Guadalcanal - A Ilha do Terror

 

A série de vitórias japonesas iniciou-se em Pearl Harbor, seguindo-se Guam, Hong-Kong, Filipinas, Cingapura, Indonésia, Rabaul, Bougainville: conquistas retumbantes. Mas então, em Guadalcanal, tudo mudou. Por seis meses, travaram-se ali batalhas furiosas, ao fim das quais um general japonês afirmaria, em lágrimas, que nos cemitérios de Guadalcanal jazia morto o exército imperial japonês.

 

O trampolim

Os cronistas dos conflitos humanos são sempre propensos a considerar singularmente crítica a campanha em que estão envolvidos. É natural e humana a sensação de que a dificuldade em que vivemos é a pior e mais cruel. A dor mais cruciante, a que mais mortifica e abate é sempre a que sofremos. Não a que o vizinho padece. Sem fugir à regra, os comentaristas de guerra propendem naturalmente para a exaltação das ocorrências verificadas no campo em que atuaram.

 

A natureza da guerra no Pacífico, tão cheia de singularidades e de contingências inusitadas, proporcionou a alguns cronistas a oportunidade de semear superlativos, no relato de tantos lances de dramaticidade intensa. Mas na vanguarda dos muitos atos desse poderoso drama ergue-se, sem sombra de dúvida, a jornada por Guadalcanal.

 

Esta narrativa situa a campanha firmemente no lugar que lhe é de direito. Conforme ressalta, numa narrativa de grande clareza, ela incorpora várias "primeiras vezes" que seriam notáveis se a campanha não reivindicasse outros direitos à fama. Por exemplo, foi o primeiro desembarque anfíbio feito por forças americanas desde 1898 - sendo improvável que houvesse no mundo militar americano quem pudesse recorrer à duvidosa vantagem de haver participado daquela experiência anterior. Portanto, nos desembarques em Guadalcanal, todas as decisões e todos os movimentos táticos foram virtual e essencialmente uma experiência nova. Nessas circunstâncias, não é de surpreender que a operação fosse caracterizada por alguma confusão. Por certo, ela contrastou muito com os desembarques posteriormente feitos no Pacífico, que foram altamente sistematizados e eficientes, mas foi um sucesso extraordinário - embora com restrições - e as lições foram muito bem aprendidas.

 

Todavia, a luta subseqüente pela conquista da ilha é lembrada principalmente por ter sido "a primeira vez", em outro aspecto: ela viu, depois de uma sucessão de conquistas territoriais sem precedentes, o "imbatível" invasor japonês ser violenta e espetacularmente derrotado e obrigado a uma retirada ignominiosa. Não que isto tenha sido uma realização repentina e fácil: ao contrário. Os japoneses lutaram como sempre: com absoluta dedicação, obstinação e ferocidade sistemática, que só terminavam com a derrota total. As perdas, de ambos os lados, foram eclipsadas pelas baixas em campanhas posteriores, mas, em selvageria, a luta em Guadalcanal e em seus arredores jamais foi superada. Também a variedade de ação foi enorme, coisa que se tornaria típica das campanhas da ilha, em que ocorria, a um só tempo, toda sorte concebível de batalhas. Freqüentemente uma ação naval coincidia com um bombardeio das praias, enquanto bombardeiros roncavam pelos céus da ilha, e caças baseados em terra e em porta-aviões, bombardeiros de mergulho e aviões torpedeiros disputavam o palco; em terra, as batalhas, que alternavam marés de homens em choques com pequenas ações de guerrilha, multiplicavam o tumulto.

 

Essa ilha relativamente insignificante do arquipélago das Salomão transformou-se num símbolo para japoneses e americanos, e a luta por sua posse foi um teste, um exemplo clássico do que se convencionou chamar a "escalada". A campanha tomou de certo modo o caráter de leilão implacável, no qual cada licitante se tornava cada vez mais decidido, elevando temerariamente o preço à medida que seu oponente ameaçava vencê-lo nos lances. Entrementes, o valor do artigo em si passava para segundo plano enquanto a disputa se transformava na sua própria razão de ser.

 

Freqüentemente os japoneses recebiam enormes quantidades de reforços pelo "Expresso de Tóquio" e, em resposta, mais homens e materiais chegavam para reforçar a posição Aliada, tornando mais áspero o conflito, mais acerbo e mais intenso.

 

Naturalmente, quanto mais prolongado este processo, maior se torna o eventual triunfo para o vencedor - e a humilhação para o vencido - e nenhum dos combatentes podia imaginar-se nesta última posição. Conscientes disso estavam todos, americanos e japoneses. Assim, quando Guadalcanal foi tomada, ficou claro que as forças americanas haviam sobrevivido e vencido, apesar do que os japoneses pudessem ter lançado contra elas. Pela primeira vez a balança do moral no Pacífico e no Sudeste Asiático pendeu significativamente para o lado dos Aliados - e a partir desse momento os japoneses passaram a travar guerra defensiva.

 

Fator de grande importância, que acrescentou muita dificuldade aos japoneses nas Ilhas Salomão e em outros grupos de ilhas ocupados, foi o tratamento arrogante e insensível que os nipônicos dispensavam às populações nativas. Apenas para exibir sua imaginária superioridade, eles maltratavam e exploravam seus "novos súditos" e lhes destruíam arbitrariamente as plantações, que muitas vezes eram a única fonte de subsistência dos nativos. Em vez de se acovardarem com esse tratamento, como esperavam os japoneses, os ilhéus logo criaram viva aversão por eles, não deixando escapar qualquer oportunidade para sabotar suas operações. Juntamente com as sentinelas costeiras, eles formaram redes eficientes de espionagem e ligação que muito contribuíram para a eficácia do planejamento Aliado. Mesmo assim, a evacuação dos remanescentes da força terrestre japonesa, uma das mais bem organizadas operações da Guerra do Pacífico, foi, de alguma forma, realizada em perfeito segredo.

 

O esforço desesperado dos japoneses para reconquistar Guadalcanal - a "Operação Ka" - foi um fracasso tanto de propósito como de recursos. A disposição do combatente japonês para o sacrifício era o lado positivo da moeda, cujo reverso era o desperdício irracional de vidas em missões desesperadas.

 

A derrota ali já era certa, logo que o enorme potencial industrial dos Estados Unidos passou a pesar localmente; assim, a obstinação extrema dos japoneses lhes trouxe apenas uma derrota mais sangrenta e esmagadora.

 

 

"Japani estão chegando..."

Quando o novelista Jack London visitou as Ilhas Salomão, em 1908, ele as considerou "um dos cantos mais rudes, de selvageria mais gritante, da terra". Trinta e quatro anos depois, americanos e japoneses fariam em Guadalcanal um corpo-a-corpo tão sanguinolento, que encheria de espanto os "caçadores de cabeça" dos velhos tempos. Durante alguns meses, o nome de Guadalcanal não saiu das manchetes dos jornais. Ele se tornou sinônimo de luta desesperada em condições atrozes; hoje em dia, reconhece-se que a ilha foi o momento decisivo da campanha do Pacífico e o trampolim de onde os Aliados desfecharam sua primeira ofensiva bem sucedida contra os japoneses.

 

Nunca foram com segurança determinadas as baixas totais dessa campanha. Somente das forças terrestres japonesas, entre 21.000 e 28.500 soldados morreram em pouco mais de cinco meses, justificando a afirmação de um dos seus generais, de que o exército japonês estava sepultado nos cemitérios de Guadalcanal. Os mortos das forças terrestres americanas atingiram mais de 1.500, enquanto número muito maior de marinheiros morreu ao largo da ilha. A atitude dos combatentes para com seus terríveis ambientes é sintetizada num trecho de uma versalhada popular entre os fuzileiros navais americanos na época:

"E quando ele chegar ao céu

A São Pedro dirá:

Mais um fuzileiro se apresentando, senhor -

Já "tirei" meu tempo no inferno!"

 

Pela sua vegetação luxuriante, e pelas promessas de sua natureza dramática, estas ilhas inspiraram a seus descobridores espanhóis, no século XVI, o nome de Ilhas Salomão, como se fossem o legendário Ofir.

 

As Ilhas Salomão se estendem numa cadeia irregular para sudeste, com mais de 1.400 km de comprimento, entre Papua, Nova Guiné e as Novas Hébridas. Fazem parte de um colar esparso de ilhas que se estendem pelo Pacífico, ao Nordeste da Austrália. São seis ilhas grandes, das quais Guadalcanal é a maior, e muitas outras menores. O terreno é em geral montanhoso e coberto de densas florestas. O calor e a umidade são intensos, havendo violentas tempestades tropicais; precipitação pluviométrica de mais de 508 cm foi registrada num ano.

 

A maioria dos habitantes das Salomão é composta de melanésios, com alguns polinésios e uns poucos micronésios. Eles são gente reservada e inteligente, obstinadamente independente e zelosa dos seus direitos territoriais, vivendo em pequenas comunidades bem unidas. Mais de 60 línguas são faladas entre as 160.000 pessoas e há uma antiga tradição de guerras entre ilhas e mesmo entre aldeias. Antes da Segunda Guerra Mundial, como acontece hoje, a maioria dos ilhéus vivia do cultivo das suas hortas - plantando kumura, inhames, cará e frutas - e da pesca.

 

Nominalmente administradas pela Grã-Bretanha, mas tendo poucos recursos naturais - sendo a copra a única colheita rentável - pouco se fizera para desenvolver o Protetorado antes de 1942. Um punhado de oficiais distritais mantinha a lei e a ordem entre as aldeias dos charcos e capoeiras, enquanto alguns missionários, agricultores, comerciantes e soldados da fortuna europeus também estavam em evidência. As ilhas, normalmente belas e fascinantes, eram muito atrasadas.

 

A guerra chegou às Salomão e pela primeira vez em sua história o Protetorado adquiriu importância para o mundo exterior. Desde Pearl Harbor, os japoneses vinham avançando implacavelmente. Tomaram Guam, Hong-Kong, as Filipinas, Cingapura e as Índias Orientais Holandesas, atualmente Indonésia. Em janeiro, haviam ocupado Rabaul, na Nova Guiné; Bougainville foi tomada em março, e logo depois os japoneses invadiram o Protetorado Britânico das Ilhas Salomão, um obstáculo para qualquer avanço japonês sobre a Austrália ou o Havaí. Com as Novas Hébridas e as Fiji, elas constituiam parte preciosa das linhas de comunicação aliadas e também eram uma área lógica para qualquer contra-ataque americano.

 

A 5 de março de 1942, o Almirante Ernest King, Comandante-Chefe da Marinha dos Estados Unidos, informou ao Presidente Roosevelt das suas pretenções de prosseguir a guerra no Pacífico: defender o Havaí, apoiar a Australásia e avançar das Novas Hébridas para noroeste. A terceira parte do plano esboçado consistiria de um ataque desfechado de Guadalcanal contra os japoneses entrincheirados em Rabaul.

 

Já então os japoneses se aproximavam das Salomão. Em julho, Guadalcanal fora ocupada por tropas das 81a e 84a Unidades de Guarnição e pelos 11o e 13o Batalhões de Construção Naval da 8a Força Básica. O avanço japonês no Protetorado foi virtualmente desimpedido. O Comissário Residente, William Marchant, permanecera em seu posto, com uns poucos voluntários da equipe que o auxiliava. Os missionários de todas as religiões também decidiram ficar. Todavia, os europeus, em sua maioria, foram evacuados de Tulagi, a sede da administração britânica, situada na ilha de N'Gela, fronteira a Guadalcanal, a bordo do navio Morinda.

 

Quando da invasão japonesa, havia apenas uma força armada simbólica nas ilhas. Qualquer tentativa de resistência teria sido totalmente inútil. Havia alguns fuzileiros navais da Força Imperial Australiana, uns poucos homens da RAAF (Real Força Aérea Australiana), que davam assistência técnica aos hidroaviões Catalina, que vez por outra paravam para reabastecer na pequena base aeronaval perto de Tulagi, e também a Força de Defesa das ilhas Salomão, que fora recrutada às pressas.

 

Esta última organização consistia originariamente de três oficiais, dois suboficiais e 112 soldados nativos, na maioria recrutados da força policial local. Eventualmente todos os oficiais administrativos britânicos que haviam ficado receberam patentes de oficial nessa força.

 

Uma outra organização foi recrutada - as sentinelas costeiras. Esses homens, oficiais do governo, agricultores e comerciantes australianos, apresentaram-se como voluntários para ficar atrás das linhas japonesas e transmitir informações sobre movimentos de navios mercantes e aviões inimigos. Dispostos desde a Nova Guiné pelo Capitão-de-Fragata Eric Feldt, da Real Marinha Australiana, as sentinelas costeiras funcionavam como uma cadeia vital de agentes de inteligência entre as ilhas do Pacífico. Cada homem era equipado com um telerrádio AWA, um transmissor-receptor com quatro freqüências alternativas de transmissão e com raio de ação de 60 a 100 km.

 

Entre as primeiras sentinelas costeiras a serem nomeadas nas Salomão estavam Kennedy, no Oeste; Wilson, no Leste e Forster, em San Cristobal. Devido à sua localização nas Salomão Centrais, Guadalcanal, evidentemente, teria importância estratégica. Havia três sentinelas costeiras ali, Martin Clemens, jovem oficial distrital que tomou posição na aldeia de Aola, uma subestação distrital na costa norte da ilha; Macfarlan, Tenente da Reserva da Real Marinha Australiana, de início acampou perto de Lunga, defronte a Tulagi, mudando-se, mais tarde, para o interior, para Gold Ridge, onde já encontrou Hay, um agricultor, e Andersen, minerador de ouro. Na costa oeste de Guadalcanal, a terceira sentinela costeira, "Snowy" Rhoades, ex-administrador de plantação, instalou-se para aguardar a chegada dos japoneses. Todos esses movimentos haviam sido feitos com certa pressa, porque já em março os japoneses estavam bombardeando Tulagi regularmente. O Comissário Residente mudou sua sede para a Ilha de Malaita, onde ninguém o incomodava. Enquanto aguardava a inevitável invasão japonesa, ele mandou seus oficiais percorrer as ilhas e conversar com os habitantes. Sua mensagem era simples. Era possível que o inimigo não demorasse a chegar. Contudo, as ilhas eram e continuariam sendo britânicas. Nenhum ilhéu das Salomão se ofereceria para ajudar aos japoneses.

 

Havia outro importante trabalho administrativo a ser feito. Muitos trabalhadores haviam ficado retidos em plantações longe de casa e sua volta foi realizada em duas semanas, com o auxílio de uma frota de escunas. Esses barcos às vezes eram bombardeados, mas todos os trabalhadores voltaram às suas respectivas ilhas.

 

A 10 de abril os japoneses desembarcaram nas Ilhas Shortland, nas Salomão Ocidentais. A ocupação do resto do Protetorado parecia iminente. As incursões de bombardeio contra Tulagi aumentaram de intensidade, havendo cinco ataques violentos no dia 2 de maio.

 

Na manhã seguinte, uma unidade naval japonesa, comandada pelo Contra-Almirante Goto, ancorou sem oposição na baía de Tulagi. Entre a força que desembarcou nos navios estava o Grupo Aéreo Yokohama, a Terceira Força Kure Especial de Desembarque da Marinha, uma unidade básica naval de hidroaviões, uma bateria antiaérea e pessoal de comunicações radiofônicas. Doze hidroaviões de flutuadores Kawanishi e doze hidroaviões Zero chegaram mais tarde.

 

Não se permitiu que os japoneses se instalassem em Tulagi em paz, embora o ataque americano ocorrido fosse um tanto fortuito. A 4 de maio, enquanto Goto ainda estava desembarcando suprimentos, seus navios foram atacados por aviões dos porta-aviões leves americanos Lexington e Yorktown.

 

Esses navios faziam parte da "Força-Tarefa 17", comandada pelo Contra-Almirante Fletcher. Este estava a caminho para interceptar uma força de desembarque japonesa que, segundo se informara, estava atravessando o Mar de Coral, rumo a Port Moresby. Aviões dos seus porta-aviões avistaram os japoneses ancorados em Tulagi e os atacaram. Considerável número de bombas foi despejado e gastou-se muita munição. As afirmações de sucesso dessa missão foram exageradas, mas, terminado o ataque, somente o destróier Kikutsuki, dois pequenos caça-minas e vários hidroaviões haviam sido destruídos.

 

Este era o último revés que os japoneses sofreriam durante alguns meses nas Salomão e eles passaram a se instalar em Tulagi. Em Guadalcanal e outras ilhas, as sentinelas costeiras acumularam estoques de alimentos e continuaram advertindo aos nativos para que não colaborassem com o inimigo.

 

Em Aola, Martin Clemens reunira para si uma força particular de uns 60 nativos, entre os quais dividiu os doze fuzis que estavam consigo. Mais tarde, seus homens recuperaram outros seis fuzis e 2.500 cartuchos de munição abandonados pelos australianos ao deixarem as Salomão. Clemens também criou uma frota de canoas e os homens de uma delas informaram que os japoneses pareciam estar-se preparando para invadir Guadalcanal. Duas semanas depois, a 28 de maio, uma força exploratória japonesa desembarcou em Lunga Point. Clemens mudou-se para o interior, para a aldeia de Vungana, e continuou enviando patrulhas e mantendo uma vigília no alto das árvores.

 

A 1o de julho um dos exploradores de Clemens, Dovu, trouxe a notícia que a sentinela costeira esperava e temia: "Japani estão chegando". Os japoneses haviam desembarcado em grande número em Guadalcanal e agora tudo o que Clemens podia fazer era vigiar e esperar que os americanos, por sua vez, estivessem planejando invadir Guadalcanal.

 

 

"Operação Atalaia"

No começo de 1942, Guadalcanal não era a preocupação mais urgente dos Chefes Conjuntos de Estados-Maiores; havia outras ilhas igualmente importantes e estas tinham de ser ocupadas e fortificadas antes que se pudesse pensar em ataque. Forças mistas do exército e da marinha americanos começaram a desembarcar em várias das ilhas que ainda não estavam dentro da esfera de influência japonesa. Samoa e Fiji foram guarnecidas, e a 12 de março ocupou-se a Noumea, na Nova Caledônia. Duas semanas depois, a Força de Fuzileiros Navais da Frota, do 4o Batalhão de Defesa (Reforçado) ocupou Port Vila, nas Novas Hébridas.

 

O que parecia ser necessário era uma operação de resistência, o que fora decidido em reuniões dos Estados-Maiores militares britânicos e americanos muito antes do ataque a Pearl Harbor. Suas descobertas haviam sido confirmadas no começo de 1942 pelo Presidente Roosevelt e por Churchill. Se os japoneses entrassem na guerra, eles seriam contidos no Pacífico até que terminasse a luta na Europa.

 

Esse plano não levava em conta as poderosas personalidades dos homens encarregados da conduta da campanha Aliada no Pacífico, ou as influências que os motivavam. Os Estados Unidos estavam sentindo as dores de uma série de reveses, os japoneses haviam desmentido a reputação do combatente americano em termos firmes e era preciso uma vitória importante para restaurar o moral no país e nas forças armadas.

 

Os três homens mais estreitamente interessados no planejamento das operações no Pacífico insistiram nesse ponto: General Douglas MacArthur, Almirante Ernest King e Almirante Chester Nimitz. Cada homem era uma personalidade por direito próprio. MacArthur, depois da sua bem divulgada fuga de Corregidor, e com sua inclinação para o dramático, talvez fosse o mais famoso, mas King, homem rude, sem o menor senso de humor e que, segundo se dizia, fazia a barba com um maçarico, não era menos inflexível. Nimitz, com seus cabelos brancos, embora tendendo a ser eclipsado pelos outros dois, era um oficial de carreira eficiente e experimentado.

 

No dia 4 de abril, os Chefes Conjuntos de Estado-Maior (a conjunção era dos chefes, e não dos Estados-Maiores) dividiram a área do Pacífico entre MacArthur e Nimitz, decidindo-se que a linha divisória ficaria a 160 graus de longitude leste de Greenwich. Isto queria dizer que MacArthur era responsável pelo sudoeste, que incluía a Austrália, Nova Guiné, as Filipinas e as Ilhas Salomão, enquanto Nimitz assumia o controle do resto. Quatro meses depois, com a "Operação Atalaia", o assalto às Salomão, prestes a ocorrer como uma operação conjunta da marinha e dos fuzileiros navais, essa linha foi ajustada em um grau para oeste, de modo que Nimitz ficou com toda a Ilha de Guadalcanal, Tulagi e também com a Florida (N'Gela).

 

A dissensão entre os membros do CEMC sobre as táticas a serem empregadas no Pacífico foi intensa. De Washington, o General George Marshall, chefe do Estado-Maior do Exército dos Estados Unidos, queria ater-se à concepção original: "a estratégia militar no Extremo Oriente será defensiva". Ele era apoiado pelo General Arnold, chefe da Força Aérea do Exército. MacArthur e King discordavam com veemência dessa atitude, mas infelizmente não havia quase nenhuma unanimidade entre eles. King defendia uma ofensiva limitada na área de Guadalcanal e Tulagi, com apoio aéreo das "Fortalezas-Voadoras" B-17 do exército e dos PBY da marinha, que partiriam do recém-construído aeródromo em Espírito Santo, nas Novas Hébridas. A 28 de maio, Nimitz sugeriu uma alteração nesse plano - tomar e arrasar Tulagi com um só batalhão incursor (raider). Marshall, MacArthur e King vetaram essa proposta, alegando impraticabilidade.

 

Nos dias 4 e 5 de junho, aviões de porta-aviões americanos afundaram quatro porta-aviões japoneses ao largo da Ilha de Midway. Esse sucesso inspirou MacArthur a insistir num ataque direto a Rabaul, na Nova Grã-Bretanha. Ele estava convencido de que esta ilha poderia ser tomada em julho, por uma divisão treinada em guerra anfíbia e levada em doze transportes, apoiados por dois porta-aviões e vários bombardeiros. Esse plano recebeu o apoio do General Marshall, que via a Primeira Divisão de Fuzileiros Navais (Marines) fazendo o primeiro desembarque de cabeça-de-praia, sendo depois substituída por duas divisões americanas e uma australiana.

 

O Almirante King recusou-se a apoiar esse projeto, declarando que, para que esse empreendimento tivesse êxito, também seriam precisos caças, e que seria temerário arriscar dois dos porta-aviões numa expedição perigosa como essa. King apresentou então uma contraproposta - ataques a Tulagi-Guadalcanal e também ao grupo Santa Cruz, nas Salomão Orientais, enquanto o General MacArthur dirigia um ataque simulado às Índias Orientais Holandesas.

 

Esta última sugestão foi considerada ambiciosa demais, porém King insistiu energicamente num ataque a Tulagi e Guadalcanal, sobretudo porque as sentinelas costeiras haviam comunicado que nesta ilha os japoneses estavam construindo um aeródromo. Por fim o almirante conseguiu seu intento. Vencendo a oposição de Marshall e MacArthur, King recebeu o relutante consentimento destes ao seu plano e os Chefes Conjuntos de Estado-Maior deram ordens para a realização da operação. King transmitiu-as imediatamente a Nimitz, que recebera o comando da "Tarefa I" da Operação Atalaia, o ataque inicial. O General MacArthur ficaria encarregado da "Tarefa II", a tomada das Salomão do Norte, e da "Tarefa III", o ataque a Rabaul. Nimitz, por sua vez, deu instruções ao Vice-Almirante Robert Ghormley, que fora nomeado comandante da marinha no Pacífico Sul. Ghormley não ficou satisfeito com o fato de ser inteirado de tudo tão tarde. Restava pouco tempo para coletar informações e planejar as operações. Contudo, o Almirante King foi inflexível; ele conseguira fazer com que a missão Tulagi-Guadalcanal fosse um projeto da marinha, e o resto agora cabia a Ghormley e a Nimitz.

 

A 26 de junho em Auckland, Nova Zelândia, o Vice-Almirante Ghormley informou ao General Alexander Archer Vandegrift, comandante da Primeira Divisão de Fuzileiros, que ele lideraria o assalto anfíbio a Tulagi e Guadalcanal a 1o de agosto - dali a menos de cinco semanas. Vandegrift, um homem calmo e cortês da Virgínia, com 35 anos na ativa, ficou muito preocupado com a exigüidade do prazo. Havia apenas doze dias que ele chegara à Nova Zelândia. Menos de metade da sua divisão estava consigo; seu 1o Regimento encontrava-se em algum ponto do Pacífico, tendo partido de São Francisco havia apenas quatro dias, em oito cargueiros, e o 7o de Fuzileiros Navais estava nas Samoa.

 

Vandegrift advertiu, em vão, que não esperava ser chamado para entrar em ação antes do começo de 1943. Assim como o comandante dos fuzileiros navais, Ghormley não estava gostando muito da situação, mas tinha as mãos atadas. Vandegrift simplesmente teria de ir em frente e fazer seus preparativos da melhor maneira que pudesse. Como concessão, ele receberia o 2o Regimento de Fuzileiros Navais da 2a Divisão, que partiria de San Diego a 1o de julho.

 

Vandegrift e seu Estado-Maior puseram-se a trabalhar vigorosamente para fazer o máximo que pudessem no tempo disponível. O primeiro problema a ser enfrentado residia no fato de ninguém, ao que parecia, saber nada sobre Tulagi e Guadalcanal. Do seu Q-G, no "Cecil Hotel", em Wellington, Nova Zelândia, Vandegrift mandou seu oficial do serviço de inteligência, Tenente-Coronel Goettge, à Austrália, para entrevistar missionários, fazendeiros e funcionários do governo que haviam deixado recentemente as Salomão. Acumulou-se grande quantidade de informações, algumas delas úteis, outras apenas desorientadoras, como se verificaria em Guadalcanal. Não havia nem tempo nem os meios de verificar os fatos. Goettge providenciou para que oito dos veteranos das Salomão recebessem patentes de oficial, de modo que pudessem acompanhar os fuzileiros navais como guias na expedição, e voltou à presença do General Vandegrift.

 

Nada parecia dar certo. O próprio Vandegrift é quem diz: "Não havia tempo para a fase de planejamento e, em muitos casos, foi preciso tomar decisões irrevogáveis antes mesmo de se averiguar as características essenciais do plano de operações navais". O que preocupava em particular era a falta de conhecimento detalhado da área a ser invadida. Dois oficiais de fuzileiros navais foram destacados para um vôo de reconhecimento, numa B-17, sobre Guadalcanal. Seu avião foi atacado por hidroaviões japoneses que decolaram de Tulagi. A B-17 derrubou dois Zero e voltou a salvo a Port Moresby, mas os observadores não viram quase nada de Guadalcanal. Com o passar do mês de julho tornou-se evidente que a Operação Atalaia não poderia ser iniciada a 1o de agosto. Assim, a data do assalto foi adiada para 7 de agosto.

 

A cadeia de comando também começava a ser elaborada, com esforço. Com base em Noumea, na Nova Caledônia francesa, Ghormley ficaria encarregado da estratégia, dando conta dos seus serviços a Nimitz. Representando Ghormley no local estaria o Vice-Almirante Fletcher. Imediatamente abaixo vinha o Contra-Almirante Kelly Turner, que comandava a força anfíbia. O subcomandante de Turner era o Contra-Almirante Crutchley, da Marinha Real britânica, herói da Primeira Guerra Mundial. A força de cobertura deste último consistia de vasos americanos e australianos. O encarregado de todos os aviões baseados em terra era o Vice-Almirante John McCain, Comandante da Aviação no Pacífico Sul e responsável pela ordem para construir o aeródromo em Espírito Santo.

 

Na Nova Zelândia, os fuzileiros-navais afadigavam-se desesperadamente para se preparar para os desembarques. Abastecimentos eram desembarcados e separados em condições tão desagradáveis, que os estivadores da Nova Zelândia se recusaram a trabalhar com eles. A polícia os tirou das docas e os fuzileiros navais trabalhavam em turnos de oito horas cada um, embarcando e desembarcando seus próprios suprimentos.

 

O dia da Operação Atalaia se aproximava, esperado com crescente apreensão pelos responsáveis pelo seu planejamento. MacArthur e Ghormley recomendaram outro adiamento, mas King recusou-se a concedê-lo. Mais tarde o almirante viria a comentar, numa considerável atenuação dos fatos: "Devido à urgência da tomada e ocupação de Guadalcanal, o planejamento não esteve à altura do padrão normal".

No meio de toda essa confusão, Vandegrift se ocupava com o planejamento do primeiro desembarque anfíbio americano em tempo de guerra, desde 1898, na Guerra Hispano-Americana. O estado da linha costeira onde seus fuzileiros navais desembarcariam continuava em grande parte desconhecido e ele foi mais prejudicado ainda quando os mapas fotográficos de Guadalcanal especialmente encomendados se extraviaram num armazém da Nova Zelândia. Tampouco a estimativa das forças japonesas era mais precisa. Julgava-se que cerca de 5.000 soldados inimigos ocupavam a área a ser atacada e, conforme se verificou posteriormente, esta estimativa era consideravelmente exagerada.

 

Durante todo o frenético mês de julho, Vandegrift e seu Estado-Maior continuaram obstinadamente a traçar planos. Confirmou-se que haveria dois ataques - um em Guadalcanal e outro contra Tulagi e as ilhas vizinhas de Gavatu, Tanambogo e as Floridas. Esperava-se que a força de desembarque em Guadalcanal (Grupo Raios-X) encontraria uma oposição relativamente discreta. Mas em Tulagi o inimigo teria de lhes fazer frente e lutar. Nessa conformidade, Vandegrift designou para Tulagi as forças que considerava mais bem treinadas. Sob o comando-geral do Brigadeiro-General Rupertus estariam o 1o Batalhão de Fuzileiros Navais Incursores (Raiders) e seu líder, Tenente-Coronel Merritt Edson; o 1o Batalhão de Pára-quedistas, do Major Robert Williams, e o 2o Batalhão do 5o Regimento de Fuzileiros Navais, do Tenente-Coronel Harold Rosecrans. O desembarque em Guadalcanal seria comandado pelo próprio Vandegrift, conduzindo o restante da 1a Divisão de Fuzileiros Navais e quaisquer tropas especiais e de serviço.

 

Toda a força seria transportada para as Salomão num comboio que, na verdade, era a maior parte da marinha americana situada no Pacífico, na época: os porta-aviões Saratoga, Enterprise e Wasp e vários cruzadores e destróieres para escoltar os navios-transporte. Ao todo, 959 oficiais e 18.156 praças seriam transportados nessa força expedicionária.

 

Devido à escassez de barcaças de desembarque, não seria possível iniciar ataques simultâneos em Tulagi e Guadalcanal; por isso, preparou-se cuidadoso cronograma. Em Tulagi, os Incursores de Edson desembarcariam do lado sul, seguidos do II/5o Batalhão de Fuzileiros Navais. Eles abririam caminho, lutando, para o interior e depois atacariam para o leste. O Batalhão de Pára-quedistas vadearia até a terra nas ilhas gêmeas de Gavatu e Tanambogo, onde faria uma varredura de precaução ao longo da linha costeira das Floridas mais próximas de Tulagi.

 

O desembarque em Guadalcanal ocorreria a leste da área de Lunga, onde os japoneses talvez tivessem instalado posições defensivas. O 5o RFN (Regimento de Fuzileiros Navais), com exceção do 2o Batalhão, que estaria em Tulagi, desembarcaria e estabeleceria uma cabeça-de-praia de dois batalhões lado a lado. O 1o de Fuzileiros Navais se juntaria a eles, o que possibilitaria uma situação adequada para fazer partir o ataque para oeste.

 

Enquanto lutava para coordenar seu plano, Vandegrift também se esforçava por resolver todos os outros problemas criados pela tentativa de reunir uma grande força de invasão anfíbia em pouco tempo. As condições nas docas continuavam caóticas. Em meio à chuva torrencial de um inverno neozelandês, os navais lutavam para desembarcar, separar e tornar a embarcar provisões, numa corrida contra o relógio. O moral não era elevado. Um navio transporte civil, o Ericsson, contratado para trazer fuzileiros navais dos Estados Unidos para a Nova Zelândia, foi motivo de muitas queixas por haver servido alimentação tão ruim, durante toda a viagem, que os soldados perderam, em média, de 7 a 9 quilos de peso, a bordo!

 

Num esforço para poupar tempo, Vandegrift deu ordens para que suas unidades "reduzissem seu equipamento e suprimentos ao realmente necessário à luta e à sobrevivência". A quota de munição foi reduzida em 50 por cento. Quando a força-tarefa zarpou de Nova Zelândia, quase metade dos suprimentos originais ficou para trás, mas os navios partiram conforme as ordens, às 09:00 h de 22 de julho.

 

Ghormley ordenou que todos os navios da expedição estivessem no ponto de encontro às 14:00 h de 26 de julho. Nesse momento a "Força-Tarefa 62", de Turner, uniu-se à "Força-Tarefa 61", de Fletcher, perto da ilha de Koro, cerca de 600 km ao sul das Ilhas Fiji. Houve uma reunião dos comandantes da expedição a bordo do Saratoga. Ghormley estava ocupado demais para comparecer, sendo representado pelo Almirante Daniel Callaghan. A reunião não foi inspirada, servindo apenas para salientar as lacunas no planejamento, a falta de afinidade entre Marshall e King, dos Chefes Conjuntos de Estado-Maior e a canhestra e quase impraticável cadeia de comando criada para a operação.

 

Na reunião, Fletcher deixou claro que considerava a sua função apenas como a do líder de uma operação de vaivém, desembarcando homens e suprimentos e partindo o mais depressa possível. Essa opinião afligiu Vandegrift, que contava com apoio aéreo e naval durante pelo menos quatro dias após o desembarque inicial. Divulgara-se que Ghormley não dera uma "Carta de Instrução" a Fletcher, que estava pessimista quanto às possibilidades de sucesso da "Operação Atalaia". O fato de o Contra-Almirante McCain, encarregado dos aviões baseados na costa, operar diretamente subordinado a Ghormley, e não a Turner, também causou certa confusão. Vandegrift sofreu outro golpe quando foi informado de que não receberia o 2o Regimento de Fuzileiros Navais, que estava sendo desviado para ocupar Ndeni, no grupo Santa Cruz, entre as Salomão Orientais, porém esta última ordem foi mais tarde revogada.

 

Após essa reunião confusa e inconcludente, os ensaios dos projetados desembarques, realizados entre 28 e 31 de julho, pouco fizeram para dissipar a depressão geral. As cortantes praias de coral de Koro mostraram-se quase inexpugnáveis, enquanto que o silêncio radiofônico rígido impossibilitava a coordenação dos movimentos aéreos e de tropas. Diante da desordem, Vandegrift estava ansioso por retirar-se; perdia-se tempo muito precioso.

 

Os navios reagruparam-se e começaram sua viagem para as Salomão. Até então quase nada dera certo na expedição. Para a viagem das Fiji até Guadalcanal houve uma inversão da sorte. A armada percorreu seu caminho sem ser descoberta pelos japoneses. Às 02:00 h foram avistados a Ilha Savo e, depois, o Cabo Esperança. Ao amanhecer, os cruzadores iniciaram o bombardeio das praias de Guadalcanal e Tulagi, enquanto os aviões que decolaram dos porta-aviões afundavam hidroaviões japoneses em seus ancoradouros.

 

 

Na Praia Vermelha e depois

Às 06:14 h de 7 de agosto, os três cruzadores e quatro destróieres do Grupo de Apoio de Fogo de Guadalcanal começaram a bombardear alvos escolhidos entre Kukum e a Ponta de Koli, ao longo da costa norte da ilha. Dois minutos depois, o cruzador e os dois destróieres do Grupo de Apoio de Fogo de Tulagi começaram a disparar contra a costa desta ilha. Oitenta e cinco bombardeiros de mergulho e caças dos porta-aviões agora à espreita, a 120 km a sudoeste de Guadalcanal, atacaram esta ilha e Tulagi, destruindo 18 hidroaviões em seus ancoradouros, só encontrando fogo antiaéreo esporádico.

 

Por volta das 06:51 h, percorrendo um mar calmo, os transportes haviam atingido seus objetivos, a cerca de 9.000 m ao largo das praias escolhidas para as operações de desembarque. Os homens começaram a descer dos navios para as barcas Higgins. Tudo foi feito com calma e eficiência, levando vários observadores a comentar que a coisa mais parecia um exercício do que operação de guerra.

 

Para proteger o flanco esquerdo da força que desembarcava em Tulagi, a Companhia B do 1o Batalhão do 2o Regimento de Fuzileiros Navais, sob o comando do Capitão Edgar Crane, desembarcou na Ilha Florida, reivindicando assim o título de primeira tropa americana a desembarcar em território ocupado pelo inimigo, na Segunda Guerra Mundial. A aldeia de Haleta, seu objetivo, estava deserta, assim como a de Halavo, para onde se dirigiram depois. Por volta do meio-dia, Crane e seus homens se reagruparam na praia; os japoneses haviam-se retirado da Florida.

 

O desembarque em Tulagi ocorreu na hora certa, às 08:00 h, na Praia Azul, na costa ocidental, a pouco mais de 1.600 m da ponta noroeste da ilha. Não houve oposição japonesa na praia, o que talvez fosse bom, porque nenhuma das barcaças de desembarque podia transpor os afloramentos de coral, e os incursores tiveram de vadear uns cem metros até a terra firme. Os comandos de Edson foram os primeiros a chegar às praias, embora seu comandante, detido pelo enguiço do motor da sua barcaça de desembarque, só pudesse alcançá-los quando estes já haviam penetrado o interior.

 

Os japoneses, em Tulagi, lutaram ferozmente das suas tocas e cavernas, mas pareciam estar cientes, desde o começo, da insustentabilidade da situação. Sua última mensagem pelo rádio, enviada às 08:10 h, foi: "Efetivos de tropas inimigas são avassaladores. Defenderemos até o último homem". Isto foi quase que literalmente verdadeiro. Dos defensores japoneses de Tulagi, 200 foram mortos, cerca de 40 escaparam a nado para a Florida e três se renderam. Os americanos compreenderam ser quase impossível expulsar os japoneses das suas posições com os tiros de armas pequenas. Recorreram então ao uso de granadas e explosivos para bombardeá-los e expulsá-los.

 

Pelo final da tarde, os japoneses haviam sido empurrados para uma posição no extremo sudeste da ilha. As comunicações de rádio dos americanos haviam piorado com o passar do dia, mas Edson conseguiu mandar uma mensagem dizendo que não podia tomar a ilha naquele primeiro dia. Ele recebeu permissão para estabelecer uma linha defronte aos japoneses encurralados. Cinco companhias de incursores e a Companhia G do 5o RFN formavam essa força. Entre os americanos havia dois britânicos, Horton e Henry Josselyn, ex-Oficiais Administrativos das Salomão e agora tenentes da Real Marinha australiana, adidos à força invasora. Horton e Josselyn haviam desembarcado com a primeira leva das tropas de assalto e ambos viriam a receber a "Estrela de Prata" pelo seu trabalho em Tulagi.

 

Durante a noite de 7 para 8 de agosto, os japoneses fizeram várias tentativas decididas de escapar da sua posição. Alguns deles chegaram mesmo a alcançar a antiga Residência, agora usada como posto de comando, mas nenhum deles conseguiu escapar. Na manhã do dia 8 de agosto, as Companhias F e E do 5o RFN juntaram-se a Edson. Os navais tinham estado expulsando os japoneses do noroeste de Tulagi e, com sua força aumentada, Edson atacou e venceu os japoneses restantes. Pelo meio da tarde do dia 8, Tulagi fora ocupada com sucesso. Trinta e seis americanos tombaram mortos, e 54 feridos.

 

Os japoneses, nas pequeninas ilhas adjacentes de Gavatu e Tanambogo, resistiram com a mesma obstinação dos seus companheiros de armas em Tulagi. A 7 de agosto, às 11:45 h, os navios do Grupo de Fogo de Apoio de Tulagi bombardearam Gavatu, enquanto os homens do 1o Batalhão de Pára-quedistas se aproximavam da praia em suas barcaças de desembarque. Os primeiros homens desembarcaram sem problemas, mas as levas subseqüentes foram abatidas pelo fogo fulminante de armas individuais e automáticas dos defensores. Os integrantes do Batalhão de Pára-quedistas avançaram para o interior, para sitiar a pequena colina ocupada pelos japoneses. Estes a defenderam ferozmente, auxiliados pelo fogo de apoio dos seus companheiros na Ilha de Tanambogo, e somente às 18:00 h é que as tropas americanas tomaram a colina; no dia seguinte ainda estavam limpando o terreno.

 

Tanambogo está ligada a Gavatu por uma estrada de concreto elevada, mas a princípio as forças americanas não puderam atacar a ilha nem por terra nem pelo mar. Tampouco as incursões de bombardeio nem a artilharia naval puderam subjugar os japoneses entrincheirados nesta sua última posição. Como medida de emergência, a Companhia B do 2o RFN foi retirada da Florida e lançada em ação num desembarque realizado na costa norte de Tanambogo, mas o ataque foi sangrentamente repelido. A 8 de agosto, às 11:30 h, o 2o RFN e dois tanques leves fizeram um ataque simultâneo da praia e da estrada, e os japoneses puseram na luta enorme furor - parecia que eles só sabiam lutar assim - mas, ao anoitecer, Tanambogo estava nas mãos dos navais. Em Gavatu e Tanambogo, cerca de 500 japoneses e 108 americanos perderam a vida.

 

Enquanto Tulagi e as ilhas vizinhas haviam sido palco de acirrada luta, os desembarques em Guadalcanal haviam sido calmos e sem qualquer demonstração de resistência. Depois do bombardeio inicial, os japoneses - cerca de 600 combatentes e 1.400 trabalhadores - haviam fugido em certa confusão para o interior, deixando o caminho livre para os fuzileiros navais desembarcarem na Praia Vermelha. Aviões de reconhecimento do cruzador Astoria confirmaram a ausência de tropas inimigas. Às 09:09 h, o Coronel LeRoy Hunt desembarcou seu Grupo de Combate A na Praia Vermelha. Seus homens espalharam-se para cobrir uma frente de 2.000 m; começava a invasão de Guadalcanal.

 

O Grupo de Combate B do 1o RFN desembarcou a seguir, dirigido pelo Coronel Clifton Cates, que, como Hunt, era veterano da Primeira Guerra Mundial. Os fuzileiros navais avançaram, passando pelo Grupo A (5o RFN) e começaram a dirigir-se para o Monte Austen. Durante os preparativos para o ataque, essa montanha fora chamada "Grassy Knoll". Julgava-se que estivesse situada a uns 3 km para o interior. A informação fora falha, pois o Monte Austen está a cerca de 6.400 m, como os navais do Grupamento de Combate B em pouco saberiam.

 

Durante as primeiras três horas as coisas correram bem na cabeça-de-praia. As tropas eram transportadas para terra com rapidez e sem complicações. A falta de oposição revelou-se uma decepção para alguns dos soldados, especialmente porque os disparos de Tulagi indicavam que os homens sob o comando de Rupertus estavam onde a luta era mais intensa. Mas Vandegrift satisfez-se com o desembaraço da operação, até então. É verdade que os relatórios que chegavam diziam que Cates e o 1o RFN haviam diminuído consideravelmente sua rapidez, mas pelo menos seus homens estavam desembarcando inteiros.

 

A situação não foi muito satisfatória quando chegou a vez das provisões e suprimentos, pois não havia homens suficientes para desembarcá-los e transportá-los da Praia Vermelha para o interior. Com o passar do dia, os montes de suprimentos aumentaram muito, porque as barcaças de desembarque chegavam à praia carregadas de caixas. As tropas de combate, embora não tivessem estado em ação, não podiam ser destacadas para esse trabalho enquanto houvesse possibilidade de os japoneses atacarem a cabeça-de-praia. De uma feita, 100 barcaças haviam desembarcado sua carga de suprimentos enquanto outras cinqüenta aguardavam para chegar à praia. Vandegrift recebeu uma mensagem informando-o de que eram precisos mais 500 homens para o descarregamento, mas não havia disponibilidade senão de 15 homens para cada cargueiro. Já anoitecera quando o comandante do grupo de terra foi obrigado a informar que a situação estava fora de controle e mandou-se parar a vinda de suprimentos dos navios. O relatório oficial dizia que o caos fora provocado por "total falta de concepção do número de homens necessários para descarregar os barcos e tirar o material da praia, pelo fracasso em ampliar os limites da praia mais cedo, durante a operação e, até certo ponto, pela falta de controle dos soldados na praia e na sua vizinhança imediata... "

 

A desorganização da situação do abastecimento e o serviço falho de inteligência, que levou Cates e seu 1o RFN a fracassarem na tentativa de alcançar o Monte Austen, eram duas grandes preocupações de Vandegrift. Sob outros aspectos, tudo saíra bem no desembarque de Guadalcanal. Vandegrift concentrou-se em tentar manter seu programa original. Às 14:00 h deu ordens para que o I/5o RFN avançasse para oeste, até o Arroio Aligátor, e se entrincheirasse para passar a noite. Duas horas depois o General Vandegrift desceu a terra e instalou seu posto de comando. Já então houvera dois ataques aéreos japoneses. O primeiro ocorrera às 13:20 h, quando o Contra-Almirante Sadayoshi Yamada, no comando da 25a Flotilha Aérea Japonesa, enviou 24 aviões para bombardear Tulagi. O aviso do ataque foi dado por uma das onipresentes sentinelas costeiras, e os americanos estavam preparados. Doze aviões japoneses foram derrubados pelos Wildcat do porta-aviões Saratoga, mas o destróier Mugford foi atingido e 22 homens morreram. As 15:00 h houve um ataque de 10 bombardeiros de mergulho Aichi 99 e depois os japoneses desapareceram pelo resto do dia. Seis hidroaviões do Astoria e três do Quincy ocuparam os céus de Guadalcanal, para lançar bombas de fumaça para marcar as extremidades das praias de desembarque e como aviões observadores para a artilharia dos fuzileiros navais.

 

No começo da noite, Cates e seus fuzileiros haviam quase parado em sua progressão, por causa do calor e da vegetação rasteira. Vandegrift compreendeu que não seria possível alcançar o Monte Austen naquele dia. Assim, ele mudou os planos, dando novas ordens do seu posto de comando. Os navais deveriam entrincheirar-se para passar a noite. Na manhã seguinte, o 1o RFN se dirigiria para oeste, para o Lunga, esquecendo-se do Monte Austen, e ocuparia a pista de pouso no Lunga, prosseguindo, a seguir, para Kukum.

 

A noite de 7 para 8 de agosto foi barulhenta, mas somente porque muitos fuzileiros, nervosos, disparavam contra sombras. Não houve nenhum ataque japonês. Na manhã seguinte, sábado, dia 8, às 09:30, o I Batalhão do 5o de Fuzileiros Navais, apoiado pelo 1o Batalhão de Tanques, cruzou a foz do que nos mapas em código era chamado Arroio Aligátor. Na verdade, este era o Rio Ilu, embora o serviço de inteligência erradamente levasse os navais a pensar que se tratava do Tenaru, e foi com este nome que ele continuou sendo conhecido durante algum tempo. Obedecendo às instruções recebidas, o I/1o RFN desviou-se para oeste, afastando-se do Monte Austen, e começou seu avanço. Uma vez mais, essa unidade progrediu com lentidão e teve muita dificuldade em cruzar um arroio, enquanto os II e III Batalhões avançaram com mais rapidez pela selva. O dia foi longo e quente e, no fim deste, o I Batalhão do 1o RFN havia alcançado e passado o aeródromo, mas, por sua vez, os II e III Batalhões não avançaram com tanta rapidez. Ainda estavam ao sul da pista de pouso quando chegou a hora de se entrincheirar para a noite.

 

O 5o RFN progrediu satisfatoriamente e também encontrou soldados japoneses isolados, que se haviam atrasado na retirada. Alguns prisioneiros foram feitos, verificando-se que não havia probabilidade de qualquer resistência japonesa imediata. Isto fez com que Vandegrift ordenasse ao 5o RFN que se reagrupasse e avançasse com mais rapidez, numa frente menos ampla. O regimento atravessou o Lunga pela ponte principal; margeando o aeródromo para o norte, ele avançou para Kukum, capturando grandes quantidades de alimentos e equipamentos abandonados.

 

Na cabeça-de-praia, o dia fora menos satisfatório para os americanos. Outra força de aviões japoneses, bombardeiros Betty escoltados por caças Zero, tinha vindo de Rabaul. Jack Read, a sentinela costeira em Bougainville, enviou essa informação para a Austrália, de onde foi transmitida para Fletcher e Turner, ao largo de Guadalcanal. Todos os navios de transporte e de carga pararam o descarregamento e se fizeram ao mar, enquanto os Wildcat do Saratoga decolavam e tomavam posição sobre a Ilha de Savo. Os aviões atacantes japoneses evitaram os Wildcat, mas encontraram intenso fogo antiaéreo, que repeliu os bombardeiros-torpedeiros que voavam baixo. Mas alguns conseguiram passar. Um Betty chocou-se contra o convés do transporte George Elliott, explodindo e incendiando o navio. O destróier Jarvis também foi posto fora de ação.

 

Os americanos tinham motivos para estarem orgulhosos da eficiência dos pilotos dos seus Wildcat e aos seus artilheiros antiaéreo, mas, a 8 de agosto, Fletcher era um homem muito preocupado. Sua força de caças fora reduzida de 99 para 78 aviões e os suprimentos de combustível estavam perigosamente baixos. Fletcher decidiu que não podia dar-se ao luxo de arriscar a "Força-Tarefa 61", permitindo-lhe ficar ao largo das costas de Guadalcanal. Às 18:07 h de 8 de agosto, entrou em contato com Ghormley e defendeu vigorosamente a necessidade de retirar seus porta-aviões. Ghormley relutou em concordar com o pedido, mas achava que estava muito longe do palco das operações para negar uma exigência apoiada em termos tão urgentes. O pedido foi aceito e veio a ser uma das mais controvertidas decisões tomadas durante toda a campanha de Guadalcanal. Fletcher tinha combustível suficiente para mais alguns dias. Os ataques aéreos japoneses haviam sido repelidos e a maioria dos seus navios estavam intactos. Além disso, metade dos suprimentos encontrava-se ainda por desembarcar.

 

A decisão de Ghormley foi transmitida para Turner, que, famoso pelos seus vivos rompantes de palavrões, foi, no entanto, extraordinariamente comedido, embora mais tarde se referisse acerbamente a esta "deserção das partes vitais da força". Turner chamou Vandegrift e o Contra-Almirante Crutchley à sua nave-capitânia, McCawIey, e os informou de que Fletcher estava de partida, levando consigo o apoio aéreo e considerável porção de suprimentos. Atenuando a verdade, Vandegrift disse que o movimento era "muito alarmante". Turner concordou e passou a abordar os detalhes. Nem todos os navios seriam retirados; Crutchley ficaria no comando do grupo misto de cruzadores australianos e americanos, formado do Australia, Canberra, Chicago, Vincennes, Astoria, Quincy e seis destróieres.

 

Enquanto se realizava uma reunião sombria a bordo do McCawley, uma força naval japonesa se aproximava de Guadalcanal, com ordens de atacar e destruir os transportes americanos ancorados ao largo da ilha. Esta força era comandada pelo Vice-Almirante Mikawa, Comandante-Chefe da 8a Frota, e era formada de cinco cruzadores pesados, dois leves e um destróier. A 8 de agosto, enquanto os navios desciam a costa de Bougainville, foram avistados por dois aviões de reconhecimento australianos. Ou os pilotos deram informes incorretos ou foram truncados na recepção, porque o Almirante Turner só recebeu a mensagem às 18:00 h. Ele supôs que a força japonesa se dirigia para Gizo, mas transmitiu o informe para Crutchley, por questão de rotina.

 

Entrementes, Mikawa, que dirigia a força expedicionária no Chokai, navegava pela "Abertura" entre as duas cadeias das Ilhas Salomão e se aproximava de Savo sem ser visto. Crutchley não deixara nenhum plano de combate com seus navios enquanto conferenciava com Turner e Vandegrift. Dois destróieres equipados com radar. O Blue e o Ralph Talbot, estavam ancorados de ambos os lados do canal, a noroeste da Ilha de Savo. Entre esta e o Cabo Esperança, as águas estavam sendo patrulhadas pelos cruzadores Australia, Canberra e Chicago e pelos destróieres Bagley e Patterson. Também havia atividades de patrulha entre a Savo e a Florida, pelos cruzadores Vincennes, Astoria e Quincy e pelos destróieres Hebxt e Wilson. Dois outros cruzadores e vários destróieres supervisionavam os transportes.

 

Mikawa navegava cautelosamente para Savo enquanto a noite caía, esperando ser avistado a qualquer momento, mas a sorte não o abandonou. À meia-noite, vários hidroaviões partiram dos seus cruzadores e se dirigiram para os navios americanos e australianos e foram ouvidos pelos americanos que comunicaram a presença de aviões não identificados sobre eles. Ainda assim, os vasos japoneses não foram avistados. À 01:00 h do dia 9 de agosto, um avião do Chokai lançou foguetes luminosos sobre os transportes americanos. Ao mesmo tempo, os navios japoneses navegaram entre o Blue e o Ralph Talbot protegidos pela escuridão. Nem o radar nem os vigias informaram da presença dos intrusos, embora o Blue, em particular, estivesse muito perto dos navios inimigos que passavam pelo canal.

 

Uma vez cruzada a entrada, Mikawa mandou que se aumentasse a velocidade para 30 nós. Então seus navios abriram fogo e lançaram torpedos contra o Canberra e o Chicago; a marinha americana estava prestes a sofrer uma das suas mais desastrosas derrotas. O Canberra foi destruído e seu casco arruinado acabou de ser afundado, na manhã seguinte, por destróieres americanos. O Chicago ficou avariado, tendo sua proa arrancada. Agindo com precisão, a força de Mikawa dividiu-se em duas, com quatro vasos dirigindo-se para nordeste e três para norte. A 01:45 h, os navios japoneses atacaram o Astoria, o Quincy e o Vincennes; os comandados por Mikawa iluminaram os navios americanos com seus refletores e desfecharam terrível ataque com granadas de 8 polegadas e torpedos. O Astoria revidou, mas foi destruído pelo fogo, afundando no dia seguinte. O Quincy foi a pique às 02:00 h. Quinze minutos depois, o Vincennes afundou. Mikawa conseguira a mais espantosa vitória naval. Os transportes americanos estavam indefesos à sua frente. Se Mikawa tivesse avançado e os destruído, é possível que o rumo da campanha de Guadalcanal, e mesmo da guerra do Pacífico, tivesse sido diferente, mas o almirante não fez nada disso. Havia várias razões para sua cautela. Uma granada do Astoria destruíra a praça de controle do Chokai; seus navios tinham demorado a se reagrupar, e havia a possibilidade de que aviões dos porta-aviões da "Força-Tarefa 61" destruíssem a sua força. Levando tudo isso em conta, o Almirante Mikawa entendeu que tinha feito o bastante. Às 02:23 h ele ordenou que seus navios se retirassem. Na entrada do canal, ao largo da Ilha de Savo, houve breve combate com o Ralph Talbot em meio a violenta tempestade e o navio americano foi danificado antes que os japoneses ficassem fora do seu alcance.

 

Mikawa retornou a Rabaul e às saudações dos seus conterrâneos. Houve uma tranqüila palavra de reprovação do seu superior, Almirante Yamamoto, Comandante-Chefe da Frota Combinada, por não ter também atacado os transportes, mas, no todo, os japoneses trataram a Batalha da Ilha de Savo como a vitória retumbante que realmente fora. Mesmo o fato de Mikawa haver perdido um navio, o Kako, afundado por um submarino americano na viagem de volta, não diminuiu a significação de seus esforços.

 

Desde as primeiras horas da manhã de 9 de agosto, os barcos de salvamento estiveram ocupados no recolhimento dos sobreviventes ao largo de Guadalcanal. Em cinco horas, cerca de 700 homens foram levados para terra. Os relatos desses sobreviventes deram aos fuzileiros navais, na ilha, uma idéia muito clara da extensão da vitória japonesa durante a noite. Num esforço para evitar que o público no país ficasse deprimido, King demorou algumas semanas para liberar os detalhes da derrota ao largo de Ironbottom Sound, como veio a ser chamada a ação. Quando ele veio a saber da plenitude da derrota naval sofrida pelos navios comandados por Crutchley, a imprensa desfechou violenta campanha contra o infeliz inglês.

 

O desastre da Ilha de Savo justificou os desejos de Fletcher de retirar sua força-tarefa da área de perigo. O resto das horas diurnas de 9 de agosto foi gasto nos preparativos para a partida. Ao anoitecer, a "Força-Tarefa 61" afastou-se de Guadalcanal, deixando os fuzileiros navais entregues à própria sorte.

 

 

Contra-ataque

Em Guadalcanal, Vandegrift examinou a situação, cujas perspectivas não eram nada encorajadoras. Os americanos haviam perdido o controle dos mares em torno das Salomão e a fonte mais próxima de apoio aéreo era Espírito Santo, nas Novas Hébridas. Não houvera tempo para descarregar metade dos suprimentos antes que a "Força-Tarefa 61" fosse embora, e já havia séria escassez de alimentos e materiais. Estava baixo o moral dos soldados, que sofriam da terrível combinação do calor e da umidade, e desanimados diante do que consideravam a deserção da marinha.

 

Vandegrift decidiu que não estava em posição de atacar, e o plano que traçou salientava vigorosamente a defesa. O projeto mais importante e imediato era fazer com que o aeródromo ficasse em condições de operar. Até que isto fosse feito, ele formaria um muro defensivo em torno do mesmo; essa linha de defesa se estendia desde a área do Lunga até o Rio Ilu. Ao mesmo tempo, seus navais tinham de estar alerta, à espera de um ataque japonês pelo mar. Era o caso de entrincheirar-se, e foi exatamente isso que os fuzileiros fizeram. Uma linha de tocas fortificadas circundava o perímetro da área a ser defendida; instalaram-se metralhadoras de calibres .30 e .50, apoiadas por canhões de 37 mm. Canhões antiaéreos de 90 mm foram colocados ao redor do aeródromo e Vandegrift deu ordens para que seus blindados estivessem em constante prontidão para entrar em combate.

 

Felizmente o tempo em agosto, embora opressivo, era bom. Só mais tarde é que as chuvas chegaram. Entrementes, era preciso enfrentar os mosquitos transmissores de malária e doenças tropicais. Havia também os bombardeios japoneses a pequena altitude e os bombardeios esporádicos, de navios e submarinos, ao largo da costa de Guadalcanal.

 

Vandegrift despachou patrulhas de sondagem e se tornou evidente que os japoneses haviam recuado para oeste e estavam acampando às margens do Rio Matanikau, perto de Kukum. Quaisquer patrulhas americanas que se aventuravam a atravessar esse rio eram repelidas pelo fogo certeiro de armas portáteis, às vezes com perdas de vida. Foi perto do Matanikau que Vandegrift perdeu seu oficial do serviço de inteligência, Tenente-Coronel Goettge, e mais de 20 homens de uma patrulha despachada para investigar o informe de um prisioneiro, segundo o qual os japoneses, na área, estavam esperando para se renderem. A patrulha sofreu uma emboscada e somente três homens escaparam com vida.

 

Muitos dos fuzileiros navais em Guadalcanal achavam que tinham sido largados ali para morrer, comparando sua situação com a dos homens deixados em Bataan. A sensação de isolamento que os assaltava diminuiu um pouco a 14 de agosto, quando três transportes-destróieres, o Little, o Mckean e o Gregory, sofrendo embora as aperturas dos ataques de aviões e navios inimigos, conseguiram desembarcar combustível, munição e suprimentos vários.

 

A 17 de agosto, preocupado com a proximidade dos japoneses na margem oeste do Matanikau, Vandegrift realizou uma pequena operação para proteger suas linhas, fazendo recuar o inimigo. O empreendimento, com três pontas, foi bem sucedido, mas Vandegrift ficou intranqüilo com o número de detalhes que saíram errados. Três companhias de fuzileiros receberam instruções para atacar os japoneses. Uma, sob o comando do Capitão Lyman Spurlock, penetraria uns 800 m, cruzaria o rio e então atacaria de volta, na direção do mar, isto é, na direção de onde tinha iniciado sua progressão. O fogo de cobertura seria proporcionado da margem leste do rio, por uma companhia comandada pelo Capitão William Hawkins, que mais tarde cruzaria o rio, se possível. O Capitão Bert Hardy Jr. levaria a terceira companhia, de barco, até 3.200 m a oeste do rio, desembarcaria em Kokumbona e avançaria para o leste.

 

A operação teve lugar a 19 de agosto, dois dias depois de planejada, e tornou-se o primeiro encontro considerável entre as duas foiças inimigas, em Guadalcanal. Destacado para proporcionar o fogo de cobertura, Hawkins verificou que sua própria companhia estava retida por metralhadores japoneses instalados do outro lado do Matanikau. Contudo, Spurlock levou sua companhia avante, com algumas perdas, até a aldeia de Matanikau. Como acontecia com freqüência, as comunicações pelo rádio se interromperam e a terceira companhia, comandada por Hardy, atrasou-se muito, porque seu pequeno barco fora bombardeado por um submarino japonês enquanto costeava a ilha.

 

A guarda avançada de Spurlock já estava sendo atacada. Ele decidiu não romper contato com o inimigo, e deu ordens para avançar. Os japoneses reagruparam-se e desfecharam um ataque a baioneta, um dos famosos ataques Banzai, contra os americanos; as automáticas Browning mataram 65 japoneses e o resto fugiu.

 

Entrementes, a companhia de Hardy, tendo evitado o submarino, encontrou-se com dois destróieres japoneses, mas conseguiu escapar e completar um desembarque atrasado, perto da aldeia de Kokumbona, ocupada pelo inimigo. Depois de breve combate, os japoneses fugiram para a selva; os americanos haviam garantido suas linhas e tornado sua cabeça-de-praia um pouco mais segura.

 

Vandegrift ficou satisfeito com esta sua primeira ação terrestre, mas estava longe de se sentir contente com a situação geral. Ele não dispunha de homens ou suprimentos suficientes para avançar, e tinha dúvidas quanto à capacidade dos seus homens de repelir um ataque constante de forças japonesas mais fortes, opinião esta partilhada por Ghormley, que advertiu King de que os japoneses poderiam rechaçar os fuzileiros, fazendo-os voltar para o mar, a menos que se lhes enviassem reforços. Em Washington, prevalecia na cúpula militar o sentimento de que, embora o desembarque nas Salomão tivesse sido bem sucedido, não houvera planejamento ou preparativo suficiente para a guerra de atrito que parecia aproximar-se. Poucos membros dos Chefes Conjuntos de Estados-Maiores teriam concordado com os termos da mensagem do Presidente Roosevelt a Stalin, de 19 de agosto: "Conseguimos um ponto de apoio no sudoeste do Pacífico, de onde os japoneses terão muita dificuldade em nos desalojar... e vamos manter o inimigo sob intensa pressão".

 

Felizmente para a causa Aliada, o comando militar japonês parecia estar tão confuso com a campanha de Guadalcanal quanto os americanos. Em Tóquio, a princípio acreditava-se que os americanos em pouco abandonariam essa ilha "insignificante". Quando se tornou evidente que Vandegrift estava-se entrincheirando, aí então foram apressados planos para desalojá-lo. O Tenente-General Haruyoshi Hyakutake e o 17o Exército receberam ordens para retomar Guadalcanal e Tulagi antes de passarem à tarefa mais importante de capturar Port Moresby. Havia 50.000 homens na força de Hyakutake, mas não estavam todos no mesmo lugar. A 2a Divisão encontrava-se em Java e nas Filipinas e outras unidades, na Nova Guiné e em Guam. O general não estava indevidamente preocupado com sua falta de efetivos. Julgava ele que uma unidade de combate de elite deveria bastar para expulsar os americanos das Salomão. O Coronel Kiyanao Ichiki e o 28o Regimento de Infantaria, de Guam, deviam ser capazes de realizar a tarefa antes que o resto do 17o Exército se reagrupasse e atacasse a Nova Guiné.

 

O Coronel Ichiki era um oficial valente e experimentado: Lutara com distinção na China. Os acontecimentos mostraram ser ele rude e impetuoso. Em agosto de 1942 ele foi considerado o homem ideal para retomar Guadalcanal. Suas ordens eram para "recapturar rapidamente os aeródromos em Guadalcanal. Se não for possível, este destacamento ocupará uma parte de Guadalcanal e aguardará a chegada de tropas a sua retaguarda". Ichiki recebeu ordens para formar uma ponta-de-lança de 900 soldados, levá-la em seis destróieres e desembarcar na Ponta de Taivu, a cerca de 32 km dos americanos, logo depois da meia-noite de 18 de agosto. Os 2.500 homens restantes do seu destacamento viriam logo atrás, por certo dentro de sete dias.

 

Em Guadalcanal, o General Vandegrift continuava despachando patrulhas. A 14 de agosto, um jovem inglês, barbado e maltrapilho, apresentou-se ao QG americano, tendo passado pelas linhas japonesas com 20 nativos, transportando oferendas de frutas frescas! Era Martin Clemens, a sentinela costeira e ex-delegado distrital. Vandegrift aceitou grato a oferta de ajuda do inglês. Os relatórios do serviço de inteligência sobre os movimentos dos navios mercantes japoneses lhe tinham sido enviados, enquanto o próprio Clemens confirmava o aumento de forças japonesas no leste. Clemens e seus exploradores, entre os quais o Sargento-Ajudante Jacob Vouza, um policial reformado que se tinha apresentado para oferecer seus serviços, ao irromperem as hostilidades nas Salomão, realizou várias patrulhas em cooperação com os fuzileiros navais.

 

Por volta de meia-noite de 18 de agosto, as sentinelas postadas na praia de Guadalcanal ouviram o marulho de navios que passavam. Eram os destróieres da ponta-de-lança de Ichiki, prestes a desembarcar soldados a 35 km a leste da cabeça-de-praia americana. Na manhã seguinte, o Sargento-Ajudante Vouza foi despachado, à frente de pequena patrulha, para ver o que podia descobrir. Naquela mesma manhã, o Capitão Charles Brush, acompanhado de quatro policiais das Ilhas Salomão e 80 fuzileiros navais da Companhia Able, do 1o RFN, dirigiram-se para leste, rumo à Ponta de Koli, em idêntica empresa de busca. Alguns soldados japoneses foram avistados ao meio-dia, e soube-se que pertenciam à força de Ichiki. Brush tomou posição diante dos japoneses e mandou seu oficial executivo, Tenente Joseph Jachym, para a direita, a fim de tomar posição à esquerda e atrás deles. Os dois grupos de fuzileiros abriram fogo ao mesmo tempo, matando 31 dos 34 japoneses. Ao serem examinados os mortos, descobriu-se que eram pessoal do exército, e não os homens da marinha que antes vinham combatendo os americanos em Guadalcanal. Também havia elevada proporção de oficiais entre os mortos. E mais importante ainda era o fato de que alguns dos oficiais traziam consigo mapas exatos da área de Tenaru, salientando os pontos fracos da defesa dos fuzileiros navais. Mais tarde, descobriu-se que os japoneses, do Monte Austen, haviam examinado as linhas americanas com extremo cuidado.

 

Era evidente que forças do exército japonês haviam desembarcado e que seu serviço de inteligência era bom. O que não era tão evidente era o momento do ataque e a sua direção. Vandegrift deu ordens para que toda sua força ficasse em constante estado de alerta.

 

Enquanto o Capitão Brush e a Companhia Able tinham estado eliminando os japoneses, a patrulha de Vouza também travara combate com o inimigo. Na verdade, ele foi capturado e os japoneses amarraram-no a uma árvore e o interrogaram, dizendo-lhe que seria morto se não revelasse a localização de todas as tropas americanas na área. Vouza manteve-se calado, recebendo golpes de baioneta no rosto, no pescoço e no peito. Seu braço foi talhado com uma espada e deixaram-no como morto. Depois que os japoneses se foram, Vouza conseguiu soltar-se e arrastar-se até as linhas americanas, fazendo um relatório sobre os efetivos japoneses, antes de ser hospitalizado. Por seu heroísmo, Vouza foi agraciado com a "Estrela de Prata" e a "George Medal Britânica".

 

Foi bem cedo, na manhã de 21 de agosto, que Ichiki iniciou seu ataque à linha americana, perto da foz do Arroio Aligátor, no Rio Ilu (que os americanos ainda conheciam como Tenaru). Ichiki decidira que os 900 homens que tinha consigo bastavam para a tarefa e não precisava esperar pelos 2.500 que ainda seriam transportados para Guadalcanal. Chegara a hora do contra-ataque japonês.

 

Este ocorreu às 02:40 h. A "Operação Ka", a tentativa japonesa de retomar Guadalcanal, estava em andamento. Ichiki reuniu seus homens na selva, a leste do rio, defronte ao banco de areia. Sua artilharia leve abriu fogo contra os americanos do outro lado do rio e suas metralhadoras pesadas Nambu também entraram em ação. A seguir, Ichiki liderou 500 dos seus homens numa investida Banzai pelo banco de areia. Os americanos abriram fogo com tudo o que tinham: metralhadoras, fuzis automáticos, morteiros e granadas. Muitos japoneses morreram ao atravessar o rio; alguns alcançaram a outra margem e foram detidos pelo arame farpado e massacrados enquanto tentavam livrar-se. Os sobreviventes voltaram em fuga para a margem leste do rio.

 

Às 05:00 h eles tentaram novamente. Desta feita, Ichiki conduziu seus homens flanqueando o banco de areia, na foz do rio, passando pela arrebentação que vinha do mar. Canhões e morteiros lhes davam pouca cobertura. O objetivo do seu ataque era a posição americana na praia, muito menos fortificada do que as outras. Esta era comandada pelo Tenente-Coronel Edwin Pollock, chefe do II Batalhão do 1o RFN. Berros de "Fuzileiro, você morrer!" anunciaram a chegada dos japoneses. Os bons atiradores de Pollock alvejaram-nos um a um, e uma vez mais Ichiki foi obrigado a recuar, com seu comando dizimado.

 

Mas alguns dos japoneses permaneceram; era possível ouvi-los movendo-se pela selva, do lado leste do rio, erroneamente considerado como o Tenaru. O Coronel Gerald Thomas, Oficial de Operações da Divisão, insistiu junto a Vandegrift para que este ordenasse um avanço imediato. Centenas de corpos de japoneses jaziam no banco de areia e nas duas margens do rio. Um ataque rápido poderia envolver os sobreviventes e expulsá-los para o mar. Vandegrift concordou e foi ao posto de comando de Cate para dar a instrução. O batalhão de reserva, o (I/1o RFN de Cate), sob o comando do Tenente-Coronel Creswell, recebeu ordens para cruzar o rio mais acima, dobrar à direita e empurrar os japoneses para o mar, enquanto o de Pollock desfechava uma chuva mortífera de artilharia, do outro lado do rio. Um pelotão de tanques leves seria trazido para ajudar no empreendimento. Também se poderia usar aviões dos fuzileiros.

 

A operação teve sucesso. Os fuzileiros navais de Creswell atravessaram o rio e expulsaram os japoneses das suas tocas. Com a pista de pouso livre de empecilhos, puderam os aviões sair para operações de bombardeio. A artilharia de Pollock e o fogo das armas automáticas contribuíram para a carnificina, enquanto os tanques que atravessavam pesadamente o banco de areia esmagavam cadáveres com suas lagartas, até que, nas palavras de Vandegrift, "as traseiras dos tanques pareciam máquinas de moer carne".

 

No final da tarde, a Batalha de Tenaru (Ilu) terminara; 800 japoneses haviam sido mortos, 15 feitos prisioneiros e muitos dos sobreviventes morreram na selva, em conseqüência de ferimentos. Os americanos tiveram 43 mortos. O Coronel Ichiki estava entre os sobreviventes que conseguiram chegar a Taivu. Com ele, sua bandeira regimental. O coronel despejou óleo sobre a bandeira esfrangalhada, queimou-a e, depois, matou-se.

 

De muitas maneiras, a Batalha de Tenaru foi um momento decisivo. Sobretudo, ela destruiu o mito da supremacia nipônica. Os japoneses ainda eram, obviamente, combatentes decididos. Até mesmo os feridos que jaziam nas margens do Tenaru continuaram lutando enquanto puderam lançar granadas ou apertar um gatilho, mas não eram mais os super-homens da lenda. Eles podiam ser derrotados, e os americanos provaram isto nas ilhas em torno de Tulagi e o confirmaram às margens do Rio Ilu. Também ficou provado que a superioridade da estratégia militar japonesa era em grande parte ilusória. O Coronel Ichiki errara seriamente na Batalha de Tenaru. Seu ataque frontal à principal posição americana fora desastroso, depois que sua patrulha exploratória fora quase que totalmente eliminada, o que parecia exigir uma aproximação mais cautelosa, rio acima e pela selva. Eles fizeram, entretanto, o que a arrogância de Ichiki determinou, baseado na crença, na época partilhada pelo pessoal do Alto-Comando japonês, de que os americanos em Guadalcanal não estavam em condições de resistir a um ataque decidido. A suposição de Ichiki revelou-se incorreta, e o resultado disso foi um reforço incalculável para o moral do povo dos Estados Unidos e para os fuzileiros navais em Guadalcanal.

 

Apesar da vitória local sobre Ichiki, havia muito o que fazer antes que se pudesse considerar segura a posição de Vandegrift em Guadalcanal. Os japoneses estariam mais que nunca decididos a retomar a ilha e; no processo, salvar as aparências, obtendo a vitória mais completa possível sobre os americanos. A "Operação Ka" estava longe de poder ser considerada terminada. O Comandante dos navais recorria à ajuda de forças de terra e mar. Engenheiros do Corpo de Fuzileiros Navais esforçavam-se, usando equipamento japonês capturado, por tornar a pista de pouso utilizável e já a 22 de agosto, um aerobote Catalina, pilotado por um ajudante-de-ordens do Contra-Almirante McCain, encarregado das operações aéreas baseadas em terra, pousou no aeródromo. O ajudante então inspecionou a pista, de apenas 800 m de comprimento; ela não tinha cobertura de tela de aço nem pistas de rolamento e não havia sistema de drenagem. Dependendo do tempo, o aeródromo ou era um pântano ou um mar de poeira. Contudo, o ajudante-de-ordens o considerou adequado para operações de aviões-caça.

 

A pista de pouso, logo batizada com o nome "Campo Henderson", em homenagem a um herói de Midway, recebeu seu primeiro contingente de aviões operacionais a 20 de agosto, a tempo de se juntarem às operações de limpeza depois da Batalha de Tenaru. Eram 31 aviões entregues pelo Long Island, um navio convertido em porta-aviões e ancorado ao largo de San Cristobal. Foi uma visão agradável para os fuzileiros, em terra, quando eles fizeram um circuito sobre a cabeça-de-praia antes de aterrissar. Doze bombardeiros de mergulho Dauntless eram comandados pelo Major Richard Mangrum, e 19 caças Wildcat estavam sob a supervisão do Capitão John Smith, todos pertencentes ao Corpo de Fuzileiros Navais. Não eram muitos, mas esses aviões teriam um efeito espetacular sobre a campanha de Guadalcanal.

 

Vandegrift esperava que a marinha desse idêntico apoio. Era certo que os vasos japoneses em breve estariam desembarcando reforços em Guadalcanal. Aliás, esses homens já estavam a caminho. O restante da força de Ichiki, juntamente com a 5a Força Naval Especial de Desembarque, embarcara em Truk no transporte Kinryu Maru e em quatro navios convertidos em destróieres e que estavam sendo escoltados para as Salomão pelo veterano Contra-Almirante Raizo Tanaka. Uma força muito maior viria logo após e, mais importante ainda, uma grande força naval recebeu ordens de se fazer ao mar para destruir os porta-aviões americanos - que, segundo se informava, estavam em algum ponto entre as Salomão e as Novas Hébridas - bombardear e destruir o "Campo Henderson" e prover fogo de artilharia para proteger os homens que estavam sendo escoltados pelo Almirante Tanaka. Doze submarinos japoneses já estavam à espreita nas águas ao largo de Guadalcanal e Tulagi.

 

Os relatórios do serviço de inteligência informavam a Vandegrift que uma grande força naval inimiga se reunira em Rabaul e rumava para Guadalcanal. A princípio, não se percebeu muito bem o vulto desta armada. Havia duas forças-tarefas, consistindo, ao todo, de três porta-aviões, 8 couraçados, 4 cruzadores pesados, 21 destróieres e vários outros vasos de guerra, navegando sob a proteção de aviões da 25a Flotilha Aérea baseada em Rabaul. Nesse momento, as forças navais americanas estavam navegando a cerca de 160 km a sudeste de Guadalcanal. O Almirante Fletcher tinha sob seu comando 3 porta-aviões, 1 couraçado, 4 cruzadores e 10 destróieres. Os aviões de patrulha americanos avistaram diferentes navios japoneses nos dias 23 e 24 de agosto, enquanto os aviões de observação japoneses reconheceram a força americana a 24 de agosto.

 

A Batalha das Salomão Orientais, travada a cerca de 320 km de Guadalcanal, foi, em muitos aspectos, semelhante à de Midway. Toda a ação teve lugar entre aviões atacantes e navios. Nenhum vaso de superfície entrou em contato um com o outro. Ao contrário de Midway, a Batalha das Salomão Orientais não foi uma nítida vitória americana, transformando-se numa espécie de impasse. A 24 de agosto, 38 aviões Dauntless e Avenger, do porta-aviões Saratoga, atacaram e afundaram o porta-aviões japonês Ryujo. Na mesma tarde, os japoneses atacaram o porta-aviões americano Enterprise. Fletcher tomara o cuidado de manter 53 Wildcat em vôo sobre o porta-aviões. Estes se abateram sobre os Zero, Kate e Yal ao mesmo tempo que os canhões antiaéreos do porta-aviões abriam fogo. Houve terrível e encarniçada luta naquela área do Pacífico. O Enterprise foi seriamente avariado, mas conseguiu afastar-se, escoltado por vários cruzadores e destróieres, enquanto os aviões japoneses eram obrigados a retornar aos seus porta-aviões.

 

Houve outras baixas na Batalha das Salomão Orientais. Além de Ryujo, os japoneses perderam um destróier e um cruzador, e o porta-hidroaviões Chitose e um cruzador ficaram avariados. Noventa aviões japoneses foram derrubados, contra um total de 20 americanos. O Almirante Fletcher retirou seus navios ao entardecer de 24 de agosto, esperando voltar e reiniciar a batalha no dia seguinte, mas os japoneses também romperam o combate e se afastaram para área distante. A Batalha das Salomão Orientais chegara a um fim inconcludente.

 

Antes que o Ryujo fosse atacado por aviões americanos, 21 dos seus aviões haviam decolado para atacar Guadalcanal. A estes juntaram-se alguns bombardeiros Betty, de Rabaul, e todos se dirigiram para o "Campo Henderson". Foram recebidos pelos Wildcat da "Força Aérea Cactus", em Henderson. Dezesseis aviões japoneses foram derrubados. Quatro dias depois, aviões do "Campo Henderson" interceptaram quatro transportes japoneses que traziam 3.500 soldados. O destróier Asagiri explodiu, o Yugiri foi incendiado e o Shirakuma ficou avariado.

 

As condições em que os pilotos e as tripulações de terra trabalhavam nos primeiros tempos de funcionamento do "Campo Henderson" eram infernais e não melhoraram nada com a falta de previsão em Washington, notadamente por causa da predileção do General Arnold pelos P-40. Os pilotos desses aviões precisavam de oxigênio de alta pressão, para voar a grandes altitudes, e não havia oxigênio engarrafado sob alta pressão em Guadalcanal. Limitados a uma altitude de uns 3.000 m, o P-40 era um alvo fácil para qualquer Zero que passasse por ali. No final, Vandergrift deu ordens para que esses aviões fossem equipados com uma bomba de 500 libras e os usassem somente em missões de bombardeio.

 

Outro caso típico de projeto falho, para as condições, aconteceu com o SBD, cujos pneus, de borracha maciça, talvez fizessem dele um avião adequado para pousar no convés de um porta-aviões, mas eles destruíam a pista de pouso do "Henderson". No começo não havia guinchos para as bombas. Estas tinham de ser postas no porta-bomba a mão. A tripulação de terra também suava para bombear manualmente a gasolina de tambores de 50 galões, levando horas para reabastecer um punhado de aviões. Acrescente-se a isto as condições de vida dos pilotos, obrigados a viver em barracas, mais freqüentemente em trincheiras, e a comer arroz, alimento enlatado e picadinho como alimentação básica, e indigna de qualquer elogio.

 

Mas esses homens, apesar das condições em que viviam, contribuíram bastante para restabelecer o equilíbrio de poder em Guadalcanal. Eles certamente fizeram muita coisa para impedir que os fuzileiros navais de Vandegrift fossem expulsos da sua cabeça-de-praia, nos dias negros de agosto e setembro de 1942. Os pilotos eram valentes e hábeis, e tinham no Grumman Wildcat um avião digno deles. Em combate singular, o Wildcat não era páreo para um Zero, mas os americanos criaram um sistema tático segundo o qual cada Zero era sempre combatido por dois adversários. Se um Wildcat sozinho encontrasse um Zero, a prática aceita era o avião americano descarregar sua munição numa rajada rápida e rumar para o "Henderson" o mais rápido possível. De igual modo, os ataques a bombardeiros japoneses eram feitos diretamente de cima destes, ou descendo sobre eles pelo lado, evitando assim o artilheiro da cauda do avião inimigo.

 

Aos poucos, o número de aviões começou a aumentar, no "Campo Henderson". A 22 de agosto, 5 P-40 do exército pousaram ali. Às 14:30 h de 30 de agosto, 31 aviões chegaram, comandados pelo Coronel Wallace. Vieram depois 19 F4F-4 comandados pelo Major Robert Galer e 12 SBD-3, dirigidos pelo Major Smith. Em fins de agosto, Guadalcanal tinha 84 aviões americanos e 86 pilotos.

 

 

O Expresso de Tóquio

Os pilotos do "campo Henderson", com sua atividade diária, de combate e de bombardeio, muito contribuíram para que os fuzileiros navais se mantivessem firmes em Guadalcanal. Mas, no começo de setembro de 1942, Vandegrift não podia fingir que sua posição era tranqüilizadora. Com o objetivo de ganhar tempo, ele partira da Nova Zelândia, com alimentos para 60 dias, e não para 90, e metade desses alimentos não fora descarregada. Seus soldados, famintos, estavam sofrendo de disenteria e doenças tropicais, embora os piores efeitos da malária só se fizessem sentir em outubro. Poucos homens podiam manter-se, à noite, em sono tranqüilo enquanto aviões rondadores japoneses, apelidados de "Washing Machine Charlie" e "Louie the Louse", roncavam agourentamente pelo céu. Além disso, havia muito mais de 5.000 soldados japoneses em Guadalcanal, e o inimigo parecia capaz de desembarcar mais quase que à vontade.

 

A supremacia no mar dava aos japoneses a vantagem de poderem facilmente reforçar suas tropas em Guadalcanal. Os vasos japoneses, embora se limitassem principalmente a desembarques noturnos, desembarcavam desembaraçadamente companhias inteiras de soldados ao longo da costa e, na passagem de volta, bombardeavam as instalações americanas situadas nas proximidades da praia. O Almirante Tanaka mostrara ser o mais bem sucedido comandante naval no Pacífico. Ele repetidamente iludiu os aviões e navios de superfície americanos em suas viagens noturnas, até que os comboios para Guadalcanal se tornaram tão regulares e rápidos que passaram a ser conhecidos como "O Expresso de Tóquio". Apesar das divergências com o General Kawagushi, e das ordens contraditórias vindas de Rabaul, Tanaka fez desembarcar com sucesso a força de Kawagushi em Guadalcanal nas operações de desembarque denominadas "Rato", e continuou sendo um espinho para os americanos durante toda a campanha de Guadalcanal.

 

Com as forças japonesas desembarcando a leste e a oeste da área que ocupava, Vandegrift precisava de quantos soldados pudesse obter. Em fins de agosto, o general estava empenhado na transferência de homens de Tulagi para Guadalcanal, inclusive os Incursores de Edson. Vandegrift também começou a fazer avanços ocasionais e cautelosos, especialmente na área do Matanikau. Depois de um esforço inconcludente, montou-se outro a 27 de agosto, e que foi confiado ao I/5o Regimento de Fuzileiros Navais. Enquanto o 11o RFN mantinha fogo cerrado sobre a foz do Matanikau, a maior parte do 1o Batalhão embarcou na margem do perímetro e percorreu certa distância ao longo da costa, desembarcando atrás da linha de frente japonesa. Entrementes, uma companhia avançara por terra.

 

Às 07:30 h, o batalhão desembarcou e começou a dirigir-se para leste. A Companhia C foi comandada para a saliência acima da praia e recebeu ordens para se deslocar paralelamente às outras companhias, que avançavam mais abaixo. O terreno era acidentado e, depois de uma hora, a Companhia C, viu-se impossibilitada de acompanhar o resto do batalhão. Não havia comunicação pelo rádio. Por volta das 09:30 h, cessou de todo o contato entre os soldados que se mantinham na saliência e os que estavam abaixo. O batalhão parou e expediu mensageiros para buscar a Companhia C para uni-la ao corpo principal. Em troca, o 1o Pelotão da Companhia B e o pelotão de metralhadoras da Companhia D foram mandados para a saliência. Uma hora depois o batalhão deslocou-se novamente, apenas para ser recebido pelo fogo dos japoneses entrincheirados na faixa estreita da planície costeira. Os navais revidaram usando morteiros, e se entrincheiraram após tentarem inutilmente uma manobra de flanco. O comandante do batalhão, sentindo que o calor intenso e o terreno difícil tornariam impossível qualquer avanço, enviou uma mensagem radiofônica ao perímetro, pedindo que mandassem barcos a um ponto perto de Kokumbona para recolher seus fuzileiros. O Coronel Hunt respondeu quase que imediatamente: o comandante do batalhão foi destituído, entregando o comando ao seu subcomandante. Não haveria evacuação. O ataque prosseguiria. Mais tarde, naquele dia, o próprio Hunt chegou e supervisionou o entrincheiramento para a noite. Na manhã seguinte os fuzileiros navais atacaram apenas para descobrir que os japoneses haviam recuado durante a noite. Os americanos, então, dirigiram-se para a aldeia de Matanikau, onde barcos os recolheram e os levaram à área americana.

 

Vandegrift não permitiu que o fracasso de uma missão o dissuadisse. No início de setembro Clemens e seus exploradores começaram a enviar mensagens dizendo que cerca de 300 soldados japoneses bem armados se haviam reunido a oeste de Tasimboko. Vandegrift encarregou a Edson e seus homens a tarefa de destruí-los. Edson, com seus Incursores, que haviam voltado recentemente de Tulagi, planejaram cuidadosamente a operação. Ela levaria apenas um dia - 8 de setembro. Os destróieres que transportavam sua força dariam fogo de cobertura enquanto os americanos desembarcassem a leste de Tasimoko e avançassem para oeste. Um ataque aéreo, desfechado pelo pessoal do "Campo Henderson", ampliaria também a proteção.

 

Às 18:00 h de 7 de setembro, os Incursores embarcaram nos transportes-destróieres Manley e McKean e em dois pequenos barcos pesqueiros convertidos. Num último instante surgiu uma dificuldade, quando os exploradores informaram haver em Tasimboko muito mais japoneses do que os 300 originais, mas Vandegrift e Edson decidiram considerar exagerados esses relatórios. O 1o Batalhão de Pára-quedistas foi transferido para a Ponta de Lunga, para partir em apoio no dia seguinte.

 

Às 05:00 h eles chegaram à área de desembarque e os pequenos navios levaram os Incursores para terra. Um tiro acidental de um fuzil americano causou certa ansiedade, mas não houve indícios de que os japoneses em terra o tivessem ouvido. Uma vez em terra, os Incursores assumiram formação de combate para envolver a aldeia. A Companhia A estava à esquerda; a Companhia B ficou na praia e a Companhia C avançou selva adentro. Às 06:35 h, seis aviões decolaram do "Campo Henderson" para um ataque aéreo a oeste da aldeia. Ao mesmo tempo, os dois transportes-destróiéres, Manley e McKean, começaram a disparar granadas contra a área. As 08:55 h Edson comunicou ter travado ligeiro combate com o inimigo, mas os japoneses estavam recuando para o interior. Ele pediu que o apoio aéreo prosseguisse, no que foi atendido. Duas horas depois, Edson fez novo contato pelo rádio com a área americana, perguntando se seria possível desembarcar mais soldados para reforçá-lo a oeste de Tasimoko. Vandegrift respondeu que não, e recomendou que os Incursores retornassem ao Manley e McKean. Mas confirmou-se que o 1o Batalhão de Pára-quedistas estava a caminho e, de fato, esta força proporcionou proteção de flanco e de retaguarda para os Incursores em Tasimboko.

 

Às 11:30 h, Edson informou que seus homens estavam sob intenso fogo da artilharia japonesa. Ele reuniu sua força e avançou, apenas para descobrir que o inimigo recuara, deixando para trás grandes quantidades de alimentos, munição e suprimentos, o bastante para sugerir que 4.000 dos soldados de Kawagushi haviam estado lá. Não se descobriu a razão para 4.000 soldados japoneses recuarem diante de 1.000 americanos. É possível que Kawagushi quisesse concentrar-se em sua tarefa principal de cercar e tomar o "Campo Henderson" e que não tivesse nenhum desejo de ser atraído para quaisquer outras atividades. Outra razão aventada é que o aparecimento fortuito, ao largo da costa, dos navios americanos Fuller e Bellatrix, escoltados por destróieres, convenceu aos japoneses da iminência de grande desembarque. De qualquer modo, os Incursores tinham de destruir ou inutilizar um grande depósito de suprimentos antes de embarcar de retorno à base.

 

Por certo, era verdade que Kawagushi estava avançando laboriosa e gradativamente para o "Campo Henderson" e que a selva protegia o seu deslocamento, dificultando a observação dos pilotos americanos. Neste momento, na área de Tasimboko estavam o QG da 35a Brigada de Infantaria, a maior parte do 124o Regimento de Infantaria, o segundo escalão do destacamento de Ichiki e os sobreviventes do primeiro. Do outro lado do perímetro americano, que tinha cerca de 5 km², na região de Kokumbona (isto é, a oeste), estavam os restantes do 124o de Infantaria, o 11° e o 13° de Pioneiros e membros de uma Força Especial Naval de Desembarque.

 

Desde o início de setembro o pessoal do grupamento de engenheiros de Kawagushi vinha abrindo um caminho para o "Campo Henderson", desde Tasimboko, usando ferramentas manuais. À medida que a estrada avançava pela selva, unidades de infantaria e artilharia seguiam a de engenharia. Os informes dos exploradores nativos convenceram Vandegrift de que o ataque viria do leste, e ele fez o máximo, com os recursos disponíveis, para fortalecer sua linha de defesa na vizinhança do "Campo Henderson". Ele estava extremamente limitado em homens e material. A 4 de setembro, mais dois navios, o Little e o Gregory, haviam sido bombardeados e afundados, no Canal Sealark, por navios do Expresso de Tóquio de Tanaka. O recém-chegado comandante da 1a Brigada Aérea, Brigadeiro-General Roy Geiger, advertiu a Vandegrift de que as constantes lutas encarniçadas haviam cobrado tributo a seus aviões. No dia 10 de setembro só havia 31 Wildcat em condições de operar. Pelo menos dessa vez os pedidos urgentes de Vandegrift foram atendidos, e Ghormley enviou mais 24 Wildcat para o "Campo Henderson", que entraram em ação quase que imediatamente.

 

Também a 10 de setembro Edson mudou sua força mista de Incursores e Pára-quedistas para uma saliência a cerca de 1.500 m ao sul do "Campo Henderson", não muito longe do novo QG de Vandegrift. O comandante dos fuzileiros navais deslocara-se de um local a oeste da pista de pouso para colocar-se fora do alcance direto dos ataques aéreos japoneses. A saliência tinha uns 1.000 metros de comprimento, numa direção noroeste para sudeste, e era cercada por selva densa, em terreno bem acidentado. Era neste ponto que os japoneses infiltradores se defrontariam com os fuzileiros no que viria adequadamente a ser chamada de "Batalha de Bloody Ridge" ("Crista Sangrenta").

 

O ataque começou na manhã de 11 de setembro. Vinte e seis Betty bombardearam a saliência enquanto os fuzileiros colocavam cercas de arame farpado e cavavam tocas de abrigo. Mais tarde, naquele mesmo dia, Edson e seu oficial executivo, Tenente-Coronel Samuel Griffith, dirigiram-se para o sul, percorrendo cerca de 800 m à procura de indícios de atividade japonesa. Não viram nada, porém Clemens e seus exploradores informaram que grande força do inimigo percorria a selva. Edson providenciou para que os Pára-quedistas, no flanco esquerdo da saliência, e os Incursores, no centro e a oeste dela, ficassem em alerta o máximo e passou a aguardar os acontecimentos.

 

Vandegrift tinha outros problemas. Ghormley recebera uma mensagem ambígua, de Nimitz, na qual este pedia que MacArthur recebesse de Ghormley um regimento reforçado de tropas anfíbias experientes. As únicas tropas desse tipo estavam-se esforçando por manter o precário perímetro em Guadalcanal. Ghormley entregou a mensagem ao Almirante Turner, que ficou horrorizado. Longe de retirar um regimento de Vandegrift, este deveria receber mais um. Ghormley ouviu Turner e depois deu-lhe informações adicionais. Evidentemente o ataque japonês a Guadalcanal seria poderoso e Ghormley não julgava ter o material ou os navios que lhe permitissem ajudar os fuzileiros navais na ilha.

 

Foi com esta informação que Turner voou para Guadalcanal, na manhã de 11 de setembro. Parecia que Ghormley havia eliminado qualquer possibilidade de sucesso para a campanha naquela ilha. Os poucos quilômetros quadrados de cabeça-de-praia ocupados pelos navais de Vandegrift, e defendidos por tão alto preço, estavam prestes a ser abandonados. Turner, porém, não estava tão pessimista; ele prometeu a Vandegrift que faria o que pudesse para assegurar que o 7° Regimento de Fuzileiros Navais, que antes guarnecia Samoa, fosse mandado para Guadalcanal. Vandegrift, por sua vez, decidiu que seus homens defenderiam a área em que estavam o mais tempo que fosse possível, mas deu ordens a Geiger para que o comandante da força aérea tirasse seus aviões de Guadalcanal caso os fuzileiros fossem rechaçados. Entrementes, Vandegrift teria de esperar que Kawagushi tomasse a iniciativa.

 

O comandante dos fuzileiros navais não sabia que essa iniciativa fora marcada para 12 de setembro, a data que Kawagushi determinara para atacar o "Campo Henderson". O ataque seria apoiado por artilharia naval e sucessivos ataques aéreos, e seria feito de três direções. O próprio Kawagushi avançaria do sul do aeródromo com um batalhão do 124o de Infantaria e os dois batalhões de Ichiki. Outro batalhão do 124o de Infantaria se dirigiria para oeste, pelo Tenaru, enquanto o Coronel Oka conduziria dois batalhões para o outro lado do Rio Lunga e atacaria a pista de pouso pelo noroeste. O plano era ambicioso e um tanto complicado, considerando-se as condições e o terreno, mas Kawagushi estava decidido a cumpri-lo. A selva poderia reduzir a rapidez dos seus homens e a umidade talvez os fizesse cair sob o peso do equipamento que levavam, mas a data do ataque não seria alterada.

 

Edson deslocou seus 700 Incursores e pára-quedistas, e alguns soldados de engenharia e dos Pioneiros, da melhor maneira possível ao longo da saliência que escolhera como provável local para os japoneses atravessarem, em seu avanço. Trechos da selva foram limpos, e arame farpado foi estendido de árvore em árvore para oferecer alguma defesa. O posto de comando de Edson estava a apenas 100 m do ocupado por Vandegrift. Como apoio, havia obuseiros de 105 mm e o II Batalhão do 5o de Fuzileiros. Às 21:00 h o aerobote japonês apelidado de "Louie the Louse" lançou foguetes luminosos. Ao mesmo tempo, teve início forte bombardeio, vindo do mar, que durou 20 minutos; depois de breve pausa, ele se repetiu. Um cruzador e três destróieres japoneses percorriam a costa, nas vizinhanças do