De
Voronej ao Cáucaso, a extensão e distorção das linhas alemães
atingiram um grau espantoso. O Grupo de Exércitos Sul começara sua
campanha de verão numa frente de 800 km. Fracionara-se em dois, A e B,
cujas frentes, somadas, representavam nada menos de 2.600 km. A
ligação dos combatentes com as bases que os abastecem resume-se em
estradas que a mais leve chuva torna intransitáveis e em ferrovias,
geralmente de linha única, cujos trilhos estão colocados no chão sem
qualquer escora de cascalho ou pedras. A circulação do material
rodante, extremamente lenta, é ainda agravada pelos atentados dos
partisans, que atingem a média de 700 por mês, sendo que repressão
alguma consegue diminuir seu índice de crescimento.
O
objetivo da ofensiva era a conquista da Transcaucásia. Essa tarefa
cabia ao Grupo A, comandado pelo Marechal-de-Campo Von Kleist. O Grupo
B, confiado sucessivamente ao Marechal Von Bock e ao General Von Weichs,
tinha apenas uma missão de cobertura, contudo grandiosa. Deveria
prolongar a barreira do Don, aferrolhando o istmo de 60 km que separa o
Don do Volga, e aproximar-se paulatinamente do curso deste último, que
acompanharia até Astracã. No final da campanha, isto é, antes da
chegada do inverno, as posições alemães ao sul da URSS deveriam ser
limitadas pelo litoral do mar Negro, a depressão transcaucásica de
Batum e Bacu através de Tíflis, o litoral do mar Cáspio e,
finalmente, o Volga e o Don.
Seria
absurda essa ambição? Sim e não.
Não:
o plano de Hitler daria à Alemanha o petróleo do Cáucaso. Eliminaria
os russos do mar Negro, fazendo desaparecer a ameaça de contra-ofensiva
na direção da Criméia, da Ucrânia e da Romênia. O Volga tonar-se-ia
o extenso e sólido pilar do edifício alemão na Rússia. O
prosseguimento da campanha acarretaria operações num perímetro de
4.200 km, mas a vitória permitiria reduzir a frente efetiva em cerca de
1.000 km, da foz do Volga ao curso médio do Don. Era essa, na verdade,
a única possibilidade de vitória, já que desaparecera a esperança do
pronto e total aniquilamento do Exército Vermelho.
O
absurdo flagrante e fatal residia na desproporção entre fim e meios.
Para realizar o plano de Hitler, os exércitos alemães deveriam dispor
de efetivo duplo, tríplice mobilidade e aviação quádrupla. As tropas
deveriam estar repousadas e reintegradas. Vinham combatendo sem tréguas
desde o início da guerra com a Rússia, e as perdas sofridas não
haviam sido reparadas quer em pessoal quer em material. Muito raramente
o efetivo das companhias ultrapassava 60 homens, e os das
Panzerdivisionen, 80 tanques. Hitler, que jamais ia ao front, e nunca
permitira que seus colaboradores próximos lá fossem, não tinha a
menor idéia concreta do desgaste que seus exércitos acusavam em meio
das vitórias obtidas. Caso o conhecesse, ter-lhe-ia sido impossível
sacar, de uma Alemanha insuficientemente preparada para o impasse de uma
guerra mundial, os recursos que agissem como paliativos nessa
instância.
À
inquietação que se elevaria em torno dele, o Fuhrer respondia
apoiando-se no argumento de que os exércitos soviéticos estavam a um
passo do fim. Acolhia calorosamente todos os indícios comprovadores do
esgotamento do inimigo, e repelia com furor toda prova em contrário. A
audácia dessa estratégia justificava-se, sustentava Hitler, pela
proximidade do último quarto de hora. Toda guerra é ganha com restos;
diante dos destroços russos, as sobras dos alemães conservavam o poder
da decisão.
Passara-se
o verão. Passa-se o outono. Tórrido ainda ontem, o vento da estepe
volta a ser glacial. A neve cai na montanha e surge na planície. Os
chefes dos corpos de tropas redigem relatório sobre relatório, pedindo
o aceleramento do envio de equipamentos de inverno. Segundo o
calendário do Alto-Comando, os objetivos de 1942 deveriam estar
atingidos. Em que medida o são, ou ainda podem sê-lo, antes que de
fato se instaure o verdadeiro inverno?
Batum,
junto ao mar Negro, deveria ser tomada; faltam ainda 500 km para isso.
Nenhum progresso importante, foi realizado após a tomada de Novorossisk,
e, no interior, a escalada do Elbruz (5.800 m) parece ter marcado com
uma proeza esportiva o limite do esforço alemão. O Subgrupo do
Exército Ruoff, composto do 17o Exército alemão e do 3o
Exército romeno, combate em sublimes paisagens; florestas virgens,
gargantas selvagens, esporões rochosos, de onde se descortina a
verdejante planície costeira e a grande mancha escura do mar.
Fracassaram, porém, todas as tentativas para descer até essa costa.
No
Cáucaso central, Tíflis já deveria ser alemão. Não o é nem ao
menos seu vestíbulo, Ordjonikidze. O 1o Exército Blindado
reuniu no cotovelo do Terek todas as forças que pôde sacar de seus 700
km de frente, a 13a Divisão Panzer tentou subir de novo as
gargantas que introduzem diretamente à estrada militar da Ossetia: as
dificuldades do terreno, a penúria de gasolina e a resistência russa
conjugaram-se para detê-la. Mais a leste, a Divisão Viking, formada
por voluntários nórdicos, tentou apoderar-se da importante zona
petrolífera de Grozny. Foi feita uma cabeça-de-ponte sobre o Terek, ao
preço de sobre-humanos esforços, mas faltava inteiramente o reforço
necessário para tirar partido desta vantagem. A 12 de novembro, em meio
duma tempestade glacial, os Vikings tornaram a cruzar o rio. Em parte
alguma a Wehrmacht irá mais longe do que isso.
O
objetivo real da campanha era Bacu. Nenhum soldado alemão dela se
aproximará, a não ser num raio de 600 km. “Se não tomo o petróleo
de Bacu - dissera Hitler -, ver-me-ei obrigado a acabar com a guerra”.
Entre
o Terek e o baixo Volga, na estepe calmuque, uma única divisão, a 16a
Motorizada, atravessou o vazio de 400 km existente entre os grupos de
Exércitos A e B. Os próprios russos, na verdade, não conseguem
saturar tão enormes espaços. A 16a Motorizada toma Elista,
capital dos nômades, e uma patrulha, conduzida por um certo
Oberleutnant Gottlieb, avança até a 25 km de Astracã. Corta a linha
férrea de Bacu, incendeia um trem de petróleo e volta sem ter visto um
único soldado inimigo. Um vazio praticamente total se estende entre os
exércitos que combatem no Cáucaso e os que se comprimem no Volga.
Ao
norte de Elista, o 4o Exército romeno, composto de dois
débeis corpos, esboça uma frente ofensiva, formando ao longo de uma
cadeia de lagos, comprovantes de um antigo curso do Volga. À sua
esquerda, o 4o
Exército Blindado, do General Hoth, alcança o grande rio perto do
cotovelo que este desenha, para deixar a direção do mar Negro e tomar
a do Cáspio. Até 16 de setembro, essa força participara da luta por
Stalingrado, e depois cedera parte de suas unidades ao 6o
Exército, encarregado de concluir a conquista da cidade. Reduzido ao 4o
Corpo e à 29a Divisão Motorizada, o 4o
Exército Blindado se encontrava em condições de apoderar-se das
alturas de Krasno-Armensjk, de onde os russos dominavam suas linhas.
Entramos
no setor do 6o Exército, nos limites de Stalingrado. O
oficial que o comanda, General Friedrich Paulus, é o mais recente dos
grandes chefes alemães. Com apenas 52 anos de idade,
ex-general-intendente, ex-chefe do Estado-Maior do Marechal Reichenau,
ele fora chamado, não sem despertar ciúmes, para ficar à frente de
uma das principais peças do tabuleiro do xadrez militar.
Hitler,
entretanto, tem os olhos sobre ele para outro papel, menos invejável:
pretende, quando Paulus conquistar Stalingrado, confiar-lhe as funções
de Jodl, promovendo-o a seu estrategista particular.
O
favor político não influi na brilhante promoção de Paulus. Oriundo
de um meio de modestos funcionários, elevado socialmente por sua
aliança com uma boa família romena, ele é neutro em política, como
é morno de personalidade. A obediência é o principal esteio do
Exército, mas a desobediência leva regularmente à glória os grandes
chefes. Paulus é incapaz de desobedecer.
A
incumbência que lhe fora confiada para a campanha de 1942 torna-se cada
vez mais pesada. As operações do 6o Exército só haviam
sido inicialmente previstas para o ferrolho do Don, permanecendo
Stalingrado como objetivo suplementar, antes uma presa do que uma meta.
Depois, o que era acessório revestiu-se da maior importância. Hitler
começara por declarar que não exigia a ocupação da cidade,
contentando-se com a destruição de seu potencial industrial. Vê
agora, pela feroz batalha que ele provoca, o impasse capital e decisivo
da luta contra a Rússia.
O
cerco teve início a 2 de setembro, pela junção, nas colinas que
dominam a cidade, do 6o Exército e do 4o
Exército Blindado. A causa parece perdida para os russos. Todas as
comunicações terrestres de Stalingrado são cortadas, e o
abastecimento da guarnição só é realizável pelo Volga. O General
Lopatine, comandante do 62o
Exército, considera a cidade indefensável, e solicita autorização
para tornar a cruzar o rio. Voltando, porém, ao sistema de defesa
elástica adotado no início do verão, Stalin acaba de proclamar que a
Rússia não pode mais ceder território algum. O comandante do grupo de
exércitos, Eremenko, e seu novo comissário político, Kruschev,
substituem Lopatine pelo General Tchuikov, recém-chegado do Extremo
Oriente. Suas ordens resumem-se a uma frase: conservar Stalingrado, ou
morrer.
Stalingrado
é um cais do Volga. Vira as costas à estepe e contrai-se ao longo da
enorme massa líquida. As margens escarpadas interrompem-se por um
declive abrupto, o que complica as relações da aglomeração e do rio,
fornecendo contudo um ângulo morto às armas de longo alcance. Os
barrancos erodidos, os balkas da estepe, prolongam-se pela cidade por
uma série de depressões, sendo a mais profunda ocupada pelo rio, que
conservara o nome de Tzaritza, quando a Tzaritzina se tornara
Stalingrado. A cidade velha fica ao sul. A cidade central, cujo
coração é a Praça Vermelha, desce por vários lances de escada da
colina Mamai ao desembarcadouro do ferry, que substitui as pontes
ausentes. Desenvolve-se em direção ao norte a faixa das pequenas
cidades industriais. A fábrica de produtos químicos Lazur ocupa o
centro de um entroncamento ferroviário nitidamente visível em
fotografias aéreas, provindo daí seu apelido, Raquete de Tênis. Vem a
seguir a Usina Siderúrgica Outubro Vermelho, a fundição de canhões
Barricada e a fábrica de tratores Djerjinski. Os subúrbios de
Spartokovska e de Rynok prolongam Stalingrado até a vasta superfície
líquida a partir da qual a extensa sangria do Achtuba começa a
desmembrar o Volga. O comprimento total dessa cadeia urbana e industrial
ultrapassa 50 km. A largura raramente excede 3.000 passos.
A
cidade velha caiu primeiro. A conquista do grande silo pela 29a
Divisão Motorizada foi o primeiro dos combates fantásticos que dão um
caráter único à batalha de Stalingrado. As detonações, a ressoar na
enorme carapaça de concreto, arrebentavam os tímpanos, quais
elásticos esticados em demasia. O edifício ainda estava cheio de
trigo: russos e alemães matavam-se em meio a uma dourada cascata. Os
alemães levaram vantagem. No meio de outubro, haviam conquistado, no
setor sul, 10 km de margem, de Kuperovskie ao pé das escadas da Praça
Vermelha. No setor norte, ocuparam uma ala eqüivalente, de uma ponta a
outra de Rynok.
Se
os russos fossem razoáveis, teriam desistido. Só conservavam, de
Stalingrado, uma parte dos bairros industriais do Norte, como também,
na cidade central, o sopé da escarpadura: uma faixa de algumas dezenas
de metros de largura, finalizando em bisel à entrada do
desembarcadouro. A batalha, contudo, revestira-se de caráter
irracional. Não mais punha em choque dois comandos sensíveis à
lógica militar, e sim jogava, um contra o outro, dois incontroláveis
fanatismos. Do lado alemão, o absurdo era ainda mais flagrante.
Quando
se constatou, em outubro, que o Grupo de Exércitos A perdera qualquer
possibilidade de conquistar em 1942 o petróleo do Cáucaso, a ponta de
Stalingrado ficou destituída de interesse estratégico. Sua última
justificativa econômica, a intercepção do tráfego do Volga,
encontrava-se às vésperas de desaparecer, pois o congelamento do rio
deveria interromper a navegação muito mais efetivamente do que a
presença dos soldados de Paulus em Rynok e a dos de Hoth em
Kuperovskoie. A principal tarefa do Comando alemão constituiria, daí
em diante, em receber o segundo inverno russo em melhores condições do
que o primeiro, encurtando e consolidando uma desmesurada frente. O
avanço em direção a Tíflis e a punção até o Volga encabeçavam os
sacrifícios a serem admitidos.
Hitler,
porém, desligara-se da realidade, e os que tentavam fazê-lo voltar a
ela pagavam caro por isso.
No
começo de setembro, um general fora massacrado por sustentar a
necessidade da limitação da marcha para a frente, e um outro caíra em
desprestígio por havê-lo defendido. O primeiro era o Marechal-de-Campo
List; o segundo, o General Jodl. Ao voltar de uma missão ao QG do Grupo
de Exércitos A, Jodl ousara lançar ao rosto de Hitler que as faltas
reprovadas a List eram conseqüência das ordens que o próprio Fuhrer
dera. Este deixou o recinto lívido, como se fosse desmaiar, vagueou
durante horas pelos bosques de Vinnitsa, e fechando-se de vez num
círculo de solidão, deixou para sempre de fazer as refeições à mesa
de seus oficiais. Destituído de seu comando, List desaparece da
história das hostilidades.
No
fim de setembro, Halder, por sua vez, desaparece. Mantivera-se no posto
de chefe do Estado-Maior Geral do Exército desde a crise de Munique.
Mas seu espírito crítico, seu discurso, seus protestos, advertências,
somadas a seu catolicismo, indispunham-no junto a um ditador que se
deixava proclamar por seus cortesão como “o maior gênio de todos os
tempos”. A taça transbordou em 24 de setembro. “Tanto os seus
nervos como os meus - disse Hitler - estão esgotados. Não é de um
mestre-escola, mas de um homem imbuído do fanatismo
nacional-socialista, que necessito para conduzir minha guerra na
Rússia..”
Kurt
Zeitzler, que substituiu Halder, não passa de um simples general-major
- No Exército alemão, as patentes de general obedecem à seguinte
hierarquia: general-major (sem estrelas); general-tenente (1 estrela);
general-capitão (2 estrelas); general-coronel (3 estrelas).
Seu OKH tem por única atribuição a frente oriental, ficando os
palcos de operações colocados diretamente sob a autoridade do OKW,
isto é, Keitel. Na realidade, tudo se torna confuso sob a onipotência
caprichosa e verborrágica de Adolf Hitler. Depois do rompante contra
Jodl, estenógrafos registram todas as conferências com caráter de
relatório Lagebesprechungen feitas em seu QG. Delegarão assim à
história um lenga lenga fantástico, onde se vê Hitler passar das mais
sublimes considerações a pormenores sem importância, mostrando-se a
cavaleiro do mundo, para, no minuto seguinte, deslocar uma companhia,
sem contudo sentir-se tentado uma só vez a ir ao front, ou de roçar-se
em outros Feldgrauen que não são os heróis condecorados, enluvados e
desinfetados que faz trazer à sua presença de vez em quando.
Em
vez de renunciar a Stalingrado, o Exército alemão encarniça-se em
mantê-la. Todos os batalhões de engenharia militar são trazidos em
aviões e formados em grupos de assalto para abrir caminho à infantaria
nos grandes bastiões industriais. Os combates desenrolam-se no meio da
confusão da maquinaria quebrada das fábricas, de pontes rolantes
tombadas, de estruturas espatifadas de edifícios. Os alemães sabem que
nada lhes será cedido, e que até a última pedra de Stalingrado
deverá ser regada com seu sangue.
A
9 de novembro, na 19a celebração do Putsch de Munique,
Hitler alardeia: “Eu quis atingir o Volga na própria cidade que leva
o nome de Stalin. Tomamos essa cidade, exceção feita de duas ou três
insignificantes ilhotas. Perguntam-me: “Por que não acaba mais
depressa com ela?”. Respondo: Porque não quero saber de um segundo
Verdun. Deixo a pequenos grupos de assalto o cuidado de ultimar a
conquista de Stalingrado”.
Ao
dizer que Stalingrado se encontrava inteiramente conquistada, o Fuhrer
em nada falseara a verdade. Os russos conservavam o desembarcadouro,
agarravam-se à Raquete de Tênis e detinham uma parte da Usina Outubro
Vermelho, assim como as saídas orientais das fábricas Barricada e
Djerjinski. Tudo mais, correspondendo a nove décimos de Stalingrado, 50
km de ruínas, estava nas mãos do inimigo. Todos os imóveis de
madeira, queimadas, ficando apenas os vestígios de milhares de
chaminés enegrecidas. Não podendo transpor o Volga, a população
fugira para a estepe desprovida de recursos, e milhares de inocentes
morreram de fome.
Mas
Hitler subestima sua platéia ao fazer crer que os combates de
Stalingrado se resumem agora à tarefa de uns poucos varredores de
destroços. A totalidade do 51o Corpo, repartido em oito
divisões, está empenhada na batalha das ruas. Os melhores elementos do
grupo de exércitos são por ela sorvidos. Ao invés de perder tempo em
diletantismos, o Fuhrer apressa-se em terminar a operação. A 17 de
novembro, de Berchtesgaden, para onde fora após o desembarque
anglo-americano na África do Norte, ele se dirige a todos os coronéis
que ocupam postos de comando em Stalingrado. “Conheço as dificuldades
de sua tarefa. As que os russos enfrentam não são menores, e os gelos
flutuantes irão aumentá-la. Conto com sua energia para tirar proveito
dessa circunstância favorável, e conquistar definitivamente a fábrica
de canhões e a siderúrgica”.
Os
regimentos alemães correspondem a esse apelo. A 19 de novembro,
Djerjinski e Barricada encontram-se inteiramente em seu poder. São
conquistadas várias centenas de metros do rio. Os gelos que flutuam no
Volga efetivamente interrompem o abastecimento dos defensores. Tchuikov
dá a conhecer que está à míngua de munição, de víveres, de
sangue...
O
cerco aproxima-se do fim. E é então que chega ao comandante do 6o
Exército uma ordem completamente inesperada: suspender todos os ataques
na frente de Stalingrado...
O
exército de Paulus não combate apenas em Stalingrado. Dobrando-se,
qual braço protetor, barra o istmo que separa o Volga do Don. Transpõe
este último e, rodeando o ferrolho de Kremenskaia, em poder dos russos,
estende-se até Kletskaia. Dois corpos de exércitos, o 8o e
o 11o, guardam essa frente defensiva.
Além
de Kletskaia, até a vizinhança de Voronej, estendem-se os setores
mantidos pelos aliados da Alemanha: romenos, italianos e húngaros.
Os
três exércitos eqüivalem-se em fraqueza. Uma testemunha italiana, que
vira passar em Viena seus compatriotas a caminho da Rússia, assim
registrou suas impressões: “Nossos soldados não tem boa aparência.
Estão sujos, mal equipados e principalmente mal enquadrados e muito mal
armados. Caso venham realmente a combater contra o Exército russo,
encontrar-se-ão logo em má situação. Nosso coração está apertado
por causa deles”. A motorização dos três exércitos é, a bem
dizer, nula. Equipamento, vestuário, transmissores, material óptico,
etc, são de última categoria. A artilharia é antiquada. A defesa
antitanque não dispõe de canhão superior ao canhão 37 hipomóvel. O
moral é incerto. Como os contingentes estrangeiros no Grande Exército,
os soldados tem consciência de que essa guerra não é deles, e não
podem deixar de ressentir-se da inferioridade material e moral com que
combatem.
Numericamente,
a contribuição húngaro-ítalo-romena à guerra de Hitler é
considerável. O 2o Exército húngaro, mais próximo à
Voronej, conta com três corpos, e o 4o Exército romeno,
mais próximo à Stalingrado, com quatro - somando-se aos dois corpos do
3o Exército alinhados na estepe e às sete divisões que
combatem ao lado do 17o
Exército alemão. Como húngaros e romenos são inimigos hereditários,
foi preciso intercalar entre eles o 8o Exército italiano,
com quatro corpos, entre os quais o corpo alpino. Trinta e duas
divisões, 24 das quais dispostas ao longo do Don, perfazem assim a
ordem de batalha da Wehrmacht. Mas ainda se estará fazendo uma
estimativa generosa reduzindo-lhes o número de dois terços, ao avaliar
seu poder combativo pelos padrões alemães.
Os
generais alemães sempre pediram para que esses débeis auxiliares
fossem “cintados”, isto é, diluídos nas tropas alemães. Mas
considerações de alta política opuseram-se a isso. Os governos
satélites queriam exércitos constituídos, sob o comando de nacionais.
Devido a seu fraco valor ofensivo, foram confiadas frentes passivas a
esses exércitos. É esse motivo pelo qual a proteção dos dois flancos
da ofensiva dirigida a Stalingrado se encontra quase exclusivamente
confiada aos seus aliados.
Sobre
a gênese da contra-ofensiva - sobre a preparação de uma das mais
belas vitórias da história russa - as fontes soviéticas são, mais
uma vez, profundamente decepcionantes. A história da guerra mundial
editada pelo General Platonov diz que os planos começaram a ser
elaborados no mês de setembro, resumindo-os de maneira bastante clara.
A narrativa, entretanto, reveste-se de extremo laconismo. São omitidas
as condições em que foi armada a manobra magistral, assim como as
discussões a que deu lugar. Temos de nos contentar com esse estilo
convencional e declamatório, com essa verdade oficial que sucede a uma
verdade oficial totalmente diversa. Até 1953, o único vitorioso de
Stalingrado era Stalin. De 1956 em diante, Stalin morre para a
história: seu nome nem ao menos figura no texto de Platonov.
Três
frentes, ou grupos de exércitos, cercavam a eminência de Stalingrado:
Frente Sudoeste, comandada por Vatutin; Frente do Don, comandada por
Rokossovski; Frente de Stalingrado, comandada por Eremenko. A manobra
consistiu em atacar simultaneamente ao norte e ao sul, para trancar o
ferrolho do Don; uma concepção mais ampla, que teria selado o destino
de toda a direita alemã, consistiria em visar diretamente Rostov, ou
mesmo Stalino, nó vital das comunicações inimigas. Ignoramos se foi
considerada.
“A
estepe - diz Platonov - não favorecia a concentração soviética, que
conseguimos, contudo, camuflar. Todos os movimentos foram feitos à
noite. Ao primeiro clarão da aurora, as tropas se detinham,
dissimulando-se nas aldeias ou colando-se ao chão dos balkas. Nossa
ofensiva foi uma surpresa total para o Comando inimigo”.
Platonov
engana-se. O ataque era esperado. A fragilidade do flanco defensivo
consistia há muito tempo uma fonte de inquietações. Hitler
assinalara, desde agosto, a fraqueza da linha do Don, ao lembrar que o
exército dos russos brancos fora batido em 1920, quando atacava
Tzaritzina, por uma ofensiva procedente do rio. Movimentos nas
retaguardas e concentrações de tropas nas perigosas cabeças-de-ponte
haviam sido assinaladas inúmeras vezes. Nos estados-maiores,
discutia-se apenas um problema: recairia o golpe sobre húngaros,
italianos ou romenos? “Eu dormiria melhor se o Don estivesse guardado
por alemães” - dizia Hitler.
A
7 de novembro, na conferência do Fuhrer, o novo chefe do Estado-Maior,
Zeitzler, comunicou uma informação do serviço de espionagem,
revelando que uma grande ofensiva soviética sobre o Don fora decidida
pelo Kremlin quatro dias antes. A única reserva mecanizada, o 48o
Corpo Blindado, que se encontrava atrás do 8o Exército
italiano, recebeu ordens para vir colocar-se atrás do 3o
Exército romeno. Comandado pelo General Von Heim, o corpo de exército
compunha-se da 22a Panzer e da 1a Divisão
Blindada romena. Esta, de formação recente, possuía apenas cerca de
40 veículos tchecos, fracamente armados de um canhão de 37 mm. A 22a,
por sua vez, estava longe de encontrar-se em condições mais
satisfatórias. Seu regimento de tanques fora cortado em dois, para
formar o núcleo da 27a Divisão Panzer, e a maior parte das
armas que recebera em substituição consistia em PzKw 2 e 3, sem
condições para medir-se com o T-34. Além disso, uma cômica surpresa
aguardava Von Heim. Como não fora abastecido de gasolina, havia deixado
os tanques da 22a
camuflados sob a palha. Quando os descobriram, constatou-se que os
ratos, que infestavam a palha, tinham devorado os revestimentos de
guta-percha (espécie de látex) e inutilizado a aparelhagem elétrica.
Dos 104 tanques da divisão, apenas 60 se puseram em marcha para cobrir
o percurso de 250 km, por uma estrada coberta de gelo. Apenas 32
chegaram ao novo estacionamento; nos dias seguintes, outros 12 vieram
juntar-se a eles. A 19 de novembro, o 48o Corpo Blindado,
única força de contra-ataque do ferrolho do Don, constituía-se de um
punhado de tanques romenos desemparelhados e de 44 tanques alemães, dos
quais 31 leves.
A
noite de 18 para 19 era fantasmagórica. O nevoeiro, segundo as
testemunhas, era “um leite”. À meia-noite, a neve começou a cair.
Às 4 horas, a artilharia russa iniciou um pesado bombardeio,
concentrado em dois limitados setores: as cabeças-de-ponte de
Serafimovitch e Kremskaia. Às 8 horas, surgiram os tanques, trazendo
pencas de soldados de infantaria agarrado às superestruturas. O ataque
do oeste, com o 5o Exército Blindado, abateu-se sobre o 2o
Corpo romeno. O ataque, do leste, com
o 3o Exército de Choque, caiu, sobre o 4o Corpo
romeno. Os romenos estavam longe de ser os mais medíocres aliados dos
alemães. Muitas de suas unidades eram aguerridas; alguns de seus
generais, excelentes; os soldados eram muito resistentes, mais
acostumados ao clima, com melhor preparação ideológica para uma
guerra contra a URSS do que os húngaros e, principalmente, os
italianos. Nem por isso a derrota foi menos fragorosa. A irrupção dos
tanques russos produziu o mesmo efeito que a dos tanques alemães em
Sedan. A debandada propagou-se cava vez mais, empolgando unidades que
nem ao menos se viam atacadas. Entre as duas investidas, um grupamento
comandado pelo General Lascar escorou-se no Don e defendeu-se com
bravura, mas, de modo geral, o 3o Exército romeno se
desagregou. Pelas estradas cobertas de neve, massas de homens
chicoteados pela intempérie fugiam às cegas. A única saída consistia
num contra-ataque. As perdas e a dispersão, contudo, haviam
enfraquecido a Wehrmacht numa extensão difícil de ser concebida. Uma
intervenção espontânea da 14a Panzer, à esquerda do
Exército de Paulus, conseguiu liberar o 11o Corpo alemão,
mas o 48o
Corpo Blindado, sacudido por ordens contraditórias, turbilhonou a esmo
pelo campo de batalha enregelado, submergindo em hordas de fugitivos e
chocando-se em toda parte contra forças superiores. Para não ser
envolvido, terminou por fugir. Von Heim, que tivera metade dos seus
carros blindados inutilizados pelos ratos, foi apontado como
responsável pelo desastre e permaneceu encarcerado na prisão militar
de Moabit até 1945.
A
20 de novembro, enquanto Vatutin e Rokossovski galopavam a oeste do Don,
Eremenko, por sua vez, atacava ao sul de Stalingrado. O 4o
Corpo alemão susteve o choque, mas o 4o Exército romeno
desintegrou-se, como fizera na véspera o 3o . O 51o
Exército soviético correu em direção a Kalatch, principal passagem
do Don, gargalo vital das comunicações de Paulus. Quando a atingiu, no
dia 22, a ponte já fora tomada pelos soldados de Rokossovski. O grupo
de DCA que a guardava e a bateria de 155 que lhe dava cobertura estavam
tão longe de esperar uma penetração russa, que tomaram os T-34 que se
aproximavam do Don pelos tanques, capturados do inimigo, que a companhia
de instrução de Kalatch utilizava. Alguns minutos depois a ponte,
intacta, encontrava-se em poder dos russos. O 6o Exército
estava cercado!
O
próprio Paulus quase fora aprisionado. Encontrava-se sem eu PC de
Globulinskaia, 15 km ao norte de Kalatch, na margem ocidental do Don,
quando, às 14 horas, surgiram os russos. O Estado-Maior escapou pelo
Don enregelado, abandonando o material da companhia e utensílios de
cozinha. Paulus e seu chefe de estado-maior, General Arthur Schmidt,
levantaram vôo em dois Fieseler-Storch e foram pousar no QG de inverno
do exército, em Nijni-Tchirkaia, na confluência do Don e do Tchir,
isto é, fora do bolsão demarcado pelo inimigo. Poucas reviravoltas da
sorte foram tão brutais. Na antevéspera, Paulus podia considerar uma
questão de horas a tomada de Stalingrado, vitória que iria ilustrar
seu nome. Na véspera, recebera do comandante do grupo de exércitos,
General Von Weichs, a inesperada ordem de reenviar suas unidades móveis
e direção ao oeste. Pela manhã, procurava compreender o que teria
tão repentinamente acontecido ao exército vizinho. Ao meio-dia, sem
ter sido vencido, encontrava-se na ridícula situação de um general
separado de seu exército, fugindo antes de qualquer soldado!
Ao
escapar da armadilha, Paulus acreditou por um momento poder dirigir do
exterior as operações de salvamento de seu exército. Um telegrama de
Hitler chamou-o a uma concepção draconiana do dever: “O
Oberbefehlschaber (Generalíssimo) do 6o Exército voltará
a Stalingrado. O Exército se organizará em uma frente fechada e
esperará novas ordens”. A situação era das que pedem reações
imediatas, iniciativas ousadas. As primeiras instruções de Hitler -
ditadas de Berchtesgaden - impunham espera e imobilidade.
Pronto
a voar para Stalingrado, Paulus vê aparecer um companheiro de
infortúnio, Hoth, comandante do 4o Exército Blindado. Ele
perdera tudo; tanto suas unidades alemães, cercadas no bolsão de
Stalingrado, como as romenas, dispersadas pela estepe. Os adeuses são
rígidos, embora carregados de emoção entre os dois chefes: um
representa um exército aniquilado, o outro vai juntar-se a um exército
condenado. Em seguida, o pequeno avião de Paulus voa baixo, sobre a
planície branca, e pousa perto da estação de Gumrak, a 15 km de
Stalingrado, onde já funciona o novo PC do exército.
Paulus
é um exemplar oficial de estado-maior: rapidez de análise, facilidade
de exposição. A partir das 16 horas, dirige ao OKH um lúcido resumo
da situação. O 6o Exército, cercado, conserva uma
cabeça-de-ponte a oeste do Don, mas tem o flanco sul a descoberto;
falta-lhe combustível e só dispõe de víveres para seis dias.
Ainda
que a exposição seja clara, as conclusões carecem de firmeza. Paulus
hesita. Trava-se uma discussão em Nijni-Tchirkaia. Por-se em ferrenha
defensiva, como deseja Hitler, implica num abastecimento aéreo até o
momento do cerco ser rompido pela intervenção de um novo exército. O
comandante da 4a Luftflotte, Wolfram Von Richthofen, foi
categórico: manutenção, por via aérea, de 200.000 a 300.000 homens,
empenhados em duros combates, ultrapassa a capacidade da aviação de
transporte. O general de DCA Martin Fiebig opinara no mesmo sentido, ao
dizer a Paulus que só lhe restava uma coisa a fazer: retirar seu
exército da armadilha, sem perda de uma única hora. Mas o chefe de
estado-maior Schmidt mantivera parecer oposto: uma retirada, dissera
ele, seria “napoleônica”, exigindo o abandono de enorme material e
15.000 feridos. Indeciso, Paulus limitara-se a pedir ao Fuhrer liberdade
de ação, e licença para abandonar Stalingrado “caso o 6o
Exército não conseguisse fechar seu flanco sul”.
Vinte
e quatro horas depois, as idéias de Paulus evoluíram. A situação lha
parece sob uma luz mais sombria, e a nova mensagem que endereça ao
Fuhrer propõe a abertura imediata de uma brecha, ao menos para salvar
“preciosos combatentes”. Acrescenta - sob o risco de ser acusado de
conjuração - que os comandantes dos cinco corpos de seu exército,
Heitz, Von Seydlitz, Strecker, Hube e Jaennicke, compartilham de sua
opinião.
Nesse
meio-tempo, o comandante do grupo de exércitos, Von Weichs, falara mais
energicamente ainda. O abastecimento aéreo de 20 divisões, notifica
ele a Angerburgo, só poderá satisfazer um décimo das necessidades das
mesmas. Cercado, o 6o Exército se vê condenado a perder em
alguns dias a maior parte de seu valor combativo. Uma tentativa para
abrir caminho acarretará a perda de considerável material, porém não
há outro meio de evitar um desastre total.
Hitler
chega a Rastenburgo no dia 23, à uma hora da manhã. Zeitzler, que o
esperava devorado de impaciência, é avisado que o Fuhrer se encontrava
cansado da viagem e que só daria audiência ao meio-dia. Zeitzler
protesta, alega urgência, consegue fazer-se receber e, para sua grande
surpresa, encontra um homem sereno. Ao trabalhar com Jodl, em seu trem,
Hitler encontrara um meio de conjurar a crise de Stalingrado: chamar do
Cáucaso uma, talvez duas divisões blindadas, que reabrissem as
comunicações com o 6o Exército. Zeitzler retruca que
seriam necessários 15 dias para transportar uma divisão, e que o 6o
Exército, a essa altura, já estaria completamente esgotado. Mas quando
propõe a abertura imediata de uma brecha, Hitler pergunta-lhe com ar
ameaçador se tenciona abandonar Stalingrado. Ao obter resposta
afirmativa, bate com o punho na mesa e grita inúmeras vezes: “Nunca
deixarei o Volga! Nunca deixarei o Volga!”
Durante
o dia, as notícias pioram. A cabeça-de-ponte a oeste do Don é
penosamente mantida. Voltando à carga, Zeitzler abala Hitler e, às
duas horas da manhã, telefona a Von Sodenstern, chefe do estado-maior
do Grupo de Exército B, dizendo que o Fuhrer concorda em reconsiderar a
questão, e que dará a conhecer sua decisão às 8 horas. “Parece
fora de dúvida - acrescenta - que essa decisão consistirá na ordem de
abrir imediatamente passagem para sair. O 6o Exército pode
começar seus preparativos. “Por uma linha telefônica que os russos
cortarão um minuto depois, Sodenstern comunica a notícia ao PC de
Gumrak. Esta de espalha pelo bolsão, propiciando a sensação de
alívio que conhecem os emparedados ao receberem a primeira lufada de ar
puro.
Às
10 horas, nenhuma outra comunicação alcança o grupo de exércitos.
Inquieto, Sodenstern telefona para Rastenburgo, nada obtendo além de um
impaciente convite a ser paciente. Alguns minutos depois, o rádio de
escuta capta uma ordem direta de Hitler a Paulus. O 6o
Exército é convidado a organizar-se na seguinte frente: Stalingrado -
Norte, cota 137, Marinovka, Zybenko, Stalingrado - Sul. Isto desenha no
mapa uma espécie de ameba com cerca de 60 km de comprimento e 40 de
largura. A cabeça-de-ponte no Don, possível porta de evasão, deve ser
abandonada. O Fuhrer termina sua mensagem dizendo que o 6o
Exército pode contar com ele para um abastecimento satisfatório, assim
como para ser tirado do cerco a tempo...
Assim,
Hitler não pôde resignar-se a abandonar Stalingrado! Quando Zeitzler
se apresentou em sua residência, às 8 horas, o Fuhrer trazia nos
lábios uma nova expressão; Stalingrado é uma fortaleza. E o 6o
Exército é sua guarnição. Uma guarnição não abandona a fortaleza
que lhe é confiada. “Se for necessário, a guarnição de Stalingrado
sustentará o cerco durante todo o inverno e eu a libertarei com minha
ofensiva de primavera”. Quando Zeitzler tentou demonstrar que
Stalingrado nada tinha de fortaleza, Hitler recomeçou a agitar o punho
no ar. “Nunca deixarei o Volga!”. Primeira e última palavra a
ilustrar a servidão em que o chefe militar é mantido pelo condutor de
massas: o estrategista submisso ao demagogo. A 9 de novembro, em
Munique, Adolf Hitler pronunciara as seguintes palavras: “Aquilo que o
soldado alemão guarda, força alguma no mundo poderá arrancar-lhe”.
Como poderia ele aceitar um desmentido tão rápido?
Zeitzler
encolerizou-se, e exclamou por sua vez: “Meu Fuhrer! Seria um crime
abandonar o 6o Exército! Isto significaria a morte ou a
captura de um quarto de milhão de valentes soldados. E mais ainda! A
perda de um grande exército quebraria a coluna vertebral da frente
oriental!”.
Ao
ouvir a palavra “crime” - verbrechen - Hitler estremeceu. Mas
conteve-se, chamou o SS de serviço e ordenou que introduzissem no
recinto o Marechal Keitel e o General Jodl. Declarou em tom compenetrado
que estava na iminência de tomar uma grave decisão, e que não
desejaria fazê-lo sem que seus melhores colaboradores lhe dessem a
conhecer sua opinião, com a mais completa liberdade: “Feldmarschall
Keitel?” “Meu Fuhrer, não abandone Stalingrado!”. Keitel falou
num tom de quem dita posição de sentido, com inflexões teatrais, os
olhos flamejantes. Jodl, ao contrário, pesou os prós e os contras, mas
acabou por concluir que, ao menos até nova ordem, era preciso
permanecer em Stalingrado.
Interrogado
por sua vez, Zeitzler manteve sua conclusão: abertura imediata de uma
brecha, e retirada. Hitler ouviu-o calmamente, e depois retrucou, com
polidez glacial: “O senhor está vendo, general, que não sou o único
a defender minha opinião. Ela é compartilhada por dois oficiais, ambos
mais graduados e mais experientes que o senhor. Atenha-se pois à
decisão que tomei. Ordeno que se defenda a fortaleza de Stalingrado”.
Uma
questão, todavia, condiciona tudo: a possibilidade de abastecer o 6o
Exército por meio de uma “ponte aérea”. Fizera-se isso, no inverno
anterior, pelo bolsão de Demiansk, mas este continha menos de 100.000
homens, e a fortaleza de Stalingrado abriga o triplo disso.
Interrogado,
o 6o Exército informou que, para satisfazer o mínimo de
suas necessidades, precisaria, por dia, de 750 toneladas de munições,
combustível, forragem, víveres (40 toneladas unicamente para o pão).
Interrogado, o chefe da aviação de transportes respondera que 350
toneladas representavam o máximo de suas possibilidades. Segundo a
tradição militar, considerara-se a primeira cifra uma superestimação
sistemática, e a segunda uma subestimação prudente. Goering, o eterno
ausente, encontrava-se em Paris, que, decididamente, ele considerava uma
estância mais refinada que Rastenburgo. Consultado por telefone,
declarou que a verdade estava na medida áurea, in dem goldenen
Mittelweg. Sua Luftwaffe disporia de meios para depositar 500 toneladas
por dia na fortaleza de Stalingrado. Poderia, assim, responder pelas
necessidades primordiais do 6o Exército. Seu chefe de
estado-maior, Jeschonnek, veio assegurar isso a Hitler, omitindo uma
comunicação de Von Richthofen, em que este pedia que fosse levada ao
conhecimento de Hitler sua opinião sobre a impossibilidade da “ponte
aérea”.
Para
os sitiados, a decisão de Hitler fora um golpe terrível. A palavra “fortaleza”
poderia iludir um público ignorante. Stalingrado encontrava-se
inteiramente em ruínas. As poucas localidades do perímetro cercado
haviam sido queimadas até o chão. A estepe achava-se rigorosamente
nua. Na frente norte, alguns trabalhos para organizar o terreno haviam
sido executados durante o verão, mas as frentes oeste e sul não tinham
uma só vala a demarcá-las. Não era mais possível cavar o solo
enregelado. Não havia madeira alguma para a construção de abrigos. Os
soldados teriam apenas a lona de suas tendas como proteção contra o
fogo inimigo e as tempestades de neve, de 40 graus negativos. A primeira
reação dos generais é de revolta. O comandante do 4o
Corpo, Jaennicke, exclama, dirigindo-se a Paulus: “Reichenau não
obedeceria!”. Paulus abaixa a cabeça: “Ich bin kein Reichenau” -
“Não sou um Reichenau”. E abafa os protestos de seus subordinados
com o argumento incontestável de que a um soldado só compete obedecer.
Um
único general não se resigna: Von Seydlitz Kurbach, comandante do 51o
Corpo. Estava tão convencido de que iria romper as linhas inimigas, que
fizera evacuar seus postos avançados e destruído todos os itens
supérfluos e intransportáveis, inclusive suas calças e capote
sobressalentes. Ele escreve uma nota a Paulus exigindo que este a
transmita aos escalões superiores. Ainda que 500 aviões transportassem
1.000 toneladas por dia, sustenta ele, as necessidades do 6o
Exército não seriam atendidas. Urge aproveitar o breve instante em que
o inimigo ainda se encontra fraco ao sudoeste de Stalingrado, para
romper através de suas linhas em direção a Kotelnikovo. “Se o OKH
mantém a ordem de resistir in loco, o dever de consciência para com o
Exército e o povo alemão exige imperiosamente que o senhor tome nas
mãos a iniciativa de evitar uma grande catástrofe, o aniquilamento de
200.000 combatentes e a perda de seu material. Não há escolha
possível!”.
O
nome Seydlitz figura entre os mais altos expoentes da história militar
da Prússia. O Seydlitz da guerra dos Sete Anos, amigo íntimo do grande
Frederico, é considerado como um dos melhores generais de cavalaria de
todos os tempos. As linhas citadas acima, o mais ousado desafio que um
oficial fez chegar a Hitler, constituem ao mesmo tempo uma sentença de
morte. Seydlitz fica à espera de que um avião venha buscá-lo, para
jogá-lo diante de um poste de execução. Von Weichs, porém,
intercepta o memorando, e o que chega a Seydlitz é apenas a ordem de
assumir o comando de toda a frente norte do bolsão. “Que pretende
fazer o senhor?” - pergunta-lhe Paulus. “Já que o senhor não
desobedece - diz ele -, só me resta obedecer”.
A
“ponte aérea” começa a funcionar. Uma centena de trimotores Junker
decola dos aeródromos de Tazinskaia e Morosovskaia, no ferrolho do Don
e, depois de percorrerem 200 km, pousam em Pitonik ou em Gumrak.
Retornam carregados de feridos. As perdas ocasionadas pelo inimigo não
são, a princípio, muito elevadas, porém as que resultam das más
condições atmosféricas e do desgaste do material revelam-se desde
logo extremamente pesadas. O rendimento cotidiano começa com cerca de
50 toneladas e só lentamente atinge uma centena. A Luftwaffe pede que
os sitiados tenham paciência, dizendo ser-lhe necessário algum tempo
para organizar-se.
Arrolam-se
no bolsão o 4o, o 8o, o 11o e o 51o
Corpos de Exército, e o 14o Corpo Blindado; as divisões de
infantaria números 44, 71, 76, 79, 94, 100, 113, 295, 297, 305, 371,
376, 384, 389; as divisões motorizadas números 3, 29 e 60; as
divisões blindadas números 14, 16 e 24; o 8o Corpo de DCA;
os regimentos de canhões de bombardeio 243 e 245; 12 batalhões de
engenharia militar; e mais 149 formações independentes, que vão da
artilharia pesada ao correio militar; e, finalmente, duas divisões
romenas e um regimento croata. Um grande, possante e denodado
exército...
À
tardinha do dia 21, em Vitebsk, Manstein recebe a ordem para assumir o
comando do Grupo de Exércitos do Don. O despacho que determina sua
missão revela a que distância da realidade se encontra o Alto-Comando,
e também a decadência a que chegara o pensamento militar alemão.
Manstein deve “sustar a ofensiva inimiga e restaurar as antigas
posições exatamente da mesma maneira”. O general “Fechar a Brecha
e Retomar”, Gamelin, tornara-se mestre de seu vencedor.
Fonte: http://adluna.sites.uol.com.br/
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