas e recebendo os suprimentos de que necessitavam por pára-quedas. As tentativas feitas no sentido de ampliar este método de guerra com o estabelecimento de enclaves dominados pelos "Chindits" bem dentro do território inimigo tiveram menos êxito, mas o abastecimento por via aérea das tropas de terra revelou-se uma tática bastante proveitosa e contribuiu muito para que os britânicos conseguissem vitórias, como em Imphal e Kohima, quando o abastecimento das forças convencionais foi feito por este sistema.

 

Embora as operações britânicas na Birmânia fossem importantes, e muito contribuíssem para o desfecho que teve a guerra contra o Japão, seriam os americanos que desenvolveriam a grande estratégia e levariam a guerra cada vez mais para perto das ilhas metropolitanas japonesas. Eles detiveram a marinha nipônica numa série de grandes batalhas navais, das quais a de Midway e a do Mar das Filipinas foram indiscutivelmente as mais importantes do ponto de vista estratégico. Nesta última batalha, os japoneses perderam três porta-aviões, tiveram grande número de navios avariados e, talvez o mais importante, perderam praticamente toda a arma aérea da marinha. Foi esta grande derrota que deixou as Filipinas abertas ao ataque americano.

 

Assim, a guerra aproximava-se cada vez mais das ilhas metropolitanas do Japão, cujo povo sentia com mais vigor a realidade da guerra moderna, pelos constantes ataques aéreos. Quando os americanos, mudando a tática de bombardeio, passaram aos ataques noturnos de baixo nível, as cidades japonesas começaram a sofrer danos mais graves. Para atingir alvos pequenos e espalhados, o alto explosivo foi trocado por bombas incendiárias, com resultados devastadores. Uma única B-29 transportava 49 grupos de 38 bombas incendiárias, representando um potencial destrutivo assustador. Num ataque a Tóquio, quase 16 milhas quadradas daquela cidade foram destruídas por uma fogueira de que resultou um número de baixas mais tarde estimado em 83.000 mortos e 102.000 feridos.

 

Durante todo este período de reveses quase contínuos, incapazes de sequer aproximar-se, em termos de produção de armas e munições, dos índices alcançados pelos americanos, com a marinha mercante dizimada por ataques de submarinos e aviões, os japoneses, contudo, continuaram lutando com o mesmo vigor e a mesma obstinada coragem. Houve ataques-suicidas - Kamikazes - num esforço louco por reduzir a superioridade numérica das enormes esquadras americanas. Soldados japoneses jogavam fora a vida em cargas auto-destrutivas que não podiam, de modo algum, afetar o resultado da batalha; todo esse sacrifício foi inútil. Para o Japão a guerra estava perdida. Restava-lhe apenas encontrar um bom pretexto para dobrar os joelhos sem comprometer as aparências. E a primeira bomba nuclear foi lançada sobre Hiroxima. O fato de ele não se render imediatamente levou os Aliados a repetir a terrível prova de destruição em massa com uma segunda bomba, lançada sobre Nagasaki. O Japão cedeu, embora houvesse militares que defendessem a rejeição dos termos propostos pelos Aliados, talvez porque lhes fosse menos penoso o aniquilamento total que a perda da condição de semideuses que desfrutavam.

 

Este trabalho é uma interessantíssima seqüência do "Inferno no Pacífico" - onde vai narrada a espantosa coleção de vitórias colhidas pelos nipônicos. Com sua costumeira lucidez, o Dr. Kennedy aqui discorre sobre as vicissitudes que tiveram de ser superadas pelos Aliados no teatro de operações do Pacífico, até a cerimônia realizada no convés do USS Missouri que assinalou o dramático final da Segunda Guerra Mundial.

 

 

Preparando para a volta

Na primavera de 1943, a terceira fase da guerra no Pacifico estava prestes a começar. Na primeira, o Japão triunfou por toda parte, conquistou todo o Sudeste Asiático e o Pacífico Ocidental. Na segunda, tentou ampliar ainda mais o seu controle, buscando tomar a Austrália e o Havaí, experimentando derrotas decisivas, nas batalhas do Mar de Coral, Midway, Guadalcanal e Papua. Devido à perda de quatro porta-aviões da esquadra em Midway, dois couraçados e muitas belonaves menores em Guadalcanal, e de centenas de aviões e suas tripulações em todas as quatro campanhas, era evidente que o Japão teria, na terceira fase, que adotar técnica defensivista; aliás, as ordens operacionais para os comandantes japoneses no Pacífico Sudoeste salientavam que eles deviam "conservar todas as posições nas Salomão e na Nova Guiné". Pela primeira vez na guerra do Leste, os Aliados estavam com a iniciativa, se pudessem usá-la. Mas isto não quer dizer que o fim estivesse à vista para o Japão. Na verdade, a mudança para a defensiva, no começo de 1943, representava apenas a realização do plano originalmente defendido antes que o otimismo da Marinha Imperial a tivesse tentado ir mais além, contra Midway e as Salomão. Este plano - a defesa rigorosa de um anel de bases ilhoas poderosamente fortificado e o rechaço de todos os ataques americanos até que Washington finalmente concordasse em negociar uma paz que reconhecesse as partes essenciais das conquistas do Japão - seria agora submetido à prova.

 

Qualquer que fosse a rota (ou rotas) que os Aliados escolhessem para o retorno, todas sugeriam dificuldades militares. O Japão, com suas primeiras conquistas, cercara-se de anéis concêntricos de defesa que reduziriam a rapidez de qualquer ofensiva e lhe permitiriam explorar suas linhas internas de comunicação, enviar rapidamente reforços para as áreas ameaçadas. No mapa, as possibilidades pareciam muitas, mas a maioria podia ser logo posta de lado. Uma ofensiva da Rússia estava fora de cogitações, pela franca recusa de Stalin em travar guerra na Ásia até que a Alemanha fosse derrotada. Um ataque da China também foi excluído, após muita discussão, devido às dificuldades no abastecimento e à falibilidade geral dos chineses. A rota do Pacífico Norte, geograficamente a mais direta dos Estados Unidos, carecia de bases e estava sujeita a constantes tempestades e nevoeiros. Uma rota de retorno pelo Sudeste Asiático era uma possibilidade, mas não se podia levá-la em consideração, porque as tropas e equipamentos britânicos eram totalmente inadequados para essa tarefa e havia pouca possibilidade de qualquer reforço em grande escala; de qualquer modo, a campanha para tomar a Birmânia, a Sumatra, a Malásia e as Índias Orientais Holandesas poderia demorar muitos anos e, ainda assim, deixar os Aliados a milhares de quilômetros de Tóquio. Com todas essas possibilidades tão claramente inadequadas ou inadmissíveis, restava apenas uma contra-ofensiva pelas vastidões do próprio Oceano Pacífico.

 

Essa rota há muito era considerada a mais provável por outra razão - o fato de se ter evidenciado, desde que se examinara pela primeira vez a possibilidade de um retorno, que os Estados Unidos desempenhariam o papel decisivo. Contudo, ainda não se resolvera se este avanço liderado pelos americanos seria ao longo do eixo Nova Guiné-Filipinas ou através do Pacífico Central, passando diretamente pelos vários grupos de ilhas da Micronésia. As duas rotas tinham seus defensores.

 

O General MacArthur, Comandante Chefe do Pacífico Sudoeste, liderava a defesa da rota pela Nova Guiné. Ele afirmava que esta era mais lógica, não só por já estar sendo realizada pelas campanhas de Guadalcanal e Papua, mas também porque colocaria mais depressa os Aliados em condições de isolar o recém-conquistado império sul do Japão de suas ilhas metropolitanas, sustando, assim, a sua produção de guerra. MacArthur afirmou com veemência que os Estados Unidos tinham o dever moral de reconquistar as Filipinas o mais depressa possível - aliás, isto muitas vezes deixou ele a impressão de que era mais importante do que a própria invasão do Japão - e o caminho para Manilha estaria aberto assim que a Nova Guiné caísse. A rota alternativa não parecia oferecer nenhum objetivo estratégico vital e seria uma operação muito perigosa, expondo as forças de invasão a ataques de um grupo de bases navais e aéreas que os japoneses haviam construído nas ilhas administradas sob mandato. Por último, se se deixassem as forças inimigas ocupando a Nova Guiné e as Salomão, isto alarmaria os aliados dos Estados Unidos, a Austrália e a Nova Zelândia.

 

Por outro lado, a marinha americana via muito valor num avanço pelo Pacífico Central. Em primeiro lugar, isto lhe permitiria empregar seus velozes porta-aviões - cada vez mais numerosos - com muito mais eficiência do que nas apinhadas águas das Salomão e das Bismarcks. Ela rejeitou a noção de que esta rota seria mais perigosa, observando os desenvolvimentos muito importantes nas forças-tarefas de porta-aviões - que tinham o poder de ataque para isolar e dominar um grupo de ilhas e proteger os comboios de invasão - e do sistema de abastecimento flutuante da esquadra - que eliminava a necessidade de os porta-aviões retornarem ao porto a intervalos freqüentes. Além disso, se se deixassem intocadas as forças japonesas nas ilhas de mandato, isto exporia a proposta linha de comunicações Nova Guiné-Filipinas a poderosos ataques pelos flancos. De qualquer modo, uma arremetida pelo Pacífico Central provavelmente chegaria às Filipinas e cortaria os laços do Japão com o sul mais depressa da que uma batalha por etapas, subindo as escadas das Salomão-Bismarcks-Nova Guiné, que, sendo previsível, dava ao inimigo a oportunidade de se preparar para o ataque seguinte e envolveria uma luta acirrada. E, naturalmente em segredo, a marinha americana não gostava da probabilidade de colocar seus preciosos porta-aviões sob o controle de MacArthur, enquanto que este, por sua vez, não queria que o Comando do Pacífico Sudoeste fosse um teatro de operações subsidiário e nem que o exército fosse empregado unicamente para operações de "limpeza".

 

A solução finalmente aceita - sobretudo na "Conferência Tridente", realizada em Washington em maio de 1943 - foi um avanço pelas duas rotas, pois isto manteria os japoneses em dúvida quanto ao local de ataque real e dispersaria as forças inimigas, além de impedir quaisquer ataques pelos flancos ou a ida de reforço das ilhas sob mandato para Rabaul - ou vice-versa. De qualquer modo, as duas rotas terminariam nas Filipinas. Tecnicamente, esta decisão foi uma derrota para as tendências monopolistas de MacArthur; estrategicamente, ela se revelaria uma decisão realmente muito sensata. Por outro lado, uma ofensiva de duas pontas assim tão vasta precisava de enormes preparativos e da existência de vários meses de relativo impasse na guerra do Pacífico, enquanto as unidades estavam sendo treinadas, bases e aeródromos estavam sendo construídos, barcaças de desembarque e navios reunidos, novas belonaves preparadas e os planos finais organizados. Foi durante este "impasse" que os Estados Unidos recuperaram as Aleútas ocidentais.

 

Embora a impraticabilidade de grandes operações nessa área fosse óbvia a todos quantos a conheciam, ambos os lados eram extremamente sensíveis a avanços inimigos ali. A tomada pelos japoneses das ilhas de Kiska e Attu durante a operação das Midway provocou alarma nos Estados Unidos e fez o governo planejar uma contra-ofensiva imediata. Bombardeios das ilhas ocupadas pelos japoneses foram seguidos do bombardeio naval de Kiska, a 7 de agosto de 1942, da ocupação de Adak (336 km a leste de Kiska), a 30 de agosto, onde se construiu uma base aérea para ajudar num outro avanço, e da tomada de Amchitka (144 km a leste de Kiska), a 12 de janeiro de 1943. A etapa óbvia seguinte, a tomada da própria ilha de Kiska, foi evitada pelos comandantes americanos, o Contra-Almirante Kinkaid e o Major-General De Witt, porque a maior parte das suas forças navais e aéreas fora desviada para as críticas batalhas de Guadalcanal. Em vez disso, eles decidiram tomar Attu, situada ainda mais para oeste, depois que um bombardeio naval, a 18 de fevereiro, revelou sua falta de defesas.

 

Um esquadrão americano, formado pelos cruzadores Salt Lake City e Richmond e por quatro destróieres, comandado pelo Contra-Almirante McMorris, foi despachado para bloquear Attu no mês seguinte, mas a 26 de março ele encontrou uma força inimiga mais poderosa, composta de quatro cruzadores e quatro destróieres, que escoltava três transportes com reforços para a guarnição da ilha. Este grupo, comandado pelo Vice-Almirante Hosogaya, abriu fogo quando as belonaves americanas se aproximaram, iniciando assim a luta que recebeu o título grandiloqüente de "Batalha das Ilhas Komandorski". Durante três horas e meia as forças adversárias dispararam e manobraram a longa distância, até que os japoneses romperam contato. Nenhum dos lados sofreu qualquer perda, mas como os transportes foram obrigados a voltar, pode-se dizer que foi uma pequena vitória americana. Seis semanas mais tarde, a 11 de maio, uma força, sob o comando-geral do Contra-Almirante Rockwell, desembarcou em Attu, ajudada pelo nevoeiro e apoiada por um grupo de bombardeio, posicionado ao largo da ilha, do qual participavam três couraçados. Durante duas semanas a guarnição de 2.600 homens resistiu aos 11.000 soldados da 7a Divisão de Infantaria dos Estados Unidos, embora fosse obrigada a recuar sistematicamente para as montanhas. Porém, a 29 de maio, após 24 horas de violenta luta, quando os japoneses restantes fizeram uma carga-suicida contra as posições americanas, os defensores foram quase que totalmente eliminados; somente 28 foram aprisionados, enquanto que os invasores perderam 600 homens.

 

A captura de Attu foi o primeiro exemplo de "pular carniça" (saltar de ilha em ilha) feita pelos americanos na guerra do Pacífico. A eficácia dessa tática logo tornou-se evidente porque, com uma base aérea americana construída rapidamente em Attu, os japoneses que compunham a guarnição de Kiska foram virtualmente isolados e submetidos a freqüentes bombardeios navais e ataques aéreos. Como o QG Imperial não queria travar uma grande campanha nas Aleútas, decidiu-se abandonar a ilha e, a 28 de julho, uma força de cruzadores e destróieres evacuou em apenas 55 minutos os 5.183 soldados que ali se encontravam, sob a proteção do habitual nevoeiro. Ignorando este acontecimento, os americanos continuaram bombardeando Kiska nas semanas seguintes; e na noite de 15 de agosto cerca de 34.400 soldados (incluindo 5.400 canadenses) desembarcaram para uma infrutífera busca de cinco dias, até perceberem que o inimigo já abandonara a ilha. Assim, as Aleútas foram retomadas, o que não é de surpreender, pois os americanos destacaram 100.000 soldados e uma grande força-tarefa naval, além da Força Aérea do 11o Exército, para a área do Pacífico Norte, cuja maior parte poderia ter sido empregada com melhores resultados em outros locais.

 

Nos Comandos do Pacífico Sudoeste e do oceano Pacífico, por exemplo, MacArthur e Nimitz estavam implorando por mais reforços antes de começar suas próprias ofensivas. Mas, embora nenhum dos dois fosse plenamente satisfeito, seus respectivos efetivos estavam começando a aumentar sistematicamente, à medida que a economia dos Estados Unidos se concentrava na produção bélica. MacArthur tinha sete divisões (três delas australianas) sob seu comando, com mais duas divisões americanas a serem enviadas e oito divisões australianas em treinamento; no Comando do Pacífico Sul, de Halsey (responsável perante Nimitz), havia quatro divisões do exército, duas dos fuzileiros navais e uma neozelandesa, com mais outra que deveria chegar pelo fim do ano. No ar, MacArthur controlava cerca de 1.000 aviões, enquanto que Halsey podia recorrer a 700 aviões do exército e 1.100 da marinha e dos fuzileiros navais. As forças navais variavam, pois, enquanto se concentrava uma esquadra anfïbia com escoltas para as duas campanhas, muitas das belonaves estavam, sob empréstimo, a curto prazo, adidas à força naval de Nimitz, em Pearl Harbor. Nessa época, Halsey tinha seis couraçados e dois porta-aviões sob seu comando.

 

Embora se tivesse concordado quanto à estratégia-geral da organização de uma poderosa contra-ofensiva na região da Nova Guiné-Salomão, ainda restava resolver as diferenças de comando e o curso exato das operações. O primeiro problema era complicado pelo fato de que o próprio grupo das Salomão separava os Comandos do Pacífico Sudoeste e do Pacífico Sul. Por outro lado, isto também obrigava os dois líderes da campanha e seus próprios superiores a cooperar mais estreitamente do que teria acontecido, pois não havia sentido em discutirem entre si enquanto combatiam um inimigo tão formidável como os japoneses. Portanto, os Chefes de Estado-Maior Conjuntos logo concordaram que MacArthur teria o controle estratégico de toda a região da Nova Guiné-Salomão, mas Halsey teria o controle tático das Salomão, enquanto que todas as belonaves de Pearl Harbor em operação nessas águas permaneceriam sob o comando de Nimitz.

 

O objetivo estratégico da "Operação Cartwheel" (Roda de Carro) (originariamente chamada "Watchtower" - Torre de Atalaia) era romper a barreira das Bismarcks e tomar a grande base japonesa em Rabaul. Aqui, também, os Aliados poderiam aproximar-se ao longo de dois eixos principais, pela costa da Nova Guiné e pela cadeia das Salomão, com ataques alternativos que manteriam o inimigo confuso. Esperava-se que dentro de oito meses eles estariam prontos para tomar Rabaul propriamente dita. A primeira etapa seria empreendida pelas forças de Halsey, que ocupariam as ilhas Russell, para desenvolver ali uma base aérea e naval avançada. Então, as forças de MacArthur atacariam, tomando a ilhas de Woodlark e Kiriwina, no grupo das Trobriands, que seria uma base aérea e um ponto de parada entre os dois teatros de operações. Após estas ações preliminares, Halsey atacaria as ilhas da Nova Geórgia, para tomar a importante pista de pouso de Munda, enquanto que o Comando do Pacífico Sudoeste faria um grande avanço para expulsar os japoneses dos seus pontos fortes da Nova Guiné: Lae, Salamaua, Finschhafen e Madang. Nesse momento, as forças do Pacífico Sul já teriam passado para as ilhas Shortland e, depois, para o sul de Bougainville. A penúltima ação dos dois avanços seria a neutralização de Buka, pelo Comando de Halsey, e a tomada do cabo Gloucester, bem como da própria Nova Britânia, pelo Comando de MacArthur. Surpresa, rapidez e sincronização seriam fatores essenciais, mas os dois comandantes eram famosos pelo seu vigor e impetuosidade.

 

Também os japoneses estavam reunindo suas forças e reexaminando sua estratégia nos meses subseqüentes à desastrosa campanha de Guadalcanal. Após um longo e custoso período de alternação de prioridades no Pacífico Sudoeste, entre a Nova Guiné e as Salomão, decidira-se dividir aqueles teatros de operações em duas partes, com o 18o Exército encarregado da defesa da primeira e o 17o Exército da segunda, ambos sob o controle do 8o Exército de Área (General Imamura), baseado em Rabaul. Contudo, o exército ainda tendia a preferir a campanha da Nova Guiné, por considerar que aquela grande ilha era um amortecedor essencial para as Índias Orientais Holandesas e as Filipinas. Mas a marinha, com igual lógica, desejava dar prioridade à área Salomão-Bismarcks, pois a vitória ali abriria a grande base naval japonesa em Truk, nas Carolinas, a ataques aéreos americanos. Como o exército levava vantagem no QG Imperial, porém, uma diretiva datada de 25 de março de 1943 declarou que se deveria dar prioridade à Nova Guiné. Na verdade, a marinha assumiu a principal responsabilidade pela defesa das Salomão e o exército fez o mesmo com relação à Nova Guiné, concordando-se que a linha defensiva geral deveria ir desde Lae, na costa da Nova Guiné, até Isabel e Nova Geórgia, nas Salomão. O certo é que cada frente seria ferozmente defendida.

 

Por outro lado, as forças japonesas eram muito inferiores às dos Aliados. Havia três divisões (55.000 homens) na Nova Guiné e duas divisões, uma brigada e outras unidades (25.000 homens) nas Salomão; as 6a e 7a Divisões Aéreas, respectivamente anexadas a cada comando, só dispunham de 170 aviões, ao passo que a 11a Frota Aeronaval podia fornecer mais 240, pois as perdas na campanha de Guadalcanal haviam sido muito grandes; as forças navais compreendiam apenas cruzadores e destróieres, embora se pudesse recorrer rapidamente a belonaves maiores, em Truk. É verdade que, em seis meses, a área poderia ser reforçada por 10 ou 15 divisões, mais de 850 aviões e toda a marinha japonesa, tornando, portanto, uma operação de contenção bastante viável - mas, para que tal operação se constituísse em sucesso, era imperioso que houvesse tenacidade, flexibilidade de raciocínio e que os reforços fossem obtidos assim que se fizessem necessários. Independente do que acontecesse, parecia que o Japão já perdera a supremacia aérea nesta região: mas todos reconheciam que esta era o elemento essencial na guerra do Pacífico.

 

Mesmo no período do chamado impasse, houve considerável ação no Pacifico Sudoeste, sobretudo ação aérea. Já a 21 de fevereiro de 1943, as forças de Halsey passaram de Guadalcanal para as ilhas Russell, embora isto não passasse de apenas um exercício, pois os japoneses as haviam abandonado muito antes que os 9.000 soldados americanos nelas desembarcassem. Muitas vezes havia escaramuças navais na "Fenda", as águas muito disputadas que banham a cadeia das Salomão, e na noite de 6 de março, dois destróieres japoneses foram afundados por seus equivalentes americanos.

 

Houve uma grande luta na frente da Nova Guiné, onde os japoneses decidiram aliviar a pressão que sofria capturando a base aérea em Vau, defendida apenas por uma guarnição australiana, chamada "Força Kanga". Ali, porém, os Aliados demonstraram sua superioridade aérea, despachando de avião a 17a Brigada australiana para a cidade, a fim de repelir o inimigo, ação esta que de tal forma alarmou Imamura, que ele ordenou que o resto da 51a Divisão de Infantaria fosse transportada para a região do Golfo de Huon o mais depressa possível. A 28 de fevereiro, oito navios, transportando quase 7.000 soldados e escoltados por oito destróieres, zarparam de Rabaul; um dia depois, porém, eles foram avistados por um avião de reconhecimento americano, sendo então atacados por 207 bombardeiros e 129 caças do grupamento aéreo do Tenente-General Kenney, estacionado na Nova Guiné. Quase que ignorando os fracos esforços japoneses para proteger o comboio, esses aviões "bombardearam por ricochete" e metralharam os navios de transporte de tropas durante 48 horas, afundando todos eles, além de quatro destróieres, morrendo ali mais de 3.600 soldados nipônicos. Após esta "Batalha do Mar de Bismarck", o 8° Exército de Área foi obrigado a usar apenas submarinos, ou pequenas barcaças, para transportar homens e suprimentos nas águas da Nova Guiné.

 

O desastre ocorrido com este comboio fez o Comandante-Chefe Naval, Almirante Yamamoto, compreender que se o Japão não recuperasse imediatamente a supremacia aérea, ele perderia não só o Pacifico Sul, mas, também, a guerra. Assim, de despachou 300 aviões, dos porta-aviões da 3a Esquadra, de Truk para Rabaul, com ordens de atacar as bases aliadas e provocar batalhas aéreas em grande escala, para permitir ao Japão tomar o controle do ar. Esta "Operação I", como era chamada, iniciou-se a 1o de abril, com uma série de ataques a Guadalcanal, passando depois para a Nova Guiné, ainda no mesmo mês. O plano elaborado para provocar batalhas aéreas teve êxito, mas Yamamoto foi iludido pelos relatórios extremamente exagerados dos seus pilotos, que o levaram a pensar que as forças aéreas inimigas haviam sido dizimadas; na verdade, os Aliados perderam 25 aviões e os japoneses, 42, o que fez pender ainda mais a balança estratégica em favor das forças americanas.

 

Enquanto estava na região investigando o desenrolar da operação, Yamamoto decidiu visitar Bougainville, sendo descoberto pelo Serviço de Inteligência e de Decifração dos Estados Unidos. Preparou-se para ele uma emboscada e, a 18 de abril, o seu avião foi atacado por 18 caças Lightnings, que cobriram mais de 1.000 km para alcançar o ponto de interceptação. Mergulhando por entre os aviões de escolta, os Lightnings derrubaram o avião de Yamamoto; o almirante e a tripulação tiveram morte instantânea, quando o aparelho caiu na selva. Os corpos foram recuperados e as cinzas do almirante foram sepultadas em Tóquio, numa cerimônia realizada perante uma multidão de cidadãos. Para substituí-lo, foi designado o Almirante Koga, que se revelaria um substituto medíocre. O Japão perdera seu líder mais lúcido exatamente quando os americanos se preparavam para montar sua enorme contra-ofensiva de duas pontas pelo Pacífico.

 

 

Avanço para Rabaul

O avanço de duas pontas que os Aliados realizariam ao longo da costa da Nova Guiné e pelas Salomão, contra o posto de Rabaul, estava planejado para iniciar-se a 30 de junho de 1943. As forças de Halsey desembarcariam no grupo da Nova Geórgia; a Força Nova Guiné, comandada pelo Tenente-General Herring, desembarcaria tropas na baía de Nassau, perto de Salamaua, e a Força Álamo, sob o comando do Tenente-General Krueger, tomaria as ilhas Kiriwina e Woodlark, nas Trobriands. Esta última operação, realizada por duas divisões americanas, foi feita sem dificuldades, não havendo qualquer oposição inimiga, e a construção das pistas de pouso começou imediatamente. A força de Herring, composta principalmente de australianos, e contendo alguns regimentos americanos, encontrou mais dificuldades, mas beneficiou-se da indecisão dos japoneses. Dois meses antes, a guarnição australiana de Vau fora muito ampliada e seu comandante, o então Tenente-General Savige (3a Divisão australiana), recebera ordens para avançar sobre Salamaua, em apoio do desembarque do 162o Regimento americano na baía de Nassau. Temendo a ação de Savige, os japoneses não reagiram ao desembarque dos americanos com volume muito grande de tropas que, apesar do caos inicial nas praias e da inexperiência das tropas na selva, foi bem sucedido. Com os americanos avançando costa acima e os australianos vindo do interior, os 6.000 soldados japoneses foram sendo gradualmente repelidos para os arredores de Salamaua, em meados de agosto. Savige então recebeu ordens para manter sob pressão a cidade, para atrair forças inimigas que guarneciam Lae, que era o objetivo principal, mas que não a tomasse enquanto não estivessem sendo feitos os desembarques principais na península de Huon.

 

Comparada com esta, a campanha da Nova Geórgia foi muito mais difícil. Este grupo de ilhas, com sua importante pista de pouso, em Munda, sua guarnição de uns 10.000 japoneses e seu terreno montanhoso, úmido e coberto de selva, revelou-se quase tão difícil de tomar quanto Guadalcanal - sobretudo porque o QG Imperial insistira muito na sua defesa. Além disso, não era fácil invadir a ilha principal, pois toda a sua parte nordeste era cercada de recifes e em seus flancos oeste e sul havia ilhas menores que lhe proporcionavam meios de defesa. A primeira medida teria que ser necessariamente contra as ilhotas, o que alertaria os japoneses, ou, então, correr o risco de deixar as forças inimigas intactas no flanco do assalto à Nova Geórgia propriamente dita.

 

O plano dos americanos era dividir suas forças em três grupos de desembarque, na esperança de confundir a guarnição defensora. O corpo principal desembarcaria no lado norte ou na ilha de Rendova, de onde transporia o estreito para ocupar Munda. Assim que este segundo estágio estivesse ocorrendo, outra força americana desembarcaria perto do Ancoradouro Rice e iria rapidamente para a baía de Bairoko, na parte norte da Nova Geórgia, cortando assim a linha de reforço e retirada do inimigo. Além disso, haveria três desembarques subsidiários na parte sul do grupo de ilhas, no Ancoradouro de Wickham, na ilha Vangunu, em Segi e na baía de Viru, na costa sudeste da Nova Geórgia.

 

Halsey mantinha pessoalmente o controle do Esquadrão de Serviço Especial, que deveria cuidar da complexa logística da campanha, e da distante força de cobertura naval, a FT 36, que se compunha de dois porta-aviões de esquadra e três de escolta, três couraçados, nove cruzadores e 29 destróieres. O Contra-Almirante Turner estava no comando da FT 36, a Força-Tarefa Anfíbia. As forças aéreas aliadas baseadas em terra, na área (cerca de 530 aviões), estavam sob o comando do Vice-Almirante Fitch; os fuzileiros navais americanos sob o Major-General Vogel e o exército sob o Tenente-General Harmon; o grupamento principal das forças de terra era a 43a Divisão de Infantaria, uma unidade inexperiente cujo comandante, o Tenente-General Hester, tinha de controlar a divisão e toda a força de desembarque, o que obrigava a grande esforço o seu Estado-Maior.

 

O informe provindo de um vigia costeiro de que os japoneses estavam entrando na Nova Geórgia do sul levou Halsey a antecipar os desembarques em Segi, de 30 para 21 de junho. Estes foram realizados sem oposição inimiga, iniciando-se imediatamente ali a construção de uma pista de pouso; entretanto, o avanço por terra, para cobrir o desembarque marítimo na baía de Viru, mostrou-se muito mais difícil e Halsey decidiu cancelar o assalto anfíbio no dia 30, deixando para mais tarde a tomada do ponto fortificado. No Ancoradouro de Wickham foi mais difícil superar a rebentação do mar que os japoneses, mas a 3 de julho a ilha de Vangunu estava inteiramente tomada.

 

O assalto principal, feito por 6.000 soldados, contra Rendova, a 30 de junho, foi precedido por violentos bombardeios das posições japonesas, cuja guarnição, de cerca de 200 homens, foi rapidamente eliminada. A ameaça mais séria aos invasores eram o fogo das baterias inimigas instaladas em Munda, do outro lado do estreito, e os ataques aéreos desfechados de Rabaul. Mas a 2 de julho os americanos já se sentiam bastante fortes para tentar o golpe direto à Nova Geórgia, desembarcando em Zamana, a leste de Munda, e expulsando os japoneses da costa. Três dias depois deu-se o desembarque no Ancoradouro Rice.

 

A primeira resposta japonesa, como em Guadalcanal, foi no mar. Quatro destróieres zarparam de Bougainville com levas de soldados, desembarcando-os na ilha de Kolombangara a 4 de julho. Na noite seguinte, porém, outra tentativa de envio de reforços foi interceptada por três cruzadores e nove destróieres do Contra-Almirante Ainsworth, que estavam dando cobertura aos desembarques no Ancoradouro Rice. Nesta "Batalha do Golfo de Kula", os 10 destróieres japoneses, embora em grande desvantagem na escuridão, por não terem radar, afundaram o cruzador Helena e perderam apenas um destróier antes de desaparecerem dentro da noite. Além disso, conseguiram desembarcar 1.200 homens em Kolombangara, perdendo um destróier-transporte, que encalhou e foi atacado por aviões aliados no dia seguinte. Na noite de 12 de julho, ou seja, uma semana depois, houve outra luta cerrada, quando o cruzador Jintsu e nove destróieres, que levavam mais tropas, foram atacados por três cruzadores e nove destróieres aliados, também sob o comando de Ainsworth. Durante essa "Batalha de Kolombangara", um aerobote Catalina, equipado com radar, orientou o fogo disparado pelos barcos aliados, que afundou o Jintsu em poucos minutos, embora o cruzador neozelandês Leander fosse avariado; mas os destróieres japoneses, tendo desembarcado outros 1.700 soldados em Kolombangara, retornaram à luta, afundando um destróier americano e avariando os dois outros cruzadores com seus formidáveis torpedos "lança-longa".

 

Em terra, os inexperientes soldados da 43a Divisão não estavam progredindo muito, em virtude das características do terreno, da agressividade do clima e da obstinada defesa japonesa; tampouco o apoio aéreo, naval e de artilharia surtiu o desejado efeito no avanço para Munda. O moral da tropa americana estava muito ruim - a maioria das baixas teve como causa o choque psicológico, a "neurose de guerra". A 16 de julho o Major-General Griswold foi para ali enviado a fim de assumir o comando e, apesar da substituição de alguns oficiais e do uso de tanques e lança-chamas, os americanos só tomaram Munda a 5 de agosto, repelindo os japoneses para o norte da ilha onde a Força Norte também se vinha expandindo. Evitando o movimento de pinça que se formava, a maioria dos defensores, comandados pelo Major-General Sasaki, conseguiu recuar para a vizinha ilha de Kolombangara, porque a baía de Bairoko ainda estava em poder dos nipônicos. A 24 de agosto, porém, também esta caiu para os americanos, encerrando a campanha da Nova Geórgia.

 

A pista de pouso de Munda já estava sendo usada no dia 14, mas mesmo antes disso os aviões aliados detinham o domínio dos céus, impedindo que o inimigo bombardeasse de Rabaul, dando apoio às tropas de terra e atacando quaisquer tentativas dos japoneses de reforçar as Salomão centrais. A 19/20 de julho, eles afundaram um cruzador e dois destróieres, a 22, um destróier; quando os japoneses passaram a enviar suprimentos e tropas por pequenas barcaças, contra elas foram lançadas torpedeiras americanas. Na noite de 6 de agosto apareceram alvos maiores - quatro destróieres, que transportavam 900 soldados e provisões. À sua espera, no golfo de Vella, estavam seis destróieres americanos, sob o Comandante Moosbrugger, posicionados, com o auxílio do radar, para um perfeito ataque de torpedos. Em meia hora três vasos japoneses foram postos a pique e o sobrevivente, que não saiu incólume, pois dele se desprendia fumaça, rumou para o norte, em direção a Rabaul.

 

A demora para capturar Nova Geórgia desalentou Halsey e MacArthur, que também estavam cônscios de que um avanço passo a passo pelas Salomão daria ao inimigo tempo suficiente para reforçar sua próxima linha de defesa. Possuindo a necessária superioridade aérea e naval, os Aliados decidiram passar para Vella Lavella, que era pouco defendida, isolando Kolombangara e seus 10.000 japoneses. Somente através da progressão aos saltos, estratégia adotada a partir das Aleútas, é que o Comando do Pacifico Sudoeste podia alimentar esperanças de manter seu planejado avanço e frustrar o sistema defensivo do inimigo. Uma outra vantagem da medida é que uma pista de pouso construída em Vella Lavella estaria apenas a 160 km de Bougainville.

 

Com isso, a ilha foi invadida por 4.600 americanos a 15 de agosto, antes mesmo do fim da campanha da Nova Geórgia. Reforçados por parte de uma divisão neozelandesa, eles logo dominaram a pequena guarnição que ali havia, o que permitiu aos "Seabees" (as famosas unidades de construção naval) começarem a trabalhar na preparação de uma pista de pouso. Para fechar a brecha em torno de Kolombangara, a ilha de Arundel foi invadida a 27 de agosto, mas, tendo sido ela reforçada por Sasaki com tropas da ilha principal, sua guarnição só foi eliminada a 21 de setembro. As esperanças do general de poder rechaçar a invasão de Kolombangara propriamente dita, onde uma guarnição de 12.000 homens havia construído um forte sistema de defesa, esfumaram-se quando, a 15 de setembro, chegou-lhe uma ordem do QG Imperial, através de Rabaul, ordenando-lhe que retirasse dali suas forças; aliás, sua tarefa fora simplesmente de retardamento, porque a decisão de abandonar as Salomão centrais, para concentrá-las em Bougainville, fora tomada um mês antes.

 

Apesar da supremacia aliada no mar e no ar, os japoneses, uma vez mais, conseguiram realizar uma hábil retirada. A 28/29 de setembro e nas duas primeiras noites de outubro, boa quantidade de pequenos barcos retiraram 9.500 homens, inclusive o próprio Sasaki. A única oposição em grande escala feita pela marinha americana a esta Dunquerque em miniatura deu-se na noite de 6 de outubro, quando três destróieres, comandados pelo Capitão Walker, interceptaram uma força inimiga de nove destróieres e alguns barcos menores que estavam evacuando o resto dos soldados de Vella Lavella. Na refrega que se seguiu, os japoneses perderam um destróier, mas conseguiram evacuar os soldados e, ao mesmo tempo, afundaram um e danificaram dois destróieres americanos. As Salomão centrais estavam agora livres de quaisquer forças japonesas organizadas.

 

Praticamente ao mesmo tempo, as forças que os Aliados tinham na Nova Guiné estavam tomando a importante península de Huon, que oferecia bons aeródromos, os portos de Lae e Finschhafen e uma posição de flanco no estreito de Vitiaz para o salto para a Nova Britânia. Não tendo belonaves e transportes suficientes para um ataque inteiramente anfíbio, e temendo que as dificuldades do terreno impedissem a utilização plena da superioridade aliada em forças terrestres para garantir o sucesso completo de um avanço exclusivamente por terra, MacArthur decidiu usar as três formas de ataque ao mesmo tempo. Em resumo, o plano estipulava que a 9a Divisão australiana, com outras unidades, seriam desembarcadas na costa a leste de Lae, enquanto que o 503o Regimento de Pára-quedistas americano, na primeira operação de pára-quedistas realizada pelos aliados no Pacífico propriamente dito, tomaria a pista de pouso existente em Nadzab, então em desuso, situada a noroeste de Lae. Assim que os sapadores tornassem a pista operável, a 7a Divisão australiana seria levada para lá de avião, a fim de atacar Lae por terra. Entrementes, à 5a Divisão australiana, que vinha ameaçando atacar Salamaua, sem realmente fazê-lo, para desviar a atenção dos japoneses para lá, seria ordenado que tomasse aquela cidade.

 

Após dias de ataques aéreos aliados, a 7a Força Anfíbia desembarcou mais de 10.000 soldados da 9a Divisão australiana a uns 11 km a leste de Lae, no dia 4 de setembro. No momento dos desembarques aviões japoneses passaram a atacar, embora sem grandes resultados, os australianos, que avançaram sistematicamente para oeste, apesar das táticas de retardamento do inimigo e dos obstáculos em que se constituíram os rios em cheia, chegando aos arredores de Lae a 14 de setembro. A operação aeroterrestre foi igualmente bem sucedida, sendo tomada a pista de pouso de Nadzab, sem oposição, a 5 de setembro. A artilharia australiana foi então lançada de pára-quedas, seguida de desembarques de sapadores americanos e dos soldados da 7a Divisão australiana. A 10 de setembro as forças de terra já estavam descendo pelo vale do Markham, na direção de Lae, sem encontrar muita resistência, enquanto que, mais ao sul, Salamaua era abandonada pelos seus defensores no dia seguinte.

 

A falta de oposição a essas ações aliadas deveu-se ao temor do QG Imperial de que a 51a Divisão de Infantaria - responsável pela defesa da região de Lae-Salamaua - fosse isolada por esses movimentos de pinça. A 51a Divisão recebeu ordens para abandonar Lae a 15 de setembro e atravessou as montanhas para a costa norte da península de Huon. Os japoneses esperavam concentrar-se ao longo da linha Finschhafen - cordilheira de Finisterra - vale do Ramu, mas MacArthur também queria tomar Finschhafen, para controlar os estreitos de Vitiaz e Dampier e para intensificar o avanço costeiro sobre Madang; tudo levava a crer que a batalha por Finschhafen seria muito violenta, sobretudo porque sua guarnição, sob o Major-General Yamada, estava sendo rapidamente reforçada.

 

Uma vez mais, porém, os Aliados foram mais rápidos que os defensores japoneses. A 22 de setembro, a 7a Força Anfíbia desembarcou a 20a Brigada da 9a Divisão australiana a alguns quilômetros ao norte de Finschhafen, encontrando, a princípio, pouca oposição porque os 4.000 soldados japoneses estavam situados ao sul e a oeste da cidade. A resistência tornou-se então muito violenta e só a 2 de outubro é que os australianos, envolvendo os defensores num movimento de pinças, pelo norte e por um avanço por terra vindo de Lae, tomaram Finschhafen. A batalha, porém, ainda não terminara, porque Yamada apenas retirara suas forças para Sattelberg, uma região montanhosa situada a apenas 10 km a oeste da cabeça-de-praia australiana. Ali, a 10 de outubro, juntaram-se a ele o Major-General Katagiri e parte da 20a Divisão de Infantaria, que fizera uma marcha forçada desde Madang. Embora mais australianos da 9a Divisão, sob o Major-General Wooton, tivessem chegado a Finschhafen propriamente dita, a cabeça-de-praia não estava bem defendida e foi violentamente atacada pelas tropas de Katagiri a partir de 17 de outubro. A cada arremetida dos nipônicos, os australianos, ao rechaçá-las, impunha-lhes pesadas baixas, até que estes, no dia 24, sentindo-se suficientemente fortes para tanto, contra-atacaram. A pressão sobre a posição de Sattelberg foi sendo intensificada até que os japoneses ficaram virtualmente cercados. A 25 de novembro, Katagiri reconheceu que sua posição estava perdida e recuou para Sio, no norte.

 

Mas a 7a Divisão australiana, com outras forças, já vinham subindo o vale do Markham, na direção de Madang, tomando Kaiapit e seu aeródromo a 19 de setembro e Dumpu a 6 de outubro. A obstinada defesa feita pelos nipônicos dos desfiladeiros das montanhas impediram o avanço para Bogadjim, mas os Aliados procuraram, diante disso, aumentar seus efetivos e construir novas bases aéreas, preparando-se para o estágio seguinte. Pelo final de 1943, portanto, eles estavam prontos para avançar sobre Madang, tanto pela rota costeira como pelos vales Ramu-Markham.

 

Durante estas campanhas pela posse da Nova Guiné e das Salomão centrais, japoneses e Aliados andaram revisando os planos que tinham para o Pacífico. Os nipônicos, reconhecendo que haviam sido muito otimistas, tentavam uma revisão drástica da estratégia adotada, pois os americanos se haviam recuperado com incrível rapidez das primeiras derrotas que sofreram, retomando as Aleútas, passando a ameaçar Rabaul e - o que mais preocupava - haviam reunido uma enorme esquadra de novos porta-aviões e couraçados em Pearl Harbor. Diante disso, os nipônicos sentiram que se fazia necessário promover rapidamente a contração do perímetro defensivo, vale dizer, reforçar suas linhas defensivas. No novo Plano Operacional, de 15 de setembro de 1943, o QG Imperial especificou sua "esfera de defesa nacional absoluta", que se estendia da Birmânia às Curilas, passando pela barreira da Malásia à Nova Guiné ocidental e, daí, às Carolinas e às Marianas. Embora isto significasse que grande parte da Nova Guiné, as Salomão, as Bismarcks (incluindo Rabaul), as Gilberts e as Marshalls passassem à condição de não-essenciais, estas áreas deveriam ser defendidas durante pelo menos seis meses, para dar à indústria japonesa a oportunidade de reparar sérias deficiências, como a produção de aviões e navios mercantes. Ao final desse período, esperava-se que a chamada esfera de defesa nacional se houvesse transformado numa barreira inexpugnável, quase triplicada a produção de aviões, as perdas da marinha mercante repostas e a Esquadra Combinada reforçada, a fim de desafiar a Esquadra Americana do Pacífico para uma batalha decisiva.

 

A tarefa de Imamura e do Vice-Almirante Kusaka, comandantes, respectivamente, do exército e da marinha no Pacífico Sudoeste, assumia, assim, grande importância, pois tinham de fazer parar o adversário que mobilizava quase 3.000 aviões, uma esquadra imensa e cerca de 20 divisões, sem ajuda significativa de Tóquio. Enquanto uma divisão seria despachada para juntar-se às cinco já sob o comando de Imamura, os outros reforços iriam para áreas essenciais, como as ilhas sob mandato, que receberam 40 batalhões de infantaria, e a zona Celebes-Timor-Nova Guiné ocidental, que receberam cinco divisões, sob o 2o Exército de Área. O mais importante é que ainda havia 15 divisões japonesas na Manchúria e 26 na China nesse estágio da guerra, muito embora a ameaça dos Estados Unidos fosse decididamente a maior. As forças de terra, embora mal desenvolvidas, atendiam, apesar disso, as necessidades do Japão, que se não pudesse proteger sua marinha mercante e recuperar a supremacia aérea, estaria perdido.

 

Os Aliados não desejavam dar aos japoneses o tempo de que tanto necessitavam. Na verdade, insatisfeitos com a lentidão do avanço para Rabaul, os Chefes de Estado-Maior Conjuntos eram favoráveis a que se desse prioridade à arremetida pelo Pacífico Central e se mostravam propensos a deslocar para esta área uma divisão de fuzileiros navais e várias belonaves do Comando do Pacífico Sudoeste, pois acreditavam que um avanço direto de Pearl Harbor seria mais eficaz e, portanto, preferível à chamada "Operação Roda de Carro", basicamente "um assalto frontal contra grandes ilhas, com posições estreitamente organizadas em profundidade, para apoio mútuo". Isto, naturalmente, alarmou MacArthur, que disse que a pretendida transferência de forças poria em perigo suas chances de tomar Rabaul conforme planejado. Em junho de 1943, porém, Washington acreditava que a grande base inimiga devia ser apenas neutralizada, sugestão que foi adotada na "Conferência Quadrante", realizada em agosto. Uma campanha prolongada e sangrenta, para eliminar a guarnição de 100.000 japoneses que ali se encontrava, certamente não era a melhor maneira de explorar a superioridade aérea e naval aliada e causaria mais atrasos no avanço de MacArthur para as Filipinas. O próprio general acalmou-se ao saber que se planejava isolar Rabaul, tomando Bougainville, Nova Irlanda, cabo Gloucester, Wewak e as Almirantados, aplicando-se todo o poderio aéreo e naval para impedir que aquela base fosse reforçada ou evacuada; as forças do Comando do Pacífico Sudoeste avançariam então ao longo da costa norte da Nova Guiné e, dali, para as Filipinas.

 

O Plano para ocupar a grande ilha de Bougainville, o último objetivo importante nas Salomão, não foi afetado por essas decisões, mas, por outro lado, a operação não poderia ser encarada com otimismo exagerado, posto que os nipônicos tinham ali quase 60.000 homens, ao passo que Halsey de início só poderia desembarcar uma divisão reforçada, devido à retirada de navios para o Pacífico Central. Por fim, decidiu-se desembarcar na baía da Imperatriz Augusta, na costa oeste, o que evitaria as áreas mais fortemente defendidas. De antemão, realizou-se uma campanha de bombardeio em larga escala, com 800 aviões de Kenney, baseados na Nova Guiné, martelando Rabaul e os aviões de porta-aviões recém-chegados de Truk, enquanto que os 600 aviões do General Twining, baseados nas Salomão, atacavam os seis aeródromos de Bougainville. Também em fins de outubro realizaram-se operações menores, nos flancos de Bougainvílle: no dia 27, os fuzileiros navais tomaram a ilha de Choiseul, num esforço por convencer aos japoneses que qualquer grande ataque viria do sudeste; e no mesmo dia a FT 31, do Contra-Almirante Wilkinson, desembarcou 2.500 americanos e neozelandeses nas ilhas do Tesouro, onde a guarnição de 225 homens logo foi eliminada, construindo-se ali uma pista de pouso.

 

Cinco dias depois, a 1o de novembro, começou a invasão de Bougainville propriamente dita. Ela foi precedida do bombardeio, feito pela marinha, das bases aéreas da ilha e de ataques contra Rabaul, por uma força-tarefa de porta-aviões, sob o comando do Contra-Almirante Sherman, para impedir que os reforços aéreos ali chegassem. Pouco depois do amanhecer, a Força Anfíbia de Wilkinson começou a desembarcar os 14.000 fuzileiros navais do primeiro grupo de desembarque, cobertos por uma barragem de 11 destróieres. Pelo meio-dia já se estabelecera uma cabeça-de-praia, apesar da rebentação forte. A força de desembarque reagiu bem aos ataques aéreos contra ela dirigidos e dominou os defensores nipônicos.

 

As ações principais dos dias seguintes se desenrolaram no ar e no mar. Esperando barrar a operação americana, os japoneses mandaram dois cruzadores pesados e dois leves, escoltados por seis destróieres, sob o comando do Contra-Almirante Omori, para a baía da Imperatriz Augusta, com ordens de bombardear os transportes e a cabeça-de-praia. Esta força, porém, foi interceptada pela patrulha do Contra-Almirante Merrill, de quatro cruzadores leves e oito destróieres, no dia 2 de novembro, bem cedo, quando ainda a 80 km do alvo. Na ação demorada e confusa, os americanos levaram a melhor, afundando um cruzador e um destróier inimigos, pela perda de um destróier. Acreditando ter afundado pelo menos dois cruzadores americanos, Omori retirou-se sem haver atacado os desembarques - falha que resultou na sua substituição, quando voltou a Rabaul.

 

Algumas horas após este choque, os navios de Merrill foram atacados por 100 aviões japoneses; sem, contudo, sofrer danos sérios. Mais perturbadora para os Aliados foi a notícia de que uma força naval, sob o Vice-Almirante Kurita, composta de sete cruzadores pesados e um leve, com quatro destróieres, chegara a Rabaul a 4 de novembro, vindo de Truk. Como não tinha couraçados ou cruzadores pesados nessa época, Halsey temia que suas belonaves, bem mais leves, fossem vencidas; portanto, decidiu empregar os porta-aviões de Sherman, o Princeton e o Saratoga, contra o inimigo antes que as tropas desembarcadas fossem atacadas. Posicionando-se a 400 km de Rabaul, a FT 38 lançou um ataque de 97 aviões no dia 5, que conseguiram danificar seis cruzadores e dois destróieres japoneses, perdendo 10 aviões. No dia 11 de novembro, houve outro ataque, ajudado por mais três porta-aviões, enviados por Nimitz para aliviar a situação. Os danos causados foram menores, porque a maioria da força de Kurita partira para Truk, mas o novo grupo de porta-aviões, comandado pelo Contra-Almirante Montgomery, travara uma batalha feroz contra mais de 100 aviões atacantes, derrubando mais de 30 deles. Estes embates aéreos impediram que os japoneses fizessem muitos ataques à cabeça-de-praia, pois cerca de 70% dos aviões da marinha enviados como reforços para Rabaul estavam agora destruídos. Quanto a futuros desenvolvimentos operacionais no Pacífico, porém, fato dos mais importantes era a capacidade dos velozes grupos de porta-aviões de operar livremente em áreas ao alcance dos aviões inimigos baseados em terra, contanto que suas defesas antiaéreas e de caças fossem adequadas.

 

Nessas semanas houve menos atividade em Bougainville porque os japoneses tinham poucas tropas na área de desembarque e pelo menos 80 km de selva densa se interpunham entre suas forças principais e a cabeça-de-praia. Como resultado, os americanos foram ampliando sistematicamente o perímetro defensivo por eles criado, repelindo um ataque anfíbio feito de surpresa a 7 de novembro e um ataque maior, por dois batalhões que haviam marchado desde Buin. A 26 de novembro, a cabeça-de-praia, agora comandada pelo Major-General Geiger e reforçada pela 37a Divisão de Infantaria, tinha 19.500 m de comprimento, encerrava três aeródromos e 34.000 soldados; mas os japoneses ainda acreditavam que os desembarques ocorreriam em outros locais e continuaram a fortificar Buka, satisfazendo-se em desfechar ataques aéreos contra a posição americana. Foi durante essas viagens de reforço para Buka que cinco destróieres japoneses foram interceptados por igual número de vasos americanos, comandados pelo Capitão Burke. Estes conquistaram um triunfo decisivo nesta "Batalha do Cabo São Jorge", afundando três navios inimigos, sem sofrerem danos os seus navios. Na ilha, porém, houve um impasse estranho, com os americanos concentrando uma força de 44.000 homens até meados de dezembro, sem que os japoneses fizessem muita coisa para detê-los, preferindo, em vez disso, recorrer a ataques aéreos intermitentes; eles chegaram mesmo a plantar legumes, preparando-se para uma estada prolongada.

 

Em contraste, na Nova Guiné, o avanço aliado prosseguiu sem sofrer interrupções, continuando pelo ano novo, tanto ao longo da linha costeira como subindo os vales do Markham-Ramu. MacArthur não estava disposto a desperdiçar tempo e, quando os australianos se aproximavam da cidade costeira de Sio, ele mandou o 126o Regimento americano desembarcar a uns 120 km para oeste, em Saidor, que isolou de Madang a força japonesa de 20.000 homens. Esta última, esgotada pela longa retirada, foi repelida de Sio a 15 de janeiro e, como não estivesse disposta a enfrentar o "bloco" americano, evitou a armadilha, tomando um caminho indireto pela selva, perdendo milhares de homens nesse deslocamento.

 

Enquanto isso, as divisões australianas puderam atravessar as serras, saindo do vale do Markham, encontrando pequena oposição. Na verdade, o QG Imperial ordenara ao Tenente-General Adachi, comandante da Nova Guiné, que retirasse suas tropas para Wewak. Em conseqüência disso, Bogadjim foi tomada pelos Aliados a 13 de abril; Madang a 24, e Alexishafen no dia 26. O estreito de Vitiaz também foi desimpedido.

 

Antes mesmo de as forças japonesas terem sido repelidas da península de Huon, MacArthur atacara novamente, na própria Nova Britânia. Embora não se devesse dar atenção a Rabaul, ele queria controlar ambos os lados dos estreitos de Vitiaz e Dampier, para impedir qualquer ameaça, ao futuro avanço que empreenderia ao longo da costa norte da Nova Guiné. A Força Álamo, de Krueger (1a Divisão de Fuzileiros Navais e 32a de Infantaria), recebeu ordens de tomar a região do cabo Gloucester, defendida apenas por uma força isolada de 8.000 soldados da 17a Divisão de Infantaria japonesa. Para desviar a atenção, os desembarques principais foram precedidos de um pequeno desembarque em Arawe, a 15 de dezembro de 1943. Este último provocou contra-ataques japoneses feitos por terra e pelo ar, todos, porém, repelidos. Então, no dia 26, realizaram-se os desembarques de ambos os lados dos aeródromos do cabo Gloucester, que logo foram ameaçados por um avanço partido das cabeças-de-praia. Os pântanos e a selva atrapalharam mais que os defensores, que recuaram para Rabaul; e a 5 de janeiro de 1944 os aeródromos foram ocupados, permitindo a MacArthur liberar a Força Anfíbia para levar o 126o Regimento para Saidor.

 

Estimulados pela tomada fácil de ambos os lados do estreito de Vitiaz, os Aliados prepararam-se para tomar as Almirantados, cuja posse não só ajudaria a isolar Rabaul, como também criaria um posto de parada para avanços contra Truk e Filipinas. Como uma guarnição de 4.300 japoneses protegia os aeródromos e a espaçosa baia de Seeadler, MacArthur foi obrigado a aguardar um pouco, até que número suficiente de barcaças de desembarque voltassem do Pacifico Central para transportar a 1a Divisão de Cavalaria e outras unidades. Durante, porém, esse período de espera, a ilha Verde (situada entre Buka e Nova Irlanda) foi tomada, a 15 de fevereiro. No dia 29, forças americanas desembarcaram na ilha Los Negros, nas Almirantado, mas encontraram obstinada oposição que cedeu apenas quando mais tropas foram levadas para lá; a ilha Manus também foi tomada. A 18 de março os principais objetivos já estavam em mãos americanas e se iniciara o trabalho necessário à transformação do grupo de ilhas numa grande base, embora as operações de limpeza se arrastassem por mais dois meses, sofrendo os atacantes mais de 1.500 baixas nesta campanha, em que os japoneses foram totalmente eliminados.

 

Durante todas essas operações anfíbias, Rabaul continuara sendo constantemente bombardeada por aviões baseados nos territórios recém-capturados na Nova Guiné e nas Salomão e, em meados de fevereiro, os navios japoneses tinham sido obrigados a deixar o porto, que vinha sendo reduzido a escombros. A 20 de fevereiro, todos os aviões foram retirados após o grande ataque desfechado contra Truk pelos porta-aviões de Nimitz. Portanto, os 98.000 japoneses dos arredores de Rabaul foram isolados, mas não se podia esperar uma rendição imediata, como em Cingapura. Em vez disso, os Aliados preferiram deixar o inimigo "definhar-se", e prosseguir para alvos mais promissores. Também a Nova Irlanda foi deixada de lado, para ser neutralizada e isolada por patrulhas aéreas e navais. O mesmo ocorreu em Bougainville, pelo menos depois que o Tenente-General Hyakutake compreendeu que a baía da Imperatriz Augusta era realmente a área do desembarque principal e lançou violento ataque contra a cabeça-de-praia americana, entre os dias 8 e 20 de março. Seus 16.000 soldados, cansados pela longa marcha, foram facilmente repelidos pelos 62.000 americanos, sofrendo os nipônicos 8.000 baixas. Daí por diante, a guarnição japonesa continuou declinando, sem oferecer qualquer ameaça ao controle que os Aliados passaram a exercer das Salomão do norte.

 

Com o fim desta ação, completou-se a "Operação Roda de Carro". As Salomão estavam sob o controle aliado, a península de Huon e as Almirantados foram tomadas e Rabaul estava isolada. O mais importante é que a barreira das Bismarcks fora rompida e o caminho estava aberto para "saltos" mais espetaculares em direção a Manilha.

 

 

As Gilberts e as Marshalls

Enquanto as forças sob o comando de MacArthur iam expulsando os japoneses do leste da Nova Guiné e das Salomão, e reduziam Rabaul a cidade de guarnição isolada e inútil, o Almirante Nimitz reunia e organizava o que em breve se transformaria na mais poderosa esquadra já formada, em todos os tempos. Todos os meses novas belonaves chegavam a Pearl Harbor, enviadas dos estaleiros americanos, cuja produção era enorme - em 1942 já havia 19 porta-aviões (seis de esquadra, cinco leves e oito de escolta), 12 couraçados, 14 cruzadores e 56 destróieres. Esta força era única na história naval sob dois aspectos: era formada em torno dos porta-aviões, cujo poder de ataque era agora tão grande que podiam operar em águas inimigas com impunidade e devastar até mesmo bases fortemente defendidas; e transportava suas próprias provisões e instalações de reparos, com sua Frota de Serviço Especial, de modo que podia permanecer em alto-mar durante semanas a fio. Com a criação desta esquadra, vasta e móvel, a guerra no Pacífico tornou-se imediatamente mais abrangente e prometia sucessos mais rápidos do que qualquer campanha terrestre.

 

A estrutura de organização e comando desta nova força merece descrição mais detalhada, porque, com variações nos comandantes e títulos, ela forneceria o padrão básico das muitas lutas que travariam as forças do Pacífico Central. A parte combatente da 5a Frota, como em breve seria chamada, foi dividida em vários grupos de Forças-Tarefas de Porta-aviões Velozes; estes grupos normalmente consistiam de dois novos porta-aviões de esquadra da classe Essex e dois leves, da classe Independence, protegidos por vários couraçados, cruzadores e por grande número de destróieres. Ao contrário da costumeira formação da marinha japonesa, os americanos não conservavam seus couraçados unicamente para alguma futura luta do estilo "Batalha da Jutlândia", mas também os mantinham preparados para empregá-los nos bombardeios de ilhas dominadas pelo inimigo e na defesa dos porta-aviões, como formidável anteparo antiaéreo. A 5a Frota Anfíbia, que transportava as forças de desembarque e equipamento, era igualmente dividida em várias forças-tarefas, para possibilitar a realização de assaltos anfíbios simultâneos contra diferentes alvos. A força de desembarque propriamente dita, chamada 5o Corpo Anfíbio consistia de unidades do exército e dos fuzileiros navais. Finalmente, a 5a Frota tinha suas unidades aéreas baseadas em terra (uma mistura de esquadrões das três forças armadas) e, para a operação contra as Gilberts, podia recorrer aos bombardeiros pesados da 7a Força Aérea do Exército. A 5a Frota tinha no comando o Vice-Almirante Spruance, diretamente subordinado a Nimitz, em Pearl Harbor. As Forças-Tarefas de Porta-aviões Velozes eram comandadas pelo Contra-Almirante Pownall; a Frota Anfíbia estava sob o comando do Contra-Almirante Turner, já famoso por suas façanhas nas Salomão; as forças de desembarque eram comandadas pelo Major-General "Howling Mad" (Doido Varrido) Smith e as forças aéreas baseadas em terra, pelo Contra-Almirante Hoover.

 

No apoio desses grupos de forças combatentes ia a Frota de Serviço Especial a que já nos referimos. O motivo de sua criação foi simples: Spruance não podia dar-se ao luxo de enviar belonaves a Pearl Harbor ou Brisbane, situadas a milhares de quilômetros, para reparos, reabastecimento ou rearmamento; tampouco podia, por falta de tempo, pensar em construir bases que pudessem atender as necessidades das frotas nas várias ilhas dos Mares do Sul, pois esperava-se que o avanço continuasse rápido, deixando essas áreas muito para trás. A solução não podia ser outra senão criar esses esquadrões de serviço móveis, capazes de acompanhar a esquadra e provê-la de tudo, exceto reparos muito grandes. A princípio, esses esquadrões tinham navios-tanques, navios de provisões, vasos de reparos, tênderes, rebocadores, caça-minas, barcaças, chatas e navios de munição; mais tarde, foram-lhes acrescentados barcos mais sofisticados, como navios-hospitais, navios-quartéis e um dique seco flutuante, um navio de desmagnetização, guindastes flutuantes, navios de exploração, navios de montagem de pontilhões etc. A Frota de Serviço era produto do aperfeiçoamento minucioso e organizado dos métodos de fazer a guerra que os americanos haviam efetuado, e parte essencial da sua nova estratégia marítima, baseada nos porta-aviões.

 

Como mencionamos, na primavera de 1943 já se decidira que o avanço pelo Pacífico Central contra os territórios ocupados pelos japoneses deveria começar o mais breve possível. Isto não só teria o mérito de desviar de cima de MacArthur a atenção e os recursos do inimigo, como também de, segundo se esperava, abrir, com os porta-aviões, uma rota pela Micronésia, criando, assim, uma segunda linha de assalto às Filipinas. Em seguida, os Chefes de Estado-Maior Conjuntos planejaram tomar parte da costa chinesa, nos arredores de Hong-Kong, para ali estabelecer uma série de bases de bombardeiros pesados. Operando bem perto do Japão, ajudados por uma população local amiga, e logisticamente apoiados através de um grande porto, esses bombardeiros conquistariam o controle aéreo das ilhas metropolitanas do inimigo e as reduziriam sistematicamente a ruínas, até que elas se rendessem ou se enfraquecessem o suficiente para serem invadidas. Esta estratégia também ajudaria a manter em ação as vacilantes forças nacionalistas chinesas.

 

Como primeira etapa, o Almirante King queria que o comando de Nimitz tomasse as ilhas Marshalls, mas um minucioso reconhecimento aéreo revelou que a tarefa seria realmente muito difícil para as novas forças de porta-aviões e anfíbias. Assim, em lugar disso, decidiu-se, em meados de junho de 1943, por um avanço gradual sobre as Marshalls, passando pelas Gilberts, situadas mais ao sul. Isto estaria mais dentro da capacidade de combate e logística da 5a Frota, nesse estágio, além de se obter, com esses desembarques, experiência que poderia ser de grande utilidade em futuras operações; além disso, as bases aéreas que poderiam ser criadas ali seriam vitais para o assalto às Marshalls. Outros reconhecimentos aéreos levaram os americanos a escolher as ilhas de Tarawa e Makin como os objetivos principais nas Gilberts, ficando Abemama como subsidiária.

 

As forças mobilizáveis por Spruance para esta operação eram as seguintes: FT 58, a Força de Porta-aviões Velozes, de Pownall, com seis porta-aviões de esquadra e cinco leves, seis novos couraçados, seis cruzadores e 21 destróieres, divididos em quatro grupos equilibrados; ela daria cobertura a distância. A Força de Ataque Norte, que devia tomar Makin, era dirigida pelo próprio Turner e compreendia 6.700 soldados da 27a Divisão de Infantaria, cujos seis navios de transporte de tropas eram protegidos por destróieres e apoiados por três porta-aviões de escolta e um grupo de bombardeio integrado por couraçados e cruzadores. A Força de Ataque Sul, cujo objetivo era Tarawa, tinha no comando o Contra-Almirante Hill e totalizava 18.600 homens da 2a Divisão de Fuzileiros Navais; seus 16 transportes eram também apoiados por destróieres, porta-aviões de escolta e um grupo de bombardeio. Além dos 850 aviões dos porta-aviões, havia 150 bombardeiros baseados em terra. A totalidade da força consistia de mais de 200 navios, transportando 27.600 soldados de assalto e 7.600 de guarnição, 6.000 veículos e 117.000 toneladas de carga. A Frota de Serviço devia reunir-se nas ilhas Ellices, nas proximidades do alvo.

 

O Dia-D da "Operação Galvânica", como a invasão das Gilberts fora batizada, era 20 de novembro de 1943. As operações de debilitação começaram bem antes. Os bombardeiros da força aérea, baseados nas ilhas Ellices, atacavam regularmente todas as posições inimigas situadas nas Gilberts; e Tarawa e Makin foram bombardeadas diariamente durante uma semana, antes dos desembarques. Os porta-aviões rápidos de Pownall entraram a seguir em ação, com um grupo atacando Tarawa, o segundo, Makin, o terceiro, a ilha Nauru e o quarto, as Marshalls. As perdas de tripulações aéreas japonesas, especialmente as dos esquadrões dos porta-aviões da Esquadra Combinada, durante a luta de Rabaul haviam enfraquecido enormemente as suas defesas.

 

Na verdade, eram muito poucas as chances de que a operação fracassasse, pois os japoneses não tinham efetivos aéreos e navais para se oporem às esquadras americanas, que convergiam, de todas as direções,para as Gilberts. Apesar do Novo Plano Operacional, de setembro de 1943, que estabeleceu o envio de reforços consideráveis para os postos avançados do Pacífico Central, nada, em termos de reforço, havia ainda chegado às Gilberts, que se encontravam relativamente indefesas. Havia menos de 800 japoneses, incluindo 500 soldados-operários comandados por um tenente da marinha, na ilha Makin. Em Abemama encontravam-se apenas 25 japoneses e os fuzileiros navais americanos que desembarcaram para fazer o reconhecimento da ilha, a 20 de novembro, prontamente ocuparam-na ao tomarem conhecimento disso. Tarawa, porém, era diferente, provavelmente como conseqüência do ataque de surpresa, mas prejudicial, feito a Makin, em agosto de 1942, pelos Fuzileiros Navais Incursores, do Tenente-Coronel Carson, que revelou aos japoneses a facilidade com que uma força inimiga podia tomar posições nas Gilberts. Como Tarawa era a única ilha, daquele grupo, que tinha uma pista de pouso, suas defesas foram reforçadas. Por exemplo, a ilha principal do atol de Tarawa, Betio, tinha uma guarnição de 2.600 soldados de infantaria naval, 1.000 homens de engenharia de construção e 1.200 trabalhadores coreanos, todos sob o comando do Contra-Almirante Shibasaki, sendo elaboradamente fortificada com canhões de artilharia de costa de 8 pol. (ingleses, tirados de Cingapura), tanques imobilizados, ninhos de metralhadoras, casamatas, alambrados, barricadas, minas e obstáculos para barcaças de desembarque - e tudo isto, ocupando 120 hectares, fazia com que a Muralha do Atlântico de Herr Hitler, guardadas as proporções, parecesse frágil.

 

Como se previra, o ataque a Makin foi o mais fácil dos dois. Após um martelar pesado, mas inadequado, das defesas pelas belonaves americanas, Butaritari (a ilha principal do atol) foi invadida, a 20 de novembro. Apesar de ser fraca, a pequena guarnição lutou com bravura contra os soldados, inexperientes e sobrecarregados, da 27a Divisão de Infantaria, para grande irritação de "Howling Mad" Smith. Os novos amtracks blindados - veículos de lagarta anfíbios que podiam transpor recifes de coral - funcionaram muito bem para sofrerem grandes baixas. Após quatro dias, toda a guarnição foi virtualmente eliminada, mas os americanos tiveram 64 mortos e 152 feridos. Além disso, uma explosão interna no couraçado Missouri, durante o bombardeio, matou 43 marinheiros e, no dia 24, um submarino japonês torpedeou o porta-aviões de escolta Liscombe Bay, causando a perda de 644 vidas. Não teve começo muito auspicioso o retorno das forças do Pacífico Central.

 

Tarawa foi muito pior. Os planejadores americanos esperavam poder invadir a ilha de Betio pelo lado da lagoa, a fim de tomar a pista de pouso o mais rapidamente possível, e calcularam que as barcaças de desembarque transporiam os recifes de coral mesmo durante uma maré de quarto. Na verdade, eles foram demasiado otimistas a respeito disto e de vários outros fatores. Os bombardeios navais e aéreos, embora durassem duas horas e meia, foram insuficientes para esmagar os defensores; ninguém ainda havia calculado a quantidade de castigo que tropas experientes podiam suportar, quando protegidas por blocos de concreto ou camadas de troncos de coqueiro. Os aviões da marinha nem apareceram. Além disso, uma forte correnteza atrasou os desembarques, de modo que houve um breve cessar-fogo entre o final do bombardeio e a chegada das primeiras levas de assalto, e durante esse período de calma os japoneses saíram dos abrigos e prepararam-se para defender as praias. O pior, entretanto, é que a maioria das barcaças de desembarque não conseguiu transpor o recife de coral; os tanques Shermans foram desembarcados em locais com 1,20 m de profundidade, e o mar inundou os motores de vários deles, enquanto que os soldados, sobrecarregados, tiveram de vadear através de intenso fogo inimigo até as praias, a mais de 400 m de distância. Como os desembarques foram feitos muito fracionados, os atacantes, na realidade, eram superados em número pelos defensores. Portanto, não é de surpreender que as perdas americanas fossem sérias: dos 5.000 soldados desembarcados até o anoitecer, um quinto deles se constituiu em baixas, atingidos por balas nipônicas entre o recife de coral e as praias, trecho realmente muito longo.

 

Mas, não tendo os japoneses destruído as primeiras forças de desembarque, acabaram sendo, ali, derrotados. Ajudados pelos amtracks que conseguiram transpor o recife, pequeno número de americanos avançaram da sua tênue cabeça-de-praia, eliminando bolsões japoneses. O fogo extremamente preciso dos destróieres obrigou a guarnição a recuar e o emprego da reserva dos batalhões de desembarque manteve essa tendência. Incapazes de organizar um contra-ataque eficaz, por haver entrado em colapso as suas comunicações, os japoneses viram-se cada vez mais em inferioridade numérica e obrigados a deslocar-se para a extremidade oeste da ilha, durante o dia seguinte. Houve violentas batalhas em cada casamata e em cada bunker, com os americanos empregando aviões, tanques, lança-chamas e dinamite, enquanto os japoneses defendiam fanaticamente cada posição. Na noite de 22 de novembro, porém, a guarnição recorreu à tática tradicional e fez uma carga contra as fortes posições americanas, sofrendo enormes baixas, com pouco resultado. Na tarde seguinte, Betio estava completamente nas mãos da 2a Divisão de Fuzileiros Navais e as ilhas menores do atol também entravam em processo de ocupação. Ainda naquele dia, os primeiros aviões americanos pousaram na pista. Não houve interferência de navios de superfície japoneses e as forças-tarefas de porta-aviões, em patrulha, haviam mostrado toda a sua capacidade, repelindo os ataques aéreos inimigos, de dia ou de noite.

 

As perdas em Tarawa - mais de 1.000 fuzileiros navais mortos e 2.300 feridos - não teriam significado muito na Frente Oriental ou na campanha da África do Norte, mas chocaram o público americano e provocaram violenta controvérsia sobre se a tomada das Gilberts compensava tudo isso. Embora se possa dizer com segurança que a operação foi mal dirigida taticamente, sobretudo ao atacar quando a maré estava baixa demais, a afirmação de que o grupo deveria ter sido evitado, para que fosse tomada diretamente as Marshalls, é muito discutível. É provável que o primeiro ataque feito pelas forças do Pacífico Central contra atóis ocupados pelo inimigo, independente do local da sua realização, teria sido sangrento e difícil. A tomada das Gilberts desempenhou uma função importante no avanço pelo Pacífico, não só por haver proporcionado aeródromos para a invasão das Marshalls, como também por ter servido de campo de provas para as futuras operações anfíbias da 5a Frota - tanto que o historiador naval americano, Professor Morison, chamou-a de "o viveiro da vitória conquistada em 1945". Muita coisa foi aprendida e muitos erros corrigidos nos procedimentos de desembarque, nos bombardeios e apoio aéreo, reconhecimento, controle e comunicações. Como aconteceu com a incursão dos canadenses contra Dieppe, a dos americanos saiu-lhes cara, mas foi de enorme importância para o futuro.

 

Muito antes da tomada das Gilberts, o Estado-Maior de Nimitz pôs em planejamento operação muito mais importante, contra as Marshalls, que estavam em mãos japonesas desde 1914 e cuja captura deixaria a grande base naval de Truk, nas Carolinas, na linha de frente. Inicialmente, os alvos escolhidos estavam entre os quatro baluartes a leste e sul do grupo, Wotje, Mili, Jaluit e Maloelap, mas, após a queda de Tarawa, Nimitz arrojadamente, propôs que se evitassem todos eles; em vez disso, o atol de Kwajalein, o QG japonês nas Marshalls, deveria ser diretamente atacado, pois a superioridade aérea e naval americana poderia neutralizar quaisquer ameaças das outras bases. Além disso, o atol de Majuro, que se acreditava sem defesa, seria tomado, para servir de ancoradouro para a Frota de Serviço. Finalmente, se as operações principais contra Kwajalein corressem bem e a reserva do Corpo não fosse lançada em combate, esta reserva seria empregada para tomar Eniwetok, 500 km mais a oeste. Assim, a 5a Frota estaria em muito melhores condições de rumar para as Marianas, que os Chefes de Estado-Maior Combinados, na "Conferência Sextante" (Cairo, dezembro de 1943), resolveram que seria transformada numa base de Superfortalezas para ataques ao Japão.

 

A "Operação Flintlock" (Mosquete de Pederneira), como se chamou a tomada de Kwajalein, também ficou sob o comando de Spruance mas só se realmente a Esquadra Combinada aparecesse e houvesse probabilidade de uma ação naval em grande escala; do contrário, Turner, com sua vasta experiência em operações de desembarque, teria o controle tático local. Smith continuou no comando das forças de terra, que foi obrigado a dividir em três grupos distintos, para cuidar de alvo assim tão disperso: Kwajailein, o maior atol de coral do mundo, consistia de 100 pequenas ilhas, que encerravam uma lagoa de 100 km de comprimento e 30 km de largura. O primeiro grupo tomaria as ilhas setentrionais de Roi e Namur, o segundo tomaria a própria ilha de Kwajalein, no sul, e o terceiro ocuparia o atol de Majuro e formaria a reserva do Corpo. Ao todo, havia 54.000 soldados de assalto (principalmente da 4a Divisão de Fuzileiros Navais e da 7a de Infantaria) e 31.000 soldados de guarnição. Cada grupo tinha seus costumeiros destróieres, porta-aviões de escolta e grupos de bombardeio, enquanto que a cobertura a distância seria dada pelos 12 porta-aviões e oito couraçados velozes da FT 58, agora sob o comando do Contra-Almirante Mitscher.

 

Tão importante quanto o crescimento da força era a possibilidade de os americanos não repetirem os erros cometidos nos desembarques havidos no Mediterrâneo e nas Gilberts. Turner devia controlar o ataque de bordo de um navio especial de comando/comunicações; número bem maior de amtracks armados e blindados seria empregado; algumas das barcaças de desembarque foram transformadas em canhoneiras de pequeno calado, instalando-se nelas metralhadoras e uma nova arma: fileiras de foguetes. Os caças também foram equipados com foguetes, que eram mais devastadores que as granadas no ataque às posições de soldados inimigos. Além disso, dessa vez o bombardeio preliminar deveria ser quatro vezes mais intenso e muito mais prolongado, sendo também mesclado com ataques de metralhamento, pelos caças, e ataques pelos Liberators da Força Aérea do Exército, usando bombas de 2.000 libras.

 

Para o sucesso da "Operação Flintlock" era essencial que não só o alvo principal, como também os pontos fortes evitados e quaisquer bases mais para oeste, de onde se pudesse esperar contra-ataques japoneses, fossem neutralizados. Os bombardeiros baseados em terra já vinham atacando alvos nas Marshalls durante a campanha das Gilberts e, a 4 de dezembro de 1943, receberam a adesão dos aviões de seis porta-aviões, que atacaram navios e pistas de pouso em Kwajalein. Quatro dias depois, aviões de porta-aviões metralharam Nauru, enquanto cinco couraçados americanos aumentavam ainda mais os danos causados. As forças-tarefas foram então retiradas, por algum tempo, para Pearl Harbor; mas seu trabalho foi eficazmente realizado pelos 350 aviões baseados em terra, de Hoover, alguns dos quais se encontravam nas Gilberts. A 29 de janeiro de 1944, os porta-aviões estavam novamente em ação e, fazendo seus aviões mais de 6.000 surtidas, paralisaram todos os movimentos marítimos e aéreos inimigos na área do Pacífico Central até o fim da operação. Os efetivos aéreos japoneses nas Marshalls, cerca de 150 aviões, foram reduzidos a frangalhos nos primeiros dois dias deste ataque intensivo.

 

Como os defensores não tinham esperanças de numericamente igualar-se aos americanos, nem de contar com apoio externo, só lhes restava atrasar ao máximo possível a ofensiva dos Estados Unidos no Pacífico. Entretanto, os japoneses calcularam errado o local do próximo ataque e, como Nimitz adivinhara, haviam deslocado os parcos reforços que haviam chegado em fins de 1943 para os atóis do leste, deixando Kwajalein com uma guarnição de 8.500 homens, muitos dos quais não eram tropas de combate. Não podia haver dúvidas quanto ao resultado.

 

O Dia-D para o ataque era 31 de janeiro de 1944. Como se esperava, encontrou-se o atol de Majuro indefeso quando o pequeno grupo anfíbio desembarcou ali e, poucos dias depois, esse esplêndido ancoradouro estava sendo usado por 30 navios. Dificilmente, porém, a operação principal seria tão fácil. A Força-Tarefa Norte, que vinha submetendo as ilhas de Roi e Namur a bombardeio intenso desde o dia anterior, tomou as ilhotas vizinhas ainda no Dia-D, de modo que foi possível desembarcar a artilharia para apoiar os ataques aos objetivos principais. Os desembarques propriamente ditos foram muito desorganizados, mas os japoneses preferiram conservar suas energias, em vez de lutar nas praias. Roi foi tomada ao anoitecer do ataque principal, a 1o de novembro, mas foi preciso mais um dia para conquistar Namur. Como de hábito, o assalto envolveu centenas de ações em pequena escala, sendo usados dinamite e lança-chamas, para eliminar os bolsões de resistência dos japoneses.

 

A Força de Ataque Sul também fez um bombardeio pesado e desembarques subsidiários nos flancos, antes do ataque principal à ilha de Kwajalein, que foi supervisionado por Turner. Os desembarques principais foram executados à perfeição, pois a 7a Divisão de Infantaria melhorara imensamente, desde suas primeiras ações desajeitadas nas Aleútas. A leva inicial de barcaças de desembarque chegou às praias exatamente às 09h30 de 1o de fevereiro. A princípio, não houve sinal do inimigo e, portanto, nenhuma baixa, pois o Contra-Almirante Akiyama recuara metade da sua guarnição de 500 homens, que haviam sobrevivido ao bombardeio, para o centro da ilha, onde, num complexo de casamatas e bunkers, eles lutaram até o último homem. Não fosse o hábito de fazer cargas-suicidas contra posições americanas, os japoneses teriam resistido muito mais; acontece que, com isso, a luta organizada terminou no dia 5. Dois dias depois, todo o atol estava em mãos americanas. Dos 41.000 soldados atacantes, somente 372 foram mortos, ao passo que quase 8.000 japoneses ali deixaram a vida.

 

O fato de os 10.000 soldados da reserva do Corpo, que aguardavam impacientes em Majuro, não terem sido usados nessas operações significava que seriam lançados contra Eniwetok. Mas isto só poderia ocorrer se o potencial do inimigo para contra-atacar fosse neutralizado, pois este alvo ficava a apenas 1.600 km das Marianas, 1.000 km de Ponape e menos de 1.100 km de Truk, e, embora a tomada de Eniwetok ameaçasse esses lugares, também poderia ser atacado por eles. Ponape, que servira de ponto de parada para os bombardeiros japoneses que saíram da base de Saipã e atacaram Roi e Namur pouco depois da ocupação americana, foi violentamente martelada por aviões baseados em porta-aviões, em meados de fevereiro. Também se decidiu atacar a base naval de Truk no dia dos desembarques em Eniwetok, 17 de fevereiro, pois aquela era a mais provável fornecedora de reforços aéreos e navais. Portanto, antes do amanhecer, nove dos porta-aviões de Mitscher desfecharam um ataque maciço. Caças americanos anularam a oposição aérea japonesa sobre Truk, enquanto bombardeiros de mergulho e bombardeiros-torpedeiros atacavam os navios na grande lagoa. O próprio Spruance, no comando de uma força de couraçados velozes, navegava em torno do atol para isolar os navios que fugissem; um cruzador leve e um destróier foram vítimas da sua varredura. Naquela noite, os porta-aviões usaram radar para dirigir os bombardeiros contra novos alvos terrestres e um terceiro ataque foi realizado na manhã seguinte, antes que a força, finalmente, se retirasse.

 

Prudentemente, o Almirante Kaga retirara a maior parte da Esquadra Combinada de Truk antes do começo da ação. Mesmo assim, 17 belonaves japonesas, incluindo dois cruzadores e quatro destróieres, haviam sido destruídos, juntamente com 200.000 toneladas de navios mercantes desesperadamente necessários (sete petroleiros e 19 navios cargueiros). O mito da inexpugnabilidade de Truk fora pelos ares, deixando de ser para sempre um ancoradouro seguro para a Esquadra Combinada. A vitória maior, porém, deu-se no ar, pois mais de 250 aviões japoneses foram destruídos ou seriamente avariados, ao custo de 25 aviões americanos. Este golpe pôs fim às esperanças de Tóquio de uma operação de contenção bem sucedida: não só não haveria nenhuma ameaça aos desembarques em Eniwetok, como também a devastação provocada em Truk fez com que os japoneses retirassem todos os aviões para as Bismarcks, deixando assim Rabaul aberta à neutralização. Aí estava a prova de que o avanço pelo Pacífico Central ajudaria, em vez de retardar, o próprio avanço de MacArthur. Além disso, foi o exemplo mais espantoso até então visto de como as novas forças de porta-aviões velozes podiam destruir uma grande base inimiga sem ocupá-la e sem precisar do apoio de aviões baseados em terra.

 

A tomada de Eniwetok - a "Operação Catchpole" (Meirinho) - foi uma tarefa relativamente rápida para o Grupo de Combate Regimental do 22o de Fuzileiros Navais e para os dois batalhões da 27a Divisão de Infantaria. O procedimento normal, de bombardeios preliminares e desembarques nas ilhas de flanco, precedeu o ataque principal. Um dos alvos mais importantes, a ilha de Engebi, foi tomado rapidamente, a 17 de fevereiro, mas as guarnições japonesas das ilhas de Parry e Eniwetok estavam bem entrincheiradas e preparadas para lutar até o fim. Somente após três dias de luta feroz é que toda a oposição foi eliminada. Para todos os efeitos, as Marshalls estavam agora em mãos americanas - pois os atóis que ainda se encontravam em poder dos nipônicos, naquele grupo, estavam cercados pelas forças de guarnição americanas e não ofereciam qualquer perigo. Os Seabees já estavam construindo aeródromos para futuras operações e os planejadores examinavam novamente seus mapas. A rápida tomada das Gilberts e das Marshalls e o grande ataque desfechado contra Truk eram bons augúrios para os americanos. Com a 5a Frota aumentando sistematicamente seus efetivos, e com o inimigo aparentemente incapaz de formar uma defesa adequada, a arremetida para as Filipinas já não parecia ser uma possibilidade tão remota e improvável.

 

 

Nova Guiné e as Marianas

Na primavera e início do verão de 1944, o contra-ataque de duas pontas feito pelos Aliados no Pacífico mostrou realmente a sua eficácia. Hostilizados por esta estratégia e incapazes de recuperar o controle do ar, que haviam perdido em Midway e Guadalcanal, os japoneses foram arrancados de posições fortemente defendidas em período de tempo espantosamente curto. Porém, quanto mais rápido se tornava o impulso desta ofensiva, mais o Japão se via impedido de preparar as linhas de defesa subseqüentes. Empurrados pelos seus adversários, extremamente agressivos e móveis, os japoneses começavam a pagar o preço dos seus primeiros erros e deficiências.

 

Na Nova Guiné, por exemplo, a tática dos Aliados de avançar aos saltos foi elevada a novo nível. No espaço de quatro meses, a força de MacArthur deslocou-se, numa série de saltos bem executados, desde Madaag até a península de Vogelkop, cobrindo aproximadamente 1.600 km. A estratégia era simples: os japoneses esperavam conservar o controle dos poucos pontos vitais da costa norte da Nova Guiné, onde se podia construir aeródromos; os Aliados, incapazes de flanquear essas posições no montanhoso lado terrestre, dependiam do maior número de unidades aéreas e navais para realizar operações de desvio ao longo de toda a costa As guarnições japonesas, portanto, eram obrigadas a escolher entre serem isoladas ou dirigirem-se para oeste e atacar as cabeças-de-praia aliadas em condições de desvantagem. De qualquer modo, sua posição era muito fraca, porque o restante das suas forças aéreas e navais estava sendo reservado para enfrentar a arremetida de Spruance pelo Pacífico Central no momento em que o avanço de MacArthur começou. Além disso, as forças de terra que os japoneses tinham na área da Nova Guiné não eram muito poderosas. O 8o Exército de Área ficou entregue à própria sorte em Rabaul. O 18o Exército, de Adachi (20a, 41a e 50a Divisões de Infantaria), destroçado após a campanha do golfo de Huon e reorganizando-se às pressas em Wewak, foi assimilado pelo 2o Exército de Área, do General Anami, responsável pela defesa das Índias Orientais Holandesas e pela Nova Guiné Ocidental. Anami já tinha três divisões (32a, 35a e 36a de Infantaria) na região da Nova Guiné-Molucas, além das esgotadas tropas de Adachi; mas ele tinha de enfrentar as forças aliadas que, embora dominando também o mar e o ar, incluíam o equivalente a oito divisões americanas e sete australianas em abril de 1944, e continuava a avolumar-se. Os soldados japoneses lutariam com a tenacidade de sempre, mas eles estavam mal alimentados e mal equipados e sofriam muito com a interrupção até mesmo do tráfego costeiro local pelas torpedeiras americanas.

 

Durante todo o mês de abril de 1944, a 7a e depois a 11a Divisões australianas mantiveram a pressão sobre as posições avançadas japonesas, seguindo pela costa para além de Madang. Ao mesmo tempo, o Comando do Pacifico Sudoeste completava seus preparativos para realizar o maior e mais arrojado salto até então tentado - a tomada da importante base de Holândia, onde os japoneses tinham o porto natural da baía de Humboldt, além de vários aeródromos. Os baluartes em Wewak e baía de Hansa seriam evitados e neutralizados, embora, como medida de segurança, Aitape, situada a 200 km a leste de Holândia, também devesse ser tomada, para ali ser feito um aeródromo de emergência. A ilha de Emirau, situada entre Kavieng e Manus, deveria ser tomada, para impedir qualquer ameaça de Rabaul antes de se iniciar o grande salto para oeste. Tudo isto foi esboçado numa nova diretiva baixada pelos CEMC a 12 de março de 1944, que também mandava Nimitz tomar as Marianas em junho e, depois, prosseguir para as Palaus, em setembro, cobrindo, desse modo, o salto de MacArthur para as Filipinas, programado para novembro. O ritmo da reconquista estava acelerando.

 

Como sempre, os desembarques foram precedidos de freqüentes bombardeios que, neste caso, foram muito bem sucedidos. Holândia, em particular, foi violentamente atacada em fins de março e início de abril, e a maioria dos 350 aviões que os japoneses conseguiram reunir foi destruída em terra. Os porta-aviões de Mitscher, após atacarem as Palaus e as Carolinas, dirigiram-se para o sul. Tendo a Esquadra Combinada abandonado as Palaus como base avançada, não eram grandes as chances de serem os desembarques aliados impedidos por ataques marítimos ou aéreos. Assim, a ilha Emirau, abandonada pelos japoneses, foi ocupada com facilidade a 20 de março.

 

A operação principal foi dividida em três partes: um grupo ocuparia Aitape, os outros dois desembarcariam nas baías de Tanahmerah e de Humboldt, para envolver num movimento de pinça o inimigo instalado em Holândia. As estimativas do Serviço de Inteligência, que davam como existentes naquela região 14.000 japoneses, mais 3.500 em Aitape, fizeram com que MacArthur empregasse quase 50.000 soldados de combate (principalmente do 1o Corpo, de Eichelberger) no assalto, que seria a maior operação anfíbia já realizada pelo Comando do Pacífico Sudoeste. A força de desembarque naval, com 215 navios da 7a Força Anfíbia, do Contra-Almirante Barbey, foi igualmente dividida em três grupos. Havia também dois grupos de acompanhamento, uma reserva flutuante, dois grupos de escolta cerrada de cruzadores/destróieres, cobertura aérea de uma força de oito porta-aviões de escolta, e cobertura a distância dada pelas Forças-Tarefas de Porta-Aviões Velozes da 5a Frota, que recebera ordens do CEMC para apoiar a operação de MacArthur.

 

Se ainda havia dúvida sobre o resultado da operação, elas logo se dissiparam após os primeiros desembarques, a 22 de abril de 1944. Aitape e Holândia eram defendidas por número de japoneses inferior ao calculado. Mais importante ainda é que estes eram "tropas administrativas", que fugiram para o interior ao primeiro bombardeio, permitindo aos americanos tomar todos os seus objetivos sem qualquer oposição real. Além disso, a estrutura de comando japonês na Nova Guiné estava desorganizada e não podia coordenar um contra-ataque. A maioria dos defensores estacionados na região de Holândia pereceu na longa retirada pela selva até Sarmi.

 

Os movimentos americanos foram, para o 18° Exército, comandado por Adachi, verdadeiramente terríveis, pois suas três divisões, que se recuperavam em Wewak, haviam sido completamente isoladas do resto do 2o Exército de Área. Lembrando-se das dificuldades que seus soldados haviam enfrentado quando, para evitar Saidor, tiveram de atravessar o território montanhoso da selva, ele ignorou as ordens de evitar Aitape e decidiu, em vez disso, atravessar as linhas americanas. Sabedor disso, MacArthur aumentou seus efetivos ali para três divisões, de modo que, quando o ataque finalmente ocorreu, os japoneses foram repelidos, sofrendo perda de 9.000 homens, após luta muito dura. Depois disso, o restante estava tão fraco e disperso, que mais nada podia pretender no campo de batalha.

 

Muito antes dos choques verificados em Aitape, os americanos já haviam passado para seu objetivo seguinte, a ilha de Wakde, situada ao largo, e cuja pista de pouso MacArthur desejava usar para cobrir o importante avanço sobre Biak. A primeira parte dessa operação foi cumprida na íntegra, com a Força Anfíbia de Barbey desembarcando o 163o Grupo de Combate Regimental perto de Toem, a 17 de maio. Dali, os soldados passaram para a ilha propriamente dita que, contudo, foi vigorosamente defendida por sua pequena guarnição durante dois dias. O avanço costeiro para Sarmi também foi neutralizado, por muitas semanas, pela 36a Divisão japonesa, mas os americanos puderam pelo menos usar sem demora o aeródromo de Wakde para seu avanço seguinte.

 

Nesse estágio, a posição do Japão na Nova Guiné era realmente muito séria. Biak e a península de Vogelkop já estavam sob freqüentes bombardeios; submarinos americanos vinham infligindo pesadas baixas aos comboios de tropas da China; e a ameaça de Nimitz às Marianas significava que o 2o Exército de Área não podia esperar muitos reforços. Em Biak, porém, o avanço aliado sofreu forte revés. Ao contrário do que se verificou em Holândia, os americanos subestimaram flagrantemente o tamanho da guarnição, que era de mais de 11.000 homens. Além disso, os japoneses estavam solidamente entrincheirados em cavernas existentes nas elevações que dominavam o aeródromo e não tinham nenhuma intenção de lutar nas praias, onde seriam esmagados pelo fogo naval americano. Os desembarques iniciais, feitos a 27 de maio por unidades da 41a Divisão de Infantaria, não encontraram muita oposição, mas a tentativa de ocupar o aeródromo foi vigorosamente repelida, chegando inclusive a ficar parte da força invasora temporariamente isolada por tanques japoneses. Quantidade cada vez maior de soldados foi desembarcada e a campanha transformou-se numa série de ferozes operações de limpeza, que progrediam muito lentamente para o gosto de MacArthur, que substituiu o comandante divisional do seu posto. Somente em fins de agosto de 1944 é que a ilha foi totalmente tomada pelos Aliados, que a transformaram numa base aérea para as forças de ataque às Filipinas.

 

Esta luta prolongada levou o Alto Comando japonês a pensar em reforçar Biak, mas falharam todas as tentativas feitas nesse sentido, devido à falta de resolução, principalmente. A primeira, a 2/3 de junho, foi adiada por temerem os nipônicos que uma força de porta-aviões americanos estivesse em Biak. Quando se inteiraram de que era improcedente o receio, outra tentativa foi programada para o dia 7, mas esta foi repelida por uma força aliada de cruzadores e destróieres. No dia 10, os japoneses decidiram enviar uma força mais poderosa, incluindo nela os gigantescos couraçados Yamato e Musashi; mas no dia seguinte os porta-aviões de Mitscher começaram seus ataques de debilitação das Marianas e a força de batalha foi enviada às pressas para o norte, a fim de enfrentar essa ameaça. Uma vez mais, a ofensiva, de duas pontas, aliada desequilibrou as defesas japonesas. Os únicos reforços para a guarnição de Biak foram enviados de barcaças, seriamente dizimados por bombardeios aliados.

 

Como as bases aéreas eram vitais para a sua campanha de retorno, MacArthur prontamente ordenou a captura dos três aeródromos da ilha de Noemfoor, devido à lentidão com que se desenrolavam as batalhas de Biak. Os desembarques ali, feitos a 2 de julho, foram precedidos de violento bombardeio, acompanhado de um salto de 1.500 pára-quedistas. Mas a resistência foi pequena, pois os japoneses já iam recuando para a extremidade ocidental da península de Vogelkop. As forças de MacArthur, porém, estavam no seu encalço. A 30 de julho de 1944, a 6a Divisão de Infantaria foi desembarcada na desocupada região do cabo Sansapar-Mar e construiu uma zona defensiva em torno dos aeródromos, que foram construídos às pressas para dar cobertura ao salto seguinte. Remanescentes de cinco divisões japonesas encontravam-se espalhados ao longo da costa da Nova Guiné, e os que estavam em torno de Wewak passaram a ser submetidas à pressão das forças australianas. MacArthur não estava interessado no seu destino, pois tinha os olhos pregados nas Filipinas, que somente o oceano separava das suas tropas vitoriosas.

 

Embora a perda da Nova Guiné fosse humilhante para os líderes da guerra japoneses, o que mais os preocupava era o avanço de Nimitz pelo Pacífico Central. Em primeiro lugar, as Marianas, agora ameaçadas pelos americanos, eram de importância estratégica muito maior que as partes periféricas do império japonês conquistadas até então. Desse grupo de ilhas as Superfortalezas B-29 americanas podiam alcançar e atacar as Filipinas, a China, Formosa e, o que era mais importante, o próprio Japão; além disso, a linha de comunicações do Japão com suas possessões meridionais correria perigo, se é que não seria totalmente cortada. Em segundo, o Almirante Toyoda (Comandante-Chefe da Esquadra Combinada, após a morte de Koga, num desastre aéreo) estava bastante cônscio de que as forças de porta-aviões velozes americanos eram a maior ameaça para o futuro do Japão. Desde as derrotas nas Salomão, aliás, a marinha japonesa vinha tentando conservar suas forças para a batalha vital que eliminaria a 5a Frota. Toyoda, portanto, imaginou a "Operação A-GO", segundo a qual as forças de Spruance seriam atraídas para as águas a leste e sul das Filipinas, onde seriam cortadas entre os aviões que operavam das ilhas de mandato ocidentais e os da 1a Frota Móvel, sob o comando do Vice-Almirante Ozawa. Como os americanos, igualmente cônscios dos riscos envolvidos, estavam decididos a empregar todas as suas forças para tomar as Marianas, a batalha pela posse dessas ilhas prometia transformar-se na maior ação entre frotas no Pacífico, desde Midway.

 

Como sempre, as ilhas vitais para ambos os lados eram as que continham aeródromos - neste caso, Saipã, Tiniã e Guam, defendidas, respectivamente, por guarnições de 32.000, 9.000 e 18.000 soldados. Os efetivos aéreos japoneses, nominalmente de 1.400 aviões, eram na verdade muito menores, pois muitos aparelhos haviam sido despachados para a Nova Guiné e outros, destruídos pelos aviões dos porta-aviões de Mitscher, que vinham atacando as Marianas e as Carolinas ocidentais desde 23 de fevereiro. Mas Toyoda esperava poder contar com 500 aviões, além dos 473 baseados em porta-aviões, se alguns reforços fossem enviados de outras áreas. As forças navais de Ozawa foram divididas em três grupos, um típico estratagema japonês, cujos vários elementos da esquadra não podiam ser descobertos por nenhum avião de reconhecimento inimigo para que tivesse êxito. O primeiro grupo, sob o Vice-Almirante Kurita, consistia da principal frota de batalha, integrada por quatro couraçados, três porta-aviões leves, cruzadores e destróieres. Ozawa, pessoalmente, comandava a principal força de porta-aviões, com três porta-aviões de esquadra, cruzadores e destróieres. Uma força de porta-aviões de reserva, com dois porta-aviões de esquadra e um leve, juntamente com um couraçado e um anteparo de cruzadores e destróieres, formava o terceiro grupo. Toyoda, que dirigiria as operações da terra, planejou usar a frota de batalha como isca para obrigar os americanos a revelar-se, permitindo, assim, que os aviões dos dois grupos de porta-aviões e das bases situadas nas ilhas desfechassem um contra-ataque mortífero. Embora não sabendo ao certo se a ação ocorreria perto das Palaus, ao largo da costa norte da Nova Guiné ou nas próprias Marianas, Toyoda acreditava que seu plano funcionaria em todos os casos.

 

Os americanos, muito menos flexíveis, porque o objetivo principal das forças de Spruance era tomar e defender certas ilhas importantes, enfrentava a tarefa imensa de trazer 128.000 soldados, com todo o seu equipamento, de lugares distantes, - como o Havaí e Guadalcanal. A invasão de Saipã - foi marcada para 15 de junho, com desembarques nas duas outras ilhas verificando-se imediatamente após, mas a hora exata destes últimos dependeria da primeira operação. Saipã e Tiniã seriam tomadas pela Força de Ataque Norte, que incluía a 2a e 4a Divisões de Fuzileiros Navais, com a 27a Divisão de Infantaria na reserva. Guam seria tomada pela Força de Ataque Sul, cujo elemento principal era a 3a Divisão de Fuzileiros Navais. Turner, uma vez mais no comando dos desembarques, tinha uma cobertura naval cerrada de 12 porta-aviões de escolta, cinco couraçados, 11 cruzadores e muitos destróieres. À espreita, atrás deles, ia o mais poderoso grupamento naval do mundo, a 5a Frota, de Spruance, compreendendo sete couraçados velozes, 21 cruzadores e 69 destróieres, juntamente com seu verdadeiro coração - os quatro grupos de porta-aviões de Mitscher, com 15 porta-aviões e 956 aviões.

 

As forças de invasão, após se reunirem nas Marshalls, partiram dali a 9 de junho. Dois dias depois, os aviões de Mitscher atacaram repetidamente as Marianas, para eliminar a oposição aérea, ao mesmo tempo que atacavam o grupo Bonin, para cortar a linha de reforços do Japão. No dia 13, Saipã e Tiniã já estavam sendo bombardeadas por couraçados americanos e Toyoda, um tanto surpreso, ordenou o início da "Operação A-GO", cancelando a terceira tentativa de reforçar Biak.

 

Às 08h44 de 15 de junho, a primeira leva de fuzileiros navais chegou às praias de Saipã, protegida por bombardeiros navais, canhoneiras que navegavam junto à costa e aviões lança-foguetes.