Bombas Voadoras
Em 1939, máquinas e tratores de engenheiros militares desalojaram de Peenemünde os pescadores de suas casas e no lugar ergueram misteriosas construções. No dia 3 de outubro de 1942, embora a ilha conservasse seu ar parado e nevoendo, no rosto do pessoal que invadira Peenemünde três anos antes havia apreensão e expectativa. A razão disso tudo era um objeto de 15 metros de altura - semelhante a uma enorme e gorda flecha de metal, apoiada sobre quatro grandes asas - que parecia ouvir nervosamente o som monótono de um alto-falante repetindo cadenciado uma estranha contagem invertida.
Quem descreve as atividades incomuns daquele dia é o General Walter Dornberg, chefe das instalações da ilha. "Durante muitos anos tínhamos trabalhado para aquele momento e, quando ele chegou, deu a impressão de não ser real. Cada minuto parecia durar mais de sessenta segundos e os números 3 ... 2 ... 1 chegaram mais lentamente que todos. No momento em que a contagem chegou a zero, vi uma nuvem de fumaça e centelhas escapar do foguete. Com um rugido assustador, o mostro de metal levantou-se de sua base e tomou caminho do céu, diminuindo de tamanho enquanto mergulhava rapidamente para o Norte.
Acompanhei o brilho das chamas desaparecendo a distância. Foi uma visão inesquecível". Dornberg saiu da sala blindada de onde comandara a experiência e foi encontrar-se com Wernher von Braun, diretor técnico dos trabalhos. "Não me envergonho de dizer que chorava de alegria", diz o General, "e Von Braun ria quase descontroladamente, com os olhos cheios de água". Toda Peenemünde comemorava o sucesso do foguete A-4, que na sua versão militar (com uma carga de 1 tonelada de explosivos) seria conhecido como bomba V-2 (V de "Vergeltung", vingança). Pela primeira vez na história da tecnologia, um foguete percorria 360 Km, subindo a uma altura de 100.000 metros.

Bomba Voadora V-2
"Este terceiro dia de outubro de 1942 marca o começo de uma nova era nos transportes, a da viagem espacial", Dornberg diria. Perto dos pequenos foguetes de 3 metros construídos pessoalmente por Goddard e quatro auxiliares em sua oficina, a V-2, feita por uma equipe com mais de cem especialistas, quase 2.000 técnicos e 5.000 trabalhadores, era um projeto do futuro. Mas, naquele momento, o futuro estava mais para o lado de Hitler que das viagens espaciais. Dornberg : "Enquanto a guerra durar, nossa missão mais urgente será o aperfeiçoamento deste foguete como arma. O desenvolvimento de suas possibilidades para a conquista do espaço é uma tarefa para os tempos de paz". Quando a primeira V2 subiu vitoriosamente de Peenemünde, Von Braun tinha trinta anos e metade de sua vida ele passara estudando os foguetes. Filho de uma família de aristocratas alemães, a Guerra o obrigou conciliar sonhos com obrigações patrióticas. Fora das horas de trabalho em Peenemünde, estudava astronomia, pensando nas futuras viagens pelo espaço. Durante o serviço, se esforçava para convencer os líderes nazista da importância militar de sua máquina, única forma de obter dinheiro para aperfeiçoá-la.
No dia 29 de junho de 1943, Hitler, que não acreditava na V-2 na época das fáceis vitórias do Exército nazista, visitou as instalações da ilha de Usedom para sentir as possibilidades da nova arma. Os oficiais de Peenemünde ficaram encabulados com a presença autoritária do Führer e respondiam às perguntas desajeitadamente em palavras rápidas e confusas. Von Braun foi o único (segundo um relatório da Gestapo) a manter a calma e durante trinta minutos deu todas as explicações pedidas pelo ditador. Uma semana depois, Hitler mandou chamá-lo, junto com Dornberg.
Enquanto os aviões da Royal Air Force despejavam toneladas de bombas sobre Berlim, num porão da Chancelaria alemã, Von Braun apresentava filmes da V-2 e dava explicações sobre novos foguetes e planos para sua produção em série. Dornberg ainda lembrou vagamente ao Führer possíveis usos mais nobres da nova tecnologia. "Quando começamos a aperfeiçoar os foguetes, não pensávamos em atribuir-lhe um papel militar tão terrível. Nós sonhávamos ..." Hitler interrompeu-o bruscamente : "Eu sei que vocês não pensavam nisso. Mas eu pensei". Em seguida, autorizou a produção da bomba. No começo de novembro de 1.943, os ingleses, longamente habituados às ameaças fantásticas de Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda Nazista, riram tolerantemente quando num discurso ele anunciou "terríveis armas de retaliação", que estariam "prontas para cair sobre a Inglaterra, como um pesadelo vindo do céu". Problemas técnicos atrasaram o sonho ruim por mais de meio ano. Mas, no dia 13 de junho de 1.944, uma violenta explosão abalou Swanscombe, no Condado de Kent, a 35 Km do centro de Londres.
Um cidadão que viu o ataque descreveu "a coisa" como "um pequeno avião roncando como Ford de bigode, que voava rapidamente, deixando atrás de si um rasto de chamas". Era a V-1, a primeira das armas secretas anunciadas por Goebbels. A Vergeltung 1 era uma espécie de avião a jato sem piloto, telecomandado, capaz de voar a 800 Km por hora (pouco mais rápida que os caças da época).
A arma desenvolvida em Peenemünde (V-2) era fantasticamente mais rápida e perigosa que as V-1. Faziam 5.000 Km/h, ninguém ouvia sua aproximação e eram inúteis as baterias antiaéreas e os aviões de defesa (que derrubaram 1.847 V-1). Durante sete meses, as "armas da vingança" 1 e 2 mataram 8.500 pessoas, feriram 46.200, destruíram 60.000 casas. Mas era tarde para que elas pudessem mudar sensivelmente o resultado final da grande tragédia alemã. A maioria dos especialistas entendeu a V-2 como uma dura antevisão da III Guerra Mundial. Outros viam no foguete perspectivas mais terríveis. O "London Tribune" comentava assim a notícia de que um superfoguete lançado da Alemanha duas semanas antes havia sumido no ar : "Se o mundo atingido pelo foguete for habitado por gente que chegou ao nosso nível de 'civilização', talvez eles o encarem como um ato de hostilidade. Estaremos então na iminência de uma guerra entre mundos, antes de termos acertado as contas aqui na Terra ?".
Com idéias um pouco diferentes das do irônico jornalista londrino, americanos e russos pensavam nos homens que haviam construído as armas fantásticas e tinham planos ainda mais fantásticos para eles. Numa fria manhã de fevereiro de 1.945 desceu no aeroporto militar de Londres o Major Robert Staver, com ordens expressas de se apresentar urgentemente ao Comando de Armas e Munições Aliado. Falava com um de seus superiores no QG (Quartel General) quando foi jogado no chão por uma gigantesca explosão no prédio vizinho, Staver, enviado à Inglaterra para aprender tudo sobre as bombas alemãs e, recebido pouco amistosamente por uma delas. Na semana seguinte, unidades do Terceiro Exército Blindado americano entravam em Bonn e capturavam vários documentos, entre os quais, acidentalmente, uma relação dos cientistas de Peenemünde. Os papéis foram enviados a Staver e com ele chegaram a Washington.
A 2 de abril, na Europa, Eisenhower recebia as instruções da "Operação Paperclip" - para a captura dos planos, dos foguetes e dos cientistas da V-2. Começou então uma etapa pouco divulgada da corrida espacial. De um lado, os americanos; do outro, os russos; e, no meio, Von Braun e seus amigos, com os planos que poderiam levar um dos dois lados à Lua. Nesta corrida, os russos chegaram sempre atrasados. Quando bombardeavam Stettin, 80 Km a sudeste de Peenemünde, Von Braun, aquela altura diretor de pesquisa do programa de foguetes alemão, tinha em sua mesa de trabalho "cinco ordens do Alto Comando Alemão mandando que eu ficasse em Peenemünde e cinco ordens, também do Alto Comando, mandando que saísse de lá. As duas séries pediam que eu destruísse todo o material da base e as instalações, para que os aliados não pudessem usá-las".
Dornberg e Von Braun reuniram sua equipe e decidiram em conjunto ir para Nordhausen (onde as V-2 eram fabricadas), esconder os planos e depois entregar-se aos americanos. "Os documentos sobre os foguetes pesavam toneladas, representavam um tesouro único de conhecimento técnicos e nos haviam custado muito dinheiro e anos de trabalho. Decidimos não destruí-los" - contou depois Von Braun. Com a artilharia russa trovejando atrás deles, os homens dos foguetes empacotaram tudo que podiam carregar e se enfiaram no caos da Alemanha em colapso. Dez mil homens e 2.000 toneladas de material saíram milagrosamente da ilha de Usedom, num momento em que quase todo o sistema de transportes do país estava esfacelado. Peenemünde foi tomada na semana seguinte (05/05/1.945) pelo Segundo Exército Russo, comandado por Konstantin Rokossowsky. Cruzando rodovias sob bombardeio, o comboio de Von Braun chegou a Nordhausen. Um telefonema avisou-o de que os americanos estavam a 20 Km. Von Braun mandou esconder parte do material e fugiu com os principais técnicos para Obeyoch, perto da fronteira com a Áustria.
Quase os mesmo tempo, as forças americanas invadiam as fábricas das V-2 em Nordhausen e Wiedersachswerfen, que, por acordo entre os aliados, ficavam em zonas sob proteção dos russos. Trezentos caminhões-vagão cheios de equipamento (inclusive cem V-2 intactas) partiram para o Ocidente. Quando os russos chegaram, era tarde, novamente. "Este descuido não tem explicação", diria posteriormente Stálin. Enquanto isso, mais ao sul, a terceira presa lhe escapava. Von Braun e seus companheiros eram encontrados pelo Sétimo Exército Americano. Discutiam planos para o futuro nos ensolarados terraços dos hotéis de Obeyoch, completamente perdidos da realidade, enquanto o mundo alemão caía em pedaços à sua volta.
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