Novembro de 1942 a fevereiro de 1943

Dramática Stalingrado

 

Paroxismo   

Já é hora de voltarmos à estepe russa. A tragédia que aí se desenrola eqüivale em intensidade dramática à do inverno de 1941, em frente a Moscou, e ultrapassa-o em alcance histórico.  

De Voronej ao Cáucaso, a extensão e distorção das linhas alemães atingiram um grau espantoso. O Grupo de Exércitos Sul começara sua campanha de verão numa frente de 800 km. Fracionara-se em dois, A e B, cujas frentes, somadas, representavam nada menos de 2.600 km. A ligação dos combatentes com as bases que os abastecem resume-se em estradas que a mais leve chuva torna intransitáveis e em ferrovias, geralmente de linha única, cujos trilhos estão colocados no chão sem qualquer escora de cascalho ou pedras. A circulação do material rodante, extremamente lenta, é ainda agravada pelos atentados dos partisans, que atingem a média de 700 por mês, sendo que repressão alguma consegue diminuir seu índice de crescimento.

O objetivo da ofensiva era a conquista da Transcaucásia. Essa tarefa cabia ao Grupo A, comandado pelo Marechal-de-Campo Von Kleist. O Grupo B, confiado sucessivamente ao Marechal Von Bock e ao General Von Weichs, tinha apenas uma missão de cobertura, contudo grandiosa. Deveria prolongar a barreira do Don, aferrolhando o istmo de 60 km que separa o Don do Volga, e aproximar-se paulatinamente do curso deste último, que acompanharia até Astracã. No final da campanha, isto é, antes da chegada do inverno, as posições alemães ao sul da URSS deveriam ser limitadas pelo litoral do mar Negro, a depressão transcaucásica de Batum e Bacu através de Tíflis, o litoral do mar Cáspio e, finalmente, o Volga e o Don.

 

Seria absurda essa ambição? Sim e não.

Não: o plano de Hitler daria à Alemanha o petróleo do Cáucaso. Eliminaria os russos do mar Negro, fazendo desaparecer a ameaça de contra-ofensiva na direção da Criméia, da Ucrânia e da Romênia. O Volga tonar-se-ia o extenso e sólido pilar do edifício alemão na Rússia. O prosseguimento da campanha acarretaria operações num perímetro de 4.200 km, mas a vitória permitiria reduzir a frente efetiva em cerca de 1.000 km, da foz do Volga ao curso médio do Don. Era essa, na verdade, a única possibilidade de vitória, já que desaparecera a esperança do pronto e total aniquilamento do Exército Vermelho.

O absurdo flagrante e fatal residia na desproporção entre fim e meios. Para realizar o plano de Hitler, os exércitos alemães deveriam dispor de efetivo duplo, tríplice mobilidade e aviação quádrupla. As tropas deveriam estar repousadas e reintegradas. Vinham combatendo sem tréguas desde o início da guerra com a Rússia, e as perdas sofridas não haviam sido reparadas quer em pessoal quer em material. Muito raramente o efetivo das companhias ultrapassava 60 homens, e os das Panzerdivisionen, 80 tanques. Hitler, que jamais ia ao front, e nunca permitira que seus colaboradores próximos lá fossem, não tinha a menor idéia concreta do desgaste que seus exércitos acusavam em meio das vitórias obtidas. Caso o conhecesse, ter-lhe-ia sido impossível sacar, de uma Alemanha insuficientemente preparada para o impasse de uma guerra mundial, os recursos que agissem como paliativos nessa instância.

À inquietação que se elevaria em torno dele, o Fuhrer respondia apoiando-se no argumento de que os exércitos soviéticos estavam a um passo do fim. Acolhia calorosamente todos os indícios comprovadores do esgotamento do inimigo, e repelia com furor toda prova em contrário. A audácia dessa estratégia justificava-se, sustentava Hitler, pela proximidade do último quarto de hora. Toda guerra é ganha com restos; diante dos destroços russos, as sobras dos alemães conservavam o poder da decisão.

Passara-se o verão. Passa-se o outono. Tórrido ainda ontem, o vento da estepe volta a ser glacial. A neve cai na montanha e surge na planície. Os chefes dos corpos de tropas redigem relatório sobre relatório, pedindo o aceleramento do envio de equipamentos de inverno. Segundo o calendário do Alto-Comando, os objetivos de 1942 deveriam estar atingidos. Em que medida o são, ou ainda podem sê-lo, antes que de fato se instaure o verdadeiro inverno?

Batum, junto ao mar Negro, deveria ser tomada; faltam ainda 500 km para isso. Nenhum progresso importante, foi realizado após a tomada de Novorossisk, e, no interior, a escalada do Elbruz (5.800 m) parece ter marcado com uma proeza esportiva o limite do esforço alemão. O Subgrupo do Exército Ruoff, composto do 17o Exército alemão e do 3o Exército romeno, combate em sublimes paisagens; florestas virgens, gargantas selvagens, esporões rochosos, de onde se descortina a verdejante planície costeira e a grande mancha escura do mar. Fracassaram, porém, todas as tentativas para descer até essa costa.

No Cáucaso central, Tíflis já deveria ser alemão. Não o é nem ao menos seu vestíbulo, Ordjonikidze. O 1o Exército Blindado reuniu no cotovelo do Terek todas as forças que pôde sacar de seus 700 km de frente, a 13a Divisão Panzer tentou subir de novo as gargantas que introduzem diretamente à estrada militar da Ossetia: as dificuldades do terreno, a penúria de gasolina e a resistência russa conjugaram-se para detê-la. Mais a leste, a Divisão Viking, formada por voluntários nórdicos, tentou apoderar-se da importante zona petrolífera de Grozny. Foi feita uma cabeça-de-ponte sobre o Terek, ao preço de sobre-humanos esforços, mas faltava inteiramente o reforço necessário para tirar partido desta vantagem. A 12 de novembro, em meio duma tempestade glacial, os Vikings tornaram a cruzar o rio. Em parte alguma a Wehrmacht irá mais longe do que isso.

O objetivo real da campanha era Bacu. Nenhum soldado alemão dela se aproximará, a não ser num raio de 600 km. “Se não tomo o petróleo de Bacu - dissera Hitler -, ver-me-ei obrigado a acabar com a guerra”.

Entre o Terek e o baixo Volga, na estepe calmuque, uma única divisão, a 16a Motorizada, atravessou o vazio de 400 km existente entre os grupos de Exércitos A e B. Os próprios russos, na verdade, não conseguem saturar tão enormes espaços. A 16a Motorizada toma Elista, capital dos nômades, e uma patrulha, conduzida por um certo Oberleutnant Gottlieb, avança até a 25 km de Astracã. Corta a linha férrea de Bacu, incendeia um trem de petróleo e volta sem ter visto um único soldado inimigo. Um vazio praticamente total se estende entre os exércitos que combatem no Cáucaso e os que se comprimem no Volga.

Ao norte de Elista, o 4o Exército romeno, composto de dois débeis corpos, esboça uma frente ofensiva, formando ao longo de uma cadeia de lagos, comprovantes de um antigo curso do Volga. À sua esquerda, o 4o Exército Blindado, do General Hoth, alcança o grande rio perto do cotovelo que este desenha, para deixar a direção do mar Negro e tomar a do Cáspio. Até 16 de setembro, essa força participara da luta por Stalingrado, e depois cedera parte de suas unidades ao 6o Exército, encarregado de concluir a conquista da cidade. Reduzido ao 4o Corpo e à 29a Divisão Motorizada, o 4o Exército Blindado se encontrava em condições de apoderar-se das alturas de Krasno-Armensjk, de onde os russos dominavam suas linhas.

Entramos no setor do 6o Exército, nos limites de Stalingrado. O oficial que o comanda, General Friedrich Paulus, é o mais recente dos grandes chefes alemães. Com apenas 52 anos de idade, ex-general-intendente, ex-chefe do Estado-Maior do Marechal Reichenau, ele fora chamado, não sem despertar ciúmes, para ficar à frente de uma das principais peças do tabuleiro do xadrez militar.

Hitler, entretanto, tem os olhos sobre ele para outro papel, menos invejável: pretende, quando Paulus conquistar Stalingrado, confiar-lhe as funções de Jodl, promovendo-o a seu estrategista particular.

O favor político não influi na brilhante promoção de Paulus. Oriundo de um meio de modestos funcionários, elevado socialmente por sua aliança com uma boa família romena, ele é neutro em política, como é morno de personalidade. A obediência é o principal esteio do Exército, mas a desobediência leva regularmente à glória os grandes chefes. Paulus é incapaz de desobedecer.

A incumbência que lhe fora confiada para a campanha de 1942 torna-se cada vez mais pesada. As operações do 6o Exército só haviam sido inicialmente previstas para o ferrolho do Don, permanecendo Stalingrado como objetivo suplementar, antes uma presa do que uma meta. Depois, o que era acessório revestiu-se da maior importância. Hitler começara por declarar que não exigia a ocupação da cidade, contentando-se com a destruição de seu potencial industrial. Vê agora, pela feroz batalha que ele provoca, o impasse capital e decisivo da luta contra a Rússia.

O cerco teve início a 2 de setembro, pela junção, nas colinas que dominam a cidade, do 6o Exército e do 4o Exército Blindado. A causa parece perdida para os russos. Todas as comunicações terrestres de Stalingrado são cortadas, e o abastecimento da guarnição só é realizável pelo Volga. O General Lopatine, comandante do 62o Exército, considera a cidade indefensável, e solicita autorização para tornar a cruzar o rio. Voltando, porém, ao sistema de defesa elástica adotado no início do verão, Stalin acaba de proclamar que a Rússia não pode mais ceder território algum. O comandante do grupo de exércitos, Eremenko, e seu novo comissário político, Kruschev, substituem Lopatine pelo General Tchuikov, recém-chegado do Extremo Oriente. Suas ordens resumem-se a uma frase: conservar Stalingrado, ou morrer.

Stalingrado é um cais do Volga. Vira as costas à estepe e contrai-se ao longo da enorme massa líquida. As margens escarpadas interrompem-se por um declive abrupto, o que complica as relações da aglomeração e do rio, fornecendo contudo um ângulo morto às armas de longo alcance. Os barrancos erodidos, os balkas da estepe, prolongam-se pela cidade por uma série de depressões, sendo a mais profunda ocupada pelo rio, que conservara o nome de Tzaritza, quando a Tzaritzina se tornara Stalingrado. A cidade velha fica ao sul. A cidade central, cujo coração é a Praça Vermelha, desce por vários lances de escada da colina Mamai ao desembarcadouro do ferry, que substitui as pontes ausentes. Desenvolve-se em direção ao norte a faixa das pequenas cidades industriais. A fábrica de produtos químicos Lazur ocupa o centro de um entroncamento ferroviário nitidamente visível em fotografias aéreas, provindo daí seu apelido, Raquete de Tênis. Vem a seguir a Usina Siderúrgica Outubro Vermelho, a fundição de canhões Barricada e a fábrica de tratores Djerjinski. Os subúrbios de Spartokovska e de Rynok prolongam Stalingrado até a vasta superfície líquida a partir da qual a extensa sangria do Achtuba começa a desmembrar o Volga. O comprimento total dessa cadeia urbana e industrial ultrapassa 50 km. A largura raramente excede 3.000 passos.

A cidade velha caiu primeiro. A conquista do grande silo pela 29a Divisão Motorizada foi o primeiro dos combates fantásticos que dão um caráter único à batalha de Stalingrado. As detonações, a ressoar na enorme carapaça de concreto, arrebentavam os tímpanos, quais elásticos esticados em demasia. O edifício ainda estava cheio de trigo: russos e alemães matavam-se em meio a uma dourada cascata. Os alemães levaram vantagem. No meio de outubro, haviam conquistado, no setor sul, 10 km de margem, de Kuperovskie ao pé das escadas da Praça Vermelha. No setor norte, ocuparam uma ala eqüivalente, de uma ponta a outra de Rynok.

Se os russos fossem razoáveis, teriam desistido. Só conservavam, de Stalingrado, uma parte dos bairros industriais do Norte, como também, na cidade central, o sopé da escarpadura: uma faixa de algumas dezenas de metros de largura, finalizando em bisel à entrada do desembarcadouro. A batalha, contudo, revestira-se de caráter irracional. Não mais punha em choque dois comandos sensíveis à lógica militar, e sim jogava, um contra o outro, dois incontroláveis fanatismos. Do lado alemão, o absurdo era ainda mais flagrante.

Quando se constatou, em outubro, que o Grupo de Exércitos A perdera qualquer possibilidade de conquistar em 1942 o petróleo do Cáucaso, a ponta de Stalingrado ficou destituída de interesse estratégico. Sua última justificativa econômica, a intercepção do tráfego do Volga, encontrava-se às vésperas de desaparecer, pois o congelamento do rio deveria interromper a navegação muito mais efetivamente do que a presença dos soldados de Paulus em Rynok e a dos de Hoth em Kuperovskoie. A principal tarefa do Comando alemão constituiria, daí em diante, em receber o segundo inverno russo em melhores condições do que o primeiro, encurtando e consolidando uma desmesurada frente. O avanço em direção a Tíflis e a punção até o Volga encabeçavam os sacrifícios a serem admitidos.

Hitler, porém, desligara-se da realidade, e os que tentavam fazê-lo voltar a ela pagavam caro por isso.

No começo de setembro, um general fora massacrado por sustentar a necessidade da limitação da marcha para a frente, e um outro caíra em desprestígio por havê-lo defendido. O primeiro era o Marechal-de-Campo List; o segundo, o General Jodl. Ao voltar de uma missão ao QG do Grupo de Exércitos A, Jodl ousara lançar ao rosto de Hitler que as faltas reprovadas a List eram conseqüência das ordens que o próprio Fuhrer dera. Este deixou o recinto lívido, como se fosse desmaiar, vagueou durante horas pelos bosques de Vinnitsa, e fechando-se de vez num círculo de solidão, deixou para sempre de fazer as refeições à mesa de seus oficiais. Destituído de seu comando, List desaparece da história das hostilidades.

No fim de setembro, Halder, por sua vez, desaparece. Mantivera-se no posto de chefe do Estado-Maior Geral do Exército desde a crise de Munique. Mas seu espírito crítico, seu discurso, seus protestos, advertências, somadas a seu catolicismo, indispunham-no junto a um ditador que se deixava proclamar por seus cortesão como “o maior gênio de todos os tempos”. A taça transbordou em 24 de setembro. “Tanto os seus nervos como os meus - disse Hitler - estão esgotados. Não é de um mestre-escola, mas de um homem imbuído do fanatismo nacional-socialista, que necessito para conduzir minha guerra na Rússia..”

Kurt Zeitzler, que substituiu Halder, não passa de um simples general-major - No Exército alemão, as patentes de general obedecem à seguinte hierarquia: general-major (sem estrelas); general-tenente (1 estrela); general-capitão (2 estrelas); general-coronel (3 estrelas).  Seu OKH tem por única atribuição a frente oriental, ficando os palcos de operações colocados diretamente sob a autoridade do OKW, isto é, Keitel. Na realidade, tudo se torna confuso sob a onipotência caprichosa e verborrágica de Adolf Hitler. Depois do rompante contra Jodl, estenógrafos registram todas as conferências com caráter de relatório Lagebesprechungen feitas em seu QG. Delegarão assim à história um lenga lenga fantástico, onde se vê Hitler passar das mais sublimes considerações a pormenores sem importância, mostrando-se a cavaleiro do mundo, para, no minuto seguinte, deslocar uma companhia, sem contudo sentir-se tentado uma só vez a ir ao front, ou de roçar-se em outros Feldgrauen que não são os heróis condecorados, enluvados e desinfetados que faz trazer à sua presença de vez em quando.

Em vez de renunciar a Stalingrado, o Exército alemão encarniça-se em mantê-la. Todos os batalhões de engenharia militar são trazidos em aviões e formados em grupos de assalto para abrir caminho à infantaria nos grandes bastiões industriais. Os combates desenrolam-se no meio da confusão da maquinaria quebrada das fábricas, de pontes rolantes tombadas, de estruturas espatifadas de edifícios. Os alemães sabem que nada lhes será cedido, e que até a última pedra de Stalingrado deverá ser regada com seu sangue.

A 9 de novembro, na 19a celebração do Putsch de Munique, Hitler alardeia: “Eu quis atingir o Volga na própria cidade que leva o nome de Stalin. Tomamos essa cidade, exceção feita de duas ou três insignificantes ilhotas. Perguntam-me: “Por que não acaba mais depressa com ela?”. Respondo: Porque não quero saber de um segundo Verdun. Deixo a pequenos grupos de assalto o cuidado de ultimar a conquista de Stalingrado”.

Ao dizer que Stalingrado se encontrava inteiramente conquistada, o Fuhrer em nada falseara a verdade. Os russos conservavam o desembarcadouro, agarravam-se à Raquete de Tênis e detinham uma parte da Usina Outubro Vermelho, assim como as saídas orientais das fábricas Barricada e Djerjinski. Tudo mais, correspondendo a nove décimos de Stalingrado, 50 km de ruínas, estava nas mãos do inimigo. Todos os imóveis de madeira, queimadas, ficando apenas os vestígios de milhares de chaminés enegrecidas. Não podendo transpor o Volga, a população fugira para a estepe desprovida de recursos, e milhares de inocentes morreram de fome.

Mas Hitler subestima sua platéia ao fazer crer que os combates de Stalingrado se resumem agora à tarefa de uns poucos varredores de destroços. A totalidade do 51o Corpo, repartido em oito divisões, está empenhada na batalha das ruas. Os melhores elementos do grupo de exércitos são por ela sorvidos. Ao invés de perder tempo em diletantismos, o Fuhrer apressa-se em terminar a operação. A 17 de novembro, de Berchtesgaden, para onde fora após o desembarque anglo-americano na África do Norte, ele se dirige a todos os coronéis que ocupam postos de comando em Stalingrado. “Conheço as dificuldades de sua tarefa. As que os russos enfrentam não são menores, e os gelos flutuantes irão aumentá-la. Conto com sua energia para tirar proveito dessa circunstância favorável, e conquistar definitivamente a fábrica de canhões e a siderúrgica”.

Os regimentos alemães correspondem a esse apelo. A 19 de novembro, Djerjinski e Barricada encontram-se inteiramente em seu poder. São conquistadas várias centenas de metros do rio. Os gelos que flutuam no Volga efetivamente interrompem o abastecimento dos defensores. Tchuikov dá a conhecer que está à míngua de munição, de víveres, de sangue...

O cerco aproxima-se do fim. E é então que chega ao comandante do 6o Exército uma ordem completamente inesperada: suspender todos os ataques na frente de Stalingrado...

 

O flanco de vidro do aríete

O exército de Paulus não combate apenas em Stalingrado. Dobrando-se, qual braço protetor, barra o istmo que separa o Volga do Don. Transpõe este último e, rodeando o ferrolho de Kremenskaia, em poder dos russos, estende-se até Kletskaia. Dois corpos de exércitos, o 8o e o 11o, guardam essa frente defensiva.

Além de Kletskaia, até a vizinhança de Voronej, estendem-se os setores mantidos pelos aliados da Alemanha: romenos, italianos e húngaros.

Os três exércitos eqüivalem-se em fraqueza. Uma testemunha italiana, que vira passar em Viena seus compatriotas a caminho da Rússia, assim registrou suas impressões: “Nossos soldados não tem boa aparência. Estão sujos, mal equipados e principalmente mal enquadrados e muito mal armados. Caso venham realmente a combater contra o Exército russo, encontrar-se-ão logo em má situação. Nosso coração está apertado por causa deles”. A motorização dos três exércitos é, a bem dizer, nula. Equipamento, vestuário, transmissores, material óptico, etc, são de última categoria. A artilharia é antiquada. A defesa antitanque não dispõe de canhão superior ao canhão 37 hipomóvel. O moral é incerto. Como os contingentes estrangeiros no Grande Exército, os soldados tem consciência de que essa guerra não é deles, e não podem deixar de ressentir-se da inferioridade material e moral com que combatem.

Numericamente, a contribuição húngaro-ítalo-romena à guerra de Hitler é considerável. O 2o Exército húngaro, mais próximo à Voronej, conta com três corpos, e o 4o Exército romeno, mais próximo à Stalingrado, com quatro - somando-se aos dois corpos do 3o Exército alinhados na estepe e às sete divisões que combatem ao lado do 17o Exército alemão. Como húngaros e romenos são inimigos hereditários, foi preciso intercalar entre eles o 8o Exército italiano, com quatro corpos, entre os quais o corpo alpino. Trinta e duas divisões, 24 das quais dispostas ao longo do Don, perfazem assim a ordem de batalha da Wehrmacht. Mas ainda se estará fazendo uma estimativa generosa reduzindo-lhes o número de dois terços, ao avaliar seu poder combativo pelos padrões alemães.

Os generais alemães sempre pediram para que esses débeis auxiliares fossem “cintados”, isto é, diluídos nas tropas alemães. Mas considerações de alta política opuseram-se a isso. Os governos satélites queriam exércitos constituídos, sob o comando de nacionais. Devido a seu fraco valor ofensivo, foram confiadas frentes passivas a esses exércitos. É esse motivo pelo qual a proteção dos dois flancos da ofensiva dirigida a Stalingrado se encontra quase exclusivamente confiada aos seus aliados.

Sobre a gênese da contra-ofensiva - sobre a preparação de uma das mais belas vitórias da história russa - as fontes soviéticas são, mais uma vez, profundamente decepcionantes. A história da guerra mundial editada pelo General Platonov diz que os planos começaram a ser elaborados no mês de setembro, resumindo-os de maneira bastante clara. A narrativa, entretanto, reveste-se de extremo laconismo. São omitidas as condições em que foi armada a manobra magistral, assim como as discussões a que deu lugar. Temos de nos contentar com esse estilo convencional e declamatório, com essa verdade oficial que sucede a uma verdade oficial totalmente diversa. Até 1953, o único vitorioso de Stalingrado era Stalin. De 1956 em diante, Stalin morre para a história: seu nome nem ao menos figura no texto de Platonov.

Três frentes, ou grupos de exércitos, cercavam a eminência de Stalingrado: Frente Sudoeste, comandada por Vatutin; Frente do Don, comandada por Rokossovski; Frente de Stalingrado, comandada por Eremenko. A manobra consistiu em atacar simultaneamente ao norte e ao sul, para trancar o ferrolho do Don; uma concepção mais ampla, que teria selado o destino de toda a direita alemã, consistiria em visar diretamente Rostov, ou mesmo Stalino, nó vital das comunicações inimigas. Ignoramos se foi considerada.

“A estepe - diz Platonov - não favorecia a concentração soviética, que conseguimos, contudo, camuflar. Todos os movimentos foram feitos à noite. Ao primeiro clarão da aurora, as tropas se detinham, dissimulando-se nas aldeias ou colando-se ao chão dos balkas. Nossa ofensiva foi uma surpresa total para o Comando inimigo”.

Platonov engana-se. O ataque era esperado. A fragilidade do flanco defensivo consistia há muito tempo uma fonte de inquietações. Hitler assinalara, desde agosto, a fraqueza da linha do Don, ao lembrar que o exército dos russos brancos fora batido em 1920, quando atacava Tzaritzina, por uma ofensiva procedente do rio. Movimentos nas retaguardas e concentrações de tropas nas perigosas cabeças-de-ponte haviam sido assinaladas inúmeras vezes. Nos estados-maiores, discutia-se apenas um problema: recairia o golpe sobre húngaros, italianos ou romenos? “Eu dormiria melhor se o Don estivesse guardado por alemães” - dizia Hitler.

A 7 de novembro, na conferência do Fuhrer, o novo chefe do Estado-Maior, Zeitzler, comunicou uma informação do serviço de espionagem, revelando que uma grande ofensiva soviética sobre o Don fora decidida pelo Kremlin quatro dias antes. A única reserva mecanizada, o 48o Corpo Blindado, que se encontrava atrás do 8o Exército italiano, recebeu ordens para vir colocar-se atrás do 3o Exército romeno. Comandado pelo General Von Heim, o corpo de exército compunha-se da 22a Panzer e da 1a Divisão Blindada romena. Esta, de formação recente, possuía apenas cerca de 40 veículos tchecos, fracamente armados de um canhão de 37 mm. A 22a, por sua vez, estava longe de encontrar-se em condições mais satisfatórias. Seu regimento de tanques fora cortado em dois, para formar o núcleo da 27a Divisão Panzer, e a maior parte das armas que recebera em substituição consistia em PzKw 2 e 3, sem condições para medir-se com o T-34. Além disso, uma cômica surpresa aguardava Von Heim. Como não fora abastecido de gasolina, havia deixado os tanques da 22a camuflados sob a palha. Quando os descobriram, constatou-se que os ratos, que infestavam a palha, tinham devorado os revestimentos de guta-percha (espécie de látex) e inutilizado a aparelhagem elétrica. Dos 104 tanques da divisão, apenas 60 se puseram em marcha para cobrir o percurso de 250 km, por uma estrada coberta de gelo. Apenas 32 chegaram ao novo estacionamento; nos dias seguintes, outros 12 vieram juntar-se a eles. A 19 de novembro, o 48o Corpo Blindado, única força de contra-ataque do ferrolho do Don, constituía-se de um punhado de tanques romenos desemparelhados e de 44 tanques alemães, dos quais 31 leves.

A noite de 18 para 19 era fantasmagórica. O nevoeiro, segundo as testemunhas, era “um leite”. À meia-noite, a neve começou a cair. Às 4 horas, a artilharia russa iniciou um pesado bombardeio, concentrado em dois limitados setores: as cabeças-de-ponte de Serafimovitch e Kremskaia. Às 8 horas, surgiram os tanques, trazendo pencas de soldados de infantaria agarrado às superestruturas. O ataque do oeste, com o 5o Exército Blindado, abateu-se sobre o 2o Corpo romeno. O ataque, do leste,  com o 3o Exército de Choque, caiu, sobre o 4o Corpo romeno. Os romenos estavam longe de ser os mais medíocres aliados dos alemães. Muitas de suas unidades eram aguerridas; alguns de seus generais, excelentes; os soldados eram muito resistentes, mais acostumados ao clima, com melhor preparação ideológica para uma guerra contra a URSS do que os húngaros e, principalmente, os italianos. Nem por isso a derrota foi menos fragorosa. A irrupção dos tanques russos produziu o mesmo efeito que a dos tanques alemães em Sedan. A debandada propagou-se cava vez mais, empolgando unidades que nem ao menos se viam atacadas. Entre as duas investidas, um grupamento comandado pelo General Lascar escorou-se no Don e defendeu-se com bravura, mas, de modo geral, o 3o Exército romeno se desagregou. Pelas estradas cobertas de neve, massas de homens chicoteados pela intempérie fugiam às cegas. A única saída consistia num contra-ataque. As perdas e a dispersão, contudo, haviam enfraquecido a Wehrmacht numa extensão difícil de ser concebida. Uma intervenção espontânea da 14a Panzer, à esquerda do Exército de Paulus, conseguiu liberar o 11o Corpo alemão, mas o 48o Corpo Blindado, sacudido por ordens contraditórias, turbilhonou a esmo pelo campo de batalha enregelado, submergindo em hordas de fugitivos e chocando-se em toda parte contra forças superiores. Para não ser envolvido, terminou por fugir. Von Heim, que tivera metade dos seus carros blindados inutilizados pelos ratos, foi apontado como responsável pelo desastre e permaneceu encarcerado na prisão militar de Moabit até 1945.

A 20 de novembro, enquanto Vatutin e Rokossovski galopavam a oeste do Don, Eremenko, por sua vez, atacava ao sul de Stalingrado. O 4o Corpo alemão susteve o choque, mas o 4o Exército romeno desintegrou-se, como fizera na véspera o 3o . O 51o Exército soviético correu em direção a Kalatch, principal passagem do Don, gargalo vital das comunicações de Paulus. Quando a atingiu, no dia 22, a ponte já fora tomada pelos soldados de Rokossovski. O grupo de DCA que a guardava e a bateria de 155 que lhe dava cobertura estavam tão longe de esperar uma penetração russa, que tomaram os T-34 que se aproximavam do Don pelos tanques, capturados do inimigo, que a companhia de instrução de Kalatch utilizava. Alguns minutos depois a ponte, intacta, encontrava-se em poder dos russos. O 6o Exército estava cercado!

O próprio Paulus quase fora aprisionado. Encontrava-se sem eu PC de Globulinskaia, 15 km ao norte de Kalatch, na margem ocidental do Don, quando, às 14 horas, surgiram os russos. O Estado-Maior escapou pelo Don enregelado, abandonando o material da companhia e utensílios de cozinha. Paulus e seu chefe de estado-maior, General Arthur Schmidt, levantaram vôo em dois Fieseler-Storch e foram pousar no QG de inverno do exército, em Nijni-Tchirkaia, na confluência do Don e do Tchir, isto é, fora do bolsão demarcado pelo inimigo. Poucas reviravoltas da sorte foram tão brutais. Na antevéspera, Paulus podia considerar uma questão de horas a tomada de Stalingrado, vitória que iria ilustrar seu nome. Na véspera, recebera do comandante do grupo de exércitos, General Von Weichs, a inesperada ordem de reenviar suas unidades móveis e direção ao oeste. Pela manhã, procurava compreender o que teria tão repentinamente acontecido ao exército vizinho. Ao meio-dia, sem ter sido vencido, encontrava-se na ridícula situação de um general separado de seu exército, fugindo antes de qualquer soldado!

Ao escapar da armadilha, Paulus acreditou por um momento poder dirigir do exterior as operações de salvamento de seu exército. Um telegrama de Hitler chamou-o a uma concepção draconiana do dever: “O Oberbefehlschaber (Generalíssimo) do 6o Exército voltará a Stalingrado. O Exército se organizará em uma frente fechada e esperará novas ordens”. A situação era das que pedem reações imediatas, iniciativas ousadas. As primeiras instruções de Hitler - ditadas de Berchtesgaden - impunham espera e imobilidade.

Pronto a voar para Stalingrado, Paulus vê aparecer um companheiro de infortúnio, Hoth, comandante do 4o Exército Blindado. Ele perdera tudo; tanto suas unidades alemães, cercadas no bolsão de Stalingrado, como as romenas, dispersadas pela estepe. Os adeuses são rígidos, embora carregados de emoção entre os dois chefes: um representa um exército aniquilado, o outro vai juntar-se a um exército condenado. Em seguida, o pequeno avião de Paulus voa baixo, sobre a planície branca, e pousa perto da estação de Gumrak, a 15 km de Stalingrado, onde já funciona o novo PC do exército.

Paulus é um exemplar oficial de estado-maior: rapidez de análise, facilidade de exposição. A partir das 16 horas, dirige ao OKH um lúcido resumo da situação. O 6o Exército, cercado, conserva uma cabeça-de-ponte a oeste do Don, mas tem o flanco sul a descoberto; falta-lhe combustível e só dispõe de víveres para seis dias.

Ainda que a exposição seja clara, as conclusões carecem de firmeza. Paulus hesita. Trava-se uma discussão em Nijni-Tchirkaia. Por-se em ferrenha defensiva, como deseja Hitler, implica num abastecimento aéreo até o momento do cerco ser rompido pela intervenção de um novo exército. O comandante da 4a Luftflotte, Wolfram Von Richthofen, foi categórico: manutenção, por via aérea, de 200.000 a 300.000 homens, empenhados em duros combates, ultrapassa a capacidade da aviação de transporte. O general de DCA Martin Fiebig opinara no mesmo sentido, ao dizer a Paulus que só lhe restava uma coisa a fazer: retirar seu exército da armadilha, sem perda de uma única hora. Mas o chefe de estado-maior Schmidt mantivera parecer oposto: uma retirada, dissera ele, seria “napoleônica”, exigindo o abandono de enorme material e 15.000 feridos. Indeciso, Paulus limitara-se a pedir ao Fuhrer liberdade de ação, e licença para abandonar Stalingrado “caso o 6o Exército não conseguisse fechar seu flanco sul”.

Vinte e quatro horas depois, as idéias de Paulus evoluíram. A situação lha parece sob uma luz mais sombria, e a nova mensagem que endereça ao Fuhrer propõe a abertura imediata de uma brecha, ao menos para salvar “preciosos combatentes”. Acrescenta - sob o risco de ser acusado de conjuração - que os comandantes dos cinco corpos de seu exército, Heitz, Von Seydlitz, Strecker, Hube e Jaennicke, compartilham de sua opinião.

Nesse meio-tempo, o comandante do grupo de exércitos, Von Weichs, falara mais energicamente ainda. O abastecimento aéreo de 20 divisões, notifica ele a Angerburgo, só poderá satisfazer um décimo das necessidades das mesmas. Cercado, o 6o Exército se vê condenado a perder em alguns dias a maior parte de seu valor combativo. Uma tentativa para abrir caminho acarretará a perda de considerável material, porém não há outro meio de evitar um desastre total.

Hitler chega a Rastenburgo no dia 23, à uma hora da manhã. Zeitzler, que o esperava devorado de impaciência, é avisado que o Fuhrer se encontrava cansado da viagem e que só daria audiência ao meio-dia. Zeitzler protesta, alega urgência, consegue fazer-se receber e, para sua grande surpresa, encontra um homem sereno. Ao trabalhar com Jodl, em seu trem, Hitler encontrara um meio de conjurar a crise de Stalingrado: chamar do Cáucaso uma, talvez duas divisões blindadas, que reabrissem as comunicações com o 6o Exército. Zeitzler retruca que seriam necessários 15 dias para transportar uma divisão, e que o 6o Exército, a essa altura, já estaria completamente esgotado. Mas quando propõe a abertura imediata de uma brecha, Hitler pergunta-lhe com ar ameaçador se tenciona abandonar Stalingrado. Ao obter resposta afirmativa, bate com o punho na mesa e grita inúmeras vezes: “Nunca deixarei o Volga! Nunca deixarei o Volga!”

Durante o dia, as notícias pioram. A cabeça-de-ponte a oeste do Don é penosamente mantida. Voltando à carga, Zeitzler abala Hitler e, às duas horas da manhã, telefona a Von Sodenstern, chefe do estado-maior do Grupo de Exército B, dizendo que o Fuhrer concorda em reconsiderar a questão, e que dará a conhecer sua decisão às 8 horas. “Parece fora de dúvida - acrescenta - que essa decisão consistirá na ordem de abrir imediatamente passagem para sair. O 6o Exército pode começar seus preparativos. “Por uma linha telefônica que os russos cortarão um minuto depois, Sodenstern comunica a notícia ao PC de Gumrak. Esta de espalha pelo bolsão, propiciando a sensação de alívio que conhecem os emparedados ao receberem a primeira lufada de ar puro.

Às 10 horas, nenhuma outra comunicação alcança o grupo de exércitos. Inquieto, Sodenstern telefona para Rastenburgo, nada obtendo além de um impaciente convite a ser paciente. Alguns minutos depois, o rádio de escuta capta uma ordem direta de Hitler a Paulus. O 6o Exército é convidado a organizar-se na seguinte frente: Stalingrado - Norte, cota 137, Marinovka, Zybenko, Stalingrado - Sul. Isto desenha no mapa uma espécie de ameba com cerca de 60 km de comprimento e 40 de largura. A cabeça-de-ponte no Don, possível porta de evasão, deve ser abandonada. O Fuhrer termina sua mensagem dizendo que o 6o Exército pode contar com ele para um abastecimento satisfatório, assim como para ser tirado do cerco a tempo...

Assim, Hitler não pôde resignar-se a abandonar Stalingrado! Quando Zeitzler se apresentou em sua residência, às 8 horas, o Fuhrer trazia nos lábios uma nova expressão; Stalingrado é uma fortaleza. E o 6o Exército é sua guarnição. Uma guarnição não abandona a fortaleza que lhe é confiada. “Se for necessário, a guarnição de Stalingrado sustentará o cerco durante todo o inverno e eu a libertarei com minha ofensiva de primavera”. Quando Zeitzler tentou demonstrar que Stalingrado nada tinha de fortaleza, Hitler recomeçou a agitar o punho no ar. “Nunca deixarei o Volga!”. Primeira e última palavra a ilustrar a servidão em que o chefe militar é mantido pelo condutor de massas: o estrategista submisso ao demagogo. A 9 de novembro, em Munique, Adolf Hitler pronunciara as seguintes palavras: “Aquilo que o soldado alemão guarda, força alguma no mundo poderá arrancar-lhe”. Como poderia ele aceitar um desmentido tão rápido?

Zeitzler encolerizou-se, e exclamou por sua vez: “Meu Fuhrer! Seria um crime abandonar o 6o Exército! Isto significaria a morte ou a captura de um quarto de milhão de valentes soldados. E mais ainda! A perda de um grande exército quebraria a coluna vertebral da frente oriental!”.

Ao ouvir a palavra “crime” - verbrechen - Hitler estremeceu. Mas conteve-se, chamou o SS de serviço e ordenou que introduzissem no recinto o Marechal Keitel e o General Jodl. Declarou em tom compenetrado que estava na iminência de tomar uma grave decisão, e que não desejaria fazê-lo sem que seus melhores colaboradores lhe dessem a conhecer sua opinião, com a mais completa liberdade: “Feldmarschall Keitel?” “Meu Fuhrer, não abandone Stalingrado!”. Keitel falou num tom de quem dita posição de sentido, com inflexões teatrais, os olhos flamejantes. Jodl, ao contrário, pesou os prós e os contras, mas acabou por concluir que, ao menos até nova ordem, era preciso permanecer em Stalingrado.

Interrogado por sua vez, Zeitzler manteve sua conclusão: abertura imediata de uma brecha, e retirada. Hitler ouviu-o calmamente, e depois retrucou, com polidez glacial: “O senhor está vendo, general, que não sou o único a defender minha opinião. Ela é compartilhada por dois oficiais, ambos mais graduados e mais experientes que o senhor. Atenha-se pois à decisão que tomei. Ordeno que se defenda a fortaleza de Stalingrado”.

Uma questão, todavia, condiciona tudo: a possibilidade de abastecer o 6o Exército por meio de uma “ponte aérea”. Fizera-se isso, no inverno anterior, pelo bolsão de Demiansk, mas este continha menos de 100.000 homens, e a fortaleza de Stalingrado abriga o triplo disso.

Interrogado, o 6o Exército informou que, para satisfazer o mínimo de suas necessidades, precisaria, por dia, de 750 toneladas de munições, combustível, forragem, víveres (40 toneladas unicamente para o pão). Interrogado, o chefe da aviação de transportes respondera que 350 toneladas representavam o máximo de suas possibilidades. Segundo a tradição militar, considerara-se a primeira cifra uma superestimação sistemática, e a segunda uma subestimação prudente. Goering, o eterno ausente, encontrava-se em Paris, que, decididamente, ele considerava uma estância mais refinada que Rastenburgo. Consultado por telefone, declarou que a verdade estava na medida áurea, in dem goldenen Mittelweg. Sua Luftwaffe disporia de meios para depositar 500 toneladas por dia na fortaleza de Stalingrado. Poderia, assim, responder pelas necessidades primordiais do 6o Exército. Seu chefe de estado-maior, Jeschonnek, veio assegurar isso a Hitler, omitindo uma comunicação de Von Richthofen, em que este pedia que fosse levada ao conhecimento de Hitler sua opinião sobre a impossibilidade da “ponte aérea”.

Para os sitiados, a decisão de Hitler fora um golpe terrível. A palavra “fortaleza” poderia iludir um público ignorante. Stalingrado encontrava-se inteiramente em ruínas. As poucas localidades do perímetro cercado haviam sido queimadas até o chão. A estepe achava-se rigorosamente nua. Na frente norte, alguns trabalhos para organizar o terreno haviam sido executados durante o verão, mas as frentes oeste e sul não tinham uma só vala a demarcá-las. Não era mais possível cavar o solo enregelado. Não havia madeira alguma para a construção de abrigos. Os soldados teriam apenas a lona de suas tendas como proteção contra o fogo inimigo e as tempestades de neve, de 40 graus negativos. A primeira reação dos generais é de revolta. O comandante do 4o Corpo, Jaennicke, exclama, dirigindo-se a Paulus: “Reichenau não obedeceria!”. Paulus abaixa a cabeça: “Ich bin kein Reichenau” - “Não sou um Reichenau”. E abafa os protestos de seus subordinados com o argumento incontestável de que a um soldado só compete obedecer.

Um único general não se resigna: Von Seydlitz Kurbach, comandante do 51o Corpo. Estava tão convencido de que iria romper as linhas inimigas, que fizera evacuar seus postos avançados e destruído todos os itens supérfluos e intransportáveis, inclusive suas calças e capote sobressalentes. Ele escreve uma nota a Paulus exigindo que este a transmita aos escalões superiores. Ainda que 500 aviões transportassem 1.000 toneladas por dia, sustenta ele, as necessidades do 6o Exército não seriam atendidas. Urge aproveitar o breve instante em que o inimigo ainda se encontra fraco ao sudoeste de Stalingrado, para romper através de suas linhas em direção a Kotelnikovo. “Se o OKH mantém a ordem de resistir in loco, o dever de consciência para com o Exército e o povo alemão exige imperiosamente que o senhor tome nas mãos a iniciativa de evitar uma grande catástrofe, o aniquilamento de 200.000 combatentes e a perda de seu material. Não há escolha possível!”.

O nome Seydlitz figura entre os mais altos expoentes da história militar da Prússia. O Seydlitz da guerra dos Sete Anos, amigo íntimo do grande Frederico, é considerado como um dos melhores generais de cavalaria de todos os tempos. As linhas citadas acima, o mais ousado desafio que um oficial fez chegar a Hitler, constituem ao mesmo tempo uma sentença de morte. Seydlitz fica à espera de que um avião venha buscá-lo, para jogá-lo diante de um poste de execução. Von Weichs, porém, intercepta o memorando, e o que chega a Seydlitz é apenas a ordem de assumir o comando de toda a frente norte do bolsão. “Que pretende fazer o senhor?” - pergunta-lhe Paulus. “Já que o senhor não desobedece - diz ele -, só me resta obedecer”.

A “ponte aérea” começa a funcionar. Uma centena de trimotores Junker decola dos aeródromos de Tazinskaia e Morosovskaia, no ferrolho do Don e, depois de percorrerem 200 km, pousam em Pitonik ou em Gumrak. Retornam carregados de feridos. As perdas ocasionadas pelo inimigo não são, a princípio, muito elevadas, porém as que resultam das más condições atmosféricas e do desgaste do material revelam-se desde logo extremamente pesadas. O rendimento cotidiano começa com cerca de 50 toneladas e só lentamente atinge uma centena. A Luftwaffe pede que os sitiados tenham paciência, dizendo ser-lhe necessário algum tempo para organizar-se.

Arrolam-se no bolsão o 4o, o 8o, o 11o e o 51o Corpos de Exército, e o 14o Corpo Blindado; as divisões de infantaria números 44, 71, 76, 79, 94, 100, 113, 295, 297, 305, 371, 376, 384, 389; as divisões motorizadas números 3, 29 e 60; as divisões blindadas números 14, 16 e 24; o 8o Corpo de DCA; os regimentos de canhões de bombardeio 243 e 245; 12 batalhões de engenharia militar; e mais 149 formações independentes, que vão da artilharia pesada ao correio militar; e, finalmente, duas divisões romenas e um regimento croata. Um grande, possante e denodado exército...

Manstein entra em cena

A fim de libertar o exército cativo, Hitler apela para seu mago militar, o estrategista que dispunha com ele a glória do plano Sedan, o artilheiro que esmagara Sebastopol, o idealizador das manobras que impediram o levantamento do cerco de Leningrado: Marechal-de-Campo Erich von Manstein.

À tardinha do dia 21, em Vitebsk, Manstein recebe a ordem para assumir o comando do Grupo de Exércitos do Don. O despacho que determina sua missão revela a que distância da realidade se encontra o Alto-Comando, e também a decadência a que chegara o pensamento militar alemão. Manstein deve “sustar a ofensiva inimiga e restaurar as antigas posições exatamente da mesma maneira”. O general “Fechar a Brecha e Retomar”, Gamelin, tornara-se mestre de seu vencedor.

Fonte: http://adluna.sites.uol.com.br/

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