Avanço Tecnológico

No final de 1941, pouco depois que os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra Mundial, o presidente da International Business Machine Corporation (IBM) enviou um telegrama à Casa Branca. À semelhança de muitos outros executivos de corporações naquela época de emergência nacional, Tomas J. Watson ofereceu-se para colocar as instalações de sua companhia à disposição do governo durante a guerra. Foi um sincero gesto patriótico, mas o velho e astuto empresário também sabia que tinha pouca escolha. Uma guerra generalizada significava uma mobilização sem precedentes da indústria e da ciência, para a fabricação de armas convencionais e o desenvolvimento da tecnologia necessária às não-convencionais.

Mas Watson tinha outras coisas em mente. Dois anos antes de os japoneses atacarem Pearl Harbour, ele havia investido 500.000 dólares da IBM no plano audacioso de um jovem matemático da Universidade de Harvard, chamado Howard Aiken. Aiken, que ficara frustrado com o gigantesco número de cálculos exigido para sua tese de doutoramento, desejava ir além das classificadora e calculadoras então disponíveis e construir um computador programável para todos os fins, do tipo que Charles Babbage imaginara. Logo depois do ataque a Pearl Harbour, Aiken foi chamado para o serviço ativo na Marinha, onde se distinguiu por desarmar, sozinho um novo tipo de torpedo alemão. Mas Watson prontamente interveio junto às autoridades, alardeando o ainda embrionário potencial de computador para calcular as trajetórias das balas de canhão, e conseguindo fazer com que Aiken fosse destacado para um serviço especial na instalação da IBM em Endicott, Nova York. Com a bênção da Marinha e o dinheiro e apoio de engenharia da IBM, Aiken começou a construir a máquina a partir de conceitos não-testados do ‘século XIX e da tecnologia comprovada do século XX. Simples relês eletromecânicos serviam como dispositivos de comutação ligado-desligado, e fitas perfuradas forneciam instruções, ou um programa, para manipular os dados. Aiken, diferentemente de seus contemporâneos John Atanasoff e George Stibitz, não percebera as vantagens do sistema binário de numeração, de modo que os dados tomaram a forma de números decimais codificados, que eram introduzidos nos cartões perfurados da IBM.

Surpreendentemente, o desenvolvimento do Mark I, como o dispositivo veio a ser chamado, enfrentou poucas dificuldades. No começo de 1.943, foi testado em Endicott e, depois, enviado a Harvard, onde se tornou o centro de uma série de choques entre o inventor e seu patrono. Tanto Aiken coo Watson costumavam agir a seu próprio modo. Eles se desentenderam primeiramente com relação à aparência da máquina. Com cerca de 15 metros de comprimento e 2,5 metros de altura, o Mark I continha nada menos que 750.000 partes, unidas por meio de aproximadamente 80.400 metros de fios. Aiken queiram deixar expostas as partes internas, de modo que os cientistas interessados pudessem inspecioná-las. Watson, sempre atento à imagem social da IBM, insistia para que a máquina fosse alojada num invólucro de vidro e aço inoxidável brilhante. Watson prevaleceu nesta e em outras questões, mas Aiken vingou-se quando o Mark I foi apresentando à imprensa em Harvard, em agosto de 1.944. Ele mal mencionou o papel da IBM no projeto e não disse uma palavra a respeito de Tom Watson, que, obviamente, ficou furioso.

Pouco depois, Watson alugou a máquina para a Marinha, que a usou para resolver difíceis problemas balísticos sob a supervisão de Aiken. O Mark I podia manipular - ou "triturar" - números de até 23 dígitos. Podia somá-los ou subtraí-los em 3/10 de segundo, e multiplicá-los em três segundos. Tal velocidade, embora apenas um pouco mais rápida que a imaginada por Babbage, era sem precedentes. Num só dia, a máquina podia efetuar cálculos que antes exigiam seis meses completos. O Mark I continuaria suas reverbantes tarefas matemáticas em Harvard ao longo de dezesseis anos completos. Todavia, a despeito dos longos e sólidos serviços que prestou, não foi o sucesso que Tom Watson esperava. Outros pesquisadores - alemães e ingleses, bem como norte-americanos - estavam abrindo aos computadores caminhos mais promissores. De fato, o Mark I era obsoleto antes mesmo de ser construído. Konrad Zuse apontou o caminho na Alemanha. Em 1.941, cerca de dois anos antes do Mark I triturar seus primeiros números, e logo após o desenvolvimento de seus modelos de teste Z1 e Z2, Zuse completou um computador operacional : um dispositivo controlado por programa e baseado no sistema binário. Designada como Z3, essa máquina era muito menor que a de Aiken e de construção muito mais barata. Tanto o Z3 como o Z4, seu sucessor, eram usados para resolver problemas de engenharia de aeronaves e de projeto de mísseis (incluindo as famosas V-1 e V-2). Zuse também construiu vários computadores para fins especiais. Mas, num certo aspecto, o trabalho de Zuse foi impedido pelo governo alemão.

Em 1.942, ele e seu colega Helmut Schreyer, um engenheiro eletricista austríaco, propuseram-se construir um computador radicalmente diferente. Ambos queriam replanejar o Z3 de modo que usasse válvulas eletrônicas em vez de interruptores eletromecânicos de relê. Ao contrário dos computadores eletromecânicos, as válvulas não têm partes móveis; elas controlam a circulação da corrente apenas por meio de tensões elétricas. A máquina que Zuse e Schreyer conceberam operaria mil vezes mais depressa que qualquer outra que os alemães tinha na época. A proposta, porém, foi recusada. A guerra ainda estava no começo, e Hitler achava-se tão convencido de uma vitória rápida que ordenou o embargo de todas as pesquisas científicas, exceto daquelas a curto prazo. "Eles perguntaram quando as máquinas funcionariam", relembra Zuse. "Dissemos que em cerca de dois anos. Eles responderam que até lá nós tínhamos ganhado a guerra".

Uma das aplicações potenciais que Zuse e Schreyer citaram para seu computador de alta velocidade era quebrar os códigos que os ingleses usavam para se comunicar com os comandantes no campo. Ninguém sabia disso naquela época, mas os ingleses também estavam desenvolvendo uma máquina justamente com esse propósito. O projeto britânico prosseguia sob a mais alta prioridade, como parte de uma notável esforço de ruptura de códigos, conhecido como Ultra e liderado por um grupo de pesquisadores brilhantes e excêntricos, de engenheiros a professores de literatura, reunidos em Bletchley Park, perto de Londres. Entre eles havia um matemático chamado Alan Turing. Teórico audacioso, proveniente da Universidade de Cambridge, Turing era, talvez, o mais estranho e, certamente, o mais bem-dotado de todos os integrantes do grupo. Simpático e com longos cabelos, usava roupas amarrotadas e costumava defender pontos de vista não-convencionais, não negando, por exemplo, seu ateísmo ou sua homossexualidade. Tinha uma "gagueira estridente", admitia sua própria mãe, "e uma risada semelhante a um cacarejo de galo, que conseguia irritar os nervos até mesmo de seus amigos". Algumas idéias de Turing tomaram forma na máquinas construídas em Bletchley Park. Primeiro foi a vez de uma série de dispositivos quebradores de códigos, que empregavam relês eletromecânicos, como aqueles utilizados por Konrad Zuse em Berlin, George Stibitz, no Bell Laboratories, e Howard Aiken, em Harvard. Essas máquinas trabalhavam, essencialmente, por tentativa e erro, explorando as combinações de símbolos no código germânico até que fosse descoberta alguma espécie de transliteração inteligível.

Mas, no final de 1.943, colocou-se em operação uma série de máquinas muito mais ambiciosas, o Colossus. Em vez de relês eletromecânicos, cada uma das novas máquinas usava 2.000 válvulas eletrônicas - a mesma tecnologia e, por coincidência, mais ou menos o mesmo número de válvulas de Zuse propusera para o dispositivo que não lhe permitiram desenvolver. Milhares de mensagens inimigas interceptadas diariamente eram introduzidas no Colossus por uma via semelhante à que Alan Turing concebera : como símbolos perfurados num argola de fita de papel. A fita era inserida numa máquina de leitura fotoelétrica, que a explorava repetidas vezes, à taxa espantosa de 5.000 caracteres por segundo, comparando a mensagem cifrada com códigos conhecidos até conseguir encontrar uma coincidência. Cada máquina tinha cinco dessas leitoras, o que lhe permitia processar o número surpreendente de 25.000 caracteres por segundo. Do outro lado do Atlântico, em Filadélfia, as exigências da guerra estavam dando origem a um dispositivo mais próximo, em espírito e função, à máquina universal teórica de Alan Turing. O Computador e Integrador Numérico Eletrônico, ou ENIAC (Eletronic Numerical Integrator and Computer), assim como o Mark I, de Howard Aiken, nasceu da necessidade de resolver problemas balísticos. Mas acabou comprovando-se capaz de executar diversas tarefas.

 

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