Desastre Aliado em Arnhem
As tropas alemãs colocadas na Frente Ocidental, derrotadas em Falaise, deram início a uma manobra de retirada para lá do Sena. Os comandantes aliados não hesitaram em perseguir as forças alemãs em fuga mas, por um conjunto de erros que se revelariam fatais, foram incapazes de atravessar o Reno e penetrar pela primeira vez em território alemão.
A Linha Sigfried, uma das defesas alemãs, funcionaria como um dique na
progressão dos Aliados e, por ordem de Hitler, seria a partir daí que as
forças germânicas lançariam a contra-ofensiva destinada a recuperar a
supremacia no terreno.
No diário do SHAEF, com data de 26 de Agosto de 1944, podia ler-se: O
grosso dos exércitos alemães, no sector Oeste, foi destroçado. A França
recuperou Paris e as forças aliadas avançam rapidamente em direcção à
fronteira alemã.
Este documento espelhava bem o otimismo exagerado, a sensação de guerra
já ganha, que dominava o espírito dos comandantes e dos soldados das
forças anglo-americanas.
Solução de compromisso
Montgomery propõe a
Eisenhower, em reunião efectuada a 23 de Agosto,
um plano assente numa progressão a efectuar em direcção a um único
ponto do Reno, contando para tal com o poder e a eficácia de uma massa
militar formada por quatro dezenas de divisões. Estas deveriam avançar
pelo Norte das Ardenas formando uma tenaz que isolaria a bacia do Rhur.
A ideia não foi aceite por Eisenhower, considerando que esta manobra, ao
concentrar todas as tropas num único ponto, acabaria por deixar expostos
os flancos em caso de um eventual contra-ataque inimigo. A solução
defendida por Eisenhower passava, como explicou a Montgomery, pelo
tradicional avanço em colunas paralelas.
Ao mesmo tempo, o general norte-americano Bradley discutia com Patton o
projecto de um ataque direccionado a Leste, passando pelo Sarre em direcção
ao Reno, tomando Frankfurt pelo Sul. Este era, na opinião de Bradley, o
plano mais eficaz para a movimentação do grosso das tropas.
O comandante chefe viu-se, então, obrigado a servir de moderador entre os
seus chefes militares, acabando por adoptar uma solução que, sendo de
compromisso, não agradou a ninguém.
Seria, então dada pela prioridade ao avanço de Montgomery até que este
ocupasse Anvers, deslocando-se as forças do I Exército dos EUA,
comandadas pelo general Hodges, em direcção ao Norte, cobrindo o flanco
das tropas britânicas.
Alemães caminham para o caos
Enquanto isso, do lado alemão era dada a ordem de retirada da frente,
contando com o apoio e a protecção das debilitadas divisões Panzer. As
intenções de Hitler de transformar o Sena na linha de defesa mais avançada
acabaram por ser goradas, restando agora aos alemães recuarem até à
Linha Sigfried, junto da fronteira alemã, reorganizando as suas tropas.
O Grupo de Exércitos B do marechal Model fraccionava-se, criando três
linhas de retirada: a Norte, o XV Exército abandona Pas de Calais; o V
Panzerarmee cobria, pelo centro, a retirada do dizimado VII Exército que
se movimentava em direcção a Somme; a Sul, o I Exército retrocedia,
evitando ser esmagado pela progressão das forças franco-americanas
vindas da Provença.
Quanto ao Grupo de Exércitos G, foram recebidas ordens para um rápido
recuo, levando até ao Ródano uma das suas unidades de combate, a saber,
o XIX Exército.
Hitler ordenou, em seguida, que as tropas efectuassem uma primeira paragem
antes da Linha Sigfried e, de seguida, consolidassem posições na
referida Linha. Simultaneamente, os comandantes das forças que ainda
ocupavam os portos da Bretanha - todas elas sujeitas a um apertado cerco
dos Aliados - receberam ordens para resistir até ao último homem,
impedindo que as instalações portuárias pudessem ser aproveitadas pelos
Aliados.
Objectivo: Holanda
A ofensiva de Montgomery em território belga, executada pelo Grupo de
Exércitos comandados pelo marechal, tinha por missão capturar e
aniquilar o XV Exército alemão - o qual escapara ileso das operações
na Normandia - e destruir as rampas de lançamento das bombas-voadoras
usadas para atacar o Reino Unido.
Ambos os objectivos ficaram a cargo I Exército canadiano do general
Crerar, cabendo ao II Exército britânico do general Dempsey, funcionando
como linha avançada, conquistar Anvers e abrir caminho pela Holanda até
Rhur.
A 3 de Setembro, a Divisão de Blindados da Guarda do II Exército britânico
tomava Bruxelas e, no dia seguinte, a 11ª Divisão de Blindados conquista
Anvers sem que os alemães tenham tido tempo de destruir as instalações
portuárias. Os Aliados não tomaram qualquer precaução que garantisse o
controlo das pontes do Canal Alberto, nos arredores da cidade, as quais
seriam dinamitadas dois dias mais tarde pelos alemães.
Outro erro, que se revelaria decisivo nas batalhas seguintes, consistiu em
deixar desguarnecida a península de Beveland, pela qual escapou o que
restava do XV Exército alemão usado, tempos mais tarde, para contrariar
o avanço dos Aliados em direcção a Arnhem, na Holanda.
O pior que poderia ter acontecido aos Aliados na sua progressão para o
Reno foi a pausa que se prolongou de 4 a 7 de Setembro, ou seja, após a
entrada na Bélgica. Todos, oficiais e soldados, davam então por
terminada a guerra. A 4 de Setembro, coincidindo com o primeiro dia de
descanso, o general alemão Student, comandante das tropas pára-quedistas,
recebe ordens para reunir todos os homens que pudesse e formar com eles
uma linha defensiva ao longo do Canal Alberto, tendo como pontos de referência
Anvers e Maastricht.
Seria este improvisado I Exército Pára-quedista do general
Student o responsável pelas dificuldades encontradas pelos Aliados ao
longo das duas semanas seguintes que, até 17 de Setembro, pouco ou nada
progrediram no tempo.
Em meados de Setembro os alemães tinham fortalecido a quase totalidade da
sua linha defensiva, sobretudo no fragilizado sector setentrional.
Foi esse, precisamente, o sector escolhido por Montgomery para lançar
nova operação, a 17 de Setembro, a qual deveria levar as suas tropas até
ao Reno tomando Arnhem. A Operação Market-Garden, previa um
ataque de forças aerotransportadas, o I Exército, que deveria abrir
caminho ao II Exército britânico.
O atraso na limpeza do estuário do Escalda e a abertura do porto de
Anvers atrasariam a ofensiva contra Arnhem. Falhada esta última operação,
optou-se então por dar prioridade às duas primeiras.
A lentidão com que foram eliminadas as bolsas de resistência alemã nas
ilhas de Breskens e Walcheren e na península de Beveland acabaria por se
arrastar até ao início de Novembro, atrasando muitas das operações
previstas para esse período.
Apesar dos contratempos, os Aliados haviam dado passos importantes no seu
avanço até ao coração do Reich. Importantes mas não decisivos.
Foi preciso esperar pela Primavera de 1945 para que os efeitos desastrosos
dos erros de Setembro se dissipassem.
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