A Guerra no Deserto

 

O Oriente Médio sempre fascinou os conquistadores... Depois de Alexandre "O Grande" e Napoleão Bonaparte, Lawrence da Arábia tinha provado que, atrás da sua aparente miséria, essa região escondia tesouros.

 

Guerra no deserto

 

 Mussolini, um conquistador romântico, não podia deixar de cair por esse fascínio e tinha invadido a Etiópia (desde 1935) e ao final de 1940 enviou um exército de 250.000 homens para atacar o Egito através da Líbia. Porém a Inglaterra estava atenta, Churchill, que não era romântico, sabia que o Oriente Médio era uma das zonas estratégicas essenciais para o desenvolvimento da guerra, então o general Wavell e seus 30.000 homens haviam rechaçado os italianos na Cirenaica.

 

Após as vitórias nazistas na Europa, o Mediterrâneo era uma artéria vital para o abastecimento da Inglaterra, constantemente ameaçado pela frota italiana e, os britânicos, nessa altura da guerra sozinhos contra o Eixo, iam jogar suas cartadas em Malta, Tobruk e nos desertos da Líbia. A batalha da África começou, portanto, com os combates entre a orgulhosa marinha italiana e a tradicional Royal Navy. Os soberbos couraçados e cruzadores de Mussolini estavam aptos para transformar em sucata seus adversários, pois eram mais modernos e melhor armados mas, como todos os ditadores, Mussolini tinha alguns preconceitos estúpidos e decidira que os porta-aviões eram coisa de ficção completamente inúteis, deixando assim a frota italiana sem cobertura aérea.

 

 
Tanque alemão percorre rua na Líbia

 

Os ingleses, pelo contrário, puseram em funcionamento diversos porta-aviões, cujos velhos aviões-torpedeiros (Swordfish) iriam desempenhar um papel determinante, pois enquanto a infantaria italiana se enterrava na lama das montanhas greco-albanesas, em 11 de novembro de 1940, o almirante inglês Cunningham decidiu desferir um grande golpe, quando soube que estavam dentro do porto de Tarento todos os couraçados italianos, enviando os "Swordfish" a partir do porta-aviões "Illustrious", perdendo 2 aviões e afundando barcos e imobilizando 3 couraçados por muito tempo. Em 28 de março de 1941, ao sul da Grécia, a marinha italiana teve um encontro com a inglesa, sem receber ajuda prometida da Luftwaffe, acabou por empreender uma fuga para não ter toda sua frota destruída, perdendo ainda alguns navios.

 

 Enquanto isso os 30.000 homens do general Wavell tinham empurrado os 250.000 homens do exército italiano e chegaram até o coração da Líbia, razão pela qual Hitler nomeou o Rommel para comandar as divisões Panzer e retomar a Líbia. Rommel, ficou conhecido como a "Raposa do Deserto", empreendendo uma campanha vitoriosa, que reconquistou território perdido pelos italianos, tendo chegado a atacar Tobruk em pouco tempo, muito antes do dia ordenado por Hitler, tal a velocidade com que avançava no deserto.

Rommel bravamente atacou Tobruk, que foi defendida com bravura pelos ingleses e australianos, não conseguindo nessa ocasião tomar o local. Muitas batalhas foram travadas, grandes desencontros provocados pelas ordens de Berlim, mas Rommel acabou por conquistar Tobruk. 

 

Prisioneiros aliados no deserto
Prisioneiros aliados aguardando serem enviados aos campos.

 

No deserto, 1942 foi iniciado com um período de calmaria de quatro meses, enquanto os dois lados se preparavam para uma outra rodada. A meta de Rommel era retomar Tobruk e forçar os ingleses a recuar para o Egito. Os ingleses queriam reconquistar a Ciredaica, de maneira a restabelecer as bases aéreas sem as quais não podiam dar cobertura aos comboios do Egito para. Malta. Auchinleck estava sendo pressionado por Londres para atacar em meados de maio, rnas não acreditava muito nessas perspectivas, pois havia perdido duas divisões australianas, 70ª Divisão inglesa e a 7.a Brigada Blindada, que, juntamente com esquadrões da força aérea do deserto, haviam sido enviadas para o Extremo Oriente. 

 

Dessa região, as notícias eram pouco animadoras Corregidor, Cingapura e a Birmânia haviam caído; a Índia e o Ceilão estavam ameaçados. Auchinleck acreditava que seria melhor enviar reforços à Índia e manter uma atitude defensiva na Líbia. Esse raciocínio enfureceu o primeiro-ministro, que quase chegou a substituir Auchinleck por Alexander. O General Brooke, no entanto, conseguiu dissuadi-lo dessa atitude. Entretanto, considerando-se os eventos posteriores, talvez essa medida não tivesse sido um erro.

 

Em seu diário, Brooke nos fornece uma visão bem-humorada do alto comando durante a Segunda Guerra Mundial. Por exemplo, ele conta que no dia 7 de maio estava a caminho para uma reunião com os demais chefes do estado-maior, quando foi chamado por Churchill. "Nessa manhã, ele estava num dos seus estados de espírito perigosos: Auk havia conseguido irritá-lo profundamente com sua proposta de postergar o ataque. A situação exigia ser tratada com muita delicadeza; em sua irritação, ele poderia facilmente tomar uma decisão impensada, da qual seria muito difícil demovê-lo." De qualquer forma, o Gabinete de Guerra ordenou que Auchinleck iniciasse uma ofensiva em maio ou, no máximo, em princípios de junho. 

 

Auchinleck recusou-se a ir discutir a situação em Londres, mas, apesar de as relações entre ele e Churchill terem permanecido tensas depois disso, manteve seu posto de comando. Nessa época, o 8.° Exército estava defendendo a Linha Gazala diante de sua base avançada em Tobruk, que já possuía agora uma ligação ferroviária com Alexandria. As posições defensivas tinham a cobertura de amplos campos minados e incluíam diversos pontos de apoio ou "boxes", instalados para defesas totais, mas distanciados demais entre si para poderem fornecer apoio mútuo. 

 

Rommel, que observara o surgimento dessas defesas com certa desconfiança, decidiu atacar primeiro, antes que o General Ritchie (8.° Exército) ficasse suficientemente forte para enfrentá-lo frontalmente, ao mesmo tempo que desferia um "golpe de esquerda" sobre suas linhas de comunicação, via Benghazi, com Trípoli. Rommel avançou no dia 26 de maio e ao anoitecer tinha-se a impressão de que ele estava forçando o caminho em direção à l ª Brigada francesa, estacionada em Bir Hacheim.

 

Raposa do Deserto
Rommel, a Raposa do Deserto

 

Nas primeiras horas do dia 27, a força móvel do Afrika Korps reabasteceu-se ao sul de Bir Hacheim, planejando continuar na direção nordeste, rumo a Tobruk, Acroma e El Adem. O General Carver descreve esse plano como "ousado e a meio caminho de ser bem sucedido, pois encontrariam o 30.° Corpo Blindado de Norrie desequilibrado, com suas três brigadas blindadas separadas por distâncias consideráveis, A 7.a Divisão Blindada, a leste de Bir Hacheim, ainda fora de suas posições de batalha". Os ingleses, entretanto, recuperaram-se rapidamente e durante algum tempo a situação pareceu ser sombria para Rommel, que se encontrava a leste dos campos minados, sem comunicação com sua base e com poucas munições. 

 

O Capitão Cyril Falls descreve muito bem o que aconteceu em seguida: "Uma acirrada batalha de blindados desenvolveu-se nessa região. O inimigo, nesse ínterim, já con seguira cortar caminho através dos campos minados em direção à posição principal, surpreender uma parte das tropas que a defendiam, e, dessa forma, garantir para si uma linha de abastecimento consideravelmente menor do que a que contornava Bir Hacheim. 

 

O comandante do exército (Ritchie) imaginou que ele estava tentando recuar através desse corredor, mas o Tenente-General Norrie, o primeiro comandante inglês a compreender as táticas da guerra blindada neste país, chegou à conclusão correta de que ele estava acumulando forças em sua `cabeça-de-ponte' a leste da posição principal e tentaria forçar um caminho de volta se antes pudesse desgastar suficientemente a oposição. Essa era, realmente, uma típica tática alemã, que já havia sido completamente descrita num livro, Blitzkrieg, publicado na Inglaterra por um estudante de guerra tcheco, o Capitão Mitksche, e conseqüentemente deveria ter sido reconhecido como tal". Na noite de 1.° para 2 de junho, Rommel movimentou-se para atacar Bir Hacheim. A Luftwaffe realizou um total de 1.300 ataques contra Bir Hacheim. Uma série de batalhas de tanques se seguiu, causando grandes perdas para ambos os lados.

 

Um resoluto ataque inglês (4 e 5 de junho) contra o "Caldeirão", como era chamada a cabeça-de-ponte de Rommel, fracassou, em parte devido a uma falta de infantaria suficiente para forçar a situação, mas também devido à grande eficiência dos canhões antitanques alemães. Após infligir sérias perdas aos alemães que se encontravam no Caldeirão, os ingleses tiveram de recuar em considerável desordem por causa de um contra-ataque blindado. A desgastada brigada francesa foi retirada de Bir Hacheim após uma resistência realmente heróica (10-11 de junho) . Depois de eliminar a 150.a Brigada de Infantaria em Dahar el Aslaq e a dos franceses livres, Rommel resolveu destruir os tanques do 8º Exército. No dia 12, os ingleses dispunham de apenas setenta tanques, ao passo que Rommel ainda tinha cerca de cem tanques alemães e sessenta italianos. A Batalha de Gazala foi perdida. Incapaz de dar apoio aos Guards, que haviam resistido a todos os ataques em Knightsbridge, Ritchie foi obrigado a fazê-los recuar (14 de junho).

 

O destino de Tobruk estava em jogo agora. Carver descreve a situação da seguinte maneira: "Todos os envolvidos queriam ser donos do bolo e comê-lo ao mesmo tempo, o que sem dúvida alguma causou uma série de mal-entendidos a respeito de Tobruk. Auchinleck estava firmemente resolvido, achando que não deveria investir novamente contra Tobruk, mas ele também achava que essa posição não deveria ser entregue ao inimigo". Enquanto Ritchie estava reorganizando seu exército na fronteira egípcia, Rommel atacou. Ao amanhecer do dia 20 de junho, Rommel estava com o General von Mellenthin nas encostas a nordeste de EI Adem, onde havia sido instalado o quartel-general da batalha, e observava os Stukas atacando Tobruk. Os veículos blindados alemães atravessaram por uma passagem conseguida na frente da brigada indiana e, rechaçando um contra-ataque, começaram a causar grandes danos na retaguarda, que estava repleta de veículos "de pele fina". Nessa mesma noite, o General Klopper (da 2.a Divisão de Infantaria sul-africana), se rendeu. Uma parte dos Coldstream Guards, sob o comando do Major Sainthill, recusou a rendição e retirou-se com seus meios de transporte à noite. 

 

Rommel, interessado em dar prosseguimento à sua vitória, cruzou a fronteira no dia 23 de junho com 44 tanques e, durante os dias seguintes, dispersou o 13.° Corpo de Gott nas imediações de Mersa Matruh. O 8.° Exército, cansado, disperso e confuso, estava em condições desesperadoras: Auchinleck decidiu assumir pessoalmente o comando, partindo de avião do Cairo no dia 25, para substituir Ritchie. Mas nem ele conseguiu reagrupar os sobreviventes antes de eles retornarem às posições de El Alamein, onde finalmente, no dia 1.° de julho, Rommel foi obrigado a parar o seu avanço. No Cairo, a maior parte da "papelada" existente na embaixada britânica, no quartel general das tropas do Oriente Médio e do Egito desapareceram nas chamas no dia 1.° de julho, a famosa "quarta-feira de cinzas" - mas uma boa "bofetada" não deixa de ter suas vantagens. 

 

Correram boatos de que a marinha teria abandonado Alexandria às pressas. Mas, como freqüentemente ocorre numa guerra, a situação não era tão ruim assim. A chamada Linha Alamein - milhas de areia vazia, indistinguíveis do restante do deserto, mas flanqueadas pelo mar e pela praticamente intransponível depressão de Qattara - a princípio não dispunha de muitas defesas, mas os homens de Rommel estavam tão fracos e tão exaustos quanto o 8° Exército. Durante julho inteiro foram realizados combates, mas nenhum dos lados conseguia reunir forças suficientes para um golpe decisivo. No final do mês, Auchinleck enviou um telegrama para Londres, dizendo: "É improvável que surja uma oportunidade para retomarmos operaçôes ofensivas antes de meados de setembro". Essa informação não agradou aos seus superiores londrinos, que há muito já haviam chegado à conclusão de que estava na hora de mudar a situação na guerra do deserto. Em princípios de agosto, o primeiro-ministro e o alto comando (CIGS) foram ao Cairo para sentir pessoalmente a situação. 

 

Churchill queria que Gott comandasse o 8.° Exército, mas Brooke achava que Montgomery era o homem mais indicado e que Gott, apesar de ser o melhor dos veteranos, estava cansado. Além disso, ele passara do comando de um batalhão para o de um corpo em 1939 e possivelmente necessitava de maior experiência antes de comandar um exército. No dia 6 de agosto, Churchill decidiu entregar a Alexander o comando do Oriente Médio e a Gott o do 8° Exército, mas no dia seguinte este último foi morto quando dois caças alemães atacaram um avião de transporte. Foi nessas circunstâncias que Montgomery acabou sendo indicado para o comando do exército com o qual seu nome sempre será relacionado.

 

Alexander chegou ao Cairo no dia 9 de agosto e recebeu breves instruções do primeiro-ministro segundo as quais sua principal tarefa foi definida da seguinte maneira: "Tomar ou destruir na primeira oportunidade possível o exército teuto-italiano comandado pelo Marechal-de-Campo Rommel, juntamente com todos os seus suprimentos e instalações no Egito e na Líbia". Montgomery saiu rapidamente da Inglaterra e, após uma reunião com Alexander, dirigiu-se para o deserto em 13 de agosto para examinar a situação. Não gostou do que viu e decidiu assumir o comando imediatamente, apesar de contrariar as ordens de Auchinleck. Começou acertadamente cancelando todos os planos de retirada, decidindo formar um corpo blindado de reserva e dando ao seu chefe de estado-maior, De Guingand, autoridade completa sobre o quartel-general e sobre todas as ramificações do estado-maior. Do outro lado, nem tudo estava correndo bem. 

 

Em meados de julho, um ajudante-decampo escreveu à esposa de Rommel, informando-a de que seu marido, que não poupara esforços durante seus dezenove meses na África, estava sofrendo de "perturbações digestivas". Em Roma, já em 6 de julho, eram sentidas grandes ansiedades. Ciano escreveu: "Existe no ar uma vaga preocupação em relação à calmaria diante de El Alamein. Teme-se que, após terminar o impacto do ataque inicial, Rommel não possa avançar mais, e quem parar no deserto estará realmente perdido. Basta pensar que cada gota de água deve ser transportada de Mersa Matruh, a quase 200 quilômetros, por estradas sujeitas a bombardeios pela aviação inimiga. Fui informado de que nos círculos militares existe uma violenta indignação contra os alemães devido ao seu comportamento na Líbia".

 

Montgomery havia assumido o comando fazia dezessete dias, quando Rommel voltou a atacar. Mas, desta vez, a Raposa do Deserto agiu tarde demais. Numa passagem famosa e característica de suas memórias, Montgomery resume secamente a situação: "Compreendi que se esperava um ataque de Rommel dentro em breve contra nós. Se ele viesse logo, a situaçâo seria difícil; se ele viesse em uma semana, tudo bem, mas se nos desse duas semanas, ele poderia fazer o que quisesse; ele levaria a pior e depois seria a nossa vez". Montgomery havia aproveitado bem os seus dezessete dias. Refletiu muito a respeito das batalhas anteriores contra Rommel e com seu aguçado raciocínio tático percebeu "que aquilo de que Rommel gostava era conseguir que os nossos blindados o atacassem; ele então colocava seus tanques atrás de uma defesa de canhões antitanques, eliminava os nossos tanques e, finalmente, dispunha do campo todo para si". 

 

Montgomery estava decidido a não permitir que isso acontecesse: "Eu não permitiria que os nossos tanques o atacassem; nós nos manteríamos firmes em El Alamein, defenderíamos as encostas de Ruweisat e Alam el Halfa, deixando que ele se batesse contra elas. Travaríamos uma batalha estática e as minhas forças não sairiam do lugar; seus tanques encontrariam os nossos instalados em posições descendentes na borda ocidental da encosta de Alam el Halfa". 

 

E foi exatamente isso o que ele fez.

Na noite de 30 de agosto, as colunas alemãs e italianas começaram a articular um "golpe de direita" com a finalidade de iludir Montgomery, circundando-o de maneira a ficar atrás de sua principal posição defensiva. Mas essa tática não funcionou e como conseqüência Alam el Halfa tornou-se uma das batalhas mais francas de toda a guerra. Não houve surpresa na primeira noite, porque a RAF havia localizado o inimigo nas suas áreas de formação 24 horas antes. Extensos campos minados e bombardeios pesados causaram atrasos aos alemães, que não pareciam estar avançando com sua antiga energia. Rommel atacou na encosta de Alam el Halfa, provavelmente sem perceber que o 13.° Corpo (Tenente-General Horrocks) se encontrava ali em uma firme posição e que Montgomery considerava esse local como de importância básica. 

 

A batalha teve duração de uma semana, mas Rommel poderia ter-se retirado muitos dias antes pelos sucessos que estava obtendo. Ele atribuiu seu insucesso ao peso do fogo da artilharia inglesa, à profundidade e complexidade dos seus campos minados e à sua própria falta de suprimentos, principalmente de gasolina. Atribuiu a maior parte de suas perdas ao ataque aéreo. O Major-General Freyberg, da 2.a Divisão neozelandesa, "atribuiu o fracasso inimigo, numa situação em que eles não conseguiam encontrar espaço para manobrar, à sua incapacidade de desenvolver um adequado ataque da infantaria em cooperação com a artilharia. Ele os acusou de terem se tornado seguidores de tanques". Se os alemães estavam se tornando cautelosos, os ingleses estavam ficando mais espertos. Montgomery lutou com seus tanques em posição fixa, recusando-se a ceder às tentações. Como conseqüência, a velha magia de Rommel não funcionou. A falta de gasolina, que impediu que os alemães manobrassem, foi devida em larga escala à confusão que a RAF causou em suas linhas de abastecimento.

 

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