Inferno no Pacífico - O castigo da traição

 

O objetivo do Japão era conquistar todos os países e possessões do Pacífico Oriental. Obliterar a rota de envio de suprimentos à China e ganhar acesso ao petróleo foram pedaços de um plano que levou os japoneses a atacar um país cujo potencial de guerra era dez vezes superior aos deles.

 

Explosão militar

Em geral não se conhece, no Ocidente, que para o Japão o ataque à Pearl Harbor era apenas mais um evento na guerra que vinha travando há mais de quatro anos. Não há dúvida de que foi um acontecimento extremamente importante, mas empreendido menos por motivos de hostilidade para com os Estados Unidos - embora isto por certo existisse - do que pela necessidade de matérias-primas essenciais à consolidação dos ganhos arduamente alcançados na China.

Quando o Japão entrou na guerra contra a China, em 1937, foi com a permissão tática e, na verdade, com o encorajamento dos Estados Unidos, que queriam desviar a ambição japonesa do Pacífico e tirar a máxima vantagem comercial que pudessem de qualquer situação. Com o passar dos meses, os exércitos japoneses, animados pelos sucessos que vinham obtendo, afastaram-se cada vez mais das fronteiras da pátria, precisando por isso de mais caminhões para o deslocamento da tropa, mais veículos blindados para a proteção dos transportes não-blindados e mais cobertura aérea para proteger tudo isso. E muito mais óleo para o funcionamento de todo aquele instrumental bélico.

 

A princípio o Japão não encontrou muita dificuldade na obtenção do que necessitava, sendo por isso a sua aventura militar muito bem sucedida. Vinha sendo a China cada vez mais profundamente penetrada pelo soldado nipônico, até que chegou o ano de 1940, quando se deu brusca redução no envio de suprimentos essenciais ao Japão. Em setembro, os Estados Unidos impuseram embargo ao fornecimento de borracha, e em julho de 1941 congelaram todos os bens japoneses nos Estados Unidos e anunciaram que a “todos os agressores” o fornecimento de petróleo seria embargado - deixando o Japão claramente informado de que estava capitulado nesta categoria.

 

Quase 90% do fornecimento do petróleo do Japão desapareceram de um só golpe, assim como sensível quantidade de matéria-prima considerada essencial. O Japão teve que enfrentar a alternativa de ter de largar o que havia tomado em dois anos de guerra e enfrentar o que para as nações orientais significava inadmissível perda da dignidade, ou partir para a conquista de outras fontes de suprimento. O petróleo capaz de satisfazer-lhe as necessidades previsíveis encontrava-se ali bem perto, em Bornéu, Java e Sumatra, e para uma possível reserva o produto estava um pouco mais ao norte, na Birmânia. Só que para poder dispor deles impunha-se que fizesse a ocupação militar da área de razoável amplitude.

 

As nações mantêm diferentes filosofias e diferentes atitudes diante de questões como, por exemplo, a guerra, porque tiveram histórias diferentes. Como resultado da tradição do pensamento ocidental, nós no Ocidente tendemos a encarar o dia 7 de dezembro de 1941 - o dia do ataque à Pearl Harbor - como o Dia da Infâmia, e o 15 de fevereiro de 1942 - dia em que Cingapura se rendeu - como o Dia da Tragédia.

 

O ponto de vista dos japoneses era diferente. Para eles, 7 de dezembro de 1941 foi o dia da grande opção, dia em que preferiram o risco enorme, com bravura e honra, em vez da capitulação covarde e vergonhosa; e o 15 de fevereiro de 1942 foi o Dia da Infâmia, quando, diante de seus olhos incrédulos, homens envergando uniforme de soldado haviam, demitido de si toda a idéia de honra, abandonado a luta, enquanto ainda na posse de condições de fazer frente ao adversário. Um soldado japonês ficou tão chocado diante de tanta vileza, que experimentou a sensação de vergonha, quando a vitória só lhe poderia ser uma sugestão de júbilo, de alegria e de orgulho.

 

O Japão obteve as fontes de petróleo que desejava, assim como o caminho livre, igualmente essencial, para transportar o combustível para as ilhas metropolitanas, numa explosão de energia militar que espantou o mundo. Como diz o Dr. Kennedy neste livro fascinante: “A arremetida japonesa no Extremo Oriente foi uma das mais amplas e mais rápidas campanhas registradas na história das guerras. Em quatro meses, capturaram Hong-Kong, Malásia, Cingapura, as Índias Orientais Holandesas, o sul da Birmânia e a maior parte das Filipinas; passado outro mês, Corregidor se renderia e os britânicos seriam expulsos da Birmânia. Quanto custou ao Japão esta grande vitória? 15.000 homens, 380 aviões e 4 destróieres”.

 

E isso não pareceu o fim. A Batalha do Mar de Coral não configurou de pronto uma vitória americana e, na verdade, só a intuição de Yamamoto fez que os japoneses compreendessem que Midway havia sido um desastre do qual era improvável que o Japão viesse a recuperar-se. A amarga agonia de Guadalcanal e da Trilha Kokoda duraria muitos meses, até que aparecessem os sinais de que a maré de sorte do Império Japonês começava a virar.

 

Esta vasto panorama de conquista militar é aqui retratado pelo Dr. Kennedy com uma lucidez e excitação que arrancam a mais alta admiração, e não tenho dúvida em afirmar que os leitores das próximas páginas seguirão ansiosos a sua seqüência, onde vai contada a história do longo caminho de volta dos Aliados e o colapso final da ambição militar japonesa.

 

 

Origens da Guerra do Pacífico

A guerra no Extremo Oriente já cumpria o seu quinto ano quando Pearl Harbor foi atacada, na manhã de 7 de dezembro de 1941, por aviões japoneses. Embora se constituísse num choque tremendo para a maior parte do mundo, este ato não foi mais, de certa maneira, que a extensão, embora ampla, de um conflito que se vinha expandindo. Na verdade, em vista dos acontecimentos que precederam este ataque, e evidente que a destruição da Esquadra Americana do Pacífico não passava da conseqüência militar lógica de uma luta muito maior, que entrara num impasse nas colinas e vales fluviais da China. A guerra do Pacífico - é assim que os ocidentais gostam de chamá-la - era um efeito colateral da guerra sino-japonesa que começara em julho de 1937.

 

As origens dessa luta remontam ao século XIX ao período posterior à restauração Meiji de 1868, quando o Japão se transformou, de estado feudal, num país moderno e altamente industrializado. Tendo por modelo os mais desenvolvidos centros ocidentais, não era de surpreender que os japoneses quisessem ir mais longe, quisessem obter possessões além-mar, tal como as potências imperialistas haviam feito. Surgiu, contudo, uma dificuldade, pois essas potências não estavam lá dispostas a consentir na entrada do pele-amarela em seu clube muito exclusivo e compartilhar o privilégio que esperavam obter para si mesmas na Ásia. Em 1894/95, o Japão combateu e derrotou uma China mais fraca e mais atrasada e tentou anexar partes importantes dos seus territórios costeiros; mas, devido à pressão da Rússia, França e Alemanha, teve que ser devolvida aos chineses grande parte das terras tomadas. Em 1904, alarmando-se com as penetrações que os russos faziam na Manchúria, o Japão desfechou um ataque de surpresa contra a Esquadra do Extremo Oriente do Czar, que estava ancorada em Port Arthur, para no ano seguinte derrotar o exército russo em Mukden e aniquilar a esquadra russa em Tsushims, obrigando, desse modo, o inimigo a buscar a paz. Metamorfoseado em potência digna de respeito, sem a cooperação dos nipônicos, nada poderia ser feito no Extremo Oriente; além disso, o japonês conseguira demonstrar que o branco podia ser derrotado.

 

Mas, para o japonês, os ganhos dessa guerra mal tinham servido para lhe satisfazer a sede de prestígio e o senso de poder, ou prover mercados e matérias-primas suficientes para as suas indústrias, em rápido crescimento. Comparados com os ricos impérios de outras nações, os territórios nipônicos de além-mar eram insignificantes. Além disso, embora industrialmente adiantado, o Japão vivia em estado ainda meio feudal, onde o Imperador era considerado divino e onde o exaltado era o guerreiro, e não o homem de negócios. As forças internas que pressionavam para a expansão eram muito poderosas e o exército gozava de grande influência política, enquanto que as bases para a democracia permaneciam fracas. Embora fizesse o Japão outros ganhos em 1914, quando, interpretando liberalmente as obrigações que assumira ao assinar com a Grã-Bretanha uma aliança, em 1902, tomou ele para si o que a Alemanha possuía no norte da China, bem como as ilhas Marshall; as Carolinas e as Marianas no Pacífico, ainda assim a ambição dos nipônicos não ficou saciada. Acreditando que as outras potências estavam por demais empenhadas na guerra européia para se preocuparem com acontecimentos no Extremo Oriente, o Japão fez suas “Vinte e Uma Exigências” à China, que lhe dariam virtual predominância naquele império decrépito. Alarmados, porém, com esses acontecimentos, Grã-Bretanha e Estados Unidos de tal forma o pressionaram, que em 1915 o plano nipônico foi abandonado. Naturalmente, o desejo de dominar a China, para o Japão considerada área natural para exploração, não foi eliminado, mas apenas contido. Na verdade, poder-se-ia dizer que o desejo de fazer da China um grande império talvez fosse o objetivo principal da política externa e militar do Japão nos cinqüenta anos subseqüentes a 1894.

 

Além disso, a crise provocada pelas “Vinte e Uma Exigências” determinara o grande alinhamento político do futuro: a Grã-Bretanha juntou-se aos Estados Unidos, ambos interessados na preservação da independência da China - e o nipônico ansioso por eliminá-la. O “Tratado de Versalhes”, assinado em 1919, confirmou o domínio dos japoneses das ex-colônias alemãs, mas não alterou o estado de coisas vigentes, pois os japoneses ainda se sentiam desprovidos, e os americanos, alarmados, porque, passando os japoneses ao domínio daquelas possessões do Pacífico, as Filipinas se isolavam do Havaí. Planos e cálculos de guerra já estavam sendo feitos e o Japão tornou-se para os Estados Unidos o seu grande inimigo potencial, enquanto que estes entravam no planejamento naval dos nipônicos igualmente como o grande alvo. Por outro lado, o exército japonês sempre temera mais a Rússia Soviética, cujas grandes forças na Ásia eram consideradas uma ameaça muito maior aos desígnios continentais de Tóquio.

 

Durante os anos vinte, vários acontecimentos afastaram ainda mais o Japão das potências ocidentais. A Grã-Bretanha, fortemente pressionada pelos Estados Unidos, aboliu a aliança anglo-japonesa em 1921. Três anos depois, os britânicos decidiram construir uma base naval em Cingapura. Além disso, as conferências navais diplomáticas internacionais realizadas em Washington em 1922, que fixaram bases inferiores para a esquadra japonesa em relação à esquadra britânica e à americana, na proporção de 3:5:5, persuadiram Tóquio a entregar, não sem relutância, a província de Shantung aos chineses e garantiram a manutenção do status quo político e militar no Extremo Oriente. Afinal, os Estados Unidos fecharam as portas a todos os imigrantes japoneses em 1924. Tudo isto parecia indicar que as potências anglo-saxônicas estavam-se “alinhando” contra o Japão, para impedir o desenvolvimento da política expansionista que ele vinha adotando. Os políticos liberais que negociaram esses acordos em Washington seriam violentamente atacados pelos militares nos anos seguintes. Não obstante, o tratado impedia que outras nações construísse, bases no Pacífico e ampliassem suas marinhas. O Japão, no entanto, começou a desrespeitar secretamente o convencionado nos acordos no tocante ao tamanho dos navios e a sua potência de fogo - preparando-se para o conflito - acabando por rejeitá-lo inteiramente em 1934.

 

Os japoneses, em particular, foram seriamente atingidos pela crise econômica mundial de 1929, que provocou muito desemprego e descontentamento interno. Nessas circunstâncias, o poder dos militaristas cresceu, enquanto que os políticos liberais eram desacreditados e até mesmo assassinados por extremistas. Além disso, a ala jovem dos oficiais do exército, condicionada convenientemente, mostrava-se tão ansiosa por ação, que nada a podia deter.

 

Em setembro de 1931, soldados japoneses que guardavam as ferrovias do tratado na Manchúria invadiram Mukden e passaram a conquistar o resto do país, afirmando que estavam agindo em legítima defesa, contra a ameaça de ataque chinês. Como o estado-títere de Manchuhuo, como a Manchúria seria chamada daí por diante, criado rapidamente, não foi reconhecido pela Liga das Nações nem pelos Estados Unidos, o Japão abandonou a Liga em 1933. Encorajado pela falta de oposição física e pela subida ao poder dos nazistas no mesmo ano, o exército podia planejar maior expansão. Foi neste período que a idéia da “Grande Esfera de Co-Prosperidade do Leste Asiático”, que na verdade significava o domínio japonês do Leste da Ásia e do Pacífico Ocidental, começou a ser largamente divulgado.

 

Em julho de 1937, o exército invadiu o norte da China propriamente dita, afirmando que também isto era feito em resposta a ataques chineses. Embora jamais fosse chamada de guerra - os japoneses preferiam denominá-la “Incidente Chinês” - a campanha logo assumiu enormes proporções. Na verdade, a guerra no Extremo Oriente começara. Na luta por Xangai e Nanguim, os japoneses tiveram 21.300 mortos e mais de 50.000 feridos, enquanto que as baixas chinesas elevaram-se a mais de 367.000. Pelo final daquele ano, cerca de 700.000 soldados japoneses estavam lutando na China, subindo para 850.000 ao se aproximar o fim de 1939. Ademais, a tarefa mostrara-se muito mais difícil do que se calculara. Os chineses recusavam-se a render-se, mudando continuamente a capital do país cada vez mais para o interior, instalando-a finalmente na distante Chungking. Entretanto, à medida que os japoneses penetravam para o sul e para o oeste, suas baixas aumentavam de maneira alarmante, enquanto que os chineses, embora sofrendo mais ainda, possuíam reservas efetivamente inesgotáveis de potencial humano. Essas operações, de âmbito sempre crescente, serviam apenas para revelar as fraquezas do Japão em munições de desviar tropas do Exército de Kwantung, que tinha a tarefa vital de defender a Manchúria contra a penetração russa. O que mais irritava o nipônico era a ajuda dos russos aos comunistas chineses e a que as potências ocidentais, através dos portos chineses ou da Estrada da Birmânia, davam ao governo nacionalista. Muitas vezes incapazes de balizar as próprias deficiências, os japoneses pendiam cada vez mais para crer que a China seria derrotada se lhes fosse possível isolá-la da ajuda material e moral que recebia de nações estrangeiras. Isto implicava a eliminação dos interesses estrangeiros e a tomada ou o bloqueio da costa, o que foi feito em 1937 e 1938, e o fechamento da Estrada da Birmânia.

 

Acontecimentos verificados em outros locais e a habilidade diplomática impediram que se estabelecesse o estado de beligerância com a Rússia, apesar de violento choque ocorrido na fronteira manchuriana, em torno de Nomonhan, em agosto de 1939, no qual o Japão perdeu 11.000 homens em combate com blindados soviéticos. A assinatura do pacto de neutralidade que a Rússia e Japão vieram a assinar a 13 de abril de 1941, embora não eliminasse as suspeitas do Japão sobre os desígnios russos na Ásia, permitiu aos nipônicos liberar forças para operações ao sul. Além disso, a guerra na Europa, anulando, por assim dizer, a possibilidade de a Grã-Bretanha operar no Extremo Oriente e, depois de 1940, silenciando a França, deu ao nipônico a quase certeza de que os Estados Unidos não se atreveriam a intervir, sobretudo após a assinatura do “Pacto Tripartite”, entre Japão, Alemanha e Itália, em setembro de 1940, segundo o qual as três potências se oporiam a qualquer nação que viesse a juntar-se aos Aliados.

 

Esses acontecimentos alarmaram seriamente o governo americano. O governo de Washington há muito considerava o Japão a maior ameaça à paz na Ásia, mas não havia muito o que Roosevelt pudesse fazer quanto à agressão à China, exceto entrar em guerra, atitude que o isolacionismo de seu povo o impedia de tomar e a preocupação com os desígnios de Hitler punha fora de cogitação. Já em 1938, se haviam realizado debates, nos Estados-Maiores anglo-americanos, sobre o Extremo Oriente, quando os britânicos se mostravam ansiosos por evitar um conflito, se tal fosse possível. Não obstante, a tentativa levada a cabo pelos nipônicos de aumentar a pressão sobre os chineses, ocupando a Indochina francesa em julho de 1941, medida relutantemente aceita pelo governo de Vichy, obrigou afinal as potências ocidentais a agir. Quase que imediatamente, o governo americano, seguido pelo britânico e pelo holandês, congelou o fornecimento de petróleo ao Japão.

 

Em termos de atitudes decisivas, esta foi talvez a mais importante. Durante anos, o Japão vinha estendendo-se regularmente para o sul, em seus esforços para conquistar a China; mas, sem petróleo para acionar suas indústrias e mover seus exércitos, em breve ele entraria em colapso, anulando todos os esforços feitos naquele sentido. Um levantamento feito em 1941 revelou que, a menos que o embargo fosse levantado, suas pequenas reservas de petróleo se esgotariam antes dos três anos previstos para que suas vinte divisões dobrassem definitivamente a China. A única saída estava na tomada dos campos petrolíferos das Índias Orientais Holandesas, que tinham capacidade para atender a todas as necessidades do país. Mas isto significava, ampliar grandemente a escalada da guerra. As alternativas para o Japão eram violentas: ou abandonar suas ambições na China e em outros locais, o que provavelmente levaria a uma resolução de direita no país, ou tomar os campos petrolíferos e lutar contra as potências ocidentais. Prolongadas negociações com os americanos seriam de todo inúteis, pois simplesmente levariam ao enfraquecimento progressivo do poderio militar e industrial do Japão - e o tornariam menos capaz de resistir à pressão americana. Dadas as questões em jogo na China, a mentalidade dos líderes do exército e a determinação de não perder “prestígio”, dificilmente se pode considerar surpreendente a decisão dos japoneses de irem à guerra. Certo que foi ingenuidade dos Aliados esperarem solucionar pacificamente a disputa através do embargo.

 

Assim, a necessidade imediata de tomar os campos petrolíferos holandeses, para garantir a vitória na China, fundiu-se a idéia da formação da “Esfera de Co-Prosperidade” e, da fusão, formulou-se a estratégia de guerra do Japão. Numa série de golpes rápidos, ele planejava conquistar Hong-Kong, Tailândia, Malásia, Birmânia, Índias Orientais Holandesas, Filipinas, Nova Guiné e vários grupos de ilhas do Pacífico. Só então é que a China seria completamente isolada dos países que a ajudavam, enquanto que o Japão teria petróleo suficiente para poder continuar combatendo Chiang Kai-shek sem medo de interrupção. Poucos japoneses pararam para pensar no enorme potencial do país que se preparavam para agredir, potencial dez vezes maior que o do Japão, mas, os que o fizeram, calcularam que se fosse possível erguer rapidamente uma formidável “Festung Nippona” que fosse invulnerável a todos os contra-ataques, os americanos viriam a reconhecer as conquistas do Japão. A Grã-Bretanha estava por demais enredada na Europa e no Oriente Médio, enquanto que a Rússia lutava pela própria vida, após a invasão alemã de junho de 1941.

 

Não obstante, a guerra começou em julho. Enquanto o embaixador nipônico em Washington tentava persuadir Roosevelt a levantar o embargo, as autoridades japonesas preparavam suas tropas e selecionavam a estratégia. O advento do governo do General Tojo, em outubro, que substituiu o Príncipe Konoye, e a notícia de que os estoques de petróleo haviam diminuído um quarto, desde abril, provavelmente foram os fatores decisivos, pois também se tornara claro que os americanos estavam apenas tentando manter as conversações, enquanto despachavam reforços para as Filipinas e observavam o efeito do embargo. Somente nos últimos meses de 1941 é que ficou decidido o ataque a Pearl Harbor; mas se as discussões em Washington viessem, por milagre, a obter êxito, as forças atacantes teriam de ser chamadas de volta.

 

Os planos de guerra finais do Japão contemplavam ataques à Pearl Harbor, ao Sião e à Malásia Setentrional, seguidos de incursões aéreas contra os aeródromos de Luzon, as ilhas de Guam, Wake e as Gilbert; a invasão de Hong-Kong e desembarques nas Filipinas e Bornéu, todos como operações de primeiro estágio. No segundo estágio, o resto da Malásia e de Cingapura seria tomado, assim como o Arquipélago Bismarck, a Birmânia Meridional e pontos estratégicos nas Índias Orientais Holandesas. Na terceira e última série de operações, o território deste último país seria completamente ocupado, assim como toda a Birmânia e certos grupos de ilhas no Oceano Índico. Esperavam os nipônicos completar todo o conjunto de operações em 150 dias, a partir do início das hostilidades. Então, o exército poderia retornar à tarefa principal, isto é, submeter os chineses, enquanto era construída uma rede defensiva concêntrica nas ilhas do Pacífico, para rechaçar eventuais contra-ataques americanos.

 

Embora sem acreditar que os japoneses viessem a tentar a concretização do desejo de se expandir no Extremo Oriente, a despeito das advertências dos peritos locais, de que isto aconteceria logo e repentinamente, como aconteceu, as potências ocidentais também estavam preparando planos. Os holandeses ajudariam em qualquer esforço que visasse a preservar o status quo na área, ao passo que os britânicos esperavam que Cingapura pudesse resistir até que reforços mais consideráveis fossem despachados para lá. Também os americanos visualizavam uma operação de fixação, que previa o recuo de suas tropas das Filipinas para a península fortificada de Bataan, entregando todas as outras posições onde necessário, e lá aguardariam a chegada da Esquadra do Pacífico e reforços do exército. Contudo, em agosto de 1941, decidiu-se repentinamente defender não só uma parte de Luzon, mas também as Filipinas, por ser politicamente melhor (e o comandante, General MacArthur, se opunha a qualquer retirada), porque o envolvimento da Alemanha na Rússia encorajou Roosevelt a tomar uma posição mais firme no Oriente e porque se esperava que os novos bombardeiros B-17, de longo alcance, detivessem quaisquer forças invasoras. Contudo, os americanos ainda estavam despachando aviões e soldados às pressas para as Filipinas quando a guerra estourou.

 

A balança das forças no Extremo Oriente pendia claramente para o lado japonês. Os aviões, como as campanhas da Noruega e de Creta haviam mostrado, eram vitais em operações anfíbias, e o Japão podia desenvolver 700 aviões do exército e 480 navais, de primeira linha, que operariam de Formosa. Havia também os 300 aviões envolvidos no ataque a Pearl Harbor, liberados da tarefa de cobertura das operações meridionais depois que o raio de ação dos aviões Zero, baseados em Formosa, foi aumentado, para permitir-lhes vôos de ida e volta entre Formosa e Filipinas. Os americanos tinham 307 aviões (incluindo 35 B-17) nas Filipinas; os britânicos tinham 158 na Malásia e 37 na Birmânia e os holandeses, 144 nas Índias Orientais. Mas os números apenas simplesmente ocultam a verdadeira história; os aviões aliados eram na maioria velhos e obsoletos, não podendo, portanto, competir com o formidável Zero. Os efeitos dos problemas econômicos verificados nos anos que ficaram entre os dois últimos conflitos fizeram-se sentir também nesse campo.

 

O mesmo é válido do lado naval. O Japão possuía 10 navios de linha para 11 aliados, mas ele tinha muitos vasos mais novos e mais bem armados. Em cruzadores, destróieres e submarinos, os dois lados estavam equilibrados, mas o número de porta-aviões, a arma vital numa campanha basicamente marítima, o Japão tinha 10 e os aliados contavam apenas 3. Importantíssimo, porém, é que as forças japonesas não seriam centralmente controladas e não sofreriam dificuldades de comando e de língua. Ademais, as esquadras britânicas e americanas distavam 9.600 km uma da outra e não eram bem treinadas em luta noturna.

 

Com respeito às forças de terra, o quadro era também deprimente. Os britânicos tinham uns 134.000 soldados na Malásia, Hong-Kong e Birmânia; os holandeses, cerca de 65.000 nas Índias Orientais, e os americanos, em torno de 140.000 nas Filipinas. Mas 40.000 homens das forças holandesas e 110.000 das americanas eram, na verdade, milícias nativas locais e muitos dos soldados britânicos não tinham adestramento adequado, ao passo que a maioria das forças de defesa malaias e birmanesas se formava de nativos ou indianos. Havia poucos tanques e, pior ainda, poucos comandantes bons. Por outro lado, o Japão decidira arrojadamente empregar apenas 11 das suas divisões de infantaria nesse grande jogo e manteve forças muito maiores na China (22 divisões) e na Manchúria (13 divisões) - uma boa indicação das prioridades do exército. Provavelmente menos de 250.000 soldados combatentes foram usados nas operações do sul, mas mudaram-nos de posição tantas vezes, que é difícil obter-se números corretos. Na realidade, porém, os japoneses tinham uma possibilidade muito melhor do que o equilíbrio dos números parecia indicar, pois o controle aéreo e naval lhes daria superioridade local, além de seus soldados terem levado para o confronto melhor treinamento de luta na selva e noturna. De modo geral, os nipônicos contavam com uma força muito mais moderna, bem treinada e equipada, com líderes melhores, um comando unificado e a vantagem do elemento surpresa. O único perigo poderia advir da Esquadra Americana do Pacífico, e eles supunham poder cuidar disso. Finalmente, dever-se-ia notar que, embora o Serviço de Inteligência japonês fosse bom, devido ao cuidadoso estudo das áreas que planejavam atacar, os americanos contavam com a grande vantagem de poder ler o código diplomático japonês, uma vez que havia sido decifrado pelo Coronel William Friedman em 1940. O problema , porém, residia em saber se a informação devidamente decifrada poderia ser aplicada a tempo no lugar certo.

 

Durante todo o final do outono de 1941, as negociações em Washington prosseguiram, embora logo se tornasse evidente que os Estados Unidos não reconsiderariam a decisão que levou ao embargo até que o Japão abandonasse as ambições expansionistas. Premido pelos militares, o governo japonês estabeleceu que a decisão final para a guerra seria tomada a 25 de novembro; três dias antes, a força de ataque a Pearl Harbor se reuniu na Baía de Tankan, nas Kurilas, enquanto Tojo encorajava os duvidosos com o argumento de que “em lugar de aguardar a extinção, seria melhor enfrentar a morte, rompendo o anel que nos cerca, para encontrar um caminho para a existência”. Sabia-se que os britânicos e americanos reforçavam suas bases no além-mar, enquanto os efeitos do embargo petrolífero se faziam sentir cada vez mais fortemente. Afinal, a 26 de novembro, os americanos, em resposta às gestões dos nipônicos feitas no sentido de obter deles mais compreensão para o problema, enviaram-lhes uma nota trocando a suspensão do embargo pela retirada das tropas japonesas da China.

 

Com isto, ambos os lados (pois os americanos estavam lendo as mensagens diplomáticas japonesas) compreenderam que chegara o fim. No dia seguinte, os americanos enviaram um sinal de “aviso de guerra” aos seus comandantes no Pacífico. Mesmo antes disso, a força-tarefa que atacaria Pearl Harbor já havia partido, embora os Aliados o ignorassem. Numa conferência realizada em Tóquio no dia 27, decidiram-se os nipônicos pela guerra. O embaixador em Washington foi informado de que as negociações seriam “interrompidas de fato”, mas ordenaram-lhe que não desse a impressão de que tudo estava terminado. Uma Conferência Imperial realizada a 1o de dezembro, com a presença do Imperador, simplesmente confirmou o que já estava concertado. Os comandantes das forças invasoras foram informados de que a guerra começaria no dia 8 (hora de Tóquio). (A apresentação de datas envolve certa complicação no âmbito internacional, pois enquanto em Washington e no Havaí transcorria o domingo, dia 7 de dezembro, em Tóquio e na Malásia já era segunda-feira, 8 de dezembro. As diferenças de zona também são consideráveis, porquanto as várias ações realizadas no começo da guerra abrangeram extensão imensa do globo. Todos os ataques tiveram lugar de manhã bem cedo, hora local, e entre 15:15 h e 19:00 h, hora média de Greenwich (exceto em Hong-Kong; 23:30 h, HMG). Os alemães e italianos receberam fortes insinuações da ação e responderam prometendo que também se intrometeriam contra os Estados Unidos; mensagens decifradas revelaram que a maioria dos membros da embaixada japonesa em Washington recebera ordens de partir para o Japão e que os códigos deveriam ser destruídos. No dia 4, a rádio japonesa transmitiu a mensagem “Vento Leste, Chuva”, significando que a ruptura de relações com os Estados Unidos era iminente; o Serviço de Inteligência Britânico informou que grandes comboios escoltados estavam rumando para o sul no dia 6. Evidentemente, a sorte fora lançada. Só restava saber onde se daria o golpe.

 

Faltava um toque final. Embora os líderes militares nipônicos quisessem vibrar o ataque inteiramente de surpresa, o Ministro do Exterior japonês insistiu para que fosse feito um aviso formal e prévio do início da guerra. Saindo para um meio-termo, decidiram enviar uma resposta, contendo quatorze pontos, ao Departamento de Estado, às 13:00 h do dia 7 (hora de Washington), que seriam 7:30 h no Havaí. Enquanto essa nota tivesse sendo lida, os aviões japoneses estariam sobrevoando Pearl Harbor. Contudo, a tentativa de preservação das sutilezas diplomáticas fracassou. Devido ao tamanho da mensagem e à lentidão da embaixada em decifrá-lo, os ataques à esquadra americana já tinham começado quando os enviados japoneses se reuniram com o Secretário de Estado, Hull. O Japão, em geral pouco atento às disposições do direito internacional, quando este atrapalhava os seus interesses militares, violara-o novamente, a despeito da hipócrita manifestação de querer manter-se dentro de seus limites. Este foi, sem dúvida, o primeiro fracasso que o Japão colheu na Guerra do Pacífico.

 

Pearl Harbor

Pearl Harbor foi alvo, talvez, do mais surpreendente ataque dos últimos tempos. O plano, concebido um ano antes de ser levado a cabo, só nas cinco semanas que precederam o ataque é que foi aprovado pelo Estado-Maior-Geral Naval nipônico. Não há nisso, contudo, nada de estranho, pois quase sempre, e aí estão os anais da guerra para o confirmar, os planos improvisados se revelam melhores que os demoradamente traçados, que amiúde se revelam ultrapassados, além de imporem muita rigidez, quando a flexibilidade é pré-requisito cuja importância a prática reconhece.

 

Até começos de 1941, o plano japonês, em caso de guerra contra os Estados Unidos, era curiosamente parecido com o americano. As duas potências visualizavam uma penetração inicial japonesa para o sul, para tomar as Filipinas, seguida de grande batalha naval no Pacífico centro-oeste, quando a força de ajuda americana chegasse à área. A marinha japonesa há muitos anos se vinha preparando com vistas a esse embate e confiava em que seus gigantescos couraçados da classe Yamato se revelariam superiores à Esquadra Americana do Pacífico. Seus almirantes esperavam que esse encontro assinalaria uma segunda e talvez maior Tsushima, um Trafalgar do Pacífico. Nem mesmo as lições da Noruega, Dunquerque e Creta serviram para convencê-los de que os tempos do couraçado já haviam passado; na verdade, a crença de que tais vasos repousava o núcleo vital da esquadra permaneceu forte até a batalha do Golfo de Leyte.

 

Contudo, havia um homem que discordava desse ponto de vista: o Almirante Yamamoto, que fora nomeado Comandante-Chefe da Esquadra Combinada Japonesa em agosto de 1939. Líder inteligente e perceptivo, Yamamoto reprovava a expansão pela força na Ásia, sem dúvida por recear o potencial bélico dos Estados Unidos, que conhecia por haver lá estado, mas também acreditava no “grande destino” do Japão no Oriente, e admitia que somente quando fosse varrida daquela área a influência americana esse “grande destino” se realizaria. Tendo em vista isso, o espírito incisivo de Yamamoto repelia a idéia de ter de esperar pelo ataque da esquadra americana: seria muito melhor atacar primeiro, e rapidamente, como Nelson fizera em Copenhague e Togo em Port Arthur.

 

Yamamoto suspeitava bastante do valor do couraçado na guerra moderna. No período em que comandou o porta-aviões Akagi, teve papel destacado no desenvolvimento da aviação naval do Japão. Foi, em grande parte, ganha por ele a batalha pela construção de mais porta-aviões, para serem utilizados no combate aos navios inimigos sempre que possível. Poucos meses depois de assumir o comando da Esquadra Combinada, começou a tomar lugar em suas preocupações a idéia de aniquilar a força americana em Pearl Harbor num golpe drástico, o que libertaria seu país para a almejada expansão rumo sul. Confidenciando com vários colegas de mentalidade aeronáutica, Yamamoto começou a desenvolver pormenorizadamente o plano no começo de 1941, ao mesmo tempo em que os pilotos navais da esquadra recebiam treinamento intensivo, preparando-se para o momento do golpe aniquilador.

 

Serviu de estímulo ao trabalho de planejamento a notícia do sucesso da incursão britânica contra Taranto, em novembro de 1940, quando 3 couraçados italianos foram afundados por apenas 22 bombardeiros-torpedeiros Swordfish do HMS Illustrious. Colhendo avidamente detalhes sobre esse ataque, os japoneses redobraram esforços na conquista do método a adotar. Embora Pearl Harbor fosse ainda mais rasa que a baía de Taranto, o fato é que os britânicos puderam lançar torpedos aéreos em águas realmente pouco profundas. O segredo consistia em instalar aletas de madeira nos torpedos, para impedir que “caturrassem” e propendesse, para o fundo. Ao mesmo tempo, as aletas foram preparadas para granadas perfuradoras de 15 e 16 polegadas, para que caíssem como bombas: nem mesmo os conveses de couraçados poderiam resistir a tais armas. A Marinha americana, que também estudara as condições do ataque a Taranto, preocupava-se com a defesa de Pearl Harbor; mas o Almirante Kimmel, Comandante-Chefe da Esquadra do Pacífico, fizera objeções à sugestão ao uso de redes antitorpedos, porque prejudicariam o tráfego de barcos dentro da baía, atitude que ele não demoraria a lamentar.

 

Em meados de 1941, os planos de Yamamoto começavam a atingir audiência mais extensa. Já estava escolhido o inflexível Almirante Nagumo para dirigir a força-tarefa atacante, embora este duvidasse muito do sucesso de aventura tão arriscada. Na conferência anual dos jogos de guerra naval, o plano foi revelado às altas patentes da Marinha Imperial. A revelação provocou protestos, sobretudo do Estado-Maior-Geral da Marinha, que considerava arriscada a empresa proposta por Yamamoto. Em vez disso, preferiam os dirigentes do órgão a conservação da tragédia original, que rebaixava a função do porta-aviões. Além de não ser tomada decisão alguma naquela conferência, a discussão propagou-se pelas fileiras graduadas da marinha. Contudo, a 25 de novembro de 1941, Yamamoto fez um ultimato ao Estado-Maior da Marinha - ou o plano era aceito, ou ele e seu Estado-Maior se demitiriam. Diante de tais alternativas, a oposição ao plano de Pearl Harbor ruiu por terra.

 

Entrementes, os preparativos finais eram completados. Três rotas para as Ilhas Havaí haviam sido examinadas: a meridional, pelas Ilhas Marshall; a central, por Midway, e a setentrional. Embora a terceira fosse muito sujeita a mares agitados e exigisse duas sessões de reabastecimento para os destróieres de escolta, foi finalmente a escolhida. Pesou na escolha da rota setentrional o fato de as duas anteriores correrem ao longo de rotas marítimas mercantes e de patrulha de aviões de observação baseados no Havaí, patrulhas cujo raio de ação havia sido ampliado de 320 para 960 Km, e para o êxito da missão era considerado vital que a força-tarefa não fosse vista. O mau tempo ao longo da rota setentrional talvez obrigasse os destróieres a voltar, mas haveria muito pouca possibilidade de detecção. Os vasos que fosses encontrados no caminho seriam afundados, se fossem britânicos, americanos ou holandeses, ou detidos, se fosse, neutros, por uma cortina avançada de escoltas.

 

Também ficou determinado o dia exato. Habitualmente o Almirante Kimmel trazia sua esquadra para o porto nos fins de semana, informavam os espiões, logo, desferido num domingo de manhã, o ataque pegaria os vasos americanos ancorados e inteiramente despreparados para a ação, com apenas metade das tripulações. O ataque seria realizado em meados de dezembro, o mais tardar, devido à crescente escassez de combustível; outra coisa: o inverno manchuriano, depois disso, já teria começado, e protegeria o enfraquecido Exército de Kwantung contra um ataque de surpresa e, depois desse tempo, a monção estaria no apogeu, o que impediria desembarques anfíbios na Malásia e nas Filipinas. O domingo, 7 de dezembro (hora de Havaí) parecia ideal, pois, além de não haver luar, as marés seriam ideais para os desembarques naqueles dois pontos.

 

Esse dia teria sido favorável a uma invasão anfíbia das Ilhas Havaí também, mas a idéia foi rejeitada. Todas as tropas e todos os navios-transporte de tropas eram necessários em outros locais e seria necessário uma força imensa para conquistar o grupo: calculava-se que havia 43.000 soldados americanos somente em Oahu. Um comboio assim tão grande seria certamente descoberto, pois não poderia percorrer a turbulenta rota setentrional. O envolvimento de outras forças japonesas se limitaria aos cinco mini-submarinos, cujas tripulações, de dois homens em cada um, se sacrificariam na tentativa de incapacitar as belonaves americanas que se encontrassem na baía.

 

Esses cinco barcos suicidas foram tirados da base naval de Kure a 19 de novembro, de um conjunto de 27 grandes submarinos classe I, que patrulhariam ao largo de Pearl Harbor. Sete dias depois, a força-tarefa principal zarpou da Baía de Tankan, nas Ilhas Kurilas setentrionais, à velocidade de 13 nós, com ordem de restringir ao máximo as mensagens radiofônicas. Comandados pelo Almirante Nagumo, zarparam os seis grandes porta-aviões, Akagi, Kaga, Shokaku, Zuikaku, Hiryu e Soryu, transportando 423 aviões. Destes, 360 seriam usados no ataque - 81 caças, 135 bombardeiros de mergulho, 104 bombardeiros de alto nível e 40 bombardeiros-torpedeiros. Os porta-aviões eram escoltados por 2 couraçados, 2 cruzadores pesados, 9 destróieres e 3 submarinos, acompanhados por oito petroleiros. Os alvos principais dos bombardeiros, em ordem de importância, seriam os porta-aviões americanos (possivelmente 4, mas, pelo menos, 2); a esquadra de batalha do Pacífico, de 8 a 9 navios de linha; os tanques de combustível e outras instalações portuárias e os aviões dos Campos Wheeler, Hickam e Bellows. Se tudo isto pudesse ser cumprido, a supremacia japonesa no Pacífico Ocidental estaria garantida.

 

Já então se aproximava o ponto de crise. A 2 de dezembro (após a Conferência Imperial do dia anterior) foi confirmada a decisão de atacar. Os navios tiveram suas luzes apagadas e redobraram o alerta. Mares agitados arrastaram vários navios, mas não se podia perder tempo em procurá-los. A velocidade foi aumentada para 25 nós no dia 4, a despeito dos riscos de colisão no nevoeiro. Do consulado japonês em Honolulu, o vice-cônsul Yoshikawa estabelecia um fluxo contínuo de informações sobre o movimento dos navios americanos, que eram transmitidas para Nagumo através de Tóquio. À meia-noite de sexta-feira, 6 de dezembro (5 de dezembro, no Havaí), não descoberta a força de ataque, o almirante tomou a decisão final de prosseguir com o ataque: não era mais possível voltar. A grande preocupação girava em torno dos porta-aviões americanos, que não estavam em Pearl Harbor, mesmo na noite de sábado. Contudo, nada, além de esperar que aquelas belonaves retornassem na manhã seguinte, podia ser feito.

 

Restando apenas 15 horas de viagem, a força-tarefa de Nagumo avançava veloz para o sul, para o Havaí. No topo do mastro do Akagi tremulava a famosa bandeira de batalha do Sol Nascente, que Togo usara em Tsushima. Mensagens do Imperador e de Yamamoto foram lidas em voz alta e fizeram-se brindes. Então as tripulações, completados os últimos preparativos, passaram a aguardar o amanhecer, os nervos tensos. Pouco antes disso, Nagumo, ansiando por maiores informações, decidiu despachar dois aviões de reconhecimento, enfrentando o risco de ser descoberto. Estes, porém, não enviaram informe algum. Precisamente às 06:00 h o primeiro avião atacante decolou do convés do Akagi, seguido de outros 182, constituindo a primeira leva. A sorte estava lançada. Para Nagumo e seu Estado-Maior havia começado um período de nervosa espera; para os aviadores, a oportunidade de fazer história.

 

E do lado americano? Como dissemos antes, Washington conseguira decifrar todas as mensagens diplomáticas japonesas e sabia que depois de 29 de novembro começariam a acontecer coisas: as instruções de retirar o pessoal da embaixada e de destruir todas as mensagens secretas não deixavam dúvidas de que a guerra era apenas questão de dias. Os informes de movimentos de navios de tropas no sul do Mar da China, a 6 de dezembro, indicavam claramente ataques japoneses para o dia 7 ou 8. Contudo, em nenhuma das mensagens decifradas havia referência a ataque a Pearl Harbor, sendo evidente que os americanos, embora esperassem arremetidas contra a Tailândia, Malásia ou Filipinas, mal podiam acreditar que os japoneses se arriscassem a investir contra o Havaí. Ademais, essa informação decifrada permaneceu restrita aos mais graduados do Serviço de Inteligência e aos oficiais do Gabinete - ninguém em Pearl Harbor leu as mensagens - e envolvia maciço volume de relatórios diplomáticos e instruções que haviam sido captadas em toda a Ásia e no hemisfério ocidental. Inevitavelmente, o segredo excessivo e o atraso na decifração de todo esse conjunto de mensagens impediram que os americanos usassem plenamente a maravilhosa vantagem com que contava o Serviço de Inteligência.

 

Por outro lado, certas fontes diplomáticas extra-oficiais haviam sugerido a possibilidade de um ataque a Pearl Harbor e vários comandantes locais se tinham preocupado com a possibilidade de serem pegos desprevenidos; mas a idéia fora abandonada, tachada de “fantástica” pelo Serviço de Inteligência dos Estados Unidos. Além disso, o consulado japonês em Honolulu recebera um pedido, a 24 de setembro de 1941, para que informasse detalhadamente a localização de todas as belonaves americanas em Pearl Harbor - evidentemente para que os aviadores de Yamamoto pudessem planejar seu ataque. Contudo, os americanos, embora interceptassem a mensagem, ignoraram-na. Também ignoraram o relatório enviado pelo navio de carreira SS Lurline, de que seu radiotelegrafista captara sinais incoerentes, em baixa freqüência, de uma força rumando para o Havaí no começo de dezembro. Na verdade só restava uma possibilidade de alertar o Almirante Kimmel, e o General Short: depois que os decifradores em Washington informaram que a resposta japonesa final deveria ser entregue às 13:00 h do dia 7 (amanhecer em Honolulu), o General Marshall advertiu as Filipinas, São Francisco, Panamá e Pearl Harbor que “ficassem alerta” naquela hora. Contudo, uma série de acidentes fez com que essa mensagem fosse transmitida por um mensageiro em bicicleta, em Honolulu; quando ela chegou às mãos de Kimmel, já a sua frota de batalha estava destruída e a força de Nagumo se afastava para oeste.

 

Naquela manhã de domingo, em Pearl Harbor, as preocupações eram mínimas, porque ninguém havia tomado conhecimento de que as relações nipo-americanas estavam no auge de uma crise. Os primeiros sinais de algo inusitado vieram com a descoberta de um mini-submarino, por um caça-minas americano, por volta das 03:45 h; às 06:30 h, outro foi avistado e atacado pelas patrulhas, mas somente uma hora mais tarde é que a notícia desse acontecimento foi divulgada, mesmo assim só para a marinha. Mas às 07:02 h, uma estação de radar, na Ilha de Oahu, captou uma grande força de aviões (mais de cem, segundo se calculava) vinda do norte, mas um oficial inexperiente, do centro de informações, interpretou que fosse uma esquadrilha de B-17 que era esperada da Califórnia - embora somente 12 destes deveriam chegar e se aproximariam pelo leste! Desfazia-se assim a última oportunidade de se preparar para o ataque.

 

Às 07:45 h, os pilotos japoneses, meio incrédulos, sobrevoaram Oahu, sem encontrar um avião inimigo sequer, nenhuma artilharia antiaérea e o cenário lá embaixo parecia pacífico, com as fileiras duplas de couraçados ancorados ao largo da Ilha Ford, no centro de Pearl Harbor. A surpresa foi completa até o fim. Transmitindo a notícia a Nagumo por meio de palavras-código “Tora, Tora, Tora”, o comandante Fuchida dirigiu seus esquadrões contra a vítima que de nada suspeitava. Caças, bombardeiros de mergulho, bombardeiros-torpedeiros, bombardeiros de alto nível, todos se dirigiram para os respectivos alvos. As grandes bases aéreas dos Campos Wheeler e Hickam, com seus numerosos caças e bombardeiros enfileirados foram metralhadas e bombardeadas pelos jubilosos zeros e Vals. Hangares e quartéis, aviões e veículos terrestres, todos foram destruídos na arremetida, assim como centenas de homens. Pouco antes das 08:00 h, soou o alarma: “Ataque Aéreo Pearl Harbor! Não é exercício!” Era, porém tarde demais, e poucos aviões puderam subir para atacar os incursores. Também nas demais bases aéreas, os japoneses, sem ninguém que os molestasse, causaram larga destruição.

 

O ponto central do ataque era ao largo da Ilha Ford, ao longo da adequadamente chamada Fileira de Couraçados, onde estava ancorado o orgulho da Esquadra Americana do Pacífico. Pouco depois da 08: 00 h, os bombardeiros-torpedeiros Kate voavam pela baía, rente às águas, e lançavam seus bem sincronizados torpedos. Livres das redes que Kimmel não quisera usar, essas armas mostraram-se terrivelmente eficientes. Logo depois de atingidos, os couraçados da linha externa, Oklahoma, West Virginia e Califórnia, começaram a adernar. As duas levas seguintes de Kates incapacitaram os cruzadores Helena e Raleigh, o lança-minas Oglala e o navio-alvo Utah, após o que os bombardeiros de mergulho se lançaram contra esses infelizes alvos. Atingidos em suas entranhas, o couraçado Arizona explodiu com tremenda violência, enquanto outros vasos também eram seriamente avariados. Os próprios bombardeiros de alto nível de Fuchida juntaram-se à refrega, escolhendo cuidadosamente, um a um, os alvos agrupados. O caos era completo, incrivelmente completo. A baía estava coalhada de imensas fogueiras, de navios tombados, e os aviões mergulhando por entre as nuvens de fumaça produzidas pela artilharia antiaérea.

 

Às 08:25 h, exatamente quando a primeira força de aviões se retirava, outros 170 chegaram, como se fossem necessário acrescentar alguma coisa mais para dar a todos a sensação de que para ali mudara-se o inferno. Embora auxiliados, até certo ponto, pelas nuvens de fumaça, os defensores estavam mal equipados para rechaçar tão grande número de aviões. Poucos dos seus aparelhos conseguiram levantar vôo e o fogo antiaéreo do exército era ineficiente; somente as próprias belonaves é que fizeram alguma oposição à horda de atacantes. Na verdade, elas conseguiram derrubar 20 aviões inimigos, dos quais menos da metade caiu no primeiro ataque. Mas o preço era alto, pois ainda havia muitos alvos tentadores na baía. A tentativa do couraçado Nevada de escapar da linha de navios em chama atraiu a atenção dos nipônicos e ele foi atingido muitas vezes antes de encalhar à margem do principal canal de saída. A área das docas foi violentamente bombardeada e entre os navios atingidos estava a nave-capitânia, Philadelphia. Mas, por volta de 09:45 h, havendo-se retirado os japoneses, os americanos puderam atirar-se ao trabalho de apagar os incêndios e de tentar salvar os navios atingidos. Tão preocupados estavam eles com um terceiro ataque, ou com uma invasão, que declararam a lei marcial, mantendo-se vigias permanentes. Era tal a inquietação, que os aviões que decolaram do porta-aviões americano Enterprise foram derrubados por engano, mais tarde, naquela mesma manhã.

 

Mas não houve invasão, nem mesmo um terceiro ataque aéreo, embora Fuchida insistisse em que deviam voltar. Nagumo, porém, preocupado em dar o fora, considerou cumprida a missão. Dirigindo-se para o norte às 13:30 h, a força de porta-aviões ganhou o caminho de casa, excetuando-se o Soryu e o Hiryu, que foram despachados, com suas escoltas, para proteger a invasão da Ilha Wake (onde a pequena guarnição de fuzileiros navais americanos lutaria desesperadamente, em grande desvantagem, até o dia 23 de dezembro). Por volta do dia 24, os navios de Nagumo davam entrada nas baías japonesas, recebendo entusiástica recepção. Da noite para o dia, Fuchida e seus companheiros transformaram-se em heróis nacionais. Eles haviam preservado a honra do Japão e sua formidável reputação combativa; havia igualado, ou mesmo superado, as proezas do Almirante Togo; haviam assegurado a vitória ao seu país.

 

Teriam mesmo? Os benefícios que o Japão obteve com o ataque a Pearl Harbor foram indubitavelmente grandes. A esquadra de batalha americana do Pacífico fora posta fora de ação. O Arizona, Oklahoma, West Virginia e Califórnia naufragaram, o Nevada foi obrigado a encalhar e o Maryland, Tennessee e Pennsylvania ficaram danificados (somente o Arizona e o Oklahoma foram completamente eliminados); o navio-alvo Utah e o lança-minas Oglala se perderam; e 3 cruzadores, 3 destróieres, um navio-oficina e um hidravião-tênder saíram seriamente avariados; 188 aviões foram destruídos e muitos sofreram avarias, algumas bastante sérias. Mais de 2.400 americanos morreram, enquanto que os japoneses perderam apenas 29 aviões e menos de 100 homens. Os 5 mini-submarinos, que não se constituíram senão em cinco fracassos, mesmo durante o ataque aéreo, perderam-se.

 

Tranqüilizados pela remoção da sombra da Esquadra do Pacífico, os nipônicos realizaram importantes operações no sul. Ainda como resultado da investida contra Pearl Harbor, a força-tarefa de Nagumo poderia ser empregada, daí por diante, contra Java ou Ceilão, sem ter de guardar seu flanco oriental. Finalmente, o aniquilamento da esquadra americana deu ao Japão a ansiada oportunidade de criar um “Festung Nippona” suficientemente forte para resistir a contra-ataques.

 

Não obstante, o ataque a Pearl Harbor não foi um sucesso tão completo. E Fuchida compreendeu isto perfeitamente, tanto que insistiu para que o inflexível Nagumo consentisse num terceiro ataque. Para Fuchida, homem de mentalidade aeronáutica, estava claro que o almirante não conseguia ver que os porta-aviões eram a principal arma naval e que tinham de ser destruídos. (Na verdade, o Enterprise, que navegava perto do Havaí, por pouco escapou de ser descoberto.) O fato de terem escapado foi realmente um golpe sério, como o próprio Yamamoto compreendeu, quando foi informado disso. Seria lícito também afirmar que a destruição dos couraçados forçou a Marinha americana a adotar o porta-aviões como a espinha dorsal da sua Esquadra do Pacífico - com espetaculares resultados. Ademais, as instalações de óleo e as oficinas ficaram intactas. Se tivessem sido destruídas, a esquadra, por certo, teria sido obrigada a operar da Califórnia e não do Havaí. Muito mais vantajoso para o Japão teria sido a conquista de todo o grupo havaiano, embora a manobra envolvesse forças muito volumosas. No entanto, o esforço permitiria aos japoneses a tomada e a preparação tranqüila do Sudeste Asiático, porque só depois de alguns anos poderia verificar-se o retorno dos americanos.

 

Uma última conseqüência infeliz do ataque deu-se na esfera política. Roosevelt vinha tentando aumentar o apoio aos britânicos na Europa e a adotar uma linha forte no Extremo Oriente, mas o povo americano, em seu isolacionismo, o impedira de fazer as duas coisas. O surpreendente ataque do Japão, seguido de declaração de guerra aos Estados Unidos por Hitler, resolveu os problemas de Roosevelt. Ultrajado pela infâmia dos dois inimigos, o Congresso e o povo Americano entraram na guerra com a determinação de vencê-la, independente do que isso viesse a custar, e puseram todo o enorme potencial industrial do país a serviço da conquista desse objetivo. Logo, não é de espantar que Winston Churchill tivesse na noite de 7 de dezembro “o sono dos salvos e agradecidos”; também não é de espantar que o perceptivo Yamamoto já estivesse imaginando até quando durariam as vitórias do Japão.

 

Hong-Kong, Malásia e Cingapura

A ilha de Hong-Kong e os territórios circunjacentes formavam uma famosa colônia britânica e um dos maiores portos do mundo, mas durante os anos 30, Londres reconheceu sensatamente que ela seria inútil como base no caso de guerra contra um inimigo tão formidável quanto o Japão. A área era pequena demais para proporcionar qualquer defesa duradoura. O elemento civil montava à casa de 1.750.000 habitantes, que dependiam do continente para o seu abastecimento de água. Ademais, depois de fevereiro de 1939, a colônia foi cercada por tropas japonesas, que estavam ocupando grande parte da linha costeira chinesa a fim de cortar o abastecimento destinado a Chiang Kai-Shek. A ilha ficava também muito longe de Cingapura para que pudesse receber qualquer ajuda imediata, e bem ao alcance dos bombardeiros japoneses que operavam de Formosa. Mas, a despeito da sua indefensabilidade, os britânicos esperavam, sobretudo por motivo de prestígio, que a colônia pudesse resistir por uns noventa dias, até que chegassem reforços. Portanto, dois batalhões canadenses foram despachados para se juntar aos quatro que lá se encontravam. Porém, por volta de 1941, somente os mais otimistas acreditavam que tal auxílio chegasse a tempo.

 

A estratégia do comandante da guarnição, Major-General Maltby, consistia em manter os territórios arrendados ao longo da “Linha Gidrinkers”, semifortificada, até que as instalações portuárias fossem destruídas, para depois tentar resistir ao cerco no interior da ilha. Mas essa política ruiu por terra poucos dias após o começo da guerra. Já na manhã de 8 de dezembro (o dia 7 no Havaí), os bombardeiros japoneses haviam destruído os poucos aviões da RAF e seus soldados estavam cruzando as fronteiras da colônia. A 38a Divisão, comandada pelo Tenente-General Sano, fora encarregada de tomar Hong-Kong, e ele estava decidido a não perder tempo no cumprimento da tarefa. Os japoneses, além de numericamente superiores, dispunham de dois trunfos talvez decisivos, que eram o comando absoluto do ar e o poderoso apoio de artilharia. Por volta de 9 de dezembro, os britânicos haviam retornado à “Linha Gidrinkers” e, na manhã seguinte, bem cedo, o importante reduto de Shing Mun foi tomado por tropas conduzidas por um certo Coronel Doi, sucesso que surpreendeu tanto a Sano quanto a Maltby. Com sua linha rompida, os britânicos recuaram apressadamente para a ilha, com os últimos contingentes abandonando a parte continental da colônia no dia 17.

 

Como a guarnição tinha de espalhar-se para se opor aos ataques, que podiam vir de qualquer direção (inclusive do sul, também ameaçado pelos japoneses), havia pouca possibilidade de qualquer dos flancos poder suportar uma arremetida ainda que não fosse excessivamente forte. Na noite de 18 para 19 de dezembro, os três regimentos da 38a Divisão desembarcaram na costa norte e logo atravessaram a Baía de Águas profundas, no sul. Assim, a defesa foi dividida em duas e obrigada a recuar gradativamente. No dia 25, o setor ocidental rendeu-se, seguido pelo setor oriental, no dia seguinte. Os japoneses sofreram, entre mortos e feridos, 2.754 baixas, e os britânicos, aproximadamente 4.400. Mas a guarnição, de 11.848 homens, e a própria colônia foram perdidas, e isto em apenas 18 dias, em lugar dos 90 esperados. Naturalmente, os japoneses contaram com vantagens ponderáveis, como o volume de tropas, o apoio da artilharia, o domínio do ar e o excelente conhecimento do terreno. Mas a rapidez com que se verificou a tomada era o melhor indicador do destino dos territórios britânicos no Extremo Oriente, os mais importantes dos quais era a Malásia, o maior produtor de borracha e estanho do mundo, e Cingapura, ponto dominante da rota comercial do Oriente para a Índia e o Ocidente, ambas dificilmente defensáveis. A Malásia, e, boa parte da região montanhosa, coberta de florestas, que dividia quaisquer linhas laterais de defesa em duas, dependia de grandes importações de arroz para alimentar uma população de mais de 5 milhões de habitantes; a defesa de Cingapura, se a Malásia caísse, era como defender a Ilha de Wight contra um inimigo baseado em Hampshire. Contudo, não era este o problema quando a grande base naval foi construída ali, nos anos próximos de 1924. Na suposição de que a selva malaia fosse uma barreira para qualquer força invasora, as defesas de Cingapura foram construídas visando a um ataque pelo mar, e esta suposição continuou vigente pelos anos 30 adentro. Mas então ficou claro que a grande esquadra para a qual se construíra a base não estaria disponível, devido aos problemas econômicos surgidos nos anos que ficaram entre as duas últimas guerras e às crescentes ameaças à Grã-Bretanha na Europa. Contudo, esperava-se que uma força aérea grande e eficiente pudesse defender a Malásia e Cingapura até que chegasse auxílio. Por conseguinte, construíram-se vários aeródromos excelentes no lado ocidental da península; mas logo se soube que os aviões necessários também não estavam disponíveis. Em lugar dos 566 aviões modernos que os comandantes locais exigiam como o mínimo necessário, somente 158 aviões de primeira linha (mas ainda muito medíocres) estavam baseados ali quando a guerra estourou.

 

É verdade que as forças de terra eram consideráveis: cerca de 31 batalhões e unidades de apoio, totalizando 88.600 homens; mas o Comandante-Chefe da Malásia havia solicitado outros 17 batalhões e dois regimentos de tanques para formar uma força mínima. De qualquer modo, a maioria das unidades existentes estava mal equipada e mal treinada para guerra na selva. Não tinha tanques, e seu comandante, Tenente-General Percival, não tinha nem a experiência nem a inflexibilidade exigidas para o bom exercício do alto-comando na guerra. Além disso, o que de fato estava acontecendo era que as forças de terra estavam guardando as bases aéreas (onde não havia nenhuma frota aérea) que foram construídas para proteger uma base naval (onde não havia nenhuma esquadra naval). Os britânicos haviam construído instalações que, nas circunstâncias econômicas e políticas, não tinham qualquer utilidade para eles, mas que eram extremamente úteis para os japoneses e que poderiam cair facilmente diante de um ataque decidido. Cingapura, que teoricamente era a base mais importante fora do Reino Unido, praticamente não era tratada como tal e, na verdade, depois de 1938, Londres dera conscientemente prioridade ao Mediterrâneo, na esperança de que o Japão não provocaria guerra no Extremo Oriente. Mas em 1941 a expectativa transformara-se em vã esperança. E o governo Churchill encontrava-se à época por demais envolvido no Oriente Médio para fazer algo a respeito.

 

Porém, já então os comandantes locais estavam cientes do que representaria uma invasão pelo norte, e o avanço do Japão para a Indochina acentuou essa preocupação. Soldados foram estacionados ao longo da fronteira norte, embora poucos comandantes graduados e nenhum dos políticos acreditassem que os japoneses pudessem conquistar Cingapura. Ademais, suas defesas não eram de modo algum fixas, pois se esperava levar forças para o norte, para tomar o importante porto siamês de Singora assim que os japoneses atacassem. Infelizmente para os que acreditavam nesse plano, rotulado de “Matador”, os nipônicos podiam chegar ao Sião do sul, pela Indochina, em 33 horas, ao passo que os britânicos demorariam 36 horas para chegar a Singora; se algum dia houve estratégia duvidosa desde o início, era esta. Na verdade, tudo o que ela fez foi desarrumar as defesas britânicas ao norte da Malásia.

 

Para os japoneses, a tomada da Malásia e Cingapura era realmente muito importante. Isto não só expulsaria os britânicos de sua principal posição no Sudeste Asiático, como também proporcionaria uma grande base, além de borracha e estanho, produtos realmente necessários. E não só isso, permitiria e dominaria as Índias Orientais Holandesas, onde o Japão poderia obter mais estanho, mais borracha, além de petróleo, essencialíssimo para os nipônicos. Portanto, o domínio da Malásia entrou rapidamente na alça de mira do comando japonês, que para tanto enviou três divisões e unidades de apoio, cuja seção avançada desembarcaria no Sião e no norte da Malásia. Da força nipônica, de 110.000 homens, foram destacados para o desembarque 70.000, que constituíam a nata do exército japonês, muito bem treinados na guerra na selva e em desembarques anfíbios. Além disso, traziam 211 tanques, enquanto que os britânicos não tinham nenhum; e como a Malásia era parte importante das operações meridionais, 560 aviões foram destacados para apoiar Yamashita. Evidente que muita coisa iria depender da rapidez da tomada de cabeças-de-praia, mas os nipônicos esperavam que a época da monção protegesse a aproximação dos comboios e prejudicasse os movimentos das tropas britânicas.

 

O cálculo dos nipônicos revelou-se perfeito. Embora o reconhecimento aéreo comunicasse a presença de uma esquadra japonesa no Golfo do Sião, no dia 6 de dezembro, estava acertado que a “Operação Matador” não se desencadearia antes que houvesse desembarque, e o mau tempo realmente ocultou todos os movimentos de navios. Na primeira ação real do Japão na guerra (70 minutos antes do início do ataque a Pearl Harbor), 5.500 soldados foram desembarcados ao norte do porto malaio de Kota Bharu, aos 45 minutos do dia 8. Duas horas depois, outras forças desembarcariam em Singora e Patani, no sul do Sião, e se preparavam para avançar para o sul. Entrementes, a Imperial Divisão de Guardas cruzara a fronteira siamesa pela Indochina e estava induzindo o governo Thai a aceitar o controle japonês. A despeito dos bombardeiros da RAF e da valente oposição de 800 soldados indianos, os nipônicos estabeleceram uma cabeça-de-praia em Kota Bharu e no aeródromo situado nas proximidades, capturado pelos invasores. Estes acontecimentos, verificados na costa leste, desviariam de certo modo a atenção do que vinha passando no lado oeste, onde os japoneses pretendiam concentrar o esforço principal. O moral britânico já estava deprimido pelos ataques aéreos a Cingapura e pelo cancelamento da “Operação Matador”, após alguns dias de espera.

 

Golpe muito maior receberam os britânicos no dia 10, com o afundamento do couraçado Prince of Wales e do cruzador de batalha Repulse, por aviões japoneses. Havia poucos dias que essas belonaves tinham chegado ao Extremo Oriente como “força repressiva”, mas claramente fracassaram em seu propósito. E elas eram tudo o que a metrópole podia enviar àquela área, devido à situação crítica do Mediterrâneo e do Atlântico e em obediência à decisão de Churchill de desatender o plano do Almirantado de reunir um grupo de couraçados mais antigos no Ceilão. Ademais, o encalhe do Formidable havia roubado à força mais moderna, conhecida como “Força Z” e comandada pelo Almirante Phillips, o seu porta-aviões. Portanto, a cobertura aérea teria que ser feita pela RAF, e na época havia falta de aviões. E quando Phillips anunciou, no dia 9, que estava partindo para atacar um comboio japonês que rumava para Singora, não demorou a saber que não podia esperar muita proteção de caça, porque todos os aviões estavam sendo retirados das bases setentrionais.

 

Não obstante, a “Força Z” zarpou , com uma escolta de 4 destróieres. Avistado por aviões japoneses no dia seguinte, Phillips desviou-se para o sul, mas foi novamente desviado por um informe falso de que estava havendo desembarque em Kuantan. A RAF não foi notificada da mudança de rumo, mas Phillips foi avistado pelos japoneses, que haviam levado bombardeiros-torpedeiros para a Indochina, destinados especialmente a afundar esses navios. Pouco depois das 11:00 h de 10 de dezembro, 51 bombardeiros-torpedeiros e 34 bombardeiros de alto nível atacaram a “Força Z” com precisão devastadora. Os dois navios de linha, rompidos por torpedos, afundaram em poucas horas; 2.081 homens, do total de 2.821, foram recolhidos pelos destróieres, mas o próprio Phillips morreu. Ironicamente os caças britânicos, alertados tarde demais, chegaram ao local no momento em que o Prince of Wales afundava. Ao custo de apenas 3 aviões, os japoneses vibraram um golpe esmagador na Marinha Real e no moral britânico em geral; e, muito mais do que em Pearl Harbor, demonstraram a vulnerabilidade do couraçado ao ataque aéreo. Depois disso, tornou-se evidente que a época dos navios de grandes canhões terminara.

 

Em tempo extraordinariamente curto, o Japão estabeleceu completo controle aéreo e naval na área malaia, dificultando ainda mais para os britânicos a tarefa de defender seus territórios. De qualquer modo, uma vez retirados os poucos aviões que havia nos aeródromos do norte, também desapareceu a razão de ser da presença de tropas ali. A tática adotada pelos nipônicos, permitida pela superioridade do equipamento de que dispunham, colocou os britânicos em regime de retirada quase contínua, depois que a posição de Jitra foi abandonada, a 13 de dezembro. Batalhões de sapadores repararam rapidamente as pontes rodoviárias que os britânicos haviam demolido. Obstáculos rodoviários, ou foram removidos pela artilharia e pelos tanques japoneses, coisa que o soldado indiano na maioria não tinha, sequer, visto, ou por infiltração, através da selva, da infantaria nipônica que, pelo que demonstrava, se especializara nos ataques de flanco e operações noturnas, debaixo das chuvas da monção. A falta de tropa e de comandantes em quantidade bastante e com bom adestramento para a luta na selva, de artilharia e de cobertura adequada e, também, de tanques, mais o temor de serem flanqueados, temor acentuado pela inexistência de tanta coisa reconhecidamente importante, fizeram que os britânicos não parassem de recuar, descendo pela costa oeste. Por sua vez, as forças da costa leste, em virtude do que acontecia na costa oeste, viram-se obrigadas a abandonar todo o Kelentan. Depois de Jitra, a posição tomada na linha do rio Perak logo foi vencida por uma ação de flanco, e a posição seguinte, em Kampar, foi abandonada quando os japoneses desembarcaram tropas atrás da linha de frente, usando pequenos barcos capturados.

 

À medida que essas primeiras posições se esboroavam, os britânicos começaram a mandar reforços às pressas para a Malásia e as Índias. Caças Hurricanes foram desviados do Oriente Médio, mas mostraram-se menos manobráveis que os Zeros e, de qualquer modo, sempre estavam em inferioridade numérica. Da Índia, Birmânia, Austrália e Oriente Médio foram despachadas tropas para Cingapura. Três brigadas lá chegaram a 25 de janeiro de 1942 e algumas excelentes divisões australianas que estavam em Suez foram prometidas. Mas os primeiros reforços a chegar, além de não pertencerem a tropa de boa categoria, estavam mal equipados. Para agravar mais o problema, esses reforços foram enviados aos bocados, e nada puderam diante da maré: a maioria chegou apenas a tempo de aumentar o grande número de prisioneiros dos japoneses. Além desses movimentos de tropas, o sistema de comando fora modificado, passando a frente de batalha ao comando do General Wavell, que fora nomeado para chefe do Comando ABHA (americano, britânico, holandês, australiano), que abrangia todo o Sudeste Asiático. O terreno era inteiramente estranho para Wavell, cujas instruções tinham de atravessar uma complexa cadeia de comando - muitas vezes através de Pownall, seu Chefe de Estado-Maior, de Percival e, depois, dos líderes das forças das costas leste e oeste. As comunicações entre a linha de frente e Cingapura deixavam muito a desejar.

 

Por volta de 6 de janeiro os britânicos haviam evacuado Kuantan, na costa leste, e continuavam recuando para o sul. Do outro lado da cadeia de montanhas, uma linha firme estava sendo construída em torno do Rio Slim, para manter os aeródromos próximos de Kuala Lumpur e Port Swettenham distante das mãos inimigas. Contudo, depois de sondagem irregulares, um ataque de tanques japoneses, desfechado na noite de 7 para 8 de janeiro, rompeu a linha de frente e avançou para a ponte rodoviária sobre o Rio Slim, a 32 km na retaguarda. Ao tomar e manter essa posição, a força atacante não só derrubou outra barreira de defesa, como também impediu a retirada organizada dos britânicos. Quatro mil soldados se perderam na confusão que se estabeleceu na tentativa de chegarem ao sul e a 11a Divisão Indiana foi destroçada. Ademais, o plano de Percival de defender a Malásia Central foi desbaratado, prejudicando seriamente o ritmo da retirada. Na verdade, esse ritmo foi acelerado depois da visita de Wavell, no dia 8, pois ele ordenou que a defesa se concentrasse no Johore, onde os reforços que chegavam estavam sendo estacionados. Nesse ponto da península, onde termina a cadeia de montanhas, os japoneses puseram duas das suas divisões no ataque ao longo das melhores estradas do Johore do norte. Portanto, a feroz defesa australiana em Gemma não foi de grande utilidade, porque um movimento de flanco feito pelos japoneses pela costa leste resultou na queda de Muar, a 16 de janeiro, e no enfraquecimento de toda a posição britânica. Quando mais tropas japonesas chegaram de Singora (usando caminhões capturados), a posição em Bata Pahat foi abandonada, obrigando a guarnição a voltar pela selva, embora bom número de seus integrantes fosse salvo pelo mar. Mas a perda de equipamento e, mais importante, de moral, ante as repetidas retiradas, estava-se fazendo sentir no seio das tropas britânicas ou por eles controladas. A dominância japonesa do ar, de onde em onde fustigada por valentes mas patéticas investidas dos poucos aviões da RAF, também estava logrando efeito. A retirada desenfreada continuou na direção dos depósitos de combustível, em chamas na Ilha de Cingapura.

 

Por volta de 20 de janeiro, Wavell já se conscientizara da iminência de uma retirada para a ilha, mas, estarrecido diante da falta de defesa no local para onde teria que se retirar, passou a contar com uma prolongada defesa no Johore para que pudesse tentar a construção de tais defesas. Ao mesmo tempo, tentava explicar a Churchill que Cingapura não era nenhuma “fortaleza” e que somente um milagre poderia salvar a cidade, que se encontrava totalmente vulnerável a um ataque pelo norte. Aparentemente, a comunicação foi para o Primeiro-Ministro terrível surpresa, que continuava insistindo numa resistência “sem rendição” - evidentemente destacando na escala de importância a questão do prestígio. Reforços estavam chegando em grandes quantidades, porém tarde demais e desorganizados demais para poderem fazer alguma coisa, embora outros estivessem sendo desviados para a Birmânia ou para as Índias Orientais. A 30 e 31 de janeiro, as forças britânicas restantes foram retiradas do continente, destruindo-se, após isso, a enorme ponte através através da qual se ligava à península da Malásia a ilha de Cingapura, sem que isso, no entanto, prejudicasse muito os japoneses, que em 54 dias tomaram a Malásia, com seus aeródromos e suas matérias-primas. Na verdade, o avanço japonês provavelmente não se teria feito tão rapidamente se não tivesse podido os nipônicos contar com tantos caminhões, bicicletas e barcos pequenos capturados! Eles tiveram 4.565 baixas, entre mortos e feridos, enquanto os britânicos perderam aproximadamente 25.000 homens, principalmente prisioneiros, além de quantidade incalculável de equipamento.

 

Com a Malásia em poder do inimigo, a defesa de Cingapura era um empreendimento desesperado. Sem a supremacia aérea, com a crescente escassez de água e suprimentos, uma volumosa população civil para cuidar e sem qualquer possibilidade de alivio, mesmo antes do ataque nipônico, a situação era verdadeiramente insustentável. Percival tinha 85.000 soldados sob seu comando, mas estes, ou estavam esgotados pela retirada, ou eram muito inexperientes; restavam apenas algumas unidades de fato boas. De qualquer modo, Cingapura era, taticamente, muito difícil de defender. Não havia fortificações estabelecidas ao longo de 56 km da costa norte e a largura dos estreitos era de apenas 1.000 metros, em média, sendo muito menor em alguns lugares. Esta costa norte era cortada por muitos riachos, pântanos e bosques densos, não havendo comunicações laterais. Mas, apesar de tudo, não foi feita qualquer tentativa no sentido de construir as defesas, mesmo em dezembro e janeiro, tão irrealista era o raciocínio dos defensores da ilha: os temores dos japoneses de que os britânicos lançassem muitas minas ou queimassem óleo nas águas teriam sido eliminados se tivessem visto a falta de preparativos até o último momento. Somente a base naval, razão de ser da presença das tropas, fora parcialmente destruída e evacuada.

 

Ao chegar ao sul da península, o estado-maior de Yamashita pôs em estudo, de pronto, um plano de invasão. O ataque principal seria feito pelo noroeste da ilha, a área mais dividida por riachos e mais fracamente defendida, por cinco batalhões australianos esticados ao longo de uma frente de 7,5 km. Tendo reunido todos os barcos pequenos disponíveis, enquanto que, ao mesmo tempo, martelava a ilha com bombardeios de artilharia e aéreos, os japoneses se prepararam para assaltá-la com 16 batalhões de linha de frente a 5 de reserva.

 

Na noite de 8 para 9 de fevereiro, as primeiras travessias foram feitas quase que sem qualquer oposição, devido a várias falhas do lado da defesa. Os holofotes e a artilharia não foram usados adequadamente, se tanto, e a comunicação com o QG era ruim. Além disso, os britânicos deixaram-se iludir por um ataque simulado japonês, realizado no lado leste. Isolados e em grande inferioridade numérica diante dos invasores, os batalhões australianos pouco podiam fazer. Na manhã seguinte, 13.000 soldados japoneses começaram a cruzar o estreito e, pelo dia 10, a área próxima à ponte de ligação de Cingapura com a península já havia sido tomada pelas forças de desembarque, fazendo subir para 30.000 o número de soldados na ilha.

 

A reação dos britânicos foi lenta e desorganizada. Quando todos os contra-ataques falharam, eles foram obrigados a recuar para a faixa sudeste de Cingapura, o que lhes aumentou a desvantagem em que se encontravam, pois ali havia um milhão de civis para cuidar, além de terem, com o recuo, deixado em mãos inimigas o abastecimento de água. Os japoneses passaram a lançar tanques na captura da importante área de Bukit Timah, que a 11 de fevereiro caiu, selando o destino da cidade. Quatro dias depois, com a reserva de água escasseando, Percival negociou com os japoneses. Às 18:30 h do dia 15, que passaria a ser chamado o “Domingo Negro”, as hostilidades cessaram formalmente. Cingapura rendeu-se.

 

Para Yamashita, isto foi realmente bem-vindo, pois sua munição estava acabando, seus soldados na ilha estavam realmente em séria inferioridade numérica, o que não lhe deixava pensar em envolver-se numa sangrenta luta de casa em casa. Consumada a rendição, ele podia afirmar que infligira a maior derrota ao Império Britânico no século XX; a expulsão dos britânicos da França e da Bélgica e a queda de Tobruk não se comparavam ao que ali se verificava. Não só se haviam perdido 138.708 soldados britânicos (principalmente como prisioneiros) na campanha Malásia/Cingapura, contra 9.824 baixas japonesas, como também toda a tragédia se consumou em 70 dias, em vez dos 100 dias calculados. Ademais a grande perda sofrida pela Grã-Bretanha representou extraordinário ganho para o Japão, em estanho, borracha, aeródromos e uma base naval.

 

Porém, a significação política e psicológica de tudo isso foi, em última análise, o mais importante. Evidente que a responsabilidade pela queda da Malásia e de Cingapura cabia tanto aos governos que a Grã-Bretanha teve no período entre as guerras, por sua mentalidade econômica, quanto à preocupação de Churchill com o Oriente Médio, aos maus comandantes e tropas mal treinadas da campanha de 1941-42. Outro fator que também muito concorreu para que o Japão colhesse tão expressivo resultado naquela campanha foi a falta de uma força aérea à altura dos acontecimentos. Mas, a despeito dessas desculpas muito legítimas, dos defensores da área muito mais era esperado. O que se deu, no entanto, foi que os japoneses os puseram continuamente em fuga, rápida e humilhante, horizontalizando todo o prestígio britânico. Cingapura, em particular, fora um símbolo reconhecidamente falso do poderio militar e naval do Império. Quando Cingapura caiu, arrastou na queda a mística e o encanto daquela instituição. Reocupada em 1945, após três anos de domínio japonês, não pôde a Grã-Bretanha restaurar nos velhos impérios coloniais do Oriente as mesmas diretrizes, pois jamais poderiam recuperar o antigo prestígio. A rendição de Percival a uma potência asiática a 15 de fevereiro de 1942 não representou somente o fim de uma campanha, mas também o fim de uma era.

 

As Filipinas e as Índias Orientais Holandesas

 

Como ficou dito no primeiro capítulo, a arremetida japonesa no Pacífico, no começo de dezembro de 1941, surpreendera os americanos no meio de uma mudança de toda a sua política de defesa para as Filipinas. O plano inicialmente estabelecido previa a retirada das ilhas assim que fossem atacadas, à parte a defesa da península de Bataan, para impedir que a Baía de Manila fosse utilizada por navios inimigos. As Filipinas estavam muito longe do Havaí (4.800 km) e perto demais de Formosa e do Japão (1.120 km e 2.880 km, respectivamente) para serem defendidas, sobretudo porque os japoneses já se encontravam na posse das Ilhas Marianas, Carolina e Marshall e haviam completado o cerco, em “ferradura”, da posição americana, com a ocupação da Indochina, em julho de 1941.

 

Devido à insistência de MacArthur e às esperanças depositadas nos bombardeiros B-17, a estratégia da “fuga” cedeu lugar, em agosto de 1941, a outra, segundo a qual as forças defensoras das ilhas se oporiam às tropas invasoras. Naturalmente, para que isso fosse possível as defesas tinham de ser consideravelmente melhoradas. MacArthur tinha aproximadamente 140.000 homens sob seu comando, mas apenas 31.000 destes eram regulares; o restante se compunham de tropas filipinas auxiliares que, ao todo, eram mal treinadas e mal equipadas, embora se esperasse elevar seus padrões até começos de 1942. À medida que o espectro da guerra aumentava, depois de meados de 1941, canhões e aviões foram despachados às pressas para as Filipinas. Os aviões, as novas B-17, eram considerados particularmente importantes, pois o comando Aliado esperava com elas atacar as bases inimigas em Formosa e no Japão e desbaratar os comboios invasores. Mas apenas 35 desses aviões estavam disponíveis quando os japoneses atacaram. Quanto à imponentemente chamada Esquadra Asiática, ela se compunha apenas de uns poucos cruzadores e destróieres que deveriam ser retirados para o sul assim que começassem as hostilidades. A principal força naval eram 29 submarinos americanos equipados com torpedos que mais tarde se descobriu serem defeituosos.

 

Mais seis meses e a capacidade defensiva das Filipinas seria grandemente melhorada, mas os japoneses não respeitavam os cronogramas de ninguém, exceto os seus. Vale, no entanto, notar que as tropas de MacArthur guardavam disposição que não davam apoio à estratégia de defender tudo. As melhores unidades e equipamentos se encontravam em torno de Manila, e as linhas costeiras eram defendidas apenas por regimentos filipinos de baixo nível. Portanto, não seria muito difícil a uma poderosa força japonesa obter uma cabeça-de-praia.

 

Na verdade, era exatamente isto que os invasores planejavam fazer. O Tenente-General Homma, comandante do 14o Exército, só recebeu 57.000 homens para capturar as ilhas e confiava seriamente na superioridade aérea, na surpresa, e na qualidade dos seus soldados para superar as desvantagens. Às 02:30 h de 8 de dezembro, Manila foi informada do ataque a Pearl Harbor e do começo da guerra, mas os comandantes americanos estavam indecisos sobre se deviam bombardear Formosa imediatamente. Diante do ocorrido, os aviões receberam ordens de sobrevoar a Ilha de Luzon, para não serem surpreendidos em terra, caso se verificasse ataque inimigo. Frustrando todos esses planos, o nevoeiro reteve os aviões japoneses em Formosa e, por isso, eles só chegaram às Filipinas no fim da manhã. Desfeita já toda a confusão do lado americano, as B-17 começaram a ser carregadas para um ataque a Formosa. Como o sistema de alarma aéreo era ineficiente, esses aviões foram presa fácil dos atacantes japoneses. Por mais de uma hora, o Campo Clark e outras bases estiveram debaixo de bombardeio em que os americanos perderam 17 B-17, 56 caças e 30 outros aviões; a supremacia aérea do Japão era virtualmente completa. Embora os aviões que escaparam ao ataque dos nipônicos lutassem bravamente durante os dias que se seguiram, acabaram esmagados por forças que lhes eram grandemente superiores. A 17 de dezembro, todas as belonaves de superfície foram retiradas e as B-17 restantes voaram para a Austrália.

 

Já então, as tropas de Homma haviam feito vários movimentos preliminares de invasão. A 8 e 10 de dezembro, respectivamente, destacamentos tomaram a Ilha de Bataan e a Ilha Camiguan, ambas situadas ao norte de Luzon, como bases avançadas. Na noite do dia 10, as áreas costeiras em torno de Aparri e Gonzaga foram ocupadas por 2.000 soldados de infantaria japoneses, que logo eliminaram a leve oposição encontrada e marcharam para o sul. Ao mesmo tempo, igual número desembarcara em Vigan e começara a avançar para o sul, para ajudar a principal força invasora, enquanto que, a 12 de dezembro, uma força japonesa vinda de Palau desembarcou em Legaspi, a sudeste de Luzon, e avançou para o norte.

 

Tendo estabelecido pontos de apoio e tomado vários aeródromos, o 14o Exército desembarcou grandes levas de soldados em três lugares no Golfo de Lingayen, a 22 de dezembro, protegidos por cobertura aérea e uma força naval que incluía dois couraçados. Nem as tropas filipinas, de má qualidade, nem as unidades americanas e os Batedores filipinos mais bem treinados podiam oferecer muita resistência aos 43.000 japoneses, sobretudo porque estes reuniam dois regimentos de tanques e quatro de artilharia. Ligando-se ao destacamento de Vigan, a força de Homma deslocou-se para o sul, sobre Manila. Dois dias depois, mais 7.000 japoneses desembarcaram na Baía Lamon, juntaram-se ao destacamento de Legaspi e avançaram para o norte. Assim, a capital foi posta sob perigo de cair vítima de uma pinça feita por esses dois grupos invasores convergentes, passando MacArthur a temer que a força da Baía de Lamon o isolasse de Bataan. Constatando que o plano para a detenção do inimigo nas praias falhara miseravelmente, ele preparou uma retirada gradativa para a península rochosa. A 26 de dezembro, Manila foi evacuada e declarada cidade aberta e, nos dez dias que se seguiram, teve início a retirada, passo a passo, protegida por tanques americanos. Por volta de 6 de janeiro, todas as tropas que se encontravam em Luzon estavam na península, como um gato entrando num saco”, segundo Homma. Enquanto as baixas japonesas totalizavam apenas 1.900 homens (mais 2.700 atacados de malária e outras enfermidades), a força de MacArthur fora reduzida a uns 80.000 soldados, sobretudo devido à deserção de filipinos.

 

A estratégia para a defesa de Bataan visava a impedir que os japoneses usassem a Baía de Manila. Aí pelo começo de 1942, entretanto, era evidente que os reforços americanos despachados através do Pacífico estavam sendo desviados para a Austrália, em vez de serem mandados em ajuda de MacArthur. A superioridade aérea e naval japonesa era tão flagrante, que nenhuma ajuda, à parte a trazida por submarinos, podia passar. Portanto, a posição era desesperada, sem qualquer esperança de salvamento. Além disso, a área era terrivelmente malárica e logo apenas um quarto dos soldados americanos estava apto para combate. Finalmente, as provisões começavam a escassear, pois havia 126.000 bocas a serem alimentadas, em lugar das planejadas 43.000. Os homens foram submetidos a meia ração e, depois, a um quarto de ração. As possibilidades de uma defesa prolongada não eram muito boas.

 

Não obstante, o colapso rápido que se esperava não ocorreu. Em primeiro lugar, a península prestava-se à defesa, porém o mais importante de tudo é que os japoneses estavam igualmente às voltas com problemas de doença e de provisões. As primeiras tentativas de ataque direto não registraram lá muito êxito, e então a 48a Divisão foi mandada para as Índias Orientais Holandesas, a 22 de janeiro. Procurando romper o impasse, dois batalhões japoneses foram desembarcados na ponta sul de Bataan, mas, após três semanas de violenta luta, acabaram sendo eliminados. Por volta de 8 de fevereiro, Homma foi obrigado a suspender as operações, porque suas tropas revelavam sinais de fadiga, devido às retiradas de tropas, e porque contava mais de 10.000 doentes em suas fileiras. Na verdade, pelo final de fevereiro, apenas três batalhões efetivos podiam ser por Homma reunidos e, se os americanos tivessem entrado no conhecimento disso, poderiam ter mudado o curso da campanha.

 

Contudo, a grande preocupação de MacArthur era para com o ataque final japonês e para com o estado de saúde de seus comandados que, em condições de entrar de imediato em ação, somavam apenas 20% do conjunto. Porém, se já era precário o moral da tropa, diante de tanta adversidade, mais ainda veio ele a sofrer com a transferência de MacArthur para a Austrália, para assumir o comando das forças aliadas no Sudoeste do Pacífico. A situação piorou em fins de março, quando reforços japoneses foram despejados em Luzon. Com mais aviões, artilharia e 22.000 soldados descansados, a tarefa de Homma tornou-se novamente fácil. Após violentos bombardeios e ataques de artilharia, nos dias 3 e 4 de abril, o 14o Exército avançou contra as destroçadas linhas americanas. Não querendo expor ao massacre a sua força, doente e desmoralizada, o Major-General King rendeu-se incondicionalmente a 9 de abril.

 

O General Wainwright, sucessor de MacArthur nas Filipinas, antes disso se retirara para a ilha-fortaleza de Corregidor que, com outras ilhas menores, controlava a entrada da baía de Manila. Equipada com 56 canhões costeiros de até 12 pol. de calibre, protegidos por blocos de concreto, e contendo uma bem alimentada guarnição de 14.700 homens, Corregidor seria um osso duro de roer. Mas, como Cingapura, ela fora construída principalmente para prevenir uma invasão marítima. Situava-se a apenas 3,5 km da ponta de Bataan e tinha poucos canhões antiaéreos. A partir de 24 de março a ilha foi martelada por bombardeiros e, depois, por obuseiros de 9,4 pol.; a 4 de maio, mais de 16.000 granadas foram disparadas de Bataan em sua direção. As tropas defensoras foram submetidas a castigo insuportável. O tímpano do ouvido sangrando pelo estrondear infernal, a visão dantesca que o fogo, pesado e constante, oferecia, tudo levava a crer num final próximo. Não obstante, eles resistiram ferozmente quando 2.000 japoneses desembarcaram pouco antes da meia-noite de 5 de maio; mas estes conseguiram um ponto de apoio e trouxeram tanques, o que provocou imediato colapso. À iminência do massacre dos defensores, o General Wainwright rendeu-se às 10:00 h do dia 6.

 

Contudo, Homma buscava uma rendição total dos americanos, não apenas a das ilhas da Baía de Manila. Nas ilhas do sul, forças dos Estados Unidos há algum tempo vinham-se empenhando numa campanha irregular contra tropas japonesas; em Panai, os homens do Coronel Christie quase tiveram êxito. Somente a 18 de maio é que se renderam, diante da ameaça de Homma de matar seus prisioneiros. Pelo dia 9 de junho, toda a resistência organizada cessara. Os mortos e feridos japoneses, em toda a campanha, devem ter ficado em torno de 12.500 homens, mas, por esse preço, dobraram uma força filipino-americana de 140.000, ainda que de má qualidade. Os soldados americanos capturados nas Filipinas iniciaram um longo e terrível cativeiro, do qual a famosa “Marcha da Morte” de Bataan foi apenas o começo. Como na Malásia, a derrota se deveu à falta de treinamento adequado e à inexistência de apoio aéreo e naval. Ficou, no entanto, de tudo isso, como a querer funcionar como consolo, a demonstração de que, por falta de disposição heróica para resistir apesar de tudo, de resistir por seis meses, prazo contemplado no velho plano para o envio de reforços, não se teria frustrado a expectativa do comando aliado. Infelizmente, porém, Pearl Harbor permitiu que a maré de conquistas japonesas se espraiasse para muito além das Filipinas.

 

Afinal de contas, a tomada das Filipinas e de Cingapura, e o ataque a Pearl Harbor eram apenas medidas de precaução, tomadas com o objetivo de impedir que forças americanas e britânicas interferissem na ocupação dos campos petrolíferos das Índias Orientais Holandesas, vitais para os nipônicos. Tendo conseguido anular tais ameaças na primeira semana de guerra, o Japão estava livre para avançar mais para o sul. Bornéu, controlada pelos britânicos e que também era produtora de petróleo, foi a primeira a cair, pois Londres já decidira que era inútil desperdiçar recursos na defesa desse território coberto de selvas.. Desde agosto de 1941, a produção de petróleo fora gradualmente reduzida para negar suprimentos aos japoneses e a 8 de dezembro os poços petrolíferos foram destruídos. Na verdade, o único ponto de defesa seria em torno de Kuching, que impediria os invasores de usar os aeródromos próximos para o ataque a Cingapura. Por conseguinte, quando 5.000 soldados japoneses, vindos da Indochina, chegaram ao largo de Miri, a 16 de dezembro, não encontraram oposição alguma, e em três dias ocuparam Brunei e Bornéu Setentrional Britânico. No dia 24, precedidos de ataques aéreos, dois batalhões japoneses chegaram ao largo de Kuching. Vendo sua guarnição de 2/15o Regimento do Punjab em inferioridade numérica, o Tenente-Coronel Lane ordenou a destruição do aeródromo da cidade e uma retirada para o território holandês. Somente depois de violenta luta e de atrasos causados pelo mau tempo e pela necessidade de se reorganizarem é que os japoneses puderam tomar a base mais importante de Singawang II, nos dias 26/27 de janeiro. Daí por diante, os defensores se retiraram lentamente para o sul, só se rendendo no começo de março, depois da queda de Java.

 

Para tomar as Índias Orientais Holandesas propriamente ditas, os japoneses haviam planejado um ataque de três pontas. Uma Força Ocidental, zarpando da Indochina, deveria capturar a região de Palembang, na Sumatra meridional, e depois mover-se contra Java ocidental; uma Força Central, saindo de Palau através de Davao, nas Filipinas, tomaria os campos petrolíferos da Bornéu Holandesa e depois avançaria para Java; e uma Força Oriental, descendo de Davao para o sul, capturaria as Célebes, Amon e Timor, isolando os reforços aliados vindos da Austrália. Java, a ilha central das Índias, seria, assim, invadida pelo oeste, norte e leste. O Tenente-General Imamura, do 16o Exército, foi encarregado desse empreendimento, que seria apoiado por Forças Navais de Desembarque especiais, cerca de 45 couraçados, sob o comando do Almirante Konda. Uma vez mais, confiou-se nos poderios aéreo e naval, e no uso de tropas experientes e bem equipadas para superar a inferioridade numérica.

 

Tudo isto correu espantosamente de acordo com os planos - na verdade, saiu melhor que o planejado - pois o rápido colapso britânico na Malásia e a retirada americana para Bataan permitiram aos japoneses dar velocidade ao programa de conquistas que haviam traçado. Sumatra, por exemplo, foi de imediato submetida a constantes ataques aéreos, desfechados por aviões baseados no noroeste da Malásia, e a força mista aliada, de três esquadrões de caça e dois de bombardeiros, pouco podia fazer para impedi-los. Esses esquadrões infligiram algum dano ao comboio da Força Ocidental, mas não puderam impedi-la de desembarcar cerca de 3.000 soldados, no dia 14 de fevereiro, após a tomada, feita por 700 pára-quedistas japoneses, do principal aeródromo da área e de algumas refinarias de petróleo. No dia seguinte, Wavell decidiu-se por uma retirada para Java. Havia muitos membros da tripulação de terra da Força Aérea entre os 10.000 soldados aliados na Sumatra, mas este esforço foi surpreendentemente fraco quando se compreendeu que os invasores estavam em inferioridade numérica de quase 3 para 1; talvez a queda de Cingapura no mesmo dia tivesse algo a ver com essa decisão. Mais a leste, foi maior o desembaraço com que agiram os nipônicos. A 20 de dezembro, Davao, na Ilha Mindanao, situada nas Filipinas meridionais, foi capturada e transformada em base avançada para as Forças Central e Oriental; Cinco dias depois, a Ilha Jolo também caiu. Depois de umas duas semanas durante as quais se reorganizaram, os japoneses lançaram-se novamente ao ataque. A 11 de janeiro, Tarakan, no nordeste de Bornéu, foi tomada após violenta luta, mas os holandeses já haviam destruído as instalações petrolíferas ali existentes. Assim, 5.000 dos soldados invasores foram levados de navio para Balikpapan a 21 de janeiro, onde ancoraram naquela noite, apesar de um de seus navios ter sido afundado por um bombardeiro americano e de um ataque desfechado, tarde da noite, por quatro destróieres americanos. No primeiro combate de superfície de que a marinha americana participou, depois de 1898, três transportes foram afundados, mas a invasão japonesa não foi retardada por isso. Pelo dia 24, as tropas haviam desembarcado e a guarnição defensora estava recuando. Num ataque levado a efeito por forças de mar e de terra, os japoneses avançaram para Bandjarmasin a 10 de fevereiro. Virtualmente toda a grande Ilha de Bornéu, com seus campos petrolíferos e bases aéreas, estava nas mãos dos nipônicos.

 

No mesmo dia em que a Força Central tomou Tarakan, 1600 soldados japoneses da Força Oriental, ajudados por desembarques de pará-quedistas, capturaram Menado e Kemma, nas Célebes do norte. No dia 24, os aeródromos ali situados novamente já em condições de uso, eles ancoraram ao largo de Kendari e logo tomaram a melhor base aérea das Índias orientais. No fim daquele mês, uma força de 3.600 homens tomou a cidade de Ambon. Ajudados por apoio aéreo fornecido pelos porta-aviões Soryu e Hiryu, os japoneses conquistaram o resto da ilha em três dias, isolando, desse modo, o caminho de reforços aliados para as Filipinas. Pouco depois, Macassar foi capturada por forças vindas de Kendari e, no dia 20 de fevereiro, Timor foi invadida por uma expedição de desembarque e pára-quedistas que tomou a ilha toda - também em três dias. Com monótona regularidade, esses destacamentos, relativamente pequenos mas bem treinados, de soldados japoneses, recorrendo a apoio aéreo e naval, puderam tomar quase todas as posições nas índias. Restava então Java, e sua posição parecia cada vez mais precária após a tomada de Sumatra e Timor e a dissolução do comando ABHA, a 25 de fevereiro. O plano de defender a barreira malaia até a chegada de reforços fora destroçado pela rapidez da movimentação japonesa, passando Wavell a mandar novas unidades para a Birmânia, enquanto que os americanos mandavam as suas para a Austrália. Os holandeses, com muitas unidades aliadas mistas sob seu comando, ficaram encarregados da defesa de Java.

 

Devido ao domínio do ar exercido pelos japoneses, as forças navais aliadas não tinham podido desempenhar papel muito importante na defesa das Índias Orientais Holandesas, exceto o ataque de destróieres a Balikpapan. A 4 de fevereiro, por exemplo, a Força Combinada de Ataque, composta de cruzadores e destróieres e comandada pelo Contra-Almirante Doorman, tentou opor-se a invasão japonesa de Macassar, mas foi obrigada a recuar depois que três cruzadores foram danificados por bombas. Um esforço posteriormente feito para interceptar o comboio invasor que se dirigia para Palembang a 13 de fevereiro, também foi suspenso, saindo miraculosamente ilesos os que dele participaram, depois de cinco ataques aéreos separados. Contudo, no fim do dia 19, unidades navais aliadas entraram em combate com uma força japonesa no Estreito de Lumbok, durante o qual dois destróieres e um transporte inimigos foram avariados. Não obstante, um destróier holandês foi afundado e um destróier americano e um cruzador holandês foram avariados. A invasão de Bali, que isolou Java da Austrália, não foi impedida por essa ação.

 

Por volta da última semana de fevereiro, era evidente que em breve se tentaria a invasão de Java. Ostensivamente, o número de soldados deveria ter sido grande para defender essa importante ilha, o último refúgio aliado na região. Mas a defesa, como ficou tantas vezes demonstrado nessa fase da Guerra do Pacífico, sofria a carência de comando organizado, a força aérea era deploravelmente fraca e abundantes os refugiados de vários outros lugares (incluindo 10.000 homens das tripulações de terra da Força Aérea). Além de tudo isso, um derrotismo geral. Embora ajuda alguma pudesse ser esperada dos indonésios, não era de todo impossível rechaçar uma invasão no mar, pois Doorman comandava 8 cruzadores e 12 destróieres. Por outro lado, os japoneses não pretendiam deixar que nada saísse errado na conquista de Java. O Vice-Almirante Kondo deveria dar cobertura cerrada aos comboios de invasão com seus cruzadores pesados e destróieres, enquanto que a força de Nagumo, formada de 4 porta-aviões, 2 couraçados e suas escoltas, ficava à espreita. A força-tarefa de porta-aviões patrulhava o sul de Java, para isolar qualquer retirada e, como uma demonstração de poderio, já devastara Darwin com 188 aviões, no dia 19 de fevereiro.

 

No dia 26, os navios de Doorman zarparam de Surabaia para atacar os comboios de invasão e, no dia seguinte, encontraram um grupo japonês de 2 cruzadores pesados, 2 cruzadores leves e 14 destróieres. Teoricamente, a força aliada, de 2 cruzadores pesados, o USS Houston e o HMS Exeter, 3 cruzadores leves HMNS Java, de Ruyter, HMAS Perth, e 9 destróieres, deveria ter-se imposto, mas o esquadrão anglo-americano-holandês-australiano simplesmente não era uma força organizada e tinha muitas dificuldades de língua e de comando. Em contraste, os navios japoneses eram muito eficientes e possuíam uma arma admirável em seus torpedos “lança longa”. Depois de uma hora de bombardeio distante, estabeleceu-se uma ação confusa na qual o Exeter, por seriamente avariado, teve de ser escoltado para fora do local; dois destróieres aliados foram afundados, um terceiro bateu numa mina e os quatro destróieres americanos tiveram de se retirar para reabastecimento. Com os quatro cruzadores restantes, Doorman tornou a entrar valentemente em combate com o inimigo às 23:00 h, mas os dois cruzadores holandeses foram afundados por torpedos, levando o almirante consigo; os dois outros então se retiraram. Do começo ao fim da Batalha do Mar de Java, como ficou sendo chamada, fora um desastre. A que se lhe seguiu também foi nada encorajadora. O Perth e o Houston foram afundados depois de terem massacrado uma força de desembarque japonesa na Baía de Bantam, e dois destróieres holandeses, atingidos por bombas no porto de Surabaia, foram postos fora de ação. O avariado Exeter, o herói da Batalha do Rio da Prata, encontrou o fim com seus dois destróieres de escolta, ao serem descobertos por uma força naval japonesa quando tentaram passar despercebidos pelo Estreito de Sonda. Apenas os quatro destróieres americanos conseguiram escapar à caçada do inimigo.

 

Com a esquadra de Doorman destruída, o destino de Java teria que ser inevitavelmente o que foi. A 1o de março, a Força Oriental desembarcou em Kragen e logo avançou para Surabaia, enquanto a Força Ocidental desembarcava em três pontos deferentes da parte ocidental de Java e partia para sitiar Batávia. A resposta aliada, lenta e confusa, não impediu que os japoneses pusessem rapidamente três divisões na ilha. Batávia foi tomada a 5 de março e Surabaia dois dias depois. Dobrando-se ao inevitável, o General Poorten rendeu suas forças na manhã do dia 9 e o contingente britânico fez o mesmo na tarde desse mesmo dia. A conquista das Índias Orientais Holandesas, exceto os bolsões de resistência no norte de Sumatra, estava para os nipônicos terminada. Durou apenas três meses, metade do tempo esperado. O Japão entrou na posse dos cobiçados campos petrolíferos, desferindo um golpe fatal na supremacia do europeu no Oriente.

 

Birmânia e a ameaça à Índia

 

Por tradição, a importância estratégica da Birmânia se apoiou sempre no fato de poder ela servir como amortecedor contra qualquer ameaça que partisse do nordeste contra a Índia. Por volta de 1941, pretendendo claramente o Japão ampliar sua influência na China e no Sudeste Asiático, a validade de tal política fugia a qualquer contestação. No decurso daquele ano, porém, razões de outro tipo vieram juntar-se à já existente para conferir à Birmânia significação verdadeiramente vital para o Império, pois, além de atender a 35% de suas necessidades de tungstênio, ali se produzia petróleo, além de arroz, e era importante elo de abastecimento para Cingapura e o Extremo Oriente, pois a aeródromo de Victória Point, no sul, era a principal base dos aviões-transporte. Finalmente ela proporcionava - por meio da Estrada da Birmânia - a única ligação com a China. Os britânicos, mais ainda os americanos, ansiavam pela manutenção do governo nacionalista por motivos políticos, assim como se estava tornando vitalmente importante reter o maior número possível de divisões japonesas na China.

 

Apesar de tudo isso, as defesas da Birmânia eram muito fracas quando a Guerra do Pacífico estourou. Desde 1937 o país tinha variado entre os Comandos Indianos e do Extremo Oriente, mas fora bastante ignorado por ambos. A 12 de dezembro de 1941, Wavell (Comandante-Chefe na Índia) colocou-a sob o comando Indiano, mas quando ele se tornou Comandante ABHA, a posição da Birmânia mudou novamente. O Tenente-General Hutton era o comandante-chefe da Birmânia; suas forças incluíam dois batalhões britânicos e duas brigadas indianas, além dos mais duvidosos fuzileiros da Birmânia e da Polícia Militar birmanesa, cujos efetivos aumentavam rapidamente. O sistema de alarma antiaéreo era precário e a única proteção de caça era proporcionada por 16 Buffalos, juntamente com 21 Tomahawks P-40 do Grupo Voluntário Americano, que Chiang Kai-shek concordara em emprestar. O Generalíssimo oferecera dois exércitos chineses também, mas Wavell os recusou, julgando que os japoneses não passariam da Malásia, aceitando apenas uma divisão chinesa, que protegia os Estados Shan. Devido a essa recusa e a uma disputa sobre a distribuição dos suprimentos que passavam por Rangum, as relações anglo-chinesas perderam um pouco de cordialidade. Além disso, não seria de esperar muita ajuda da população birmanesa, no seio da qual havia muitos simpatizantes japoneses.

 

Para o Japão, a invasão da Birmânia era considerada imprescindível, no sentido de obrigar os chineses a renderem-se. O Tenente-General Iida, do 5o Exército, foi colocado no comando das 33a e 55a Divisões, além de algumas unidades de apoio, totalizando 35.440 homens, os quais carregariam sobre a Birmânia. De início, o apoio aéreo foi dado pelos 100 aviões da 10a Brigada Aérea, mas após a queda da Manila, o número de aviões foi duplicado. A estratégia seria simples: penetrar no sul da Birmânia, avançar sobre Rangum e então prosseguir para o norte. A 8 de dezembro, o 15o Exército ocupou o Sião juntamente com 21o Exército de Yamashita. Imediatamente, forças foram despachadas para o istmo de Kra e, no dia 16, a importante base aérea britânica de Victória Point foi tomada. Depois disso, as forças de Iida se concentraram na “pacificação” do Sião e nos preparativos para o próximo avanço.

 

Embora não houvesse muita luta em terra durante um mês, o Japão, nesse período, procurou estabelecer a superioridade aérea sobre o sul da Birmânia. Contudo, em incursões contra Rangum, nos dias 23 e 25 de dezembro, 31 dos seus aviões foram derrubados, contra 12 aparelhos aliados perdidos. Mas quase 3.000 civis foram mortos pelas bombas e houve grande pânico. A vital força de trabalho indiana foi para o oeste, bloqueando as estradas e provocando a interrupção dos trabalhos de defesa e de descarga de navios. Além disso, os efetivos aéreos aliados sofreram mais alguns desfalques. Mas pouco depois chegaram 30 Hurricanes para restabelecer um pouco o equilíbrio, e estes logo derrubaram 50 aviões japoneses, com a perda de apenas 12 dos seus. E um novo esquadrão de bombardeiros Blenheim destruiu 58 aviões japoneses durante um ataque a uma base de Bangkok. Pelo menos durante algum tempo as incursões diurnas contra Rangum foram canceladas.

 

Compreendendo que a cidade era vulnerável a ataque por terra, mar ou ar, o General Hutton começou a mandar suprimentos para a região de Mandalay e a acelerar a construção de uma estrada entre Tamu (Índia) e Kalewa (Birmânia); assim a Estrada da Birmânia, ainda que Rangum caísse, permaneceria aberta. O fato revestia uma hábil antecipação por parte de Hutton, pois os japoneses estavam novamente em movimento. Por volta de 23 de janeiro, as duas divisões haviam ocupado toda a área ao sul de Ye e, no dia 31, tomaram Moulmein, depois de violenta luta contra a incompleta 17a Divisão Indiana.

 

Perderam-se com isso não só três importantes bases aéreas (Victória Point, Mergui e Moulmein), como também os japoneses logo puderam usá-las para dar apoio de caça as suas incursões de bombardeio contra Rangum. Além do mais, a maioria das estações de aviso antecipado fora abandonada, agravando a desvantagem da RAF na batalha Aérea.