Invasão da Sicília, Vitória ou Derrota?
A estratégia definitiva dos Aliados na Sicília seria, em última análise, função do comportamento do inimigo, isto é, se ia haver, por parte dele, resistência feroz ou colapso total. Os Aliados conseguiram seu objetivo, a conquista da ilha, mas um punhado de tropas alemães e italianas opôs tremenda resistência a dois exércitos Aliados.
O primeiro ataque à Europa
A invasão da Sicília, em julho de 1943, assinalou o retorno dos Aliados à Europa e foi o primeiro passo que deram no sentido de libertar o continente europeu das garras de Hitler. O fato se deu três anos após haver ele entrado na posse, por assim dizer, da Europa ocidental, com a queda da França e a expulsão dos britânicos do continente.
Em retrospecto, a carga sobre a grande ilha da Itália, que se constituiu num êxito expressivo, pois em cinco dias ficou inteiramente livre de tropas alemães e italianas, foi na realidade um salto arriscado e cercado de incertezas.
Embora o desembarque dos Aliados no Noroeste da África - África do Norte Francesa - no mês de novembro anterior houvesse encontrado, no início, considerável oposição por parte de tropas francesas, o desembarque na Sicília foi o primeiro, à parte as incursões marítimas, em que os Aliados tiveram de enfrentar e vencer forças inimigas reais. O êxito do empreendimento deveu-se em grande parte à série de erros e dissidências havidos no lado oposto, entre os líderes do inimigo. Um deles foi a relutância de Mussolini em consentir que os alemães desempenhassem papel importante na defesa do território italiano, por medo e inveja do célebre comparsa que tinha. Outro foi a crença de Hitler, contrariamente à de Mussolini, de que a Sicília não seria, naquele momento, o objetivo dos Aliados - e para isso muito concorreu o "plano de despistamento" posto em execução pelos britânicos. O terceiro e mais importante dos erros cometidos foi o orgulho demonstrado por Mussolini e Hitler no esforço por manter a África do Norte dominada por tempo excessivo - decisão basicamente apoiada no desejo de "salvar as aparências", sem a devida consideração das conseqüências estratégicas.
Isto foi mais surpreendente por parte de Hitler, pois ele e seu Estado-Maior-Geral sempre hesitaram em empenhar-se em expedições ultramarinas ao alcance do poderio marítimo britânico, discrepando desse procedimento quando enviaram uma pequena força sob o comando de Rommel para evitar o colapso dos italianos em fevereiro de 1941 e, posteriormente, abstiveram-se de lhe enviar reforços suficientes para prosseguir na série notável de vitórias sobre os britânicos. Mas, na última fase da campanha norte-africana, Hitler e seu Estado-Maior, de acordo com Mussolini, despejaram muitas tropas na Tunísia, sacrificando assim as chances de defesa da Europa.
Não fosse o fato de essas forças, num total de quase 250.000 homens, ficarem retidas na Tunísia - e de costas para o mar, poderiam ter-se constituído numa defesa muito poderosa da Sicília - e as chances de os Aliados lograrem sucesso na invasão se teriam esvaziado. Mesmo assim, as tropas italianas ali reunidas chegavam a quase dois mil - mas de moral baixo quando os invasores chegaram. A maior parte das melhores tropas italianas tinha-se perdido na África. O fardo principal da defesa da Sicília recaiu sobre o pequeno número de soldados alemães que haviam sido mandados para lá como reforço, que chegaram a somar sessenta mil homens quando a batalha se aproximava do fim, que demorou mais a chegar devido à tenacidade com que se bateram para tentar eliminar o efeito catastrófico dos primeiros dias da campanha.
Seria difícil encontrar alguém mais bem qualificado para escrever a história da campanha siciliana do que Martin Blumenson. Durante a última década ele fez um estudo profundo e prolongado das operações anfíbias. Após haver-se saído bem ao narrar a história da campanha coreana no começo dos anos 50, incumbiram-no de escrever a história oficial do Exército Americano no segundo estágio da campanha da Normandia, registrada no volume intitulado.Breakout and Pursuit, e posteriormente escreveu um livro bastante esclarecedor sobre o mesmo assunto, The Duel for France. Desde então, passou a dedicar-se principalmente às campanhas do Mediterrâneo e escreveu livros importantes sobre Anzio e o Passo de Kasserine, demonstrando de modo notável que é possível um historiador oficial mesclar meticulosidade e narrativa vívida.
Ele inicia o livro com um capítulo muito interessante sobre os contratempos do desembarque aerotransportado preliminar e a seguir passa a um exame lúcido da "Estratégia Aliada" e dos motivos que levaram à decisão de invadir a Europa pela Sicília - e não pela Sardenha e Córsega - como inicialmente preferiam os planejadores americanos e britânicos. O terceiro capítulo focaliza "A Situação do Eixo". O quarto, mais longo, descreve e analisa os desembarques marítimos, tratando o quinto da "Reação do Eixo". Estes capítulos expõem de maneira esclarecedora os riscos e as incertezas da invasão. O capítulo seguinte, o sexto, retorna aos problemas e dificuldades que o transporte aéreo da força invasora criou para a operação, enquanto que o sétimo se prende à brecha surgida na aliança do Eixo. O Capítulo 8 então delineia o desenvolvimento da invasão, sobretudo o avanço dos americanos, pelo 7° Exército de Patton, para o lado oeste da ilha. Seguem-se os capítulos sobre a tomada alemã da chefia das operações, as mudanças de plano feitas pelos Aliados e a queda de Mussolini.
A seguir vem um capítulo sobre a linha do Etna e a vigorosíssima resistência dos alemães ali, à medida que recuavam para o ângulo nordeste da Sicília, e o longo capítulo 13 sobre "A Evacuação". Segue-se um breve "à parte" sobre "O Incidente da Bofetada" que pôs em perigo a carreira de Patton. O último capítulo, o 15, é um bom sumário sobre a campanha e discute se ela deve ser considerada "Vitória ou Derrota?" Estrategicamente, foi uma vitória aliada, mas, taticamente, o inimigo saiu-se tão bem, em circunstâncias extremamente adversas, e resistiu tão prolongadamente, após o colapso inicial, que, na opinião do autor, a "vitória moral" lhe coube.
O livro de Martin Blumenson é um relato extraordinariamente claro de uma campanha complexa, um episódio-chave da guerra. Ele dá às questões sobre as quais diferiam americanos e britânicos um tratamento bastante equilibrado. Contudo, não infere que o prolongamento da campanha, e suas momentosas conseqüências em atrair os Aliados para uma campanha muito mais prolongada na Itália, se deveu a qualquer defeito de planejamento por parte do Alto Comando Britânico.
O começo
O céu estava límpido, com aquele azul-claro característico dos céus da África do Norte no verão, mas o sol ardia como aço derretido e o calor era opressivo nos aeródromos, onde pesados aviões de carga, alguns atados a esguios planadores, estavam passivamente alinhados, recebendo as atenções de suarentas turmas de inspeção de último momento.
Nas proximidades, na agradável sombra oferecida por grupos de árvores ou pelas paredes dos prédios, soldados arrumavam seu equipamento, limpavam e examinavam suas armas. Reunidos em torno de tenentes, grupos de soldados recebiam instruções finais. Cada homem usava uma braçadeira branca, ostentando uma pequena bandeira americana ou britânica, para identificação. Não se brincava. Todos observavam os caminhões que partiam para os campos de pouso no fim da tarde e os soldados que embarcavam nos planadores e colocavam seu equipamento nos lugares reservados à bagagem.
Com a aproximação da noite, os soldados aerotransportados britânicos, sobrecarregados com seus equipamentos e armas individuais, partiram para os aeródromos, tomando lugar nos planadores. Os pilotos dos aviões deram partida aos motores e às 18h45, simultaneamente de vários aeródromos, os primeiros dos 109 C-47, americanos, e, 35 Albemarles, britânicos, começaram a percorrer a pista, ganhando o ar, cada qual rebocando um planador, Waco ou Horsa, repleto de soldados.
Sete aviões e planadores, por uma razão ou por outra, não conseguiram chegar à costa norte-africana e retornaram. Os demais, reuniram-se sobre as ilhas Kuriate e rumaram para Malta. O sol estava-se pondo quando os aviões se aproximaram da ilha, mas o farol de sinalização era visível para todos os pilotos, exceto alguns que iam na retaguarda da coluna.
Enquanto anoitecia sobre o Mediterrâneo, sombreando a cor do mar, o vento aumentou, encrespando as águas e desviando do rumo, aviões e planadores, fazendo-os sacudir muito. Uma corda de reboque partiu-se e um planador mergulhou no Mediterrâneo.
Os pilotos lutavam por manter-se em posição, mas as formações se abriram. Alguns esquadrões foram empurrados bem para leste da rota estabelecida; outros, na retaguarda, foram impelidos para a frente, ultrapassando as unidades de vanguarda. Dois pilotos perderam o caminho sobre o mar e voltaram para o sul, retornando à África do Norte. Um terceiro soltou acidentalmente o planador que rebocava e este caiu ao mar. Os outros, 133 aviões e planadores, ao todo, chegaram ao Cabo Passero, ponto de verificação, situado na extremidade sudeste da Sicília. Os pilotos mal podiam distinguir a massa escura de terra, que era de tonalidade pouco mais acentuada do que o escuro do mar. Dois deles não puderam orientar-se no sentido da terra e retornaram à África do Norte.
Os restantes, agora muito misturados, desviaram-se para o norte do Cabo Passero e depois rumaram para nordeste, procurando os pilotos, ansiosamente, o ponto de soltura dos planadores, ao largo da costa leste e logo ao sul de Siracusa, mas o vento os fustigava. O curso em ziguezague que lhes fora designado, e que tentavam seguir, fez que a maioria deles fossem lançados fora do rumo. Quando a noite envolveu a Sicília, os pilotos dos transportes dificilmente identificavam o ponto certo de soltura. Cerca de 25 retornaram à África e os restantes, uns 115, soltaram os planadores que rebocavam.
Os planadores que foram soltos transportavam cerca de 1.200 homens. Isto estaria bem, pois os que haviam planejado a operação esperavam a ocorrência de acidentes, admitindo que 1.200, ou mesmo 1.000, soldados sobre a área do alvo seriam suficientes para realizar a missão a eles designada. Mas, dos 115 planadores que foram soltos mais ou menos nas proximidades do ponto demarcado, mais de metade caiu ao mar. Apenas 54 planadores pousaram na Sicília. Destes, somente 12 estavam nas zonas de pouso corretas ou próximo delas. A maioria dos que caíram no mar se perdeu por afogamento; muitos dos que se encontravam nos planadores que pousaram em terra ficaram feridos no pouso. Alguns dos que escaparam aos riscos do pouso em terra estranha e durante as horas da noite toparam com unidades inimigas e foram mortos, feridos ou capturados.
Diante disso, em lugar de pelo menos 1.000 homens, como se esperava, apenas um punhado de soldados aerotransportados, menos de 100, conseguiu chegar ao solo em segurança e próximo do local designado para o pouso; mas eles se reuniram, orientaram-se e puseram-se a caminho nas primeiras horas do dia 10 de julho de 1943, quando ainda escuro, na direção do seu objetivo, a Ponte Grande, logo ao sul de Siracusa.
Duas horas depois que as tropas aerotransportadas começaram a deixar os aeródromos na África do Norte, com o sol se pondo, os primeiros dos 222 C-47, carregando 3.400 pára-quedistas americanos, decolaram. O vento soprava a cerca de 48 km/h e, desde o começo, os grupos aéreos perderam a coesão; uma lua em quarto-crescente surgiu, mas dava pouca visibilidade aos pilotos. Suas luzes de formação noturna eram fracas e ajudavam apenas a promover o contato visual entre os aviões e, no vôo baixo sobre o Mediterrâneo, pouco acima da superfície das águas, os pilotos tiveram seus pára-brisas obscurecidos pelas partículas de água salgada lançadas pelo mar agitado. Inexperientes em vôo noturno, eles se desgarraram, perderam a direção, erraram pontos de verificação e se aproximaram da Sicília de todas as direções. Dois pilotos desistiram e retornaram à África com seus pára-quedistas. Um terceiro caiu ao mar.
Apenas uns poucos pilotos tiveram a sorte suficiente para seguir a rota planejada e alcançar e reconhecer os pontos de verificação em Linoso, Malta e na costa sudeste da Sicília - mas até mesmo eles descobriram que as características finais estavam obscurecidas pela névoa, poeira e fumaça. A foz do rio Acate e o lago Biviere, tão claros nos mapas, mal podiam ser vistos, quanto mais identificados. Enquanto os pilotos se esforçavam para evitar colisões, devido ao vento e ao escuro, e trabalhavam para resolver o problema da orientação, granadas antiaéreas foram disparadas de Gala, Ponte Olivo, Niscemi - oito aviões seriam derrubados depois de lançarem seus pára-quedistas. As poucas formações que vinham mantendo uma estrutura precária, separaram-se completamente.
O problema dos pilotos passou então a ser outro. Eles não estavam mais preocupados em lançar seus pára-quedistas sobre as zonas corretas de salto; em vez disso, esforçavam-se febrilmente para levar seus aviões a qualquer ponto da ilha, para que os soldados que carregavam não viessem a saltar no mar, pelo risco de afogamentos.
Como conseqüência, os pára-quedistas foram dispersados aos quatro ventos. Várias centenas de homens de um batalhão chegaram ao solo relativamente intactos, mas a 40 km da zona certa de salto. Apenas partes de três companhias tocaram o solo próximo do alvo. O resto foi espalhado pelo sudeste da Sicília.
Em lugar da força considerável que os planejadores esperavam que viesse a ocupar as elevações chamadas Piano Lupo, escolhidas devido ao importante entroncamento rodoviário ali existente, menos de 200 homens tomaram o objetivo ao amanhecer do dia 10 de julho.
A estratégia aliada
A decisão de invadir a Sicília foi um meio-termo a que chegaram, depois de muito discutirem, americanos e britânicos sobre a melhor maneira de dobrarem as potências européias do Eixo, Alemanha e Itália. O acordo não era inteiramente satisfatório para nenhum dos dois parceiros aliados - mas diversos interesses nacionais tornavam impossível um acordo melhor e mais completo. Os Aliados estavam trabalhando nos termos da estratégia "Europa Primeiro" - o que significava que contra o Japão seriam tomadas posições defensivas, até que fosse alcançada a vitória na Europa. Mas a maneira de alcançar o triunfo na principal área operacional era uma questão discutida.
A estratégia que os americanos defendiam consistia em buscar uma demonstração de força diante da Alemanha. Com este objetivo, seus líderes militares queriam concentrar grandes forças no Reino Unido, cruzar o Canal da Mancha e invadir o noroeste europeu, e então enfrentar o grosso das forças inimigas ao longo dos caminhos que levavam ao território alemão. Isso, no entanto, dependia de uma concentração maciça de recursos na Grã-Bretanha, impondo assim um adiamento de pelo menos um ano - talvez mais - antes que se pudesse iniciar uma invasão através do Canal.
Para empenhar o mais rapidamente possível tropas americanas em combate na arena européia, a fim de ajudar as forças britânicas que suportavam extrema pressão por parte do Eixo no Egito, e para desviar forças do inimigo da frente russa, os americanos concordaram com a invasão da África Noroeste Francesa. Mas eles então verificaram que os desembarques na África do Norte, em novembro de 1942, e a campanha subseqüente que esperavam terminar logo, desviara para lá tão grande quantidade de recursos aliados a ponto de pôr em risco os preparativos para uma operação através do Canal da Mancha, em 1943. Isto perturbou seriamente os americanos. Os britânicos, no entanto, estavam menos preocupados; prevendo uma eventual expulsão das forças do Eixo de toda a África do Norte, eles visavam a explorar a vitória prosseguindo nas operações na área do Mediterrâneo, especificamente pela invasão da Sicília, da Sardenha, da Itália continental ou do sul da França. Esperavam também que a ação militar na região leste do Mediterrâneo induzisse a Turquia a entrar na guerra do lado aliado.
Assim procedendo, os britânicos desenvolveriam o que mais tarde seria chamada de estratégia periférica - estirando as forças do Eixo por toda a periferia da Europa ocupada, ameaçando invadir a costa do Canal da Mancha e mordiscando os acessos meridionais do continente. Basicamente, eles queriam eliminar a Itália da guerra, isolando e enfraquecendo, assim, os alemães, tornando-os mais vulneráveis à derrota pela eventual invasão através do Canal da Mancha, que os britânicos encaravam como o ponto culminante da guerra - desembarques que teriam de ser indubitavelmente bem sucedidos.
Em contraste, pelo final de 1942 os americanos propuseram uma estratégia decorrente de três elementos básicos: uma concentração de homens e material no Reino Unido para uma invasão pelo Canal da Mancha em 1943; uma grande ofensiva aérea contra a Alemanha a partir de bases na Grã-Bretanha, África do Norte e Oriente Médio; e maior bombardeio aéreo da Itália, para pôr no chão o moral do italiano e eliminar aquela nação da guerra. Eles não desejavam ampliar nem mesmo prosseguir a guerra na área do Mediterrâneo; ao contrário disso, queriam uma ação direta contra a Alemanha, desfechando poderoso ataque através do Canal o mais depressa possível.
A divergência que se estabeleceu entre os dois aliados, divergência de ordem estratégica, deu origem a uma conferência de alto nível realizada em janeiro de 1943. O Presidente Roosevelt e o Primeiro-Ministro Churchill, juntamente com seus conselheiros militares, se reuniram em Casablanca, Marrocos, para determinar o que fazer assim que a campanha africana terminasse. Que se deveria fazer com as consideráveis forças na África do Norte para impedi-las de ficar na ociosidade? Onde os Aliados deveriam atacar a seguir?
Os Chefes de Estado-Maior Conjuntos americanos, liderados pelo General George Marshall, receavam que os britânicos insistissem, em invadir a Sardenha, pois os americanos preferiam transferir os recursos do Mediterrâneo imediatamente para o Reino Unido, para um esforço através do Canal da Mancha. Ironicamente, os Chefes do Estado-Maior britânicos, liderados pelo General Sir Alan Brooke, estavam apreensivos quanto a virem os americanos a insistir na invasão da Sardenha, pois os britânicos preferiam tomar a Sicília, que, segundo acreditavam, eliminaria a Itália da guerra e obrigaria os alemães a estenderem-se mais, em substituição aos italianos na ocupação e defesa da costa da Itália.
Considerando que a campanha norte-africana, durando mais do que o esperado, tornava claramente impossível um esforço pelo Canal da Mancha em 1943, Marshall concordou com a invasão da Sicília. Mas, depois, perguntou ele: "Era a operação contra a Sicília apenas um meio para se atingir um fim, ou um fim em si? Deveria ser ela parte de um plano para vencer a guerra, ou simplesmente o aproveitamento de uma oportunidade?"
Não havia resposta possível, pois os parceiros estavam divididos quanto aos métodos a aplicar. Como Churchill observara, os americanos tinham um "gosto exagerado por decisões lógicas definidas", ao passo que os britânicos inclinavam-se por uma abordagem oportunista da estratégia. Portanto, decidiu-se apenas invadir a Sicília após o término da campanha norte-africana - a fim de, com o grande número de soldados disponíveis na África do Norte, tentar a eliminação da Itália da guerra, obrigando, desse modo, a Alemanha a desdobrar-se para cobrir as posições defendidas pelos italianos.
Para realizar a invasão da Sicília, os Chefes de Estado Maior Combinados - os chefes americanos e britânicos reunidos - nomearam o General Dwight Eisenhower, o Comandante Supremo Aliado na área do Mediterrâneo, para comandante-geral. Abaixo dele, o General Sir Harold Alexander dirigiria as forças de terra; o Almirante Sir Andrew Cunningham, as forças navais, e o Marechal-do-Ar Sir Arthur Tedder, as forças aéreas.
Mas não se pôde determinar se a campanha da Sicília seria a última campanha no Mediterrâneo ou o início de uma ação mais ampla naquela região. Os americanos não desejavam envolver-se em "operações intermináveis no Mediterrâneo", enquanto que os britânicos achavam "impossível dizer exatamente onde devemos parar".
Quatro meses depois, em maio, os líderes aliados reuniram-se em Washington, e uma vez mais, numa conferência formal, tentaram aplainar suas diferenças. A pergunta principal a que procuravam responder era o que fazer depois de terem conquistado a Sicília - pois a campanha norte-africana terminara com êxito e os Aliados dominavam toda a costa sul do Mediterrâneo e se voltavam para a Sicília e mais além. Se a campanha da Sicília provocasse o colapso das forças italianas, como os Aliados esperavam, ou se isso não se verificasse, de que maneira se moldaria o curso da guerra?
As alternativas pareciam claras. Os americanos eram por uma operação através do Canal da Mancha; os britânicos preferiam continuar mantendo o impulso ofensivo e a pressão na área do Mediterrâneo.
Especificamente no Mediterrâneo, os Aliados poderiam deslocar-se da Sicília para uma série de lugares, mas cada um deles tinha desvantagens. Um ataque ao sul da França, por exemplo, só daria resultado se empreendido em conjunção com uma carga pelo Canal da Mancha; à Sardenha e à Córsega dificilmente poderia redundar no colapso da Itália, sem a conquista da Sicília que, uma vez feita, derrubaria naturalmente as duas, isto é, a Sardenha e a Córsega. A Itália continental, cheia de problemas de segurança interna e de natureza política, era uma área perigosa e conduzia somente até a barreira formidável dos Alpes; o terreno dos Bálcãs era ainda menos convidativo para forças militares mecanizadas como as dos Aliados.
Os planejadores de Eisenhower voltaram-se para a tomada da Sardenha e da Córsega, para obter mais aeródromos a fim de dar cobertura a operações anfíbias desfechadas próximo de Gênova ou Roma, enquanto que Eisenhower optava pela invasão da Itália continental imediatamente após o término da campanha da Sicília, a menos que isto interferisse nos preparativos para um ataque através do Canal da Mancha. Os chefes militares britânicos, tendo-se concentrado nas operações pós-Sicília, recomendavam uma descida à "ponta da bota" italiana, seguida de um ataque ao "tacão" e, finalmente, um avanço "bota" acima. Isto implicava o adia mento da carga pelo Canal da Mancha para um futuro indefinido.
Os americanos, que não simpatizavam com o adiamento do ataque através do Canal, achavam também que a penetração na Itália levaria os Aliados a empenhar quantidades cada vez maiores de homens e materiais no que logo se transformaria numa grande campanha, localizada num campo de operações apenas secundário.
Os dois grandes Aliados concordaram então em que considerariam as operações subseqüentes à tomada da Sicília somente em termos de se estas facilitariam e acelerariam a invasão do noroeste europeu pelo Canal da Mancha. Com base nisto, os americanos aceitaram afinal a eliminação da Itália da guerra como requisito prévio para o retorno à parte noroeste do continente; embora insistissem para que as operações mediterrâneas em geral fossem limitadas, em âmbito e no número de tropas empregadas.
Dali, os Aliados passaram a um meio-termo. Decidiram desfechar um ataque pelo Canal da Mancha em maio de 1944, tentando, entrementes, eliminar a Itália da guerra com os recursos disponíveis no Teatro do Mediterrâneo, menos sete divisões, que seriam transferidas para a Inglaterra por volta de novembro de 1943.
Mas a maneira como se daria a eliminação da Itália como beligerante e para onde ir após a campanha siciliana não puderam ser solucionadas. O melhor que os Chefes de Estado-Maior Combinados puderam fazer foi ordenar a Eisenhower que planejasse a operação contra a Sicília como lhe parecesse melhor, "eliminar a Itália da guerra" e "conter o máximo de forças alemães".
Isto estava longe de ser uma orientação firme. Numa tentativa para encontrar uma base melhor para operações pós-Sicília, Churchill, acompanhado de Marshall e Brooke, foi a Argel, ao término da conferência de Washington, para uma entrevista com Eisenhower.
O Comandante Supremo Aliado estava inclinado a partir da Sicília para a Itália continental através da Calábria - isto é, pelo Estreito de Messina - mas quando Marshall sugeriu a Sardenha e a Córsega como alvos alternativos adequados, os conferencistas chegaram a uma decisão preliminar. Eisenhower instalaria dois Q-Gs de planejamento separados, um para preparar a invasão da Sardenha e da Córsega e outro para aprontar uma invasão da Itália continental. Depois que os Aliados invadissem realmente a Sicília e se defrontassem com a força - ou a fraqueza - da oposição é que seria tomada a decisão final. Só então, e à luz dos critérios estabelecidos pelos Chefes Combinados - eliminar a Itália da guerra e conter o máximo de tropas alemães - é que Eisenhower recomendaria a operação, ou operações, que julgasse mais vantajosa e os Chefes Combinados dariam então a palavra final.
Assim, em última análise, a estratégia aliada dependeria em grande parte de uma coisa: resistiria ou não o inimigo ao ataque à Sicília.
Situada a 144 km do Cabo Bon, na Tunísia, a uns três quilômetros ao largo da Calábria, na Itália continental, menor do que o Estado de Sergipe a Sicília sempre teve importância estratégica, desde a antiguidade. Um trampolim para invasores romanos, cartagineses, mouros, vikings e normandos, a Sicília, por volta dos anos 40, fora transformada - pelo menos na opinião de Mussolini - num gigantesco "porta-aviões estacionário". Esquadrilhas de aviões italianos e alemães, operando de aeródromos sicilianos, haviam obrigado os britânicos a abandonar sua rota marítima tradicional entre Gibraltar e Alexandria, e somente Malta, a 80 km de distância - sitiada, bombardeada e virtualmente isolada - ainda desfraldava a bandeira britânica. Uma invasão bem sucedida da Sicília exigiria primeiro uma redução considerável dos efetivos aéreos do Eixo baseados na ilha.
Sendo uma ilha triangular, chamada Trinacria pelos gregos, o solo da Sicília é acidentado e montanhoso. As Montanhas Caronie, situadas a nordeste, são as mais altas, culminando com o Monte Etna, que tem um sopé de 32 km de diâmetro e ergue-se a 3.300 m de altura. Toda a costa norte consiste de rochedos íngremes e alcantilados, voltados para o mar. A única região plana e de tamanho considerável da ilha situa-se em torno de Catânia, e nessa região, bem como nas estreitas planícies ao longo das costas leste e sul, é que se situavam os aeródromos - 19 ao todo, mais 10 pistas de pouso, situados a 24 km da costa, no máximo. Eles seriam um alvo importante para os invasores aliados.
Ao longo da área costeira as estradas eram boas, mas as situadas no interior eram mal revestidas e estreitas, com curvas fechadas e greides íngremes, pois as aldeias e pequenas cidades - fundadas nos tempos medievais, ou antes - ocupam os altos das colinas, para facilitar a defesa, e os acessos sinuosos que vão até elas, bem como suas ruas, estreitas, foram planejados para pedestres e carroças. A maioria dos 4 milhões de sicilianos vivia nessas cidades e aldeias.
Há na costa numerosas praias de areia e cascalho, bem como vários portos importantes - Messina, próximo da ponta nordeste da ilha, Catânia e Siracusa, na costa leste, e Palermo, a cidade maior, ao norte, perto do lado ocidental. Messina, o maior porto e terminal do serviço de barcas para o continente, era claramente, do ponto de vista estratégico, o principal objetivo, pois, se rapidamente conquistada, isolaria os defensores da Sicília e bloquearia qualquer reforço ou fuga. Mas as poderosas fortificações sabidamente existentes no Estreito de Messina eliminavam a idéia de um ataque direto ali, e defesas idênticas circundavam Siracusa, a base naval de Augusta, e Palermo.
Os Aliados teriam de desembarcar nos trechos não-fortificados da costa. Mas, como a técnica do desembarque de suprimentos pelas praias não havia sido ainda sequer experimentada, a preocupação girava em torno da tomada de pelo menos um porto. Também influenciando a escolha dos locais de desembarque estava o alcance dos aviões Aliados, pois a distância das bases situadas em Malta e na África do Norte dificultava aos caças fornecer adequada proteção aos ataques anfíbios em várias outras praias, sob muitos aspectos favoráveis.
Os Chefes Combinados haviam destacado duas forças-tarefas para a invasão da Sicília, uma britânica e uma americana, e para o comando das forças de terra britânicas Eisenhower nomeou o General Sir Bernard Montgomery, comandante do 8° Exército, que fez recuar o exército ítalo-germânico do Feldmarechal Rommel 2.400 km, desde o Egito, para o oeste, através da Líbia, à Tunísia, sem conseguir, no entanto, enredar Rommel. Para liderar as forças americanas, Eisenhower escolheu o Major-General George Patton, que comandara a Força-Tarefa Ocidental na invasão da África do Norte, e mais tarde o II Corpo, na Tunísia, e dirigiria o 7° Exército na Sicília.
É difícil imaginar-se dois comandantes mais contrastantes. Montgomery gostava da coisa "arrumadinha", era meticuloso e cauteloso; Patton era do tipo "despachado", arrojado e exuberante.
Imediatamente acima deles estava Alexander, que comandara as forças britânicas na Birmânia e servira como comandante de grupo de exércitos na Tunísia. Seu Estado-Maior de planejamento chamava-se Força 141, por causa do número do quarto do Hotel Saint George, em Argel, onde oficiais americanos e britânicos se haviam reunido para planejar a invasão da Sicília. Este Estado-Maior se tornaria o QG do 15° Grupo de Exércitos, de que se valeria Alexander para dirigir a guerra terrestre na ilha.
Os Chefes de Estado-Maior Combinados sugeriram uma invasão por meio de dois ataques simultâneos, um próximo de Palermo, o outro próximo de Catânia. Isto daria aos aliados dois dos principais portos e acesso fácil à maioria dos aeródromos, também subentendendo um duplo avanço, tendo como ponto de convergência a cidade de Messina: um ao longo da costa norte e o outro na costa leste. O plano envolvia algumas desvantagens - o número de soldados e embarcações necessários aos dois desembarques seria muito maior do que para um único ataque concentrado; e duas forças de invasão muito separadas não se poderiam apoiar mutuamente; isto é, uma ação inimiga dirigida contra um desembarque poderia repeli-lo para o mar, sem que a outra força de desembarque pudesse ajudá-la.
Alexander examinou a possibilidade de desembarcar as tropas de Montgomery e as de Patton, concentradas no canto sudeste da Sicília, mas seu Estado-Maior entendia que os portos de Catânia, Siracusa e Augusta, mesmo que fossem capturados imediatamente, seriam inadequados para escoar as forças aliadas exigidas para a operação. Em vez disso, procurando instalações portuárias e a eliminação da maioria dos aeródromos inimigos, os planejadores recomendaram dois ataques simultâneos, um pelos americanos, na parte ocidental da Sicília, e o outro pelos britânicos, no sudeste, ambos desembarcando em largos trechos de praia, para não oferecer alvos tentadores a aviões e artilharia inimigos. Isto coincidia, de modo geral, com o conceito dos Chefes de Estado-Maior Combinados e, em fevereiro, Alexander emitiu um esboço experimental do plano, de acordo com essas diretrizes.
Montgomery objetou, por ser contrário a que seu exército desembarcasse disperso pela ponta sudeste da Sicília, numa distância considerável - uns 160 km - de Gela até Catânia. Os soldados, disse ele, estariam tão espalhados que seriam vulneráveis a qualquer contra-ação. E sugeriu: por que não esquecer os desembarques em Gela e Licata, na costa sul e, em vez disso, manter o exército forte e unido no lado leste? Isto importaria em deixar de lado alguns aeródromos, mas, na sua opinião, valia a pena abrir mão da possibilidade de capturar alguns aeródromos em favor de um ataque anfíbio fortalecido.
Cunningham e Tedder ficaram escandalizados. Os desembarques concentrados, disse Tedder, "afetariam gravemente toda a situação aérea no canto sudeste da Sicília" e "aumentariam seriamente o perigo de perda dos grandes navios envolvidos nalguns desses ataques". Ele considerava vital a superioridade aérea, para garantir portos adequados, e importantíssima, para debilitar a oposição, a captura dos aeródromos, embora planejasse pegar-se com as forças aéreas inimigas. Concordando com Tedder, Cunningham advogava o desembarque de forças bem dispersas, em vez de concentradas, mais vulneráveis, enfrentando a parte mais fortemente defendida da ilha.
Aceitando tais objeções, mas também sensível ao ponto de vista de Montgomery, Alexander colocou uma divisão americana no setor britânico - sob o controle de Montgomery - para realizar os desembarques em Gela e Licata, permitindo assim que Montgomery mantivesse suas outras forças concentradas. Para compensar a retirada de uma divisão de Patton e, desse modo, enfraquecendo a força-tarefa americana, Alexander propôs que os americanos desembarcassem vários dias mais tarde, depois que os britânicos estivessem bem instalados em terra.
Patton objetou. Os mesmos argumentos, disse ele, se aplicavam aos seus desembarques próximo de Palermo. Se uma divisão americana fosse desviada para o setor britânico, ele ficaria impossibilitado de tomar vários aeródromos, que acabariam por interferir em seu próprio ataque. Seu ponto de vista, embora válido, foi ignorado. Apesar da insatisfação que se generalizou por todos os lados, Eisenhower aceitou o novo plano de Alexander, devido ao fato de ser vital para todo o projeto o êxito inicial no sudeste", disse ele.
Então os britânicos receberam outra divisão e os navios necessários para reforçar o ataque de Montgomery, e Alexander devolveu a divisão americana a Patton, mantendo, porém, as características dos desembarques escalonados, com os britânicos na frente.
Ninguém estava satisfeito.
Pelo final de abril, Montgomery enviou uma mensagem a Alexander, abrindo de novo a questão. "O planejamento até agora", escreveu ele, "tem sido baseado na suposição de que a oposição será fraca e que a Sicília será capturada com facilidade. Nunca houve erro maior. Os alemães e os italianos estão lutando desesperadamente agora na Tunísia e farão o mesmo na Itália".
Ele ainda queria confinar os desembarques britânicos num espaço menor, ao longo da linha costeira, para fortalecer seu ataque. Especificamente, ele defendia a idéia de restringir os desembarques britânicos ao Golfo de Noto, ao sul de Siracusa, e a ambos os lados da Península de Pachino, na ponta sudeste. Estas praias estavam dentro do raio de ação dos caças baseados em Malta e, dali, ele poderia capturar o porto de Siracusa rapidamente, em seguida estender-se para o norte, a fim de tomar Augusta e Catânia, avançando finalmente para Messina. Assim, os desembarques concentrados poderiam ser desenvolvidos facilmente para tomar os portos necessários.
"E quanto aos aeródromos?" - perguntaram Cunningham e Tedder. Eles apontaram para os aeródromos perto de Gela e Comiso, que haviam sido ignorados no plano de Montgomery. Os aviões desses aeródromos, disseram eles, poderiam causar devastação entre as forças de desembarque.
Para resolver os problemas, Eisenhower convocou uma conferência dos chefes, em Argel, a 29 de abril, quando um oficial que representava Montgomery apresentou o que parecia ser uma nova idéia. Por que não fazer com que as forças americanas e britânicas ataquem juntas o canto sudeste, desembarcando os britânicos ao longo do Golfo de Noto e os americanos, de ambos os lados da Península de Pachino?
Cunningham protestou. As técnicas anfíbias, disse ele, exigiam que as forças de desembarque se dispersassem e que fossem tomados imediatamente todos os aeródromos inimigos, a fim de proteger os navios ancorados ao largo das praias - e Tedder o apoiou.
Não chegando eles a decisão que parecesse ideal, Eisenhower convocou outra reunião, para 2 de maio. Alexander não pôde comparecer, mas Montgomery foi pessoalmente, usou de persuasão, argumentou interminavelmente e tornou-se cansativo, chegando mesmo a seguir o Major-General Bedell Smith, chefe de Estado-Maior de Eisenhower, até o banheiro e, parado perto do mictório, continuou a falar, tentando convencê-lo de que um ataque concentrado excluiria a possibilidade de derrota.
No fim, Montgomery conseguiu o que queria. No dia seguinte, Eisenhower anunciou que a invasão da Sicília seria feita através de um ataque concentrado à parte sudeste da ilha, tirando de cogitação qualquer investida independente perto do canto ocidental. Tampouco haveria assaltos escalonados. Num movimento único e simultâneo, os americanos desembarcariam ao longo do Golfo de Gela, de Licata à Península de Pachino, e os britânicos chegariam a terra na costa leste, desde a Península Pachino até quase Siracusa.
Isto anulava a afirmação dos Chefes de Estado-Maior Combinados de que era necessário tomar rapidamente os portos e aeródromos importantes. Os americanos não teriam nenhuma baía importante ao longo de todo o seu trecho de costa e ficariam na dependência das operações de descarga na praia para obter suprimentos. Além disso, não haveria nenhum movimento imediato para tomar os agrupamentos importantes de aeródromos no sudoeste de Catânia e arredores. E, finalmente, a campanha subseqüente teria de ser improvisada assim que as forças de desembarque estivessem em terra.
Tedder e Cunningham permaneceram perturbados - e de tal forma que Eisenhower teve que procurar uma forma de contornar as objeções que faziam e a insatisfação em que se encontravam; ele a encontrou na ilha de Pantelleria. Se pudesse tomar Pantelleria no que chamava de "experiência de laboratório", que exigiria o investimento de relativamente poucos recursos, isso talvez se constituísse num reforço do plano de invasão.
A situação do Eixo
Pantelleria é uma ilha que mede 8 km por 13, de solo muito acidentado, com rochedos íngremes erguendo-se do mar. Situada a uns 192 km a sudoeste de Palermo, a mesma distância que Malta está de Catânia, ela possuía uma população civil de 12.000 pessoas, uma guarnição de 12.000 soldados, um comandante competente e um aeródromo que podia receber cerca de 80 aviões monomotores. Os hangares subterrâneos eram abertos na rocha, onde funcionavam oficinas de reparo à prova de bombardeios, e o núcleo de sua defesa consistia de uma força de cinco batalhões de infantaria italianos, a maioria sem qualquer experiência de combate, apoiados por baterias antiaéreas guarnecidas por reservistas.
Quando Eisenhower se decidiu pela invasão concentrada da Sicília pelo canto sudeste, resolveu tomar Pantelleria primeiro. Esta, em mãos aliadas, resultaria em muitas vantagens - eliminaria a séria ameaça que os aviões italianos ali baseados ofereciam aos desembarques aliados na Sicília, negaria a ilha como base de reabastecimento a navios de superfície e submarinos italianos e alemães, eliminaria os radiogoniômetros do Eixo e as estações de observação de navios, proporcionaria aos Aliados excelentes estações de ajuda à navegação e uma base soberba de salvamento aeronaval e, principalmente, tornaria possível uma melhor cobertura aérea aos desembarques americanos e, desse modo, maior oposição aos aviões inimigos baseados nos aeródromos sicilianos que não seriam tomados de imediato.
Eisenhower pretendia tomar Pantelleria por meio de uma operação que, segundo dizia, seria "uma espécie de experiência de laboratório para determinar o efeito dos bombardeios concentrados sobre uma linha costeira defendida". Ele ordenou a Tedder que "concentrasse tudo" - todos os bombardeiros disponíveis - e martelasse fortemente a ilha, até que os danos causados à guarnição, ao equipamento e ao moral dos defensores da ilha fossem "tão sérios que tornassem o desembarque uma coisa muito simples". A 1a Divisão de Infantaria britânica faria esse desembarque e ocuparia não só Pantelleria como também as ilhas menores que lhe ficavam próximas, de Lampedusa, Linoso e Lampione.
A idéia era arrojada, pois a propaganda fascista proclamava que Pantelleria era uma fortaleza inexpugnável. E parecia sê-lo. Mas, apesar do que afirmavam os fascistas, os bombardeios aéreos cada vez mais violentos e um poderoso bombardeio naval logo reduziram Pantelleria a escombros. As baixas italianas foram pequenas, mas os danos causados às casas, estradas e comunicações foram amplos. Por volta de 1° de junho, o porto estava em ruínas, a cidade destruída e a usina elétrica danificada. Escassez de água, munição e suprimentos, além das incessantes explosões, começavam a afetar o moral da população e dos soldados da ilha.
Durante os dez primeiros dias de junho, mais de 3.500 aviões despejaram quase 5.000 toneladas de bombas sobre Pantelleria, folhetos instando-a a render-se e, finalmente, um ultimato de rendição. O comandante da ilha, Almirante Gino Pavasi, nesse tempo possuía apenas uma única estação de rádio em funcionamento, e através dela informou Roma que não se daria ao trabalho de responder ao ultimato aliado. Alguns dias depois, comunicou-se com o comando italiano, em Roma, informando haver recebido outro ultimato e que se recusaria a lhe dar resposta. "Apesar de tudo", Pavasi assegurou: "Pantelleria continuará resistindo".
Mensagens sucessivas davam conta de que a resistência era cada vez menor em Pantelleria, mas Pavasi não falava em render-se.
Na manhã de 11 de junho, com bom tempo, mar calmo e céu claro, a frota Aliada, tendo a bordo a 1a Divisão Britânica, colocou-se a cerca de 13 km da entrada do porto de Pantelleria. Ali, os navios baixaram as barcaças de desembarque, embora praticamente não pudessem ver Pantelleria, pois a ilha estava envolta numa nuvem de poeira provocada por um bombardeio aéreo realizado cerca de uma hora antes.
Naquela manhã, Pavasi informou ao comando italiano que os bombardeiros aliados haviam lançado Pantelleria "num furacão de fogo e fumaça", acrescentando: "a situação é desesperadora; todas as possibilidades de resistência eficaz esgotaram-se".
Apesar disso, Pavasi não quebrou a rotina diária. Ao dirigir-se ao local em que diariamente se reunia com seu Estado-Maior, fez uma breve inspeção para ver o que se passava ao redor da ilha, não dando com a presença da esquadra aliada em virtude da grossa nuvem de poeira e fumaça formada pelo bombardeio.
Pavasi e seu Estado-Maior, depois de muito discutirem, chegaram à conclusão de que a defesa da ilha, devido à falta de água, ao perigo de doença e à escassez de munição, era impossível. Não restava um só avião do Eixo em Pantelleria - todos haviam sido derrubados ou levados para lugar mais seguro. Sem poder esperar qualquer ajuda externa, todos, civis e militares, estavam chegando ao fim da resistência.
Pavasi ordenou então ao comandante da esquadra aérea da ilha que desfraldasse uma grande bandeira branca no aeródromo para indicar capitulação. Como a notícia da sua decisão de render-se demoraria cerca de duas horas para chegar a todos os postos, Pavasi fixou para as 11h00 o momento da cessação das hostilidades. Depois disso, ele subiu à superfície da ilha. As nuvens de pó e fumaça, tendo-se esgarçado bastante, ele viu os navios aliados ao largo.
Era mais ou menos o momento em que as barcaças de desembarque iniciavam a corrida para as praias. Havia um silêncio estranho, quase tranqüilizador, quebrado apenas pelo ruído dos motores das barcaças de assalto e o ronco de uma esquadrilha de caças; mas o silêncio não demorou muito. Às 11h00, os cruzadores aliados abriram fogo contra as posições de bateria de costa e, 30 minutos depois, os destróieres também começaram a disparar.
Não houve resposta da ilha, nem qualquer comunicação de que seu comandante decidira render-se. Às 11h35 a bandeira branca ainda não aparecera no aeródromo, e as Fortalezas-Voadoras americanas fizeram o que um observador chamou de "o mais perfeito bombardeio de precisão, de intensidade inimaginável".
Dez minutos depois disso, o comandante da esquadra de invasão liberou as barcaças de desembarque; ao meio-dia, as tropas britânicas estavam em terra, sem encontrar oposição. Bandeiras brancas tremulavam em alguns prédios da administração da ilha e lençóis igualmente brancos desciam das janelas das poucas residências que não sofreram danos.
Em Lampedusa, o comandante não deu atenção ao ultimato de rendição dos aliados, limitando-se a comunicar ao comando italiano: "Os bombardeios prosseguem quase que sem interrupção, tanto aéreos como navais. Necessitamos urgentemente de apoio aéreo" - mas a resposta que recebeu foi uma estimulante exortação. "Estamos convencidos", radiografou Roma, "que vocês infligirão o maior dano possível ao inimigo. Viva a Itália!"
Ressentido com a reação de Roma à sua mensagem, sentindo, como Pavasi, que cumprira seu dever, dentro das suas limitações, o comandante da ilha mandou que fossem hasteadas as bandeiras de rendição.
Linoso caiu no dia seguinte. Lampione estava desocupada.
Apesar das afirmações da propaganda fascista, as ilhas haviam sido defendidas por soldados inexperientes, muitos dos quais eram dali mesmo e que, quando os Aliados atacaram, preferiram cuidar das suas famílias. De qualquer modo, eles praticamente não poderiam fazer nada, contra o poderio dos navios e aviões aliados, com o equipamento inadequado e obsoleto que tinham à disposição.
A 20 de junho, os aviões britânicos principiaram a operar de Lampedusa e, seis dias depois, um grupo de P-40 americanos foi baseado em Pantelleria.
A "experiência de laboratório" de Eisenhower fora um sucesso, resultando na obtenção de um canal mais seguro para os navios no Mediterrâneo Central e de valiosos aeródromos mais próximos da Sicília.
No dia seguinte à queda de Pantelleria, Mussolini pronunciou um discurso, em Roma, em que explicou que a perda da ilha deveu-se à carga que desencadearam contra ela, com bombardeios aéreos e navais que permitiram que a infantaria o ocupasse. O que ele não disse, por não se sentir obrigado a ser explícito, é que os Aliados tinham superioridade esmagadora em artilharia, aviões e outras armas e equipamento, e que, se Pantelleria representava o início da batalha pela pátria italiana, o início dessa batalha fora ruim para ela. Quer os Aliados se voltassem a seguir para a Sicília, a Sardenha ou a Itália continental, a possibilidade de contê-los era muita pequena.
Para o povo italiano, há muito cansado da guerra e ansiando pelo fim dos bombardeios, das agruras, sofrimentos e dores, aflições que Mussolini prometia fazer desaparecer, afirmando que a vitória não demorava, a queda de Pantelleria foi um choque. Até as forças militares perderam a confiança e a esperança no triunfo. O prestígio de Mussolini entre seus aliados alemães, no seu próprio estabelecimento militar, entre seus colegas políticos e, sobretudo, no seio do povo, já totalmente farto de tudo, declinou. Tornava-se cada vez mais claro que as promessas e garantias dos fascistas não passavam de um grande blefe.
Com a propagação do derrotismo, o Rei Vitório Emanuel III disse a Mussolini que terminasse a aliança com a Alemanha e fizesse a paz com os Aliados; mas ele queria fazê-lo honrosamente, apenas com o consentimento alemão, pois estava preocupado não só com as medidas protocolares, mas também em evitar que os alemães reagissem com violência contra o que considerariam defecção traiçoeira. Ele acreditava que ninguém na Itália; melhor que Mussolini, pudesse solucionar o problema enormemente difícil e delicado de pôr fim à aliança e retirar-se da guerra.
A aliança, um pacto entre os regimes nacional-socialista e fascista, na realidade era uma união pessoal dos dois ditadores, Hitler e Mussolini, cada qual dirigindo o governo e as forças armadas das respectivas pátrias. Mas a estreita cooperação e assistência mútua concertadas naquilo que Mussolini chamara de suas guerras paralelas transformara-se numa via de mão única - os alemães dando, e os italianos recebendo, armas, equipamento, combustível e unidades de tropas.
A concentração de forças alemães na Itália coincidiu com o crescimento de poder e influência do Feldmarechal Albert Kesselring. Enviado à Itália, à frente do Segundo Corpo Aéreo Alemão, em dezembro de 1941, nomeado comandante de todas as forças armadas alemães na Itália em outubro de 1942, quando os alemães sentiram o começo de maior atividade aliada na área do Mediterrâneo, seu controle foi ampliado em janeiro de 1943, para incluir os dois exércitos alemães na Tunísia. Kesselring era o "comandante do teatro de operações" o representante de Hitler junto a Mussolini e o ponto de contato com o Alto Comando das Forças Armadas Italianas.
Como Hitler admirava Mussolini, ele se submetera ao fingimento de respeitar a hegemonia italiana na área do Mediterrâneo. Por conseguinte, os soldados alemães foram colocados sob o comando nominal dos italianos, mas a presença de Kesselring assegurava a proteção dos interesses alemães; e os italianos aceitavam que era melhor obter a cooperação alemã do que impor rigidamente a autoridade italiana.
À medida que aumentava a influência dos alemães na Itália, Mussolini duvidava cada vez mais da possibilidade de vitória militar. Por isso, sugeriu a Hitler que as potências do Eixo fizessem uma paz em separado com a União Soviética, ou pelo menos retirasse suas forças para uma linha mais curta e defensável na URSS, a fim de concentrarem efetivos contra os anglos-americanos. Mas Hitler não toleraria qualquer interferência em sua "guerra santa" contra o bolchevismo.
Desencantado, Mussolini nomeou o Generale d'Armata Vittorio Ambrosio chefe do Comando Supremo, em fevereiro de 1943. A dupla tarefa de Ambrosio, especificou Mussolini, seria trazer de volta o maior número possível de divisões italianas comprometidas na Rússia e nos Bálcãs e enfrentar os alemães. As estreitas e cordiais relações pessoais e oficiais que haviam orientado a cooperação entre os militares alemães e italianos terminaram.
Em fevereiro e março, as tensões entre os parceiros do Eixo se agravaram, quando Mussolini insistiu para que Hitler terminasse a guerra no leste, com Ambrosio e o Alto Comando das Forças Armadas alemão (OKW) discutindo sobre a divisão de deveres militares nos Bálcãs; enquanto isso, a máquina de guerra italiana começava a enguiçar por falta de suprimentos alemães.
Parte da dificuldade resultava do fato de o Eixo encontrar-se na defensiva e sem qualquer estratégia clara que pudesse levar à vitória. A guerra submarina era a única atividade ofensiva que os germânicos sustentavam. Até mesmo a Luftwaffe deixara de ser uma força importante na guerra. Por volta de maio, as forças aéreas combinadas alemã e italiana, na área do Mediterrâneo, tinham menos de 1.000 aviões, muitos dos quais caminhando para o obsoletismo. Centenas deles haviam sido destruídos em terra, por não terem sido dispersados ou camuflados e devido à ineficácia das armas antiaéreas. Até mesmo a poderosa esquadra de batalha italiana estava imobilizada em La Spezia, por falta de combustível.
Ambrosio só via esperança para a Itália se Mussolini pudesse romper a aliança com a Alemanha. Mas o regime fascista se manteria firme enquanto houvesse possibilidade de vitória e, sem os alemães, a vitória era impossível. Se Mussolini quisesse romper com os alemães, quanto menos soldados germânicos houvesse na Itália, melhor; se desejasse opor-se à invasão aliada, então quanto mais alemães, melhor.
Ambrosio, Mussolini e o estado fascista estavam num dilema.
À medida que a popularidade de Mussolini diminuía, o mesmo acontecia com o moral italiano. Partidos políticos clandestinos tornaram-se mais vigorosos e a primeira greve franca, desde o estabelecimento do estado fascista, teve lugar em março, enquanto que os sindicatos realizavam abertamente demonstrações no Dia do Trabalho.
Os alemães não tinham ilusões quanto à força italiana. Um relatório sobre a eficiência de combate das forças armadas italianas, preparado em maio, foi brutalmente franco. Os italianos, disse o OKW, "até agora não cumpriram as missões que lhes foram entregues nesta guerra e, na realidade, tem falhado por toda parte, devido à inadequação e insuficiência de suas armas e equipamento, mau treinamento de oficiais e falta de entusiasmo no seio das tropas, resultante da certeza da derrota".
Mas os alemães não abandonariam os italianos, pois custaria menos suportá-los e fortalecê-los do que preencher o vácuo que eles criariam se se retirassem de vez do conflito.
Portanto, em junho, Hitler declarou que estava disposto a enviar mais aviões, tanques, canhões autopropulsados e corpos de tropa para ajudar os italianos a defender seu país. E, embora o número adicional de soldados alemães estacionados na Itália a fizesse parecer um território ocupado, a queda de Pantelleria convenceu Ambrosio, com a concordância de Mussolini, da necessidade de aceitar mais assistência. Pelo fim de junho, havia cinco divisões alemães na Itália; duas delas na Sicília.
O QG do 6° Exército Italiano, incumbido da defesa costeira, estava na Sicília desde o outono de 1941, mas na primavera de 1943, quando a campanha tunisiana terminou, suas responsabilidades foram ampliadas. O Comandante do exército também foi nomeado Comandante das Forças Armadas na Sicília, a ele entregue todo o controle tático de elementos do exército, marinha, aeronáutica italianos e das tropas terrestres alemães ali estacionadas. Através de um alto comissário para assuntos civis, o comandante controlava também a administração de nove prefeitos provinciais. Os elementos aeronavais germânicos continuariam separados e sob controle alemão.
Em maio de 1943 nomeou-se novo comandante. Era o Generale d'Armata Alfre do Guzzoni, então com 66 anos de idade e havia dois anos já na reforma. Ele jamais; estivera na Sicília nem demonstrara o menor interesse pela ilha, mas era um soldado dedicado e altamente profissional. Seu chefe de Estado-Maior, Coronel Emílio Faldello, era jovem e capaz, mas também não conhecia a Sicília. Contrariamente à doutrina italiana que orientava a seleção de comandante e chefe de Estado-Maior, Guzzoni e Faldello não haviam servido juntos antes, mas na Sicília eles fariam uma boa dupla.
Quando Guzzoni examinou o estado de coisas na Sicília, ficou chocado. Ele tinha uns poucos canhões antinavais, apenas um canhão antitanque para cada 8 km de costa e deficiências em todos os tipos de artilharia. Verificou que precisava de 8.000 toneladas diárias de suprimentos para atender as necessidades civis e militares, mas estava recebendo entre 1.500 e 2.000 toneladas. O moral do povo estava baixo, por causa dos bombardeios aéreos aliados, das restrições no suprimento de alimentos e das atividades generalizadas do mercado-negro. Tanto quanto Guzzoni podia ver, todos queriam apenas o fim da guerra.
As forças italianas sob seu comando contavam cerca de 200.000 homens, organizados em quatro divisões de infantaria, e uma variedade de unidades, costeiras, totalizando, talvez, o equivalente de oito divisões. Os batalhões costeiros, que tinham a missão de repelir invasores à beira-mar, eram formados de homens mais velhos e em geral mal comandados. Freqüentemente lhes atribuíam responsabilidades por setores grandes demais para a capacidade que tinham - em alguns casos, uma linha costeira de 40 km de comprimento. Não tinham virtualmente transporte algum e, na maioria, seus canhões e equipamento eram antiquados. Mesmo as divisões de infantaria, um pouco mais fortes, não eram muito boas. As Divisões Aosta e Napoli estavam mal treinadas e, juntamente com a Divisão Assietta, operavam com efetivo e equipamento organizacionais reduzidos. Somente a Divisão Livorno dispunha de efetivos autorizados e tinha um complemento total de transportes. Mas em todas as quatro divisões não havia munição de artilharia ou, quando havia, era escassa e as comunicações variavam de medíocres a totalmente inadequadas.
As três bases navais da Sicília contavam com artilharia antinaval e antiaérea e suas defesas marítimas eram eficazmente organizadas. Mas, reservistas inseguros, por falta de adequado adestramento, guarneciam muitos canhões, na maioria peças antigas, de pequeno calibre e reduzido alcance. Não houve muitos preparativos para a defesa contra um ataque por terra.
Excetuando-se as bases navais, não havia nenhum sistema contínuo de defesas costeiras. Obstáculos, campos minados, trincheiras antitanques e fortificações de concreto estavam muito separados uns dos outros. Vários postos de defesa careciam de guarnições, armas e abrigos, que, quando existiam, eram mal camuflados. No interior, apenas uns poucos obstáculos haviam sido erguidos, quase todos ineficientes. Uma linha interna de bloqueio, atrás das fortificações costeiras, e que devia ser uma poderosa barreira, consistia de um traço feito cuidadosamente com lápis de cor sobre o mapa.
Os 30.000 soldados alemães que se encontravam na ilha eram outra coisa. A 15a Divisão Panzergrenadier, comandada pelo Major-General Eberhard Rodt, e a Divisão Hermann Göring, sob o comando do Major-General Paul Conrath, estavam bem treinadas e equipadas. Elas operavam sob o comando de Guzzoni, mas o QG do 14o Corpo Panzer, do General de Panzers Hans Valentine Hube, localizado no sul da Itália, os administrava e abastecia. O Tenente-General Fridolin von Senger und Etterlin era o oficial de ligação com o 6o Exército para coordenar o emprego das tropas alemães.
Um único QG unificado, conhecido como Comando do Estreito de Messina, sob a direção do Coronel Ernest Günther Baade, reunia as instalações do exército, da marinha e da força aérea alemães naquela área e era responsável pelo transporte, um serviço de barcas do continente, depósitos e por cerca de 70 baterias antiaéreas situadas em ambos os lados do Estreito.
Guzzoni não podia esperar assistência das forças navais do Eixo. Era duvidoso que Mussolini se atrevesse a empenhar a esquadra de batalha e, mesmo que o fizesse, as belonaves levariam um dia para cobrir a distância entre La Spezia e as águas sicilianas. Os alemães só tinham uma flotilha de barcos pequenos em Messina.
Guzzoni tampouco podia esperar muita ajuda aérea. A força aérea italiana estava apenas dotada de aviões já obsoletos que, após a queda da Tunísia, em maio, se retiraram da Sicília para o continente. Os alemães assumiram a proteção aérea da Sicília a partir de seus próprios aeródromos, mas sofreram pesadas baixas, em maio e junho, devido à inferioridade numérica e técnica dos seus.aviões.
A fraqueza das forças aérea e naval do Eixo depositou nos ombros das forças de terra todo o fardo da defesa da Sicília. Como as unidades italianas careciam de mobilidade, em comparação com as formações alemães, Guzzoni decidiu fazer que as forças italianas enfrentassem e resistissem aos invasores próximo das praias, até que se identificassem os locais dos principais ataques aliados; então as divisões alemães contra-atacariam e repeliriam os invasores para o mar.
Portanto, Guzzoni estabeleceu seu QG próximo de Enna, no centro da ilha. O 16o Corpo, sob o comando do Generale di Corpo d'Armata Caeto Rossi, defenderia a metade oriental da ilha, com as Divisões Napoli e Livorno. O 12o Corpo, sob o Generale di Corpo d'Armata Francesco Zingales, cuidaria da metade ocidental, com as Divisões Aosta e Assietta. A 15a Divisão Panzergrenadier foi dividida em três forças-tarefas, com o grosso dos seus efetivos no oeste. A Divisão Hermann Göring, dividida em dois grupamentos de combate, foi orientada para o sul e leste.
Esperando que os Aliados atacassem em meados de julho, Guzzoni faria o melhor que pudesse; mas ele tinha dúvidas sobre o resultado da batalha, pois estava plenamente de acordo com um colega, que dissera: "Podemos fazer uma defesa honrosa contra um desembarque em grande escala, mas não temos chance de repelir o inimigo". A menos, é claro, que os alemães enviassem ajuda maciça.
Os desembarques
Os alemães poderiam ter mandado mais de duas divisões para a Sicília, se não tivessem sido iludidos e desorientados pelas operações dissimuladoras aliadas, destinadas a disfarçar a intenção de invadir a Sicília e levar à expectativa alemã de desembarques na Sardenha e na Grécia. Um elemento importante da dissimulação foi "o homem que nunca existiu", inventado pelo Serviço de Inteligência britânico. Um soldado que morrera de pneumonia e cujos pulmões apresentavam características de morte por afogamento, foi vestido como oficial portador de documentos com uma valise oficial atada ao pulso por uma corrente, foi lançado à água, por um submarino, ao largo da costa da Espanha, que era neutra, onde as correntes marítimas o levariam à praia. Ostensivamente, ele fora vítima de um acidente aéreo ocorrido no mar. Três dias depois, Londres foi informada de que o corpo fora entregue ao Adido Naval Britânico em Madri, mas não antes que uma carta fictícia contida na valise tivesse sido aberta e lida pela polícia espanhola e comunicada aos alemães. A carta dava instruções a Alexander para fazer um ataque simulado na Sicília, enquanto se preparava para invadir a Sardenha; ela também "mandava" o General Sir H. Maitland Wilson, comandante do Oriente Médio, disfarçar seu ataque à Grécia mediante uma ação simulada contra as ilhas do Dodecaneso. Aceitando como autênticas tais medidas, os alemães reforçaram suas defesas costeiras na Sardenha e na Grécia.
Entrementes, na África do Norte, os Aliados preparavam a invasão da Sicília. Um ataque concentrado à parte sudeste da ilha não significava que as tropas desembarcariam amontoadas. Significava, antes, que mais de sete divisões, precedidas por partes de duas divisões aeroterrestres que saltariam sobre a ilha, desembarcariam simultaneamente ao longo de 160 km de costa. As forças de Montgomery em 48 km de praia, as de Patton numa frente de 11 km. Em termos de tamanho de frente e de forças de ataque iniciais, a invasão da Sicília foi muito maior e muito mais dispersada do que os desembarques na Normandia, um ano mais tarde.
O 8o Exército de Montgomery iniciaria seu ataque com desembarques de tropas transportadas em planadores, para tomar Ponte Grande, a fim de facilitar a ocupação de Siracusa; se possível, elas também capturariam as baterias costeiras das proximidades e uma base de hidraviões. Isto porque, quatro dias depois, tropas de Comandos chegariam por mar, para eliminar uma grande bateria costeira situada no Cabo Murro di Porci, a vários quilômetros ao sul de Siracusa, e só então é que se daria o assalto principal.
O 13o Corpo, do Tenente-General Sir Miles Dempsey, mandaria a 5a Divisão para terra, para atacar Cassibile, e depois rumaria para o norte, a fim de apoderar-se de Siracusa; a 59a Divisão tomaria Avola e protegeria o flanco esquerdo do corpo. O 30o Corpo, do Tenente-General Sir Oliver Leese, enviaria o 231o Grupo de Brigada de Infantaria, a 51a Divisão, e a 1a Divisão Canadense contra a Península de Pachino. Após travar contato com os americanos, perto de Ragusa, Leese deveria avançar para Palazzolo e depois para Vizzini; ele também deveria ampliar sua frente, deslocando-se ao longo da costa leste, a fim de permitir a Dempsey carregar com o grosso dos seus efetivos contra Augusta e, depois, Catânia. O 7o Exército, de Patton, começaria a atacar com os pára-quedistas de um regimento, reforçado da 82a Divisão Aeroterrestre, saltando sobre Piano Lupo, mais ou menos no meio da frente que o exército estenderia na praia e a vários quilômetros para o interior de Gela. Os pára-quedistas deviam bloquear a passagem do inimigo em direção às praias durante as primeiras horas dos desembarques, momento em que as tropas anfíbias estariam particularmente vulneráveis. Então viriam três assaltos navais simultâneos. Os dois da direita sob o controle do 2o Corpo, do Major-General Omar Bradley - a 45a Divisão deveria desembarcar próximo da aldeia de pescadores de Scoglitti, e a 1a Divisão, em Gela. À esquerda, para operar independentemente, desceria a 3a Divisão, reforçada, que desembarcaria em Licata.
Os britânicos esperavam tomar três grandes portos rapidamente - Siracusa, Augusta e Catânia; aos americanos caberiam somente os portos menores, de Licata e Gela. Mas o que fazia com que a descarga nas praias parecesse viável era um novo veículo chamado DUKW, um caminhão anfíbio de 2 ½ toneladas, que podia trazer suprimentos e equipamento dos navios, ancorados alguns quilômetros ao largo, diretamente para os depósitos, nas praias.
Mais importante ainda para o ataque anfíbio seria o uso em grande escala, pela primeira vez numa operação real, de uma nova série de navios e barcaças de desembarque. Barcos de fundo chato, com proa articulada, que arriava para a frente, formando uma rampa. Esses barcos chegavam às praias, descarregavam homens, tanques e veículos com rapidez, e diretamente na praia. Britânicos e americanos, combinando esforço e trabalho, conseguiram essa maravilha de barco que lhes permitiria a solução de um dos problemas mais complicados da técnica militar, um ataque anfíbio contra uma costa hostil.
Depois que as tropas chegassem à Sicília e tivessem dominado os seus primeiros objetivos, o que se faria? Alexander não planejou nada de definitivo para depois dos desembarques, mas esperava que Montgomery fizesse o esforço principal e avançasse rapidamente, por Catânia, até Messina. A Patton seria distribuída uma tarefa claramente secundária, ou seja, a de proteger o flanco e a retaguarda de Montgomery.
Esta divisão de responsabilidades refletia a estimativa de eficiência apenas relativa das unidades britânicas e americanas. Tendo-se familiarizado com as forças de terra americanas na Tunísia, durante a desastrosa batalha do Passo de Kasserine, onde ficara decepcionado com a inexperiência e inépcia geral dos americanos, ele preferia ter as tropas veteranas do exército de Montgomery no esforço mais importante - chegar até Messina.
Cunningham informou que alguns dos americanos estavam, como disse ele, "muito irritados por serem relegados a um papel secundário na campanha", e era verdade - os comandantes se sentiam um tanto humilhados. Embora vários colegas insistissem para que Patton protestasse, este se recusou, dizendo que ordem é ordem e que ele "faria o diabo para cumpri-la", gostasse ou não.
Quando a campanha tunisiana terminou, em meados de maio, Eisenhower escolheu o momento e a data para a invasão da Sicília e sua escolha foi ditada sobretudo pela fase da lua, pois as tropas aerotransportadas precisavam de alguma luz para que pudessem operar, ao passo que as forças navais exigiam escuridão total para que seus comboios se aproximassem das áreas do alvo. A noite de 9 de julho satisfazia a ambas. Os elementos aeroterrestres desembarcariam na Sicília pouco depois da meia-noite de 9 de julho e os elementos navais chegariam às praias às 02h45 de 10 de julho.
Assim que a campanha tunisiana terminou, as forças aéreas aliadas começaram a atacar a Sicília, bombardeando alvos militares por toda a ilha e concentrando-se nos grupos de aeródromos reunidos na parte oeste. Então, durante a semana que precedeu a invasão, eles passaram para os campos do leste; os pilotos verificaram que a oposição aérea inimiga era surpreendentemente fraca.
Para a invasão propriamente dita, as forças aéreas reuniram 670 aviões de primeira linha, baseados nas ilhas de Pantelleria, Gozo e Malta e em 12 aeródromos na península do Cabo Bon, na Tunísia. Eles forneceriam uma cobertura aérea constante, colocando esquadrilhas sobre os pontos de desembarque, mantendo, no entanto, o grosso dos seus efetivos pronto para ser lançado contra o inimigo onde quer que fosse necessário.
No transporte de tropas de assalto para a Sicília havia cerca de 3.500 vasos de todos os tipos, organizados em duas forças-tarefas, uma comandada pelo Vice-Almirante Henry Hewitt e a outra pelo Vice-Almirante Sir Bertram Ramsay. Os navios zarparam de vários portos da África do Norte, em horários diferentes, segundo um programa meticuloso, que levava em conta as diferentes velocidades dos navios e barcos, as exigências da segurança e o desejo de fazer com que os soldados viajassem o mais confortavelmente possível.
Os navios chegaram ao local de encontro na manhã de 9 de julho, no momento em que o vento começava a agitar as águas; soprando à velocidade de 16 km horários, inicialmente, o vento oeste aumentou, ao entardecer, para rajadas de cerca de 64 km. Os navios arfavam e muitos soldados, especialmente os que estavam apinhados nas barcaças de desembarque, ficaram mareados e sem condições para combater.
No fim daquela tarde, quando os navios se desviaram para o norte, para fazerem aproximação final, eles passaram a receber o vento e as ondas pelo costado. Colunas e formações se dispersaram, cargas mudavam de lugar, rumos e velocidades tiveram de ser alterados. Assim, todos os comboios sofreram atrasos de até uma hora na viagem para as respectivas áreas, e muitos navios estacionaram de maneira inadequada.
Eisenhower e Alexander haviam ido para Malta, a fim de aguardar os relatórios da operação no QG subterrâneo de Cunningham. Eles discutiram se deviam ou não adiar os desembarques por mais 24 horas, devido ao tempo, mas no fim decidiram prosseguir. Talvez a ventania levasse o inimigo a crer na impossibilidade da invasão. Talvez, como resultado disso, o ataque os surpreendesse inteiramente, e qualquer vantagem seria bem-vinda.
Embora alguns planejadores aliados admitissem que não haveria problemas muito grandes com os italianos, porque suas armas e equipamento estavam muito aquém dos padrões alemães, a maioria esperava que eles resistissem vigorosamente, por dois motivos: primeiro porque os alemães foram reforçá-los, segundo porque a luta seria em defesa da sua pátria.
Sobretudo por encontrar-se o tempo muito apropriado para operações anfíbias, durante os dez primeiros dias de julho, os alemães e italianos, na Sicília e em Roma, começaram a sentir, quase que por intuição - mas cada vez mais forte - que os Aliados estavam tramando alguma coisa. Quando os informes do Serviço de Inteligência davam que enorme quantidade de barcaças de desembarque e aviões aliados estava em posições que ameaçavam a Sardenha, Sicília e a parte sul da Itália continental, suas desconfianças pareciam confirmar-se. Por volta de 5 de julho os comandantes e os Estados-Maiores estavam nervosos. Incêndios provocados por bombardeios aliados eram confundidos com desembarques, e grande quantidade de mensagens comunicando invasões imaginárias mantinha o QG ocupado e em perpétuo estado de alarma. A espera tornou-se insuportável.
No dia 8, quando Guzzoni mandou que os portos de Licata, Porto Empedocle e Sciacca, na costa sul, fossem preparados para demolição, as autoridades em Roma ordenaram que se lançassem terra e pedras nas baías de Trapani e Marsala e que se destruíssem as suas docas.
O nervosismo provocado pelo desconhecido se dissipou um pouco na manhã de 9 de julho, quando as patrulhas de reconhecimento da Luftwaffe comunicaram a presença, no Mediterrâneo, de comboios formados de barcaças de desembarque e transportes. Eles estavam viajando a grande velocidade em águas próximas de Pantelleria, e, embora a direção em que iam não precisasse o destino que levavam, Guzzoni concluiu que a invasão da Sicília estava próxima. Ele tornou-se ainda mais seguro disso à tarde, quando recebeu uma mensagem informando sobre o movimento de comboios adicionais.
Às 19h00, embora Guzzoni não pudesse saber que aviões que rebocavam os planadores estavam-se reunindo na costa da África do Norte, ele ordenou que as tropas, na Sicília, ficassem alerta.
Pouco depois, aviões aliados bombardearam Caltanissetta, Siracusa, Palazzolo Acreide e Catânia, causando-lhes danos sérios. Quando os aviões se retiraram, as belonaves aliadas atacaram Siracusa, Catânia, Taormina, Trapani e Augusta com artilharia naval de longo alcance. Não era mais possível haver dúvida de que estava iminente a invasão. Às 22h00, embora não pudesse saber que os pára-quedistas americanos haviam deixado a África do Norte uma hora antes, Guzzoni colocou suas unidades em alerta permanente.
Durante a noite, as águas ao largo das costas sicilianas pareciam desertas. O vento continuava forte e o mar, agitado - mas havia todos os indícios de que a invasão estava iminente. Quando é que os Aliados tentariam desembarcar? Estariam as forças ítalo-germânicas em condições de rechaçá-los?
Estas perguntas provocavam em Guzzoni e no Alto Comando italiano forte ansiedade. Chegou-lhes, porém, uma boa noticia. Ao ser informado da iminência dos desembarques, Hitler mandou que a 1a Divisão de Pára-quedistas, estacionada na França, se aprontasse para transferência imediata para a Sicília, por avião. Se ordenada, toda a divisão poderia ser transferida em cinco dias, mas a presteza com que Hitler reagiu no sentido de reforçar as defesas da Sicília significava que outras forças alemães, talvez a 29a Divisão Panzergrenadier, que estava no sul da Itália, se tornasse disponível mais cedo ainda.
À primeira hora de 10 de julho, Guzzoni foi informado de desembarques aerotransportados. O informe era vago. Não precisava áreas, número de soldados e forma de ataque. Mas, certo de que a invasão começara, Guzzoni emitiu uma proclamação exortando soldados e civis, na Sicília, a repelir os desembarques. Ao mesmo tempo, ordenou que se destruísse o cais de Gela. Por volta de 01h45, haviam chegado a Guzzoni informes de tantos desembarques de tropas aerotransportadas e em tantos lugares diferentes, que ele advertiu a seus comandantes de corpo que esperassem desembarques ao longo de toda a linha costeira sul e leste da ilha.
O que acontecia é que a maioria dos pára-quedistas americanos, bem como os planadores britânicos que haviam pousado ilesos, estavam espalhados por uma área muito extensa. Reunindo-se em pequenos grupos, eles vagavam pela retaguarda das unidades costeiras italianas, cortando comunicações, emboscando pequenos grupos de reconhecimento e criando tremenda confusão. A maioria desses soldados não tinha idéia de onde estava - por algum tempo, o General-de-Brigada James Gavin, comandante americano de regimento, nem sequer tinha certeza de que estava na Sicília. Mas eles dominaram casamatas que guardavam encruzilhadas, tomaram pontes, deixando a impressão de que o volume de tropa era muito maior do que na realidade.
O vento e as ondas no Golfo de Noto eram bem menos perturbadores do que noutros pontos da Sicília, e a maioria das primeiras unidades atacantes do exército britânico chegou às praias no tempo calculado. As pequenas barcaças de desembarque que levavam soldados para o ataque eram seguidas de barcaças maiores e de navios de desembarque, que transportavam a artilharia de apoio e os tanques. Belonaves estavam ancoradas ao largo, prontas para martelar as defesas costeiras italianas até vencê-las. Nos céus, caças se deslocavam para dar cobertura aos desembarques e repelir os esperados ataques aéreos contra as embarcações aliadas e os locais de desembarque. Começando com o clarear do dia, a cada meia hora, dai por diante, formações de caças-bombardeiros atacavam as estradas principais que conduziam às praias, a fim de desestimular contra-ataques.
Os desembarques navais de Montgomery foram todos bem sucedidos. As primeiras levas conseguiram a surpresa tática e varreram a maioria das unidades de defesa costeira antes mesmo de se certificarem do que estava acontecendo, não havendo, por isso, quase nenhuma oposição coordenada. Quando as baterias costeiras e as peças de artilharia instaladas no interior atacaram as pontos de invasão, a artilharia naval, juntamente com os movimentos rápidos de tropas, para o interior, logo as silenciaram.
Às 04h00, Guzzoni recebeu um telefonema do comandante da Base Naval de Messina, comunicando-lhe que uma mensagem enviada pela estação de rádio alemã em Siracusa dava conta de que tropas aliadas, desembarcadas de planadores, haviam afluído à costa leste e estavam atacando a base de hidraviões de Siracusa. Guzzoni imediatamente mandou o comandante do 16o Corpo, Rossi, despachar tropas de terra para a área de Augusta-Siracusa.
Esta notícia e a informação anteriormente dada por aviões de reconhecimento de que navios aliados estavam ao largo da costa sul também levaram Guzzoni a concluir que os Aliados desembarcariam ou estavam desembarcando simultaneamente em muitos lugares. Incapaz de enfrentar todos os desembarques, ele lançou suas reservas disponíveis nos locais que considerava mais perigosos para a defesa geral da ilha - Siracusa, Gela e Licarta. Siracusa era decididamente o mais importante, pois dava acesso a Catânia e, por último, a Messina, mas Guzzoni calculou que o regimento alemão reforçado (chamado Grupo Schmalz), e a Divisão Napoli, que estava nas proximidades, juntamente com as poderosas defesas da base naval, provavelmente impediriam uma penetração aliada na planície de Catânia. Portanto, ele ordenou que o grosso da Divisão Hermann Göring se reunisse contra os invasores que desembarcassem próximo de Gela.
Os desembarques do 7° Exército no Golfo de Gela foram muito dificultados pelos fortes ventos de oeste, o que atrasou as forças-tarefas navais que abriam caminho pelos mares agitados até os pontos onde lançariam suas barcaças de desembarque. Ao chegarem, os navios estavam um tanto desorganizados, em conseqüência do que os desembarques da 45a Divisão perto de Scoglitti foram adiados por uma hora; mas os desembarques das 3a e 1a Divisões, em Licata e Gela, respectivamente, foram realizados mais ou menos dentro da hora marcada, embora fosse extremamente difícil içar e lançar as barcaças de desembarque que conduziriam as levas de assalto até a praia.
A princípio, o fogo partido de terra foi constante, mas as unidades navais responderam com bastante firmeza à interferência. No molhe de Licata, uma bateria ferroviária, montando quatro canhões num trem blindado, foi um sério obstáculo, até que uma série de rajadas disparadas pelos navios destruíram o trem e os canhões. Quando um holofote iluminou as barcaças de desembarque que rumavam para Gela, um destróier o arrasou com cinco granadas e, depois, mais outro, com três granadas. Em Scoglitti, o mar, bastante agitado, fazia os navios arfar fortemente, desorganizando as levas de assalto: mas os soldados que chegaram à praia só encontraram resistência dispersa, por parte de unidades que já haviam sofrido danos nas mãos de bandos errantes de pára-quedistas.
Os artilheiros costeiros italianos ficaram junto dos seus canhões muito mais tempo do que esperavam os atacantes, dada a relativa impotência das suas armas, em comparação com o poder de fogo aliado. O cais de Gela fora demolido, em obediência à ordem de Guzzoni - com o grande clarão e a violenta explosão ocorrendo quando dois batalhões de Rangers navegavam na sua direção - mas, de um modo geral, os americanos chegaram à Sicília com muito menos dificuldades do que esperavam. Embora as granadas italianas continuassem caindo sobre algumas praias de invasão muito depois do pôr-do-sol, e, embora os primeiros aviões do Eixo aparecessem sobre os navios reunidos diante dessas praias às 04h30, e afundassem dois deles, o crescente número de soldados americanos e o volumoso suprimento que já se encontravam em terra atestavam o sucesso dos primeiros desembarques.
Ninguém ainda sabia que a importante elevação situada na frente de Gela, Piano Lupo e seu estratégico entroncamento rodoviário não estavam na posse dos pára-quedistas americanos. E foi ali que Guzzoni mandou as tropas se concentrarem para um ataque à cabeça-de-praia americana.
A reação do Eixo
Ao clarear o dia 10 de julho, quando o âmbito e os efetivos dos desembarques aliados se tornaram evidentes, Guzzoni convenceu-se de que não seriam grandes as possibilidades de os Aliados realizarem operações anfíbias adicionais na parte oeste da ilha. Mesmo que o fizessem, as forças que defendiam a Sicília tinham, condições de fazer frente a tais operações na região sudeste - primeiro, para contê-las até a possível chegada de reforços do continente; segundo, para repeli-las para o mar, e terceiro, para no mínimo manter aberto o caminho de fuga através de Messina. Assim, Guzzoni mandou que a 1a Divisão Panzergrenadier, que se deslocara para oeste dias antes da invasão, retrocedesse para o centro da ilha, onde estaria em boa posição para combate em qualquer setor. Ele também instruiu a Divisão Hermann Göring (exceto o Grupo Schmalz, que tinha muito o que fazer na área de Siracusa), ao QG de Corpo e a Divisão Livorno para que contra-atacassem os americanos antes que pudessem demarcar, consolidar e fortificar uma cabeça-de-praia.
Infelizmente para Guzzoni, ele não podia ter certeza de que todas as unidades que comandava receberiam suas instruções. Para começar, as comunicações telefônicas estavam ruins, pois muitos fios haviam sido cortados pelos pára-quedistas americanos e pelas bombas aliadas. Por conseqüência, algumas unidades não conseguiram receber ordens específicas e passaram a agir por iniciativa própria, de acordo com a doutrina defensiva geralmente estabelecida para a ilha. Em lugar de um avanço maciço contra os americanos, haveria ataques pequenos, descoordenados e em grande parte independentes. Mas mesmo estes se mostrariam perigosos.
Conrath, o comandante da Divisão Hermann Göring, soubera dos desembarques americanos nas primeiras horas daquela manhã, não por Guzzoni, mas pelo QG de Kesselring, próximo de Roma. A notícia foi confirmada quando várias das suas patrulhas de reconhecimento encontraram e travaram combate com pára-quedistas americanos perto de Niscemi. Mais tarde ainda, quando informado de que a Schmalz estava avançando contra os desembarques britânicos, Conrath decidiu que chegara o momento de executar o plano defensivo. Ele desfecharia um contra-ataque em Gela. Como suas comunicações telefônicas com o 6o Exército e com o 16o Corpo haviam sido cortadas naquela manhã, Conrath usou a rede alemã independente para chamar von Senger, o oficial-de-ligação no QG de Guzzoni. Comunicou-lhe o plano que traçara e disse-lhe que o iniciaria sem delongas; von Senger aprovou, acrescentando que notificaria Guzzoni.
Às 04h00, Conrath iniciou seu movimento, quando dois regimentos reforçados, um de infantaria e um de tanques, partiram por três estradas do interior da área de Caltagirone para se reunirem em pontos ao sul de Biscari e Niscemi, de onde atacariam Gela pelo leste. A marcha mostrou-se difícil - as estradas eram extremamente ruins, os ataques aéreos interferiam e os onipresentes pára-quedistas americanos criavam obstáculos. Houve confusões e repetidos atrasos. Cinco horas após iniciarem o movimento, as colunas ainda se esforçavam por chegar às áreas de reunião.
Rossi, o comandante do 16o Corpo, saiu-se bem melhor. Ele mandou um regimento italiano, o Grupo Móvel E, de Niscemi para Piano Lupo, em duas colunas. Uma a dessas colunas, chamada Grupo Centro, atacaria Gela pelo nordeste. A meio caminho de Piano Lupo, na Casa del Priolo, o Grupo Móvel E encontrou cerca de 100 pára-quedistas americanos que naquela manhã haviam dominado um ponto fortificado, instalando nele uma posição de bloqueio.
Os americanos permitiram que a ponta de uma coluna, três pequenos veículos, penetrassem suas linhas antes de abrirem fogo. O som dos disparos fez deter o corpo principal do Grupo Móvel E.
Trinta minutos mais tarde, duas companhias de infantaria italianas avançaram, em formação de ataque, na direção dos americanos, que esperaram até que os italianos estivessem a 200 m de distância, para então abrir devastador fogo de fuzis, engrossado pelas balas de numerosas metralhadoras que haviam capturado no ponto fortificado. A fuzilaria reteve os italianos, excetuando uns poucos, da retaguarda, que conseguiram retornar à coluna principal.
Como o fogo revelou que os americanos não tinham canhões, os italianos levaram uma peça de artilharia para uma colina situada fora do alcance das armas dos pára-quedistas. Quando este canhão abriu fogo, uma patrulha americana, anteriormente despachada para Piano Lupo, retornou, informando não existir nenhuma força inimiga poderosa defendendo o entroncamento. Havia ali apenas uns poucos italianos, armados de metralhadoras, em trincheiras protegidas por alambrado.
Incapazes de superar o ataque do canhão que os italianos instalaram na mencionada colina, os americanos decidiram recuar para o Piano Lupo, onde estariam mais próximos das forças que desembarcariam nas praias. Mas, ao saírem da Casa del Priolo, granadas da artilharia naval começaram a cair sobre a coluna italiana, disparadas a pedido dos soldados postados próximo de Gela, que haviam avistado o Grupo Móvel E. Como os pára-quedistas não tinham meios de controlar ou dirigir o fogo da artilharia naval, eles se desviaram para o sul numa ampla retirada de contorno.
Com a saída dos americanos, os italianos avançaram para Piano Lupo, chegando ali minutos antes dos pára-quedistas, que haviam permanecido ocultos. Atravessando a área batida pela artilharia naval, cerca de 20 tanques italianos cruzaram o entroncamento rodoviário e desceram a colina na direção de Gela, enquanto o Grupo Móvel E permanecia instalado em Piano Lupo. Os tanques encontraram os americanos que subiam das praias de Gela e os dois primeiros logo foram destruídos, o que atrapalhou o movimento da coluna, que se deteve. Sem apoio de infantaria e sob um volume de fogo cada vez maior, disparado das belonaves, os italianos recuaram e reuniram-se à infantaria em Piano Lupo. Depois, toda a força recuou e tomou posições no sopé da colina à beira da planície de Gela.
Com a saída dos italianos, os pára-quedistas dominaram a pequena posição italiana em Piano Lupo e travaram contato com os soldados que avançavam das praias.
Entrementes, a Divisão Livorno desfechava um ataque de duas pontas contra Gela, vindo do noroeste. Cerca de 20 tanques desceram a estrada de Butera e, embora sete ou oito deles fossem destruídos pela artilharia naval, invadiram a cidade, onde houve um jogo mortífero de esconde-esconde. Soldados de assalto americanos saltavam de prédio em prédio, lançando granadas de mão e disparando foguetes contra os tanques, que se viam em desvantagem, não só devido à estreiteza das ruas mas também por causa dos soldados de infantaria que os acompanhavam. Depois de cerca de meia hora, os tanques se retiraram da cidade e todos conseguiram escapar para Butera, levando grande porção de feridos.
Só então é que cerca de 600 soldados de infantaria da Divisão Livorno avançaram para Gela, num ataque corajoso mas absurdo. Em formação de parada, quase normal, eles avançaram com decisão, apesar das terríveis baixas causadas em suas fileiras pelo fogo dos fuzis, metralhadoras e morteiros americanos. Nem um só soldado chegou a Gela e, depois de sofrerem baixas enormes, os sobreviventes recuaram.
Do outro lado de Gela, os soldados de Conrath chegaram, às 14h00, ao sul de Niscemi e desfecharam um ataque contra Gela, mas seu movimento de avanço foi detido pelos soldados de infantaria americana apoiados pela artilharia naval. Embora Conrath tentasse pessoalmente reiniciar o ataque às 15h00, não teve êxito. Uma hora depois ele cancelou o esforço e recuou.
Por volta das 18h00, os americanos que haviam detido a Divisão Hermann Göring informaram entusiasticamente: "Os tanques estão recuando; parece que somos demasiado fortes para eles".
Aqui e ali, pela zona americana, houve luta durante toda a tarde, mas ao anoitecer os americanos tinham Licata, Gela e Scoglitti firmemente nas mãos e sua cabeça-de-praia estava bem estabelecida, com mais soldados, artilharia, tanques e suprimentos chegando às praias num fluxo constante. Ao que parecia, as ações italianas e alemães, no primeiro dia, tinham sido pouco mais que sondagens para localizar os invasores. Era inevitável que houvesse outras tentativas mais fortes e melhor concatenadas, para repelir os americanos.
Os soldados britânicos desembarcaram facilmente na costa leste da Sicília. Eles mal trataram seriamente a Divisão Napoli, que estava muito dispersa, e avançaram na direção dos seus objetivos, contra resistência cada vez menor. A descarga nas praia prosseguia, lenta mas sistematicamente, apesar dos ataques aéreos inimigos, que perturbavam mais do que causavam danos.
Na parte norte da cabeça-de-praia, a 5a Divisão dominou Cassibili, na rodovia costeira, por volta das 08h00, embora as operações de limpeza e consolidação tomassem o resto da manhã e parte da tarde. Somente por volta das 15h00 é que a divisão pôde rumar para o norte, na direção da Ponte Grande, onde 8 oficiais e 65 soldados da Brigada Aeroterrestre tomaram e defendiam a ponte.
Mas, já então