O Ataque a Peenemünde
Era já tarde quando, na noite de 17 de agosto de 1943, uma densa formação de bombardeiros pesados da RAF (Royal Air Force) para missões noturnas, voou através do Mar do Norte a caminho da Alemanha. No dia seguinte, o comunicado do Ministério do Ar registrava que a estação de pesquisa e aplicação de Peenemünde, na Alemanha, havia sido atacada. Nas entrelinhas desse comunicado, propositadamente obscuro e vago, jaz uma das mais empolgantes crônicas da guerra. Com o conhecimento tão sómente de um punhado de homens, o comando de bombardeiros da RAF acabava de ganhar uma batalha aérea que constituía um dos momentos decisivos da campanha. O caso, porém, manteve-se secreto quase durante um ano, até o momento em que as primeiras bombas voadoras começaram a explodir fragorosamente em Londres.
Pelas alturas da primavera de 1943, a ofensiva aérea dos Aliados já tinha aberto grandes rasgões sangrentos na face da Alemanha, e então, para repelir os nossos aviões, os nazistas resolveram dedicar os seus maiores esforços à produção de aparelhos de combate. Logo a Luftwaffe, com a sua força de bombardeiros reduzida a uma poucas centenas de máquinas obsoletas, se revelava incapaz de furar as defesas antiaéreas britânicas, exceto em casos isolados, que eram como pequenas alfinetadas de fugida. Mas ainda restavam as bombas voadoras e os foguetes de longo alcance, para dar satisfação às exigências do povo alemão que reclamava represálias aéreas. Se fosse possível produzir essas armas em tempo, e em massa, elas poriam os alemães em condições de empreender a ofensiva aérea, sem para isso terem que arriscar os seus preciosos e cada vez mais raros bombardeiros e aviadores. E tomou-se a decisão : Hitler deu ordens para que se completasse rapidamente a aplicação experimental das bombas voadoras e dos foguetes e se entrasse o mais depressa possível na fase de produção.
O
centro principal para a criação destas armas era a estação de
pesquisas da Luftwaffe em Peenemünde, muito bem disfarçada entre as árvores
duma floresta pouco além das praias do Báltico, a 96 quilômetros a
nordeste de Stettin, e a 1.120 quilômetros da Inglaterra. Os arames
farpados, eletrizados, mantinham à distância todos os indiscretos.
Concentraram-se em Peenemünde as melhores celebridades técnicas da
Luftwaffe e as mais altas capacidades da ciência aeronáutica e da
engenharia alemãs. O chefe supremo da organização era o cientista
veterano da Luftwaffe, General-de-Divisão Wolfgang von
Chamier-Glisezenski, de 49 anos de idade, que tinha sob as suas ordens
alguns milhares de professores, engenheiros, e peritos em propulsão por
meio de expansão de gases e em projetis-foguetes. Esses cientistas
puseram-se a trabalhar dia e noite, porque o Führer tinha esperança de
poder desencadear as suas "armas secretas" no curso do inverno
de 1.943-44. Alguns entusiastas acreditavam que as armas secretas
decidiriam a sorte da guerra em 24 horas. Outros alemães, mais chegados
à realidade, esperavam que elas conseguissem pelo menos desorganizar a
produção de guerra dos ingleses, e retardar a invasão, ou talvez mesmo
forçar os Aliados a invadir prematuramente o continente, pela zona
densamente fortificada de Calais, precisamente aquela donde os alemães se
preparavam para lançar os seus novos projetis. E ainda no caso de estes
se mostrarem menos decisivos do que se esperava, os bombardeios de represália
viriam tonificar o moral do povo alemão, e serviriam para encarecer, mais
tarde, a paz negociada com a Alemanha. Em julho de 1.943, os relatórios
dos oficiais do serviço secreto inglês tinham situados em Peenemünde,
para além de qualquer dúvida, o mais importante dos centros alemães
para produção de bombas voadoras e foguetes.

Bomba Voadora V-2
Todo um grande maço de relatórios e fotografias, tiradas dos aviões de reconhecimento, foi entregue em mão de uma comissão especial do governo britânico, a qual sugeriu que a RAF concedesse aos terrenos de Peenemünde uma alta prioridade de favor na escala dos seus bombardeios. O Marechal-do-Ar Harris decidiu organizar um reide de surpresa, para o próximo período de luar e céus limpos. Os alemães tinham-se tornado de certo modo descuidados na vigilância das suas instalações em Peenemünde : Os bombardeiros noturnos da RAF voavam com freqüência sobre a região, a caminho de Stettin e até de Berlim, e os alemães que trabalhavam em Peenemünde costumavam seguir com os olhos, tranqüilamente, os aviões ingleses que ali passavam, tão seguros eles viviam na convicção de que o inimigo ignorava a importância do lugar. Tiraram-se fotografias especiais de reconhecimento, em preparo do reide, com todas as cautelas próprias para evitar que os alemães percebessem que a RAF se estava interessando por Peenemünde.
Essas fotos eram tiradas durante os vôos normais de reconhecimento aos portos do Báltico, vôos esses a que os alemães já tinham acostumado. As fotografias permitiram aos organizadores do reide selecionar três objetivos determinados, no quais seria causado o máximo possível de prejuízos. O primeiro desses alvos eram as residências dos cientistas e dos técnicos. O segundo era constituído pelos hangares e as oficinas que continham as bombas e foguetes experimentais. O terceiro era a área dos serviços administrativos, isto é, edifícios onde se encontravam os planos e outros dados técnicos. As tripulações dos bombardeiros foram informadas, apenas, de que Peenemünde era uma importante estação experimental de radar; Que iriam pegar ali um nutrido grupo de cientistas alemães, e que a sua tarefa consistia em matar o maior número possível deles. Dadas as instruções de vôo usuais, foi lida em voz alta uma nota especial do comando de bombardeiros : "A extrema importância deste objetivo, e a necessidade de alcançar a sua destruição em um só ataque, devem-se tornar nitidamente claras para todas as tripulações. Caso o ataque não alcance o seu objetivo, terá que ser repetido nas noites imediatas - e sem olhar perdas, dentro dos limites das nossas possibilidades".
Cerca de 600 "pesado" quadrimotores rolaram e decolaram em direção a Peenemünde, mas por uma via indireta. Os defensores de Peenemünde, pensando provavelmente que os bombardeiros iam diretos para Stettin ou a Berlim foram apanhados cochilando. Os aviões batedores dos ingleses, chamados Pathfinder, foram os primeiros a entrar na dança : Voando com pouca altura do objetivo semearam os seus pára-quedas iluminantes, de cores, em volta dos alvos das bombas. Seguiram-se os bombardeiros, que empregaram novas miras de bombas, de tipo completamente revolucionário. Zombando do fogo antiaéreo, aliás frouxo, os aviões, em ondas sucessivas, foram despejando altos explosivos e bombas incendiárias a alguns milhares de metros de altura, sobre três alvos claramente visíveis em terra. Dentro de 40 minutos a área inteira era uma quase ininterrupta faixa de incêndios.
Foi um só quando a última vaga de bombardeiros vinha de regresso a Londres, que os caças noturnos alemães, depois de terem esperado em vão nas vizinhanças de Berlim, conseguiram sair-lhes ao caminho : Perderam-se 41 bombardeiros ingleses, mas o preço foi na verdade insignificante para uma das maiores vitórias aéreas desta guerra. Na manhã seguinte, um Spitfire de reconhecimento foi fotografar os danos causados pelo bombardeio : Metade das 45 barracas em que os cientistas e os especialistas habitavam tinham ficado arrasadas, e as restantes mostravam-se consideravelmente danificadas. Além disso, 40 edifícios, inclusive as oficinas de montagem e os laboratórios, tinham ficado completamente destruídos, e outros 50 estavam danificados. Dentro de poucos dias começaram a transpirar da Alemanha notícias ainda mais satisfatórias : dos 7.000 cientistas e técnicos estacionados em Peenemünde, tinham morrido ou desaparecido uns 5.000.
A razão é que, ao fim do raid, as bombas "arrasa-quarteirões" da RAF, combinadas com os explosivos alemães armazenados em paióis subterrâneos, desencadearam uma tão tremenda concussão, que muitas pessoas morreram a mais de quatro quilômetros de distâncias. O diretor técnico von Chamier-Glisezenski morreu durante o ataque. Da Alemanha veio o boato de que ele fôra fuzilado por agentes ou oficiais da GESTAPO enciumados. Dois dias após o ataque, os alemães anunciaram a morte do General Jeschonnek, chefe do estado-maior da Luftwaffe, e um dos mais jovens favoritos de Hitler, o qual se encontrava de visita a Peenemünde. Em seguida os nazistas confessaram que o General Ernest Udet, aviador veterano da Primeira Guerra Mundial, e um dos primeiros organizadores da Luftwaffe, morrera em misteriosas circunstâncias. Nada mais lógico do que supor que Udet, na condição de chefe do Diretório Técnico do Ministério Alemão do Ar, se encontrava também em Peenemünde, e ali morreu. Tornou-se porém necessário refazer todos os planos. Uma vez que Peenemünde estava meio demolida, e exposta agora a renovados ataques, urgia construir novos laboratórios, desta vez subterrâneos. Segundo notícias vindas da Suécia, esses laboratórios teriam sido instalados em algumas ilhas do Báltico.
Por outro lado, aniquilados os melhores cientistas e especialistas no assunto, houve que encontrar novos homens capazes de prosseguir nos trabalhos de pesquisa e aplicação. Em resultado destas demoras, os nazistas ficaram impossibilitados de fazer uso das suas armas secretas no inverno de 1.943-444; E mais difícil se lhes tornou assim manter o moral do povo alemão, constantemente sujeito aos assaltos aéreos dos Aliados. Novos reides aéreos dos Aliados, durante a primavera, às rampas de lançamento das bombas voadoras e foguetes, no Passo de Calais, e às fábricas de peças componentes, ainda vieram atrasar mais a prometida ofensiva germânica. Passou então a dizer-se ao povo alemão que as armas secretas eram para ser usadas como defesa contra a invasão, e que estavam sendo poupadas para massacras os Aliados nos portos e praias de desembarque. O dia da invasão, porém, veio apanhar os alemães ainda mal preparados. E só sete dias após a invasão da Normandia, pelos Aliados, que a primeira bomba voadora abateu sobre Londres. Se Peenemünde não tivesse sido arrasada quando e como o foi, os ataques das Bombas-Robot contra Londres haveriam sem dúvida começado seis meses mais cedo, e teriam sido muitas vezes mais pesados. A comunicação de Londres, que era ao mesmo tempo o fulcro da Inglaterra e o centro nervoso dos planos e preparativos da invasão, teria sido seriamente atingida, sendo mesmo possível que esse ataque tivesse forçado os Aliados a deixar para mais tarde a invasão tão ansiosamente esperada.
Fonte: http://www.geocities.com/2a_guerra/peenem.htm
_________________________________________________________________
Ir para: Textos
Ir para: 2ª Guerra Mundial - Principal