Noruega
A campanha da Noruega é uma das mais explicativas de toda a guerra, mostrando em todos os estágios como o acaso e a friction de guerre influenciaram as decisões em todos os comandantes e provocaram modificações em todos os seus planos. Hitler não era muito amigo do mar e os alemães também não possuíam qualquer tradição em guerras anfíbias. Mesmo assim, na Noruega, se bem que a custo da maior parte de sua frota de superfície, eles conseguiram realizar uma operação combinada de grande escala. Foram usadas táticas do tipo do Cavalo de Tróia : soldados alemães disfarçados a bordo de navios transportadores de carvão e de aparência inocente estavam de prontidão antes do início das batalhas.
Muito mais importante foi a precisão germânica do trabalho de equipe, que conseguiu organizar desembarques simultâneos em todos os principais portos noruegueses. Foi apenas por mero acaso que eles não conseguiram encerrar a campanha de um só golpe. Curiosamente, foram os Aliados que deram o primeiro passo. No dia 8 de abril de 1.940, eles instalaram campos de minas com a finalidade de proibir a utilização das águas territoriais norueguesas para os navios que transportavam contrabando de guerra para a Alemanha. As relações entre a Inglaterra e a Noruega já haviam sido abaladas pouco antes pelo incidente com o Altmark. Agora, as suspeitas dos noruegueses no sentido de que estavam sendo arrastados para a guerra começavam a se aprofundar. No dia 9 de abril, os alemães, apesar de um tratado de não-agressão, proposto pelo próprio Hitler, invadiram a Dinamarca.
Em Copenhague, a Guarda do Palácio abriu fogo contra os invasores, mas o Rei Cristiano X, para evitar o massacre do seu exército de 14.550 soldados, ordenou um cessar-fogo. Nesse meio tempo, o plano alemão para conquistar os principais portos noruegueses estava sendo colocado em prática. O Almirantado havia sido informado a respeito de uma incursão alemã já no dia 7, se bem que no relatório enviado por um ministro neutro de Copenhague, mencionando uma expedição alemã para Narvik e Jutland, infelizmente foi considerada como "apenas uma escalada na guerra de nervos". Sir Charles Forbes partiu de Scapa Flow às 20h15 do dia 7. Aparentemente, a esquadra nacional contava com três navios principais, seis cruzadores e 21 destróieres no mar - e nenhum porta-aviões. "Na última ocasião os alemães avançaram pelo mar do Norte, com intenções bélicas, neste mesmo mês, 22 anos antes, tínhamos sido capazes de empregar 35 navios principais, 26 cruzadores e 85 destróieres".

Porto norueguês devastado por ataque alemão.
Não causa surpresa alguma saber que o único contato de superfície no dia 8 ocorreu por acaso. O destróier Glowworm, após lutar contra dois destróieres alemães, abalroou o cruzador pesado Hipper, abrindo um buraco de 40 metros de largura no seu flanco, uma façanha pela qual o Capitão-de-Corveta G. Broadmead Roope recebeu postumamente a Victoria Cross. Por volta do meio-dia de 8 de abril de 1.940, o submarino polonês afundou o Rio de Janeiro, um navio de transporte alemão, ao largo de Lillesand. Os sobreviventes informaram aos noruegueses que estavam a caminho para "proteger" Bergen. Às 4 horas da manhã do dia 9, o Renown manteve uma hora de duelo com o Scharnhorst e com o Gneisenau, em meio a uma tempestade de neve e em péssimas condições climáticas, a aproximadamente 80 quilômetros do litoral norueguês, conseguindo danificar o Gneisenau. Nessa mesma noite, o submarino Truant torpedeou o cruzador leve Karlsruhe, nas imediações de Kristiansand. Mas em nenhum lugar os ingleses conseguiram provocar os alemães para uma ação generalizada. E assim, na noite de 9 de abril, os alemães haviam conseguido capturar Oslo, Bergen, Trondhein e Narvik. As principais cidades e centros de mobilização da Noruega estavam em suas mãos. Mas o plano alemão não foi totalmente bem sucedido.
Em Oslo, os noruegueses foram avisados a tempo do ataque alemão, pois às 23h06 do dia 8, o barco patrulheiro norueguês Pol III, um navio utilizado para a pesca de baleias, com 214 toneladas, abalroou um torpedeiro alemão e conseguiu dar alarme antes de afundar. Posteriormente, o Olav Tryggvason, um navio lança-minas, corajosamente tentou defender a base naval de Horten. Mas foi a fortaleza de Oscarborg, construída nos tempos da Guerra da Criméia, que causou os maiores danos. "Lá, as baterias norueguesas, armadas com três canhões de 28 milímetros (modelos Krupp de 1.892), alguns canhões de 15 milímetros, além de lançadores de torpedos, conseguiram um sucesso de certa importância para guerra naval de uma certa maneira geral, bem como em relação à programação da ocupação da Noruega. O mais moderno dos cruzadores alemães, o Blücher, foi incendiado, torpedeado e afundado, causando a perda de aproximadamente mil homens, entre os quais se encontrava a maior parte da equipe do General Engelbrecht, destinada à ocupação de Oslo".
O pequeno navio de batalha Lützow foi danificado e a expedição foi forçada a desembarcar na margem leste do fiorde, continuando o seu avanço a pé. A capital, com seus 250.000 habitantes, foi conquistada por seis companhias de tropas pára-quedistas que pousaram, apesar das baterias antiaéreas, em Fornebu. Mas, mesmo assim, o governo norueguês teve tempo para escapar para Hamar, a 112 quilômetros de distância, e para ordenar a mobilização geral. Quisling, que logo depois conseguiu controlar a estação de rádio, causou algumas confusões, ordenando o seu cancelamento. Kristiansand foi conquistada após pouca resistência. Stavanger caiu nas mãos de 120 pára-quedistas. Em Bergen, a segunda maior cidade do país, as lutas duraram apenas uma hora, se bem que os fortes conseguiram causar sérios danos ao cruzador Königsberg. Os alemães apenas ocuparam Trondhein, encontrando oposição apenas nos fortes, o Norge e o Eidsvold, ambos construídos em 1.900.
O General Dietl permitiu a ação do líder da flotilha alemã, que torpedeou o Eidsvold a uma distância de 100 jardas, obedecendo a um sinal da embarcação que voltava de negociações. O Norge conseguiu sobreviver a um total de dezessete assaltos antes de sofrer o mesmo destino. A guarnição, formada por apenas 450 homens, estava recebendo reforços, mas o seu comandante, Coronel Sundlo, recusou-se a lutar. Com todos os principais portos nas mãos dos inimigos, os Aliados teriam encontrado dificuldades em desferir um contragolpe, mesmo que já dispusessem de um exército programado para essa finalidade. Não existia uma reserva desse tipo.
Foi somente com as maiores dificuldades que algumas brigadas puderam ser reunidas para enfrentar uma força bem estabelecida de sete divisões alemãs. No mar, os ingleses contra-atacaram com vigor e em duas ações em Narvik, nos dias 10 e 13 de abril, eliminaram dez destróieres alemães, perdendo apenas dois. Desembarques foram realizados em Namsos e Andalsnes, na Noruega central, com a finalidade de recapturar Trondheim, e em Bodo, Mo i Rana e Mosjoen, para impedir que esses locais caíssem nas mãos dos inimigos. Essas forças, que não dispunham de apoio aéreo e que eram formadas em grande parte por soldados do exército territorial parcialmente treinados, eram poucos adequadas. Andalsnes e Namsos foram evacuadas nos dias 2 e 3 de maio, respectivamente.
Os Aliados somente conseguiram um certo sucesso em Narvik. Uma força formada por tropas inglesas, francesas e polonesas conquistou a cidade no dia 28 de maio; Esta foi a primeira vitória terrestre dos Aliados na guerra. Mas os acontecimentos na França e em Flandres forçaram os Aliados a abandonar a luta na Noruega. A bem-sucedida evacuação de Narvik foi empanada pela perda do Glorious, um navio de transporte, no dia 8 de junho. Essa campanha serviu para que Hitler conseguisse bases navais e aéreas voltadas para as ilhas britânicas e também diminuiu o controle da Inglaterra sobre as rotas do norte do Atlântico. Agora era muito mais fácil para os alemães atacarem o comércio aliado com navios de guerra e submarinos. Do ponto de vista econômico, a Noruega era muito importante para Hitler, apesar de sua marinha mercante, a quarta do mundo na época, não ter caído nas mãos dele. A rota do minério de ferro sueco, passando por Narvik, foi restabelecida em janeiro de 1.941. A água pesada era outro produto norueguês que poderia se tornar vitalmente importante. Fora da Escandinávia, os efeitos morais dessa campanha foram colocados em segundo lugar devido aos triunfos alemães na França e nos Países Baixos.
A marinha inglesa, apesar da sua falta crônica de apoio aéreo, teve um bom desempenho. Suas perdas, principalmente o afundamento do Glorious, foram sérias, mas a marinha alemã fora duramente atingida. No final de junho, os seus cruzadores haviam sido reduzidos a apenas três e os destróieres, a quatro. Os alemães não dispunham mais de navios de superfície para operações no canal da Mancha ou para a Operação Leão-Marinho, a invasão da Inglaterra. Os ingleses ficaram com uma maior margem de superioridade, o que lhes permitiu reconstruir a frota do Mediterrâneo. Os alemães iriam ocupar a Noruega durante cinco anos e, a princípio, essa região foi de grande valor para eles como base de operações. A campanha, longe de quebrar o moral do povo norueguês, serviu para incentivá-lo à resistência. Afinal, comandado pelo sábio e imperturbável General Ruge, o país não conseguira resistir durante dois meses ao exército que venceu a Polônia em apenas dezoito dias ? Graças ao espírito indomável dos noruegueses e aos ataques ingleses, como o das ilhas Lofoten (4 de março de 1.941) e de Vaagso (27 de dezembro de 1.941), Hitler foi convencido de que os Aliados tentariam reconquistar a Noruega. Ele fez questão de fortalecer a guarnição, de maneira que no final da guerra o total dos seus soldados nesse país era de 300.000. Nessa altura, esses soldados tinham menos utilidade para ele do que se estivessem internados em campos de prisioneiros dos Aliados.
A longo prazo, a campanha norueguesa de Hitler revelou ser o erro estratégico a que Winston Churchill se referia num discurso pronunciado no Parlamento inglês no dia 11 de abril de 1.940. A curto prazo, os ingleses, com bastante razão, se mostraram insatisfeitos com a condução da campanha. Essa opinião acabou provocando a queda de Chamberlain e a nomeação, em boa hora, de Churchill para o cargo de primeiro-ministro. Seria apenas justo mencionar que algumas da unidades, como, por exemplo, a 1ª Guarda Escocesa e a 1ª Guarda Irlandesa, conseguiram desempenhos à altura de suas tradições. Em grande escala, tornar-se-ia uma tarefa do General Paget reformular o treinamento insuficiente do exército britânico.
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