A
morte do Almirante Yamamoto
A
morte do major líder naval do Japão.
Os incidentes que levaram os caças americanos a atacarem o avião do almirante Yamamoto, e a morte do major líder naval do Japão, estão documentados em detalhes no diário do vice-almirante Matome Ugaki, chefe do Estado-Maior da Frota Combinada, que estava com o almirante por ocasião de sua morte. As seguintes passagens em aspas são do diário de Ugaki:
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Almirante
Yamamoto
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Vice-almirante
Matome Ugaki
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“O almirante Yamamoto desejava voar de Rabaul a Buin, via Ballale, para inspecionar as forças navais da linha do fronte, e retribuir uma visita ao general Hyakutake, comandante do 17º Exército. O almirante projetava regressar a Truk no dia 19.”
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General
Hyakutake
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(O vôo foi projetado com o habitual cuidado meticuloso do almirante Yamamoto. Pessoalmente a par das menores dificuldades das forças da Marinha e do Exército nas ilhas Salomão, particularmente as tropas sob o comando do general Hyakutake, que vinha sendo acossado pela encarniçada pressão das tropas inimigas e pelos ataques aéreos cada vez mais intensos, Yamamoto esperava, com a visita a linha do fronte, melhorar seus próprios conhecimentos dos futuros problemas. Sabendo que o Serviço de Inteligência do inimigo não demoraria em descobrir sua presença na área, o almirante despiu seu uniforme branco e pela primeira vez envergou o caqui da Marinha.)
“As
6,00 da manhã, o almirante Yamamoto partiu do campo de Rabaul no avião-guia,
um bombardeiro Tipo 1, que levava além de Yamamoto, o comandante Ishizaki, seu
secretário, o cirurgião contra-almirante Takata, e o comandante Toibana, seu
oficial aéreo do EstadoMaior. No segundo avião, comigo, estavam o
contra-almirante Kitamura, oficial de pagamento, o comandante Imanaka, oficial
de comunicações, o comandante Muroi, oficial aéreo do estado-maior, e o
tenente Unno, oficial metereologista.
“Assim que entrei no segundo bombardeiro, ambos os aviões tomaram impulso
para decolar do campo. O bombardeiro-guia decolou por primeiro. Quando nossas
aeronaves passaram por cima do vulcão, no canto da baía, entramos em formação
e tornamos o curso sudeste. As nuvens eram intermitentes, com excelente
visibilidade. As condições de vôo eram boas.
“Eu podia ver nossa escolta de caças manobrando para estabelecer sua rede de
proteção; três se colocaram a nossa esquerda, três permaneceram acima de nós,
e três outros, perfazendo nove ao todo, cruzaram para nossa direita. Nossos
bombardeiros voavam em formação cerrada, com as asas quase se tocando, e meu
avião permaneceu um pouco atrás e a esquerda da nave-guia. Podíamos ver
claramente o almirante no assento do piloto do outro avião, e os passageiros
movendo-se no interior do bombardeiro.
“Atingimos o lado oeste da ilha de Bougainville, voando a 600 metros sobre a jângal.
Um membro da tripulação passou-me uma nota que dizia: “A hora de nossa
chegada é 7:45 horas.” Lembro-me de ter consultado o relógio de pulso,
notando que eram precisamente 7:30. Em quinze minutos chegaríamos a nossa
primeira parada.
“Inesperadamente os motores rugiram e o bombardeiro mergulhou em direção a jângal
logo atrás do avião-guia, descendo a mais de 60 metros. Ninguém sabia o que
acontecera, e perscrutamos o céu ansiosamente a procura de caças inimigos que
tínhamos certeza estarem mergulhando para o ataque. O chefe da tripulação um
oficial não comissionado, respondeu as nossas indagações de sua posição
na estreita ala: “Parece que cometemos um erro, senhor. Não deveríamos ter
mergulhado.” Ele certamente tinha razão, porque nossos pilotos jamais
deveriam ter deixado nossa altitude original.
“Nossos caças haviam avistado um grupo de, pelo menos, vinte quatro aviões
inimigos, aproximando-se do sul. Eles mergulharam em direção dos bombardeiros
para adverti-los da aproximação dos aviões inimigos. Simultaneamente, porém,
os pilotos dos nossos bombardeiros haviam avistado a força inimiga e, sem
ordens, desceram a baixa altura. Somente depois de ganharmos altura novamente é
que nossos tripulantes tomaram suas posições de combate. O vento ululou forte
e ruídos agudos nos invadiram os ouvidos, quando os homens assestaram as
metralhadoras.
“No momento em que passávamos do mergulho para a posição horizontal, acima
da jângal, nossas escoltas voltaram-se contra os atacantes inimigos, agora
identificados como os grandes Lockeeds P-38. A força numericamente superior do
inimigo rompeu a formação dos Zeros e mergulhou em perseguição aos dois
bombardeiros. Meu avião lançou-se desesperadamente num angulo de noventa
graus. Vi quando o chefe da tripulação se adiantou e bateu no ombro do piloto,
advertindo-o de que os atacantes inimigos se aproximavam rapidamente.
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“Nosso avião separou-se do bombardeiro-guia. Por alguns momentos perdi de vista o avião do almirante Yamamoto e finalmente localizei o bombardeiro longe a direita. Fiquei horrorizado em ver a aeronave fugir quase roçando a jângal, com o rumo sul, com brilhantes chamas alaranjadas envolvendo rapidamente as asas e a fuselagem. A umas quatro milhas de distância, o bombardeiro emitia densa e negra fumaça, perdendo altura sensivelmente.
“O temor súbito pela vida do almirante me assaltou. Tentei chamar o comandante Muroi, sentado imediatamente atrás de mim, mas não consegui falar. Agarrei-o pelos ombros e puxei-o ate a janela, apontando para o avião incendiado do almirante. Olhei a cena pela ultima vez, com um eterno adeus a esse amado oficial, antes que o nosso avião novamente se lançasse em angulo agudo sobre a jângal. Balas inimigas se chocaram contra nossas asas e o piloto manobrou desesperadamente para evadir-se dos caças perseguidores. Aguardei impaciente que o avião assumisse a horizontal, para que pudesse observar o bombardeiro do almirante. Conquanto esperasse o melhor, sabia muito bem qual seria o destino do avião. Quando nosso avião saiu de sua curva aguda, perscrutei a jângal. O avião de Yamamoto não estava mais a vista. Fumaça negra subia da densa jângal para o ar.
“Ai de mim! Não havia mais esperanças agora!
“No momento em que eu olhava a pira funerária do bombardeiro sinistrado, nosso próprio avião abandonou suas frenéticas manobras e a toda brida rumou para Moila Point. Em breve estávamos sobre o mar aberto. Vimos a luta travada pelos cacas na área em que tombara sobre a jângal o bombardeiro do almirante Yamamoto; outros caças separavam-se do grupo e se punham ao nosso encalço. Vi claramente quando um P-38 prateado avançou com um silvo agudo e, virando abruptamente, aproximou-se rapidamente do nosso avião. Nossos artilheiros atiravam desesperadamente contra o grande caca inimigo, mas baldamente.
“As
metralhadoras de 7,7 mm do bombardeiro não logravam atingir o P-38 que avançava.
Tirando vantagem de sua velocidade superior o caça inimigo aproximava-se
rapidamente e, ainda fora do alcance das nossas metralhadoras de defesa, abriu
fogo. Vi quando o nariz do P-38 pareceu explodir em chamas brilhantes, e
subitamente o bombardeiro estremeceu com o impacto das balas e granadas das
metralhadoras e canhões do inimigo. O piloto do P-38 era um excelente
artilheiro, por que a primeira de suas salvas de balas e granadas atingiu o
bombardeiro do lado direito e, em seguida, do lado esquerdo. Sons de tambor
vibravam através do avião, que oscilava com o impacto do fogo inimigo. Sabíamos
agora que estávamos inteiramente indefesos, e esperamos pelo nosso fim. O P-38
grudou-se persistentemente a nossa cauda, vomitando seu mortífero fogo.
“Uma de nossas metralhadoras caiu em silêncio. Abruptamente a o chefe da
tripulação, que vinha gritando ordens a seus homens, desapareceu da nossa
vista. Muitos dos tripulantes já estavam mortos, atingidos pelas balas que
atravessaram o avião. O comandante Muroi estendia-se sobre a cadeira e a mesa
no compartimento da fuselagem, com as mãos esticadas diante dele, e a cabeça
rolando desamparadamente para frente e para trás, na medida em que o avião
oscilava.
“Outra granada arrancou repentinamente um pedaço da asa direita; o piloto
chefe, diretamente em minha frente, empurrou a alavanca de controle. Nossa única
chance de sobreviver era pousar no mar. Não o percebi então, mas um piloto
Zero acima de nós em fútil ataque contra o persistente perseguidor P-38,
relatou que pesada fumaça emanava em coluna negra do nosso bombardeiro. Quase
tocando a água, o piloto puxou os controles para retomar a posição
horizontal. As balas do inimigo haviam desmantelado os cabos. Desesperadamente o
piloto desligou o motor, mas era tarde demais. A toda velocidade o bombardeiro
mergulhou na água; a asa direita cedeu e o bombardeiro rolou para a esquerda.
“Preparado para urna amerissagem de emergência, não me lembro de ter
recebido ferimentos durante a choque com a água. Aparentemente, o impacto em tão
alta velocidade entorpeceu meus sentidos, porque quando fui jogado do assento
meu corpo estava contundido e dilacerado.
“O choque me atordoou momentaneamente, e tudo se tornou preto. Senti a
esmagadora força da água do mar invadindo a fuselagem e quase imediatamente
estávamos abaixo da superfície. Eu estava completamente indefeso. Convencido
de que chegara o meu fim, disse uma prece para mim mesmo. Naturalmente é difícil
lembrar-se coerentemente de tudo o que acontecera naqueles incríveis momentos,
mas recordo vagamente que me senti como se a vida houvesse chegado ao seu fim; não
conseguia mover-me e limitava-me a ficar deitado quietamente. Não creio que
tenha perdido os sentidos. Não engoli água salgada. Tudo estava nebuloso, e não
podia dizer quanto tempo passara..”
(Várias linhas do diário são omitidas aqui).
“No dia seguinte aviões de reconhecimento descobriram os destroços do bombardeiro, no qual o almirante Yamamoto voara para a morte. Os pilotos de reconhecimento não encontraram sinal de vida e relataram que o fogo havia consumido inteiramente os destroços. No dia do ataque, um nativo relatou a um grupo de construção de estradas do Exército que um avião japonês caíra na jângal ao longo da costa oeste de Bougainville. O Quartel-General do Exército despachou uma força de salvamento, que alcançou os destroços em 19 de abril. Reconheceram os corpos e começaram o caminho de volta. Era o mesmo grupo que a força de salvamento da Marinha encontrou.
“O grupo do Exército encontrou o corpo do almirante Yamamoto ainda em seu assento, projetado para fora do avião. Apertava uma espada entre as mãos. Seu corpo ainda não estava em decomposição e mesmo na morte a dignidade não deixara esse grande oficial naval. Para nós, Isoroku Yamamoto virtualmente era um deus.
“Nossos médicos examinaram seu corpo a bordo de um caça-submarino, e encontraram buracos de balas na parte inferior do crânio, bem como no ombro. Presumivelmente teve morte instantânea a bordo do avião. Além dele, somente o oficial médico-chefe pôde ser identificado, apesar de ter o corpo parcialmente queimado. Os demais tiveram os corpos cremados no incêndio.
“Quanto
aos destroços do meu avião, mergulhadores chegaram a vinte metros abaixo da
superfície mas encontraram somente as rodas, os motores, as hélices, as
metralhadoras, e a espada de um oficial. No dia seguinte, 20 de abril, os corpos
de dois tripulantes foram lançados
à praia.
“Do pessoal a bordo dos dois bombardeiros, somente o contra-almirante Kitamura, o piloto do meu bombardeiro, e eu sobrevivemos. Mais de vinte homens e oficiais pereceram. Conquanto a morte seja na guerra uma ocorrência de cada dia, sinto que a culpa desse incidente deve caber também a mim.
“Fui informado em data posterior que o inimigo, que no passado somente levara a efeito reconhecimentos com aviões isolados, havia, apenas um ou dois dias antes de 18 de abril, aumentado seus reconhecimentos com grupos de aviões de caca. Esta informação das nossas forças das bases avançadas não chegou ate o quartel-general do vice-almirante Kusaka senão vinte e quatro horas depois do acidente. Se houvéssemos sido informados imediatamente do súbito aparecimento de formações de caças inimigos, poderíamos ter evitado a terrível perda do almirante Yamamoto. Mas chegamos tarde.”
“Na mesma área em que tantos de seus homens haviam derramado seu sangue pelo Japão, o almirante Isoroku Yamamoto chegou ao fim de uma brilhante carreira. Não somente sofremos uma perda irreparável com essa morte, mas o Japão perdeu também os comandantes Toibana e Muroi, considerados os “cérebros” do Estado-Maior Aéreo da Marinha. Os almirantes Ugaki e Kitarnura foram recolhidos pelos nossos navios que acorreram ao lugar do acidente.
0 itinerário do almirante Yamamoto e seu Estado-Maior era, naturalmente, um segredo bem guardado. Atrás da cadeia de acontecimentos que conduziram ao bem sucedido ataque do inimigo reside, contudo, a verdadeira causa do acidente. Em parte como uma mensagem de cortesia, o comandante da base de hidroaviões de Shortland, ao sudoeste de Buin, havia notificado suas forças, no código naval, que o almirante inspecionaria pessoalmente a sua área. A mensagem foi interceptada e decifrada pelo Quartel-General americano em Pearl Harbor. A Marinha imediatamente notificou o Quartel-General das Forças Aéreas do Exército em Henderson Field, Guadalcanal. No fim da tarde de 17 de abril o centro de comunicações de Henderson Field entregou ao major John W. Mitchell, comandante dos P-38 em Guadalcanal, um cronograma de Frank Knox, Secretario da Marinha, com completas informações sobre a programada inspeção do almirante Yamamoto. A mensagem acentuou que o almirante Yamamoto era muito pontual, e que certamente seguiria rigidamente o seu programa. Incluída na mensagem vinha a lista dos demais oficiais que acompanhariam o almirante, bem como o fato de que o Estado-Maior voaria em dois bombardeiros novos Mitsubishi, escoltados por seis Zeros.
Os únicos aviões capazes de levar a efeito a interceptação eram os P-38 de Henderson Field, que tinham a velocidade, o raio de ação e o poderio de fogo suficiente para o ataque. Os enormes caças teriam que voar pelo menos quatrocentas e trinta milhas de Guadalcanal antes que pudessem interceptar a oeste de Kahili. Ao contrário do relatório do vice-almirante Ugaki de “pelo menos vinte e quatro aviões inimigos”, Mitchell tinha a sua disposição somente dezoito caças P-38. Projetou usar seis caças como a forca de ataque contra os bombardeiros, que, estimava, voariam abaixo de três mil metros, enquanto os restantes doze aviões a 3.600 metros tentariam atrair os caças Zero. A interceptação foi planejada quando o avião de Yamamoto estava somente a trinta e cinco milhas de seu destino. Dois de seus aviões tiveram pane desde o inicio; Mitchell então destacou quatro dos dezesseis P-38 para atacar os bombardeiros.
O
tenente Thomas G. Lanphier foi o piloto que abateu o avião de Yamamoto,
derrubando também um caça Zero em seu ataque. Lanphier relatou que acertara
primeiramente o motor direito, em seguida a asa direita, e, ainda fora do
alcance do canhão traseiro do bombardeiro, viu a asa incendiar-se e se destacar
do avião. Surpreendido por dois Zeros, Lanphier subiu abruptamente e perdeu os
Zeros de vista.
O tenente Rex Barber, atacando com Lanphier, irrompeu em meio a três
interceptadores Zero e abateu o segundo bombardeiro. O tenente Besby derrubou
dois Zeros, elevando nossas perdas do dia para três caças e dois bombardeiros.
Nossos pilotos abateram o P-38 do tenente Ray Hine; e, verificamos mais tarde,
que a maioria dos quinze P-38 que retornaram a Guadalcanal estavam crivados de
balas.
Algum tempo depois, quando eu (Okmiya) estava em Buin, durante um novo ataque
contra o inimigo, visitei a tumba do almirante Yamamoto, que se resumia numa
pequena pedra com uma inscrição, colocada sobre o local onde o corpo havia
sido cremado, perto do Quartel-General de Buin.
Devemos
render homenagem ao excelente Serviço de Inteligência americano que decifrou o
código japonês e manteve em segredo o fato de que os americanos estavam
inteiramente a par das nossas ativdades navais. Foi esse conhecimento antecipado
que tanto contribuiu para nossa derrota em Midway, e que destruiu o avião do
almirante. Esses movimentos pouco heróicos atrás dos bastidores não somente
frustraram a Operação de Midway e tiraram a vida ao mais capaz dosnossos
oficiais, mas contribuíram diretamente para nossa derrota final.
Fonte: http://www.skbrasil.com.br/artigos/artigohideki.htm
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