6 de Junho de 1944
O Grande Dia da Normandia
Obra-Prima
Essas democracias qualificadas de tagarelas, atormentadas por uma imprensa indiscreta e por parlamentares inquisitoriais, escondem melhor seus segredos militares do que um Terceiro Reich cuja regra primordial é que cada um não deve ser informado senão do que lhe concerne diretamente. A invasão da Europa é certa e iminente - e contudo as intenções aliadas se mantêm envoltas em uma obscuridade total. A única coisa que os alemães sabem com certeza é que uma formidável expedição se prepara na Inglaterra, tudo o mais se mantém desconhecido. Por não saber, os alemães tentam deduzir. No mês de abril, as restrições às viagens aéreas civis à Inglaterra, a intensificação dos ataques aéreos, o quadro das fases da lua e das marés fornecem ao Comando Supremo Oeste (OB West) os elementos de um estudo que lhe permite fixar, “de uma maneira certa”, a data do desembarque para o dia 18 de maio.
Passado o 18 de maio, os especialistas sustentam que, por uma razão desconhecida, os Aliados deixaram passar essa data propícia e que o perigo de invasão se transfere para o mês de agosto. O local tem ainda mais importância do que a data, porque condiciona as disposições gerais da defesa. Não que os Serviços especiais não possuam indicações; ao contrário, recolhem uma multidão delas, porém frágeis e inconciliáveis. Da Grécia à Noruega, todas as costas européias, inclusive as da Espanha e Portugal, são designadas sucessivamente como as portas de entrada da invasão. No começo de 1944, a Abt. Fremde Heere-West declarou-se convencida de que os preparativos aliados na Mancha são uma simulação e que o verdadeiro desembarque se produzirá em outro local. O caso Anzio permite acreditar que esse outro local é o Mediterrâneo, mas depois as idéias evoluem, e no dia 27 de abril, o serviço de contra-espionagem alemão designa a Noruega. Um mês depois, transfere para a Mancha as intenções inimigas: “A ilha de Wight - diz a síntese do dia 23 de maio - marca o centro dos preparativos de invasão. O litoral, do Escalda à Normandia, assim como a costa norte da Bretanha devem ser considerados como os setores mais ameaçados...” De Antuérpia a Brest, abre-se um grande leque.
O Comando alemão procura fechá-lo. Hitler, depois de ter por muito tempo acreditado em um desembarque nos Bálcãs e, em seguida, na Noruega, pensa bruscamente que as duas penínsulas francesas, cada uma terminada por um grande porto, Bretanha e Cotentin, são as zonas mais tentadoras para um invasor. Esta maneira de ver encontra uma maioria de contraditores. A Marinha elimina o Calvados, por causa de seus rochedos. O Exército crê que os Aliados escolherão a mais curta travessia marítima, bem como o mais direto itinerário em direção ao Ruhr. A Força Aérea pensa que a duração da intervenção dos caças, com base na Inglaterra, determinará a ação aliada. O passo de Calais ou, de maneira mais geral, o litoral de Ostende até o Somme são considerados, assim, como o mais provável caminho de invasão da Fortaleza Europa.
Da defesa, da guarnição dessa Fortaleza Europa, as imensas batalhas da frente oriental fazem um problema irritante. É difícil para a Alemanha ter um exército à mercê de todos os horrores do clima e da guerra russos, e um exército que, na doce França, conhece apenas as tarefas tranqüilas da ocupação. Uma rotação regular, solução eqüitativa, tornou-se demasiado onerosa devido à distância. As transferências de oeste para leste, e vice-versa, só se fazem sob a exigência das crises, das necessidades prementes da frente oriental. O Leste absorve os mais vigorosos elementos do oeste e lhe envia, em lugar destes, as sobras. Os homens que sofreram mutilações que não os liquidam totalmente, os que sofreram queimaduras de terceiro grau provocadas pelo frio, os afetados por perturbações visuais, auditivas, respiratórias são designados para o Oeste. Uma divisão inteira, a 70a DI, compõe-se de dispépticos, aos quais é preciso dar uma alimentação especial e pão de regime.
Nas divisões estáticas, a média de idade ultrapassa quarenta anos. Muitos oficiais são cegos de um olho, manetas, pernetas, cinqüentões ou sexagenários. A terrível sangria sofrida pela Wehrmacht na frente oriental - 2.086.000 homens fora de combate em 1943 - faz-se sentir por uma baixa profunda dos padrões físicos e militares do Oeste. Uma mistura intensa acompanha essa degradação da qualidade. As contradições de Adolf Hitler são espantosas. Partiu do princípio que “só alemães devem empunhar armas”; contudo, chegou a comandar o mais mesclado, o mais cosmopolita dos exércitos que existiu desde Xerxes. A Waffen SS, originalmente a própria expressão do germanismo racial, foi o primeiro instrumento desta multinacionalização da Wehrmacht. Esta se abriu aos voluntários ocidentais desde 1940, em virtude de uma idéia pessoal de Himmler, através do Regimento Germânia, que se tornou a Divisão Viking. As divisões Carlos Magno, Wallonia, Flandern, Nederland e Nordland trouxeram, em seguida, contribuição francesa, belga, holandesa, escandinava, etc. - sem prejuízo para unidades distintas da Waffen SS, como a Divisão Azul, espanhola, e a Legião de Voluntários, francesa. Os nomes, de resto, não nos devem iludir. Ou bem as divisões estrangeiras são apenas fracos grupos (700 homens na Divisão Wallonia, de Léon Degrelle, em março de 1944), ou bem são completadas por tropas puramente alemães.
Modesta contribuição numérica, determinada pela ideologia ou pelo aventureirismo, elas não causam problemas, combatem na frente oriental e lutarão desesperadamente até o fim. O caso do Leste é muito mais complicado. Vlassov fracassou. Surgiu, mesmo, perto de um milhão de voluntários, mas a oposição de Hitler à constituição de um exército nacional russo não esmoreceu e, com a reviravolta da sorte nas armas, o momento favorável escapou. Vlassov continua congelado na sua mansão de Berlim-Dahlerus, cercado de um pequeno grupo de alemães desapontados. Recebeu o título de General der Osttruppen, mas é através de outros que o Terceiro Reich tenta utilizar o potencial humano do Leste.
Uma primeira noção é a das minorias antibolchevistas e anti-russas: formam as Osttruppen propriamente ditas, unidades cossacas, ucranianas, georgianas, azerbaijanas, mongóis, etc., recrutadas ou no próprio local, ou ao sabor das conquistas, ou nos campos de prisioneiros. Uma segunda noção é a dos Volksdeutschen, indivíduos presumidamente de origem alemã, mas de países não germânicos. Dá-se-lhe uma oportunidade de adquirir a nacionalidade alemã, depois de um período probatório de dez anos, e, enquanto aguardam, concede-se-lhes a honra de incorpora-se na Wehrmacht. Servem na proporção de 8 para 100 dos efetivos, nas unidades ordinárias, mas suas possibilidades de promoção não ultrapassam o posto de soldado de primeira classe, Gefreite. Volksdeutschen ou Osttruppen, esse auxiliares desaparecem progressivamente da frente oriental, onde a confiança que inspiram decresce com a repetição das derrotas. Encontramo-los no exército do Oeste. No começo de 1944, 76 batalhões, um sexto da infantaria, consistem em Osttruppen, dando às populações espantadas o espetáculo desses baluartes do Reich ariano, caracterizados por traços asiáticos, e falando todas as línguas, exceto o alemão.
Nesta torre de Babel, esperando o golpe libertador, o historiador oficial americano Harrison enumera os seguintes povos: “Franceses, italianos, croatas, húngaros, romenos, poloneses, finlandeses, letões, lituanos, norte-africanos, negros, asiáticos, russos, ucranianos, rutênios, basques, norte-caucasianos, georgianos, azerbaijanos, armênios, turcomanos, tártaros e fineses do Volga, tártaros da Criméia, calmuques e até mesmo hindus”. É justo acrescentar que, com seus contingentes de todo o Império Britânico e seus representantes de todos os países da Europa, o exército da invasão não deve ser menos cosmopolita. Desde 1942, o Oberbefehlshaber West, o Marechal Gerd von Rundstedt, chamou a atenção do OKW para as lacunas da defesa. Suas advertências não começaram a ser levadas em consideração por Hitler senão a partir do outono de 1943. “No Leste - diz a diretiva geral n° 51, datada de 3 de novembro - nos é possível consentir em perdas do território. No Oeste, o problema muda de aspecto. Uma brecha inimiga numa vasta frente teria, em curto prazo, conseqüências incalculáveis... Não é pois admissível que o Oeste continue a ser enfraquecido, em benefício dos outros teatros de operação. Decidi, ao contrário, reforça-lo”. A Muralha do Atlântico, ou Westwall, torna-se um poderoso tema de propaganda. Milhões de europeus cativos estão convencidos de que qualquer tentativa de invasão da Europa pelos anglo-americanos irá bater num obstáculo intransponível e terminará em desastre.
A introdução de Rommel na técnica e na mística da defesa do Oeste data do mesmo momento. Desapossado do comando da Itália por Kesselring, lhe é confiada a missão de inspecionar as defesas do Atlântico, depois o comando do Grupo dos Exércitos B, cujo setor se estende da fronteira germano-holandesa até a embocadura do Loire. Seu nome constitui o segundo argumento com que a propaganda nazista pretende demonstrar que os invasores da Europa serão lançados ao mar. Rommel concebeu, sobre as formas da guerra no Oeste, princípios táticos ditados por sua experiência africana. Todos os aspectos da luta são comandados, todas as possibilidades da defesa são limitadas pela acabrunhante superioridade aérea anglo-americana. Toda manobra de vulto, todo movimento diurno, por conseguinte toda batalha de conjunto contra um inimigo desembarcado, estão fora de cogitação. Se o desembarque for um sucesso, a invasão processar-se-á. A única oportunidade é a se sustá-la no exato momento em que ela deixa seus navios, acumulando as armas e os obstáculos sobre o litoral próximo, dispondo as reservas a curta distância, fazendo do contra-ataque automático a resposta a todo avanço. Assim, o general da guerra de movimento fica restrito, pelas transformações das condições da batalha, a uma defesa linear. Mas não tem, junto a seus pares, uma autoridade semelhante a seu prestígio diante do público. Rundstedt duvida que “Rommel esteja realmente qualificado para um grande comando”.
Nota-se que lhe falta formação de estado-maior. Vê-se nele um soldado de frente de batalha, que circunstâncias particulares tornaram ilustre, e cujo, caráter foi estragado por bajulações. Guderian, sobrepujado por ele na hierarquia e na glória, tenta discutir suas concepções, e se encarniça “numa reação extremamente acalorada e desagradável”. Comandando o grupo blindado, posto em reserva geral, Geyr von Schweppenburg também combate as idéias de Rommel, considera que a peripécia decisiva da batalha da França será o grande encontro dos blindados que se seguirá ao desembarque, e insiste, assim, em conservar seu punhado de Panzerdivisionen agrupado em sua mão, ao sul de Paris. Rommel, tenta, em vão, obter que Geyr lhe seja subordinado. Querendo dirigir pessoalmente a batalha do Oeste, Hitler obstina-se em manter o sistema de comando complicado e dividido que instaurou. Sob um aspecto, as ordens de Hitler estão de acordo com os preceitos de Rommel: a proibição de ceder um metro de terreno, a obrigação, pois, de lutar com todas as forças no litoral. Uma razão particular dita esta tática: depois de longas demoras, devido ao bombardeio aliado, os engenhos Vergeltung (vingança), a bomba voadora V1, o foguete V2, vão entrar em ação. Suas bases de lançamento, vizinhas das costas da Mancha, devem ser conservadas a qualquer preço.
A Muralha do Atlântico não é uma ficção. Mas não é também o sistema de fortificações sem falhas descrito por Goebbels. Bolonha, Havre, Cherburgo estão poderosamente organizadas. Algumas grandes obras foram construídas no Passo de Calais, mas o resto é freqüentemente um esboço ou apenas um desenho. Hitler pedira à Organização Todt 15.000 pontes de concreto para o dia 1o de maio de 1943. Um terço apenas está pronto a 1o de maio de 1944. De 547 canhões de costa, apenas 299 estão instalados em casamatas. O tempo e os materiais faltam para completar o programa. O Terceiro Reich, uma vez mais, pagou pelas aparências, demagogia e ilusões. Para mitigar a falta de concreto, Rommel faz um prodigioso gasto de atividade, de imaginação e de energia. Seu adjunto naval, o Almirante Ruge, contou suas voltas febris, dia a dia, da Dinamarca à Provença, passando como um vagalhão, sacudindo indolências com cóleras brutais ou com exortações inflamadas, não vendo no Monte Saint-Michel senão seus abrigos, e sonhando em mandar fazer, pela manufatura de Sèvres, arcabouços de minas de porcelana, esquecendo-se de comer e de dormir, exigindo que todas as unidades combatentes, inclusive os estados-maiores divisionários, fossem compelidos a ir para o litoral. “A Hauptkampflinie, principal posição de resistência - diz ele -, é o próprio litoral. Fortifiquem-no sem tréguas e lutem por ele até a morte”.
A intenção de Rommel é conseguir cobrir as costas do Oeste com uma floresta de obstáculos que aniquilarão o entusiasmo dos invasores. Uns, submarinos, outros, na orla das praias ou na zona da retaguarda, propícias a um desembarque de transportes aéreos. Improvisa, utilizando todos os recursos que lhe são possíveis ter à mão. As “grades belgas”, fixadas no limite da zona descoberta pela maré baixa, não são outra senão elementos De Cointet, que haviam sido tão ineficazes em 1940, contra seus próprios carros. Os “ouriços tchecos” são feitos de trilhos soldados. Os “tetraedos” são fabricados no local, com betoneiras ao acaso; os “cavalos de frisa”, munidos ou não de minas ou de gumes para estripar as canoas de desembarque, são cortados na floresta normanda. Para armar seus “aspargos”, estacas fixas nas campinas contra as aterragens de planadores, Rommel desencava estoques consideráveis de velhos obuses franceses, destruídos há muito tempo, segundo se afirmava. Além do mais, desejaria minas terrestres, 100, 200 milhões de minas terrestres, para transformar numa zona mortal uma faixa de 10 km ao longo do litoral francês. A míngua de aço e de explosivos o impedirá de colocar mais de 2 a 3 milhões de minas. Estranha esquizofrenia! Esse marechal alemão, que faz tal esforço para rechaçar a invasão ocidental, sabe que a guerra está perdida e que a única maneira de limitar o desastre consiste em eliminar Hitler, antes da derrota extrema.
O primeiro contato entre Rommel e a conjuração anti-hitlerista data somente do mês de abril de 1944. Os conjurados hesitaram longamente, antes de abordar um soldado cujo nome e cujas virtudes nazistas foram tão exaltadas pela propaganda. Um companheiro da Primeira Guerra, o burgomestre de Stuttgart, Karl Strölin, arrisca-se a falar-lhe, a pedido de Gördeler. Rommel deseja refletir sobre o assunto e, alguns dias depois, toma a iniciativa de uma segunda entrevista. Esta transcorre no dia 27 de maio, em Freudensradt, na Floresta Negra, no domicílio do novo chefe do estado-maior do Grupo B, o Tenente-General Dr, Hans Speidel. Rommel dá sua aquiescência à eliminação de Hitler e à queda do regime. Em seguida, seria promovida a retirada das forças alemães de todos os territórios do Oeste, reconduzir-se-ia o exército para a Linha Siegfried; tentar-se-ia um entendimento com os ocidentais e, se possível, de acordo com eles, pensar-se-ia num meio de manter os russos fora das fronteiras ocidentais da Alemanha. Para o futuro, Rommel imagina uma federação européia, fundada nos princípios cristãos.
Todos os altos estados-maiores do Oeste se envolvem no complô. Speidel é um dos elementos ativos. Geyr é atraído à causa. Os dois comandantes territoriais, na Bélgica e na França, os generais Alexandre von Falkenhausen e Heinrich-Karl von Stülpnagel, fizeram parte da junta militar que já em 1938 tentara por Hitler sem ação. O único grande chefe que fica à parte é Rundstedt. Detesta Hitler, tolera à sua volta as mais sacrílegas palavras e, como outrora Hindenburg, despeja seu desprezo sobre esse “cabo da Boêmia” - mas, embora saiba de tudo a respeito da conjuração, recusa-se a tomar conhecimento dela. Sua atitude, diz, Speidel, era “eine sarkästische Resignation”. Não concebia que um marechal prussiano pudesse, em presença do inimigo, trair seu juramento e insurgir-se contra o chefe do exército - mesmo sendo esse um Hitler. Rommel, por sua vez, opunha uma reserva aos projetos dos conjurados: repelia o assassinato de Hitler, sustentava que este devia ser entregue a um tribunal alemão e, com singular otimismo, chegava a encarar a possibilidade de que Hitler consentisse na própria abdicação, quando lhe demonstrassem que a guerra estava perdida. “unicamente depois de termos esgotados os outros meios - dizia ele - é que poderemos passar à ação!”. No dia 5 de junho, Rommel deixa, de automóvel, seu QG, o Castelo de La Rochefoucauld, em La Roche-Guyon. Quer passar a noite em casa, em Herrlingen, festejando o aniversário de sua mulher, e, no dia seguinte, estar em Obersalzberg, para a audiência que obteve com o Fuhrer. O diário que o capitão Aldiger mantém para ele anota que “as marés dos próximos dias são muito desfavoráveis e que um desembarque não parece iminente”. Segundo o mesmo documento, Rommel propõe-se esclarecer Hitler a propósito das fraquezas de seu grupo de exércitos e pedir-lhe duas novas Panzer, um corpo de DCA e uma brigada de lança-foguetes. Pensa ele em alguma outra coisa? Encara a idéia de aproveitar sua conversa com Hitler para dizer-lhe brutalmente que tudo está perdido e que é preciso encontrar uma solução final? Não se sabe.
Infantaria de bicicleta. Céu e mar vazios Neste 5 de junho, à noite, eis a composição, a divisão e o valor das forças que esperam a invasão. Dois grupos de exércitos: G, do Generaloberst Blaskowitz, e B, do Generalfeldmarschall Rommel. Comandante-chefe, Generalfeldmarschall Von Rundstedt.
Grupo G: 1o Exército, do General Von der Chevallerie, do Loire aos Pirineus; 19o Exército, do General Von Sodenstern, de Port-Bou até Menton. No total, 21 DI, e uma reserva móvel composta da 9a Pz, da 11a Pz, da 2a Pz SS e da 17a Pz Gr SS Grupo B: 88o AK, Holanda: 15o Exército, Generaloberst Von Salmuth, do Escalda até Dive; Generaloberst Dollmann, do Dive ao Loire. 25 DI, 3 divisões de pára-quedistas e uma reserva móvel composta da 2a, da 21a e da 11a Pz. Reservas gerais, Generaloberst Geyr von Schweppenburg: Pz SS n° 1, Pz SS n° 12, Pz SS n° 17, Pz Lehr, ou divisão blindada de aplicação. Essas grandes unidades, estão à disposição exclusiva do OKW, quer dizer, de Hitler. Hitler reserva-se igualmente o direito de autorizar qualquer transferência de força de um exército para o outro, mesmo no interior do mesmo grupo de exércitos.
Com os engenhos V, os exércitos do Oeste representam, na primavera de 1944, a grande esperança do Fuhrer. Acredita que eles transformarão o desembarque num desastre, fazendo desaparecer por muito tempo a ameaça anglo-saxônica. Poderá então antecipar, para o Atlântico, 50 divisões, que, lançadas contra a frente oriental, revolucionarão a balança das forças e trar-lhe-ão a vitória. Para desempenhar este papel capital e de acordo com as promessas de Hitler, os exércitos do Oeste foram reforçados. O número das grandes unidades de Rundstedt, diminuído para 46, em março, no momento da grande crise da frente ucraniana, elevou-se para 59. Contudo, as necessidades do Leste são tão prementes, que a política de reforço do Oeste está atravessada de contracorrentes. Precisamente no dia 5 de junho, o General Bayerlein mandou em direção à Rússia muitos elementos da sua excelente Panzer Lehr. Outras devem partir nos dias seguintes. Algumas unidades de Rundstedt estão em muito boa forma. As divisões da SS estão, em geral, pletóricas: 21.386 homens da 1a Pz SS, 17.950 na 9a, etc. Por outro lado, uma dezena de divisões está em vias de reconstituição ou mesmo de formação. Tenta-se igualmente melhorar as velhas divisões de ocupação, restabelecendo-lhes um pouco da antiga mobilidade e modernizando seus equipamento.
Mas a Alemanha está realmente esgotada. O único engenho que encontra para colocar alguns milhares de soldados de infantaria é a bicicleta. A artilharia é quase completamente hipomóvel, vulnerabilidade trágica numa guerra predominantemente aérea. O material é uma mistura de origem alemã, francesa, tcheca, polonesa, italiana, russa, etc. Um general assinala que os 57 automóveis de que dispõe pertencem a 50 marcas ou modelos diferentes. Mais da metade das divisões, 32 em 59, mantém-se absolutamente estática, Bodenständigendivisionen, atravancadas de homens gastos e contando com um batalhão de Ostrruppen em cada três.
Ora, esses grupos heterogêneos guardam setores defensivos enormes: de 30 a 50 km, na Mancha, sem falar do Atlântico, que, de Saint-Nazaire até Bayonne, conta apenas com duas divisões. Toda a costa de Honfleur até Barfleur não é mantida senão pelas divisões 709a, 711a e 716a, esta última reduzida a seis batalhões. A 709a abrange no seu redor todo o Cotentin oriental, com apenas uma ponte de apoio de concreto, em lugar as 42 que deveria possuir. Contudo, a maior fraqueza alemã não reside na insuficiência de tropas terrestres: reside na impotência da Marinha e da Força Aérea.
A frota alemã de superfície está liquidada. Seu último grande navio válido, o Scharnhorst, foi incendiado e afundado no dia 26 de dezembro, em plena noite polar, no decorrer de um ataque contra os comboios do Ártico. Seu irmão, o Gneisenau, jaz como destroço no porto de Gdínia e o Tirpitz, gravemente avariado, está bloqueado no Kaatfjord. O Almirante Krancke tem sob suas ordens 5 destróieres, parcialmente disponíveis e uns 15 S-boote, vedettes lança-torpedos. Força ínfima, diante da armada que apoiará o desembarque.
A frota submarina é ligeiramente mais convincente. Krancke tem 22 submarinos nos portos noruegueses, 15 em Brest, 11 divididos entre Lorient, Saint-Nazaire e La Pallice, mas muitos estão avariados e somente 7 dispõem do schnorchel. Os que podem lançar-se ao mar estão em estado de alerta, com as licenças suprimidas, torpedos embarcados, compartimentos e reservatórios cheios. Podem, com sorte, infligir aos invasores algumas perdas; mas não podem contribuir de maneira apreciável para rechaçá-los.
Quanto à aviação, a estimativa da superioridade anglo-americana é de 50 para 1. Não é exagerada. Os 1.000 caças a jato Düsenjager, prometidos por Hitler aos defensores do Oeste, não saíram das fábricas. A 3a Luftflotte, comandada pelo Marechal Hugo Speerle, tão truculenta no momento das vitórias, não conta, no dia 31 de maio de 1944, senão com 891 aparelhos de toda natureza, entre os quais somente 497 podem operar. O número de bombardeiros é de 150 e o de caças, 266. A 5a Divisão de caças, agrupando metade destes últimos, é, aliás, mantida em Metz, para tentar interceptar as esquadrilhas de bombardeiros aliados que arruinam a Alemanha. É somente no momento do desembarque que deverá vir para bases nos territórios do Oeste.
Na realidade, a Luftwaffe está quase tão completamente aniquilada quanto a Kriegsmarine. O esforço de Albert Speer mantém e até desenvolve a produção das fábricas da aeronáutica, porém aviões não bastam para fazer uma aviação. A penúria de combustível obriga a reduzir de 260 para 110, ou mesmo para 50, as horas de treinamento de um piloto - e as perdas por acidentes quase se igualam às perdas em combate. Uma ofensiva incessante esmaga os campos de pouso; Nancy, Dijon, Avord, Saint-Dizier, Evreux, Cormeilles, etc. Os generais alemães mais otimistas, como Geyr e Rundstedt, persistem em acreditar que a superioridade aérea do inimigo não bastará para imobilizar no solo o exército terrestre. Mas nenhum pensa que a Luftwaffe possa disputar o domínio do céu.
Desde o mês de março, este domínio se exerce através de operações de uma intensidade extraordinária sobre a França e a Bélgica. A ofensiva - prólogo evidente da invasão próxima - visa a inutilizar a rede de comunicações e, particularmente, seu instrumento mais vulnerável, a estrada de ferro. O Estado-Maior alemão procura ler o plano inimigo no mapa dos bombardeios, mas estes são tão numerosos e tão dispersos que qualquer conclusão é impossível. No dia 1o de maio, por exemplo, as instalações ferroviárias atacadas foram as de Mantes, Montigny-sur-Sambre, Douai, Monceaux, Valenciennes, Charleroi, Haine-Saint-Pierre, Saint-Ghislain, Amiens, Arras, Troyes, Reims, Bruxelas, Liège, Sarreguemines e Metz. No decorrer do mês os bombardeios não cessaram sobre toda a Bélgica e o Norte da França, mas estenderam-se a Thionville, Mulhouse, Belfort, Epinal, Chaumont, Etampes, Tonnerre, Creil, Oissel, Vernon, Juvisy, Maison-Laffitte, Rouen, Melun, Conflans, Le Mesnil, Poitiers, Niort, Saint-Etienne, Nice, Antibes, Lião, Cheburgo, Grenoble, Avinhão, Marselha, Nimes, etc. Que ler neste mapa senão a prodigalidade de um inimigo bastante rico para camuflar suas intenções atrás de uma cortina de bombas, que cai sobre a Europa, do Mediterrâneo ao mar do Norte? O croqui recapitulativo de maio, indica, ao norte do Loire, 495 ataques aéreos contra a rede ferroviária. Os atos de sabotagem da resistência franco-belga acrescentam mais 29.
No dia 4 de maio, o ataque às passagens do Sena começa. Executado a baixa altitude pelos B-26 atirando bombas de 907 kg, consegue um tal sucesso com um gasto de projeteis relativamente pequeno. No fim do mês, todas as pontes sobre o Mantes são não apenas destruídas, mas também conservadas em estado de destruição por visitas tão regulares quanto as do carteiro. Novo índice de iminência da invasão. Os Aliados procuram isolar um campo de batalha, interditando todo movimento de reforços de uma a outra margem do rio. Se obedecessem à lógica rigorosa da guerra, destruiriam também as pontes de Paris, fariam da região parisiense um obstáculo, jogando às ruas os escombros dos prédios. Abstêm-se. Muitos franceses se esquecerão de agradecer-lhes por isto. Na quinta-feira, 5 de junho, o boletim meteorológico divulgado pela Luftwaffe anuncia mar agitado, visibilidade reduzida, ventos de 5 a 6 m/s, chuva abundante, condições que parecem excluir a possibilidade de um desembarque. Um Kriegspiel, interessando a todo o 7o Exército foi organizado em Rennes para o dia seguinte; é confirmado pelo General Dollmann. Seu chefe de estado-maior, o Major-General Pemsel, pediu aos participantes que não deixassem seus PC antes das 10 horas da manhã, mas, conhecendo as dificuldades dos roteiros e assegurados pela meteorologia, muitos partiram desde o fim da tarde.
Ao 15o Exército, cujo PC se encontra em Tourcoing, uma ordem de alerta é dada bruscamente às 22 horas. Alguns dias antes, informado por um traidor cuja identidade se manteve desconhecida, o Abwehr comunicou várias mensagens que devem ser dirigidas à Resistência francesa nas 48 horas que precederão à invasão. Os serviços de escuta radiofônicos os captam, principalmente os três últimos versos de um sexteto de Verlaine, cujos três primeiros, transmitidos nos dias 1, 2 e 3 de junho, constituíam, segundo a Abwehr, uma ordem preparatória. Do Escalda a Vire, as guarnições das fortificações costeiras ficarão de prontidão. Menos vigilante ou mais cético, o 7o Exército não reage. O Corpo da direita deste 7o Exército, o 84o AK, guarda a região compreendida entre o Vire e o Monte Saint-Michel. Abrange as divisões estáticas 716, 709, 243, a 352a Divisão de Infantaria e a 91a Divisão de Pára-quedistas. Seu comandante é o austero e competente General Erich Marcks, cujo plano de campanha contra a Rússia foi repelido por Hitler, que o detesta. Depois disso, Marcks deixou na terra russa uma perna de um olho.
Ao bater meia-noite, no seu secretariado de Saint-Lô, ele é surpreendido ao ver entrar três de seus oficiais, o Coronel Von Criegern e os majores Hayn e Viebig, trazendo uma garrafa de Chablis. Vêm pedir a um chefe severo, mas respeitado, a permissão de celebrar seu 53o aniversário. A cerimônia é breve. O trabalho urge. Marcks deve pôr-se a caminho ao primeiro clarão da aurora, como reza o Kriegspiel de Rennes. O tema é um desembarque de pára-quedistas inimigos na Normandia. Esta é a face alemã do evento. E agora a face aliada Gigantesco preparativo da Operação Overlord A preparação técnica da invasão da Europa foi confiada, em dezembro de 1942, ao general inglês Frederick Morgan. O estado-maior que o assessora é batizado segundo as iniciais de sua função: COSSAC, de Chief of Staff Supreme Allied Commander. Durante um ano, até a nomeação de Eisenhower, esse Comando permanece como uma estátua sem cabeça: Morgan não sabe para quem trabalha, e isto é apenas uma das anomalias de sua missão. As divisões que coloca em cena não existem, na maioria, a não ser em esboço. O domínio do mar, condição sine qua non, é sempre disputado por muitas centenas de U-Boote. Os navios e embarcações de desembarque das quais se serve estão por construir, às vezes por desenhar. Além de tudo isso, o conflito de pontos de vista estratégicos britânicos e americanos torna duvidoso um desembarque na Europa ocidental. Morgan e seus oficiais tem a impressão de que trabalham no irreal.
No entanto, trabalham. O método é o seguinte: o Comitê combinado dos chefes de estado-maior (CCS), com sede em Washington, torna conhecidos do COSSAC os meios que deve levar em consideração; em função deste dado, o COSSAC estabelece propostas de solução, que são aceitas, rejeitadas ou modificadas pelo CCS. O detalhe deste trabalho pode ser considerado, conforme o ponto de vista, como de um interesse apaixonante ou como de intensa aridez. Conservado em insondáveis arquivos, constitui o mais vasto documento de estado-maior que jamais se edificou. A questão solucionada com maior facilidade é a da zona de desembarque. A Holanda está fora de cogitação, devido às inundações. As praias belgas são eliminadas, por causa da violência das correntes costeiras. A Bretanha apresenta facilidades tentadoras, mas está um pouco longe demais das costas inglesas e suas comunicações com o interior da França são defeituosas. O Passo de Calais apresenta muitas vantagens, mas está poderosamente fortificado, e faltam-lhe, aliás, praias propícias. Restam, na competição, a alta e a baixa Normandia: Havre-Dieppe contra Caen-Cheburgo. Morgan organiza duas equipes que trocam argumentos e contra-argumentos sobre a exposição e a acessibilidade dos litorais, o escoamento das praias, a solidez das organizações alemães, etc. A equipe baixo-normanda ganha, conquista para os Calvados e o Cotentin, o privilégio de receber o furacão de fogo e aço.
No começo de 1944, um plano é estabelecido. O desembarque será executado por três divisões, e mais uma divisão de transportes aéreos, da embocadura do Orne à ponta de Hoc. Dezesseis divisões britânicas e vinte americanas, das quais a metade transportada diretamente dos Estados Unidos, chegarão em seguida, às praias e aos portos conquistados. O primeiro objetivo estratégico é a criação, entre o Sena e o Loire, de um “alojamento” de onde partirá a ofensiva geral em direção ao Reno. De acordo com as disposições estabelecidas em Teerã, serão simultâneos um desembarque na Provença e outro na Normandia. A data da dupla Operação Overlord e Anvil é fixada para o dia 1o de maio. Morgan, aliás, não dissimulou que achava seu próprio plano insuficiente. Entretanto teve de circunscrever-se ao quadro das possibilidades que lhe haviam apresentado.
No dia 14 de janeiro, Eisenhower assume o comando, instala-se em Londres, em Grosvenor Square n° 20, e começa a constituir um estado-maior anglo-americano com o nome de SHAEF (Supreme Headquarters Allied Expeditionary Force). O COSSAC é absorvido por este mastodonte e o planificador Morgan é rebaixado ao posto de deputy chief of Staff, abaixo do primeiro colaborador de Eisenhower, Badell Smith. Mas o plano apresentado pelo COSSAC não resiste às críticas. Montgomery, que deve comandar o conjunto das forças terrestres durante a fase de desembarque, é um dos primeiros a sustentar que a frente de ataque é muito estreita. A energia de sua intervenção, seu modo de exigir (“Mudem seus planos ou mudem-me de posto...”) contribuem muito para que seja decidido fazer modificações profundas. O número das divisões de assalto é elevado de três para cinco e o número das divisões de transportes aéreos, de uma para três.
A extensão da Operação Overlord faz reconsiderar o problema de Anvil. “O General Marshall e eu - diz Eisenhower - consideraríamos o ataque ao sul da França como uma característica integral e necessária da principal invasão através do Canal”. Mas os navios e os aviões designados para este ataque são requisitados para uma ampliação do desembarque na Normandia. Depois de acirradas discussões, os americanos consentem em uma transferência sine die da Operação Anvil. Além disso, a data inicial da Operação Overlord é adiada de 1o de maio para 1o de junho, a fim de fortalecer a invasão com um mês de produção industrial. Moscou pensa, naturalmente, que se trata de um pretexto e que uma segunda frente jamais será aberta. Na Inglaterra, forças colossais se reúnem. Expurgado dos submarinos de Doenitz, o Atlântico é a avenida da libertação da Europa. Fazendo a travessia sem escolta, os dois Queens, Mary e Elizabeth, transportam, duas vezes por mês, o pessoal de uma divisão. As outras tropas, o material e os abastecimentos chegam nos comboios, praticamente invulneráveis. Alojar na pequena Inglaterra essas massas humanas e seu imenso equipamento torna-se um problema sério. Tem-se dificuldade em encontrar os 133 terrenos reclamados pela US Air Force e sobretudo os espaços necessários para completar a instrução das unidades. Com 1.750.000 soldados do Reino Unido, 100.000 soldados americanos, 175.000 soldados do Império Britânico e 44.000 voluntários de várias nacionalidades, é um exército de 3.500.000 homens e de 20 milhões de toneladas de equipamento que pesa sobre o solo inglês. “Se a Inglaterra não afunda - comenta-se -, é unicamente porque é sustentada pelos milhares de balões de barragens antiaéreas”.
A passagem de um exército tão numeroso e tão pesado para o continente constitui um empreendimento inaudito. Os precedentes da África do Norte, da Sicília, da Itália, de Guadalcanal, de Bougainville e de Kwajaleim fornecem apenas ensinamentos de valor parcial. Trata-se de desembarcar de 10 a 20 vezes mais homens e material, em face de um inimigo muito mais forte. Trata-se em seguida de alimentar as operações de vasta amplitude e de ritmo rápido que devem seguir-se ao desembarque. O ramo da arte militar para o qual os americanos autorizam o neologismo “logística” - logistics, de to lodge, “alojar” - adquire importância jamais sonhada.
É notável que os ingleses - acusados de desinteressados - hajam refletido tão maduramente sobre o problema de um desembarque na Europa. Desde outubro de 1940, Churchill se interessou pelo primeiro exemplar de um LCT (Landing Craft Tank), chata com uma parte passível de abrir-se, permitindo desembarcar tanques numa praia. Sozinha, diante de uma Alemanha cuja vitória parecia irremissível, a Inglaterra já preparava a reconquista do continente! Desde então, uma vasta família cresceu. As unidades de desembarque se dividem em dois grande tipos, landing ship e landing craft. Em geral - porém não como regra absoluta - um landing craft deve ser transportado ou rebocado até a proximidade da margem, enquanto um landing ship é capaz de fazer as travessias marítimas através de seus próprios meios. Numerosas subdivisões correspondem a utilizações específicas: LSH, LSI, LST, por Landing Ship Headquarters, Infantry, Tank; LCI, LCG, LCF, LCT, LCVP, etc., por Landing Craft Infantry, Gun, Flak, Tank, Vehicle and Personal, etc., sem prejuízo dos DUKW e dos DD, que são caminhões e tanques anfíbios. Todo um conglomerado marítimo transportado por tripulações improvisadas.
Landing Ships e Landing Craft não suprimem o problema dos portos. Instalações protegidas são necessárias, a curto prazo, para a manutenção de um grande exército de operações. Uma solução consiste em apoderar-se, desde os primeiros dias, de um grande porto - mas é preciso levar em consideração o inimigo, também pela resistência que oporá, quanto pelas destruições que executará. A resposta e a solução transitória residem nos dois portos artificiais, um para a zona do desembarque britânico, outro para a zona americana, que, sob o nome convencional de Mulberry, crescem nos ancoradouros e nos estuários do Reino Unido.
A idéia é de Churchill. Recomendando-a ao CCS, numa carta de 30 de maio de 1942, ele escreveu: “Não discuta o assunto; as dificuldades serão discutidas por elas mesmas”. As dificuldades são, efetivamente, enormes. A Mancha é um mar difícil, cheio de correntes contraditórias, de marés desiguais, de caprichos brutais, e os portos artificiais que lhe foram impostos, como Dover e Cherburgo, exigiram séculos de trabalho. Mas as guerras abrem, no homem, fontes maravilhosas de capacidade.
Esses portos Mulberry, simples em seu princípio, são de uma complexidade técnica fascinante. O trabalho será desenvolvido de forma clássica, afundando diante das praias velhos vapores chamados Gooseberries, lastreados de cimento de solidificação rápida. Esses quebra-mares sumários serão reforçados por alinhamentos flutuantes de cilindros de aço e de concreto, ou Bombardons. As peças mestras serão colocadas depois: caixões de concreto armado, ou Phoenix, altos como casas de 5 andares e que deverão ser rebocados através da Mancha. Os diques assim improvisados, estendendo-se por muito quilômetros, protegerão superfícies de água de mil hectares, onde cais, chamado whales, formados de grandes caixões, serão ligados às margens por faixas metálicas flutuantes. Sete liberty ships e uma trintena de landing crafts poderão ser desembarcados ao mesmo tempo. A capacidade de um porto sintético eqüivalerá à de Dover. Prazo concedido para a construção: 15 dias.
4.126 navios no ataque à Europa Um elemento de grande importância, mas cuja avaliação objetiva é extraordinariamente difícil, pesa nas considerações anglo-americanas: a situação da França. A seu respeito, tudo pode ser afirmado. É uma aliada, porque entrou em guerra ao mesmo tempo que o Império Britânico e combateu ao lado deste até que o aniquilassem. É uma inimiga, pois tem convênios com Hitler e o chefe de seu governo, Pierre Laval, declara que deseja a vitória da Alemanha. Existe, sem dúvida, na França, um movimento popular, uma resistência ativa contra o ocupante, mas existem também formas manifestas de colaboração. A própria resistência está sujeita às mais contraditórias apreciações. As informações que chegam sobre ela são tendenciosas, tanto num sentido quanto noutro. A impressão de conjunto é uma confusão total. Que julgamento fundado podem fazer os Aliados sobre um fenômeno de tantas faces? Que ajuda podem esperar na preparação e na execução de uma operação militar que, para os franceses, é, ao mesmo tempo, uma libertação e uma invasão? De maneira geral, os grandes chefes aliados estão céticos. O Marechal-do-Ar Sir Arthur Tedder, primeiro adjunto antes do desembarque, lhe pedem 25 dos seus 15.000 parelhos, para intensificar o fornecimento de armas, através de pára-quedas, aos maquis. Os 808 atos de sabotagem contra locomotivas, que a Resistência alega ter praticado nos três meses de 1944, não são levados a sério, e o realismo do Plano Verde, elaborado pelo BCRA, 571 ataques contra ferrovias no momento do desembarque, é posto em dúvida.
É a mesma coisa no que se refere às possibilidades das Forças Francesas do interior, das quais o General Koenig acaba de ser nomeado comandante-chefe. Depois de trocas de argumentos, o SHAEF decide considerar a Resistência francesa como um bônus. Serão acolhidos com gratidão os serviços que ela puder prestar, mas há recusa em tomá-la em conta nas previsões das operações. De Gaulle complica o problema. Roosevelt teria provavelmente invadido a França metropolitana como tinha invadido a África do Norte francesa, sem que o general, desde então chefe de um governo provisório, fosse avisado disso. A insistência inglesa poupa-lhe esta omissão, mas, convocado a Londres no dia 4 de junho, De Gaulle começa a criar dificuldades.
“Resmungou e reclamou - escreve Churchill a Roosevelt -, mas Massigli e outros ameaçam pedir demissão do Comitê de Libertação se ele recusar meu convite. Se vier, Eisenhower o verá durante uma meia hora e lhe exporá a situação unicamente do ponto de vista militar. Não acredito que possamos conseguir grande coisa de tudo isso...”. A carta acaba de ser enviada, quando o General, acompanhado de Éden, que foi buscá-lo em Argel, se apresenta todo irritadiço. “Acabo de saber - diz - que, apesar de minhas advertências, o corpo expedicionário desembarcará na França com uma moeda fabricada no estrangeiro e que o Governo da República não reconhece absolutamente”. Ele acha que o general Eisenhower tomará a França sob sua autoridade e a submeterá ao AMGOT (Allied Military Government Occupied Territories). E a isto se opõe com todas as suas forças. Ele, De Gaulle, representa a legitimidade. Recolocará seu pé sobre o solo francês com o poder reconhecido pela imensa maioria da nação e é unicamente a ele que pertence o direito de fixar, com toda a soberania, as condições através das quais as autoridades e as populações francesas cooperarão com os Aliados.
A entrevista é áspera. Grandes memorialistas, quer dizer, ilusionistas da verdade, Churchill e De Gaulle a contam em termos sensivelmente diferentes, mas não deixam dúvidas sobre a violência do choque. Churchill ameaça De Gaulle de mandá-lo reconduzir a Argel. Afirma claramente que, tendo de escolher entre ele e os Estados Unidos, a Inglaterra se colocará ao lado destes. De Gaulle declara que compreende bem a razão e "with this ungracious remark" a entrevista termina. Eisenhower está em Southwick, perto de Brighton. Churchill leva De Gaulle até lá, no seu trem especial. Preocupações arrasadoras, uma terrível responsabilidade pesam sobre o comandante-chefe. O Dia D deveria ser amanhã, quinta-feira, 5 de junho. Na véspera, centenas de navios estavam já no mar, quando, às 4h30 da manhã, as condições e previsões meteorológicas levaram Ike (contra a opinião de Montgomery) a determinar um adiamento de 24 horas. As perturbações que resultam desta resolução, refletindo no mecanismo delicado do desembarque, são alarmantes. As que resultariam de novo adiamento poderiam ser desastrosas. Passado o dia 7, a primeira data propícia não se apresenta antes de 19 de junho. Far-se-ia necessário desembarcar as tropas, entre as quais algumas que já passaram muitos dias a bordo dos transportes, em condições de extremo desconforto. Seria impossível manter as rigorosas medidas de isolamento, tomadas depois da última semana de maio, para a conservação do segredo. Novo adiamento obrigaria a uma reorganização completa do desembarque, poderia até levar ao abandono da operação. Por outro lado, um desembarque na tempestade pode converter-se em desastre, repetindo, em proveito de Hitler, o milagre fatal à Invencível Armada...
No meio deste prodigioso dilema, é uma prova da grandeza de alma de Eisenhower receber o zangado general francês com uma urbanidade e uma paciência que irritam Churchill. Mas diante da cólera de De Gaulle qualquer encanto perde o valor. Ele ouve friamente a exposição do Plano Overlord, depois, ao receber comunicação da proclamação de Eisenhower à nação francesa, declara inaceitável o que chamará nas suas Memórias de Guerra “ce factum”. Cheio de elogios vibrantes ao Exército e à população francesa, o documento contém, efetivamente, duas frases de lesa-De Gaulle. São elas: “A obediência rápida e solícita às ordens que darei é essencial” e “Quando a França for libertada vós próprios escolhereis o governo sob o qual quereis viver...” Havia sido combinado que o Rei da Noruega, a Rainha da Holanda, a Grã-Duquesa de Luxemburgo e o Primeiro-Ministro da Bélgica usariam da palavra sucessivamente, pelo rádio; depois, Eisenhower leria sua proclamação e, por fim, o General De Gaulle encerraria o cortejo das mensagens da libertação. Ele recusa: sua voz não se associará à dos chefes de Estados e dos governos na saudação ao desembarque anglo-americano no solo subjugado da Europa. Ainda mais: os 200 oficiais de ligação franceses junto ao SHAEF ficarão na Inglaterra. E, para acrescentar a todas as suas recusas um gesto simbólico de mau-humor, o Grande Dissidente declina de um convite para jantar e recusa regressar a Londres no trem de Churchill. Quando De Gaulle parte, a espera recomeça. O acampamento de Eisenhower, que consiste em algumas barracas e grupos de tropas, situa-se numa floresta encharcada de umidade, a 1.609 metros da Prefeitura Marítima de Southwick. O tempo concorda com o sombrio quadro dos meteorologistas: chuvas espessas e ventos de 25 a 31 nós. Todas as docas, de Plymouth e Newhaven, estão cheias de uma multidão de navios que dançam na água agitada. Ao largo, o mar está fora de si. O Almirantado comunicou a todos os navegadores, sinais de tormenta.
Às 21h30 realiza-se nova conferência na biblioteca de Southwick. O chefe meteorologista, comandante de Grupo J.M. Stagg, da RAF, começa sua exposição sustentando que o desembarque no dia 5 - quer dizer, dentro de poucas horas - desencadearia um desastre. Agora, o mapa do tempo traduz ligeira tendência à melhora: o vento deverá moderar-se e o céu descobrir-se parcialmente. Acuado por perguntas, Stagg recusa outras promessas: “Se eu lhes respondesse, não seria um meteorologista; seria um adivinho...”
A ciência falou. É a vez da estratégia tomar uma decisão. A Aeronáutica está cética: os marechais Leigh-Mallory, comandante das forças aéreas, e Tedder, adjunto de Eisenhower, duvidam que os bombardeiros pesados e médios possam ter papel satisfatório no estado em que se encontra o céu. A Marinha está ansiosa: o Almirante Ramsay adverte que a ordem de partida deve ser dada dentro de meia hora, pois, do contrário, os comboios ficarão na impossibilidade de respeitar o horário. O Comando das forças de terra está mais confiante: Bedell Smith sublinha o perigo de um adiamento para 19 de junho e Montgomery pronuncia-se de novo a favor da execução. Dadas as opiniões, o peso fatídico cai novamente sobre os ombros do general Eisenhower. Em algumas palavras, ele resume os prós e os contras. Depois: “Dou esta ordem com pesar. Mas é preciso...”
Faltavam apenas alguns minutos para soar 22 horas, limite para uma decisão positiva. Mas ainda é possível, como na véspera, sustar a ordem, nas primeiras horas da manhã. Uma última deliberação está marcada para as 3h30, na biblioteca de Southwick. Quando Ike se põe a caminho, um vento de tempestade sacode seu pequeno acampamento nos bosques. A estrada está enlameada e, diante dos faróis de comando, a chuva, vinda do mar, parece cair horizontalmente. O Capitão Stagg mantém pura e simplesmente suas conclusões da véspera, à noite: o tempo deve normalmente melhorar durante o dia e a noite seguinte; não lhe é possível dizer mais nada. O resto é com Deus! Dois exércitos participam do desembarque. A oeste, o 1o Exército americano, cujo general é Omar Bradley, empenando o 5o e o 7o Corpos, cada um com uma divisão reforçada. A leste, o 2o Exército britânico, comandado pelo General Sir Miles Dempsey, engaja a 1o e o 3o Corpos, um com duas divisões, o outro com uma apenas. Os americanos embarcam nos portos compreendidos entre Salcombe e Poole; os britânicos, nos portos compreendidos entre Solent e Newhaven.
Dez divisões, chamadas follow up, seguem imediatamente as unidades de assalto. Embarcam por via aérea. Os americanos em Plymouth e em Falmouth, os britânicos no estuário do Tâmisa, em Sheernes, Southend e Harwich. A travessia da Mancha exigiu um plano, dito Netuno, de extraordinária complexidade. Trata-se de atravessar um mar difícil, minado pelo amigo e pelo inimigo, com 4.126 lanchas de desembarque, divididas em 26 categorias, a maior parte das quais são notáveis pela sua má qualidade náutica e, além disso, por ter tripulação constituída por marinheiros de ocasião. Apesar de seu nome “craft”, os LCT, com sua pesada maquinaria traseira e sua dianteira não flutuante, fazem a travessia por seu próprios recursos. Tinha-se o direito de esperar que se empenhassem nessa aventura numa bela noite de verão; enfrentarão o mar com ocos de 2 metros e ventos contrários de 28 nós. Os marinheiros profissionais tremem...
Esta massa de lanchas de desembarque, como a maioria dos 1.213 navios de guerra que as escoltam ou as apoiam, deve passar por uma verdadeira estação reguladora, uma zona dita Z e apelidada “Picadilly Circus”. Medindo 10 milhas de diâmetro, ela tem seu centro a 18 milhas a sudoeste de Wight. Diagramas de velocidade extremamente rigorosos, chamados “Mickey Mouse Diagrams”, foram entregues a cada formação ou comboio. De Picadilly Circus parte “the Spout”, o Coletor, abrindo-se até uma linha pontilhada de Barfleur-cap de Antifer. O Spout atravessa o grande campo de minas alemães submersas no meio da Mancha, com cinco pares de canais, tráfego lento e tráfego rápido, em manobra de dragagem. A operação, iniciada na tarde do dia 5, prossegue sem parecer despertar a atenção do inimigo. Saindo do Spout, os comboios navegarão em leque, em direção às cinco zonas de desembarque, cada uma correspondente a uma divisão. De oeste para leste, recebem os seguintes nomes convencionais: Utah (4a Divisão dos EUA); Omaha (1a Divisão dos EUA), Gold (50a Divisão britânica), Juno (3a Divisão canadense) e Sword (3a Divisão britânica).
As esquadras que participam desta fabulosa travessia da Mancha foram divididas entre uma Western Task Force, do Almirante Alan Kirk, geminada com o 1o Exército americano, e uma Eastern Task Force, do Almirante Sir Philip Vian, geminada com o 2o Exército britânico. Seguem, à frente de seus 213 navios, 7 couraçados (4 ingleses, 3 americanos), 23 cruzadores (16 ingleses, 3 americanos, 2 franceses, 1 polonês), 168 destróieres e fragatas (79 ingleses, 36 americanos, 3 franceses, 3 noruegueses, 2 poloneses). Dois terços desta frota sem precedentes são, pois, britânicos, depois de 5 anos de guerra e da perda de 3 couraçados, 2 cruzadores de batalha, 8 porta-aviões, 45 cruzadores e cruzadores auxiliares, 136 destróieres, etc. Prova impressionante de vitalidade e de energia.
A maior parte das unidades de combate deve apoiar o desembarque, atirando contra os objetivos terrestres. As outras vigiam as entradas da Mancha ou estendem cortinas de segurança contra os submarinos e as veddettes inimigas. Por mais fracos que sejam os alemães no mar, não são totalmente inofensivos. Em maio, um grupo de S-Boote interveio num exercício de desembarque, pondo a pique três preciosos LST, afogando 700 soldados e marinheiros. Com os milhares de alvos que enchem a Mancha, alguns comandantes enérgicos podem causar desastres, na proporção de 1 contra 100. O apoio aéreo não é menos gigantesco que o apoio naval. O Marechal-do-Ar Sir Trafford Leight-Mallory, tem sob suas ordens 13.000 aviões operacionais, dos quais 11.590 disponíveis. A RAF e as diversas formações que lhe são subordinadas, Royal Canadian, Australian, New Zealand, forças aéreas polonesas, francesas, belgas, holandesas, norueguesas, concorrem para esse total com 5.510 aparelhos. A 8a US Air Force, comandada pelo General Doolittle, contribui com 6.080. Os 3.440 bombardeiros pesados noturnos e diurnos são: Halifax, Lancaster, B-17 ou Fortalezas Voadoras, B-24 ou Liberator, transportando entre 1.800 e 6.350 kg de bombas. Os 930 bombardeiros leves consistem em Mitchell, Boston, Mosquito, B-26 ou Marauder - A-20 ou Havoc. Mais de 1.500 aparelhos, pertencentes a uma dezena de categorias, representam o reconhecimento, a coordenação, a vigilância costeira, a luta anti-submarina, o serviço sanitário, etc., e 1.360 aparelhos, mais 3.500 planadores, constituem a frota de transportes: Hamilcar e Sterling, ingleses; C-47 ou Dakota, americanos. Enfim, a coorte dos 4.190 caças e caças-bombardeiros, Spitfire, Typhoon, P-38 ou Lightning, P-47 ou Thunderbolt, P-51 ou Mustang. O SHAEF avalia em 15 contra 1 sua superioridade aérea. A avaliação alemã, de 50 contra 1, está mais próxima da verdade.
Esta formidável aviação já abriu brechas na Muralha do Atlântico, sobretudo colocando fora de serviço a maioria dos 64 radares que, do Texel ao cabo Frehel, vigiavam os litorais. Deve, no dia D, consagrar todo o seu poderio ao esmagamento das defesas costeiras. Infelizmente, por causa do mau tempo, muitos bombardeiros deverão realizar-se em vôo guiado por instrumentos. Temem-se erros que arriscariam dizimar tropas amigas. A hora do ataque deu lugar a uma arbitragem das vantagens e dos inconvenientes. Um desembarque vesperal era recomendável por muitas razões. Preferiu-se um desembarque matinal, por temor da confusão que a noite poderia causar. Quanto à maré, teria sido racional utilizá-la para conseguir atingir o ponto mais próximo à costa; preferiu-se, contudo, a maré baixa - iludindo, assim, o prognóstico de Rommel, porque a maré baixa descobre os arrecifes artificiais colocados pelo inimigo. Levando-se em conta as variações locais da hora da maré baixa, a abordagem das praias foi marcada para as 6h30 (Utah e Omaha), 7h25 (Gold e Sword), 7h35 e 7h45, respectivamente, para a direita e a esquerda de Juno. As cinco zonas de desembarque não são nem justapostas nem idênticas. Cada uma representa um problema particular e foi objeto de um plano especial.
Sword se estende da embocadura do Orne à pequena estação balneária de Lion-sur-Mer. A costa é uniformemente plana e arenosa. A estrada que margeia a costa, RN 814, está bordada de casas e mansões contínuas que se adensam nas pequenas aglomerações de Riva-Bela e do Ouistreham, término do canal marítimo de Caen. A forma envolvente do litoral facilita concentrações de fogo contra os navios. É a razão pela qual aí se colocou um pesado apoio naval, compreendendo sobretudo o Warspite, o Ramillies, o monitor Roberts, encarregados de fazer calar as baterias de Villerville, de Berville e de Houlgate. Para guiar o desembarque da 3a Divisão britânica e da 27a Brigada Blindada, enviou-se o submarino de bolso X-23, comandado por dois oficiais, à embocadura do Orne. Deveria emergir no dia 5, de manhã, e orientar os comboios. Tendo sido adiado o desembarque, o X-23 recebeu ordem de esperar, submerso, 24 horas suplementares. Ele espera.
Esta zona Sword tem importância devido à sua proximidade com Caen. A cidade, considerada como porta de saída da Normandia para Paris, deve ser tomada já no dia D. Tarefa pesada, para a qual se justapôs, ao desembarque nas parias, um desembarque de tropas aerotransportada. Comandada pelo Major-General Gale, a 6a Divisão aerotransportada britânica é encarregada da operação. Sua missão consiste em tomar a margem direita do Orne, para cobrir o flanco esquerdo da invasão. A 3a e a 5a brigadas de pára-quedistas saltarão ou serão levadas por planadores, nas três dropping zones (zonas de salto): V, perto de Varaville; K, perto de Touffréville; N, perto de Amfréville. Deverão apoderar-se de surpresa das pontes sobre o Orne e o canal marítimo, em Benouville e Rainville; fazer explodir as pontes sobre o Dives, em Péries, Robehomme e Troarn; enfim, destruir a bateria de Merville, na desembocadura do Orne. Rebocando seus trens aéreos, os grupos da RAF 38 e 46 levantam vôo da região de Oxford, num céu de tormenta. Devem transpor a costa francesa à meia-noite. Oito km a oeste de Lion-sur-Mer, começa a zona Juno. A costa é precedida de arrecifes rochosos, que tornam difícil um desembarque com a maré completamente baixa. O que levou a retardar ligeiramente a hora do ataque. Um outro submarino de bolso, o X-20, espera o comboio que traz a 3a Divisão canadense, cujo setor se estende de Saint-Aubin até Courseulles-sur-Mer. Ela deve, durante o primeiro dia, ultrapassar a estrada de Bayeux a Caen e apoderar-se do aeroporto de Carpiquet.
Na zona Gold, a 5a Divisão britânica e a 8a Brigada Blindada devem apossar-se da região entre o povoado de La Riviére e o povoado do Hamel. Nada hospitaleira, a costa é muito menos habitada que ao longo de Riva-Bella. Além das praias, estendem-se pântanos, contornados pela RN 814. O Plano prevê que as tropas desembarcadas se estenderão para oeste, a fim de apoderar-se de Arromanches-les-Bains, onde um porto Mulberry deve ser construído. Internando-se no interior, a outra ala de ataque deve libertar, logo na primeira noite, a pequenina Subprefeitura de Bayeux.
Vinte e cinco km separam o setor britânico do setor americano. A costa e o interior da região mudam. Os problemas do desembarque e do pós-desembarque se emaranham em dificuldades. Omaha Beach se estende de Port-en-Bessin até a ponta e o redemoinho de Percée. Rochedos de aproximadamente 30 metros de altura o emolduram nas duas extremidades. A praia, dominada por um espesso cinturão de dunas, não é transitável senão através de pistas arenosas que conduzem às aldeias de Grand-Hameau, Colleville-sur-Mer, Saint-Laurent-sur-Mer e Vierville-sur-Mer. Esses caminhos íngremes, que os documentos de estado-maior designam por um americanismo, draws, são as únicas saídas de Omaha Beach para a 1a DI americana e os elementos que constituem a primeira onda de ataque.
Do outro lado, o terreno é desfavorável às operações de um exército fortemente motorizado. A planície livre dos arredores de Caen torna-se um bosque coberto de campos de macieiras, cortado por caminhos escavados, dividido em uma multidão de parcelas fechadas por elevações de terra e cercas espessas. Um fosso se junta a esse labirinto: o Aure, que, desde Bayuex, corre paralelamente ao mar. Naturalmente pantanoso, inundado pelos alemães, seu vale é intransponível entre o burgo de Trévières e a cidadezinha de Isigny. O plano prevê que as duas localidades serão atacadas na noite do desembarque. Através de Trévières, contornar-se-á a zona inundada. Através de Isigny, serão forçadas as embocaduras do Vire e tentar-se-á, em direção a Carentan, a junção com as tropas desembarcadas no Cotentin. A ponta do Hoc (que as obras americanas teimam em chamar a ponta do Hoe) é objeto de atenção especial. A bateria encimada neste alto rochedo triangular é considerada como “a mais perigosa de toda a Mancha”. Suas seis peças de 155 mm, de um alcance de 22.000 metros, têm, em mira de fogo, não somente Omaha Beach, mas também, na costa do Cotentin, Utah Beach. Reservam-lhes, por conseguinte, os obuses de 14 polegadas do Texas, e, além disso, um ataque confiado ao tenente-coronel texano James Rudder. Na hora H, seu batalhão de Rangers desembarcará ao pé da ponta, descoberta pela maré baixa. Um canhão lança-cabo, prenderá escadas de cordas no flanco vertical sobre o qual será tentado, igualmente, aplicar duas escadas corrediças, emprestadas pelos bombeiros de Londres. Os ensaios executados nos rochedos de greda da ilha de Wight mostraram que este exercício de alpinismo à beira-mar não é impossível - pelo menos, na ausência de fogo inimigo...
Utah Beach levantava problemas ainda mais difíceis. A praia, diz Ike, “miserável - larga, porém lodosa e cercada por um cinturão de pântanos, ultrapassáveis unicamente numa estreita faixa que conduz às aldeias encarapitadas na Departamental 14. Quatro dessas faixas, as de Pouppeville, de Houdienville, Audouville e de Saint-Martin-de-Varreville, estão designadas como saídas n° 1, 2, 3 e 4. Desembocam num bosque cerrado; depois, além do planalto de Sainte-Mère-Église, as grandes inundações do Douve e do Merderet estendem um dos mais sérios obstáculos diante de um exército que procura penetrar no interior do Cotentin! A grande operação americana de transporte aéreo - 2 divisões, 13.200 pára-quedistas, 822 aparelhos de transporte e 900 planadores - tem por objetivo dominar essa dupla dificuldade.
Cabe à 101a Airbone, do General Maxwell Taylor, controlar as saídas provenientes de Utah Beach, a fim de que a 4a DI dos EUA, desembarcada na praia, não se arrisque a ser imobilizada nas estradas que um punhado de homens e de armas é suficiente para bloquear. Cabe à 82a Airbone, do General Matthew Ridgway, instalar-se no planalto de Sainte-Mère-Eglise e, além disso, conquistar uma grande cabeça-de-ponte junto ao Douve e ao Merderet. Para os pára-quedistas, a hora H é a meia-noite. Abordam o Cotentin não pelo leste, mas através do oeste, como se partissem para a Bretanha e, no meio da Mancha, mudassem bruscamente de inspiração. Decolando de nove bases do Devon, das Midlands, do Berkshire, do Wiltshire, etc., seus aviões passam todos por um ponto Elko, ao norte de Southampton. Prosseguem depois até um ponto Hoboken, fazem uma volta de 90 graus, mudam ainda de direção antes de chegar à costa, nos pontos Peoria e Reno, e, dez minutos depois, devem estar sobre suas seis dropping zones, quatro a leste, duas a oeste do Merderet.
Cada zona é um oval de 1.600 m de comprimento e 460 m de largura. Decolando 20 minutos antes do grosso das divisões, os batedores, os Pathfinders, esforçam-se em reconhecê-las e, com lanternas portáteis, em balizá-las. ... Este é o esquema, muito simplificado, desta gigantesca Operação Netuno, fase inicial da invasão da Europa, ou Operação Overlord. Tentemos seguir, hora por hora, o seu desenrolar. Primeira hora: 0h - 1h Logo no primeiro minuto, seis grandes planadores Horsa, da 6a Divisão Aerotransportada britânica, penetraram na costa francesa, acima de Houlgate. Um pousa na área coberta de arame farpado que protege a ponte de Bénouville, no canal de Caen. Dois outros pousam ao lado da ponte de Ranville, no Orne. Total surpresa: em menos de quinze minutos, duas pontes pertencem ao 2o Oxfordshire and Buckinghamshire Light Infantry. Enquanto isso os Pathfinders pousam nas dropping zones. Seus vaga-lumes se acendem no solo. É uma hora da manhã quando o grosso da 6a British Airbone começa a cair ou a deslizar do céu. Na outra extremidade da frente de assalto, no Contentin, a operação americana começou no mesmo instante.
Os Pathfinders da 101a Airbone saltaram em primeiro lugar, 15 minutos depois da meia-noite. O céu está nublado, a terra coberta de lama, a lua intermitente. A 0h50, a leste de Monteburgo, o Tenente-Coronel Hoffmann, que comanda um regimento de posição da 709a DI, vê, a um raio de luar, corolas que se aproximam do chão. Suas sentinelas atiram. Uma metralhadora de mão americana responde. 2a a 6a hora: 1h - 6h A 1h11 o 84o Corpo alemão, em Saint-Lô, recebe, de Caen, uma comunicação de sua 716a DI: “Pára-quedistas a leste das embocaduras do Orne, região Ranville-Bréville e orla norte da floresta de Bavent”. A 1h45, recebe, recebe de Valones uma mensagem da 709a DI: “Pára-quedistas inimigos ao sul do Saint-Germain-de-Varreville e perto de Sainte Marie-du-Mont. Segundo grupo a oeste da grande estrada Carentan-Valognes, dos dois lados do Merderet”.
As duas regiões indicadas estão nas duas alas do corpo de exército. A operação é, assim, importante. O General Marcks cancela sua viagem a Rennes. A realidade substitui a ficção. Além, o céu está terrificante. Enormes espirais de fumaças avermelhadas ensangüentam o horizonte. O barulho de milhares de motores - todos inimigos - enche a noite. Às 2 horas, novas informações chegam a Caen e de Valognes. Pára-quedistas foram capturados. Pertencem à 3a Brigada Aerotransportada britânica e aos regimentos 501o, 505o e 506o de pára-quedistas americanos. Três, das quatro divisões de infantaria aérea conhecidas pelo inimigo, estão, pois, comprometidas. Os grandes chefes são acordados: Dollmann no Mans, Salmuth em Tourcoing, Rundstedt em Saint-Germain-en-Laye. Em Roche-Guyon, Speidel ainda espera, antes de alertar Rommel, que está em sua casa de Herrlingen.
A leste do Orne, as principais missões da 6a Airbone são realizadas. A cabeça-de-ponte de Rainville consolida-se. São dinamitadas as pontes do Dives, a de Troarn inclusive, destruída quase que unicamente pelo Major Roseveare, na retaguarda de sua guarnição. O Castelo de Varaville é tomado. Cai a bateria de Merville. Foi atacada às 2h45, pelo 9o Batalhão de Pára-quedistas, que sabia sua lição de cor. Às 3h45, depois de vivo combate, o Tenente-Coronel Ottway solta o pombo-correio com a comunicação: bateria tomada. Percebe-se então que a bateria não continha senão os canhões 75 quase inofensivos em vez dos temíveis 150 que os invasores queriam amordaçar. Às 3h30, chega o General Gale, com a terceira vaga, que traz material pesado. Sua divisão toma o Orne, semeia a confusão entre o Orne e o Vire, captura homens pertencentes à 716a DI e à 21a Pz. Suas perdas graves são poucas, porém mais da metade de seus 4.800 homens estão dispersos, por causa dos erros da aterragem, e não responde à chamada.
A operação de transporte aéreo americana é muito complicada. Os historiadores oficiais não se julgaram aptos a reconstituí-la com exatidão. A sebes e a bruma apareceram para isolar os pequenos grupos de pára-quedistas e povoar de fantasmas o campo estranho onde caem os rapazes que vêm das grandes planícies do Novo Mundo. Os brejos e as inundações causam vítimas. Não é exato que regimentos inteiros tenham sido tragados pelos baixios do Merderet, segundo a versão romanceada que compara o episódio com o que ocorreu nos pântanos de Saint-Gond ou nas águas estagnadas de Austerlitz; mas é absolutamente verdade que muitos pára-quedistas fazem um esforço sobre-humano para sair do lamaçal, e alguns se afogam sob o peso do próprio equipamento. De 13.000 homens das duas divisões de transportes aéreos, menos de 2.500 se reagrupam imediatamente. Como instrumento de reunião, receberam matracas, que enchem a noite normanda, saturada de umidade, de um estranho concerto de cigarras. Mas seus gritos são abafados na espessura dos bosques. Na 101a Airbone, o 502o Regimento deve tomar as saídas norte da Utah Beach, as aldeias de Saint-Germain e Saint-Martin-de-Varreville, Mésières, Audouville-le-Hubert; o 506o deve apossar-se das saídas de sul, dos povoados de Houdienville, Pouppeville, Sainte-Marie-du-Mont; o 501o deve estabelecer-se no Dove, ao norte de Carentan. Mas o nevoeiro, o vento e a DCA baralham estas combinações longamente estudadas sobre o mapa. Os homens juntam-se ao primeiro oficial que encontram. As escaramuças verificam-se na obscuridade, com fracos destacamentos inimigos acantonados nas aldeias e também, provavelmente, com grupos amigos, vítimas de equívocos. Ao clarear do dia poucos são os elementos da 101a que se conservam nos lugares programados. Mas a irrupção de tantos soldados do ar nas suas retaguardas desorganizou a defesa costeira alemã.
Compõem a 82a Airbone, o 505o, o 507o e o 508o regimentos de pára-quedistas. O 505o deve apossar-se de Sainte-Mère-Eglise e garantir as passagens do Merdetet até Chef-du-Pont e La Fière. Os dois outros regimentos devem constituir a cabeça-de-ponte para oeste, entre o Douve e o Merderet. Quando o céu se torna róseo, uma parte do 507o e do 508o ainda patina nas campinas inundadas. Uma outra parte desceu num terreno sólido, perto de Amfreville, mas as sebes são espessas e o reagrupamento se faz muito lentamente. Nada teria sido feito se um grupo de pára-quedistas não houvesse entrado no pátio de um pequeno castelo, perto de Picauville. Uma Mercedes aparece. Deslizando rumo ao campo de exercício de Rennes, o general comandante da 91a Divisão de Fallsschirmjäger, William Falley, resolveu voltar ao seu QG quando a ressonância dos bombardeios aéreos o convenceu da seriedade dos acontecimentos que iriam marcar esse dia nascente. Um deles é sua própria morte. Uma rajada colhe seu carro. Ele sai, de pistola em punho. Outra rajada o derruba. A divisão que defende o centro de Contentin perdeu seu chefe no começo do combate.
Na outra margem do Merderet a sorte sorri ao 505o. O episódio da tomada de Sainte-Mère-Eglise é o mais célebre do desembarque. O mundo inteiro viu no cinema a casa do Sr. Hairon queimar, os bombeiros de capacete de cobre combaterem o incêndio, sob a vigilância dos soldados alemães, e o soldado Steel, preso pelas correias de seu pára-quedas, na ponta do campanário. Em linguagem militar, assim se passaram as coisas: se bem que alcançado em parte pelo fogo antiaéreo, o 3o Batalhão do 505o pousou com notável exatidão na dropping zone 0, 1.500 metros a noroeste de Sainte-Mère-Église, no lugar chamado vale da Miséria. O Tenente-Coronel Edward Drause reagrupou rapidamente seu pessoal e, quando ao assalto à localidade, deu ordem para utilizar apenas granadas e facas. Havia uns 30 alemães e mais a turma de um comboio de passagem. Foram rapidamente mortos ou presos.
Durante essas escaramuças, o alerta se propaga nos escalões do Comando alemão. Em Saint-Lô, Marcks dirige, rumo ao Carentan, seu único regimento de reserva. No Mans, Dollmann dá ordens de liquidar, através de uma ação concêntrica, os pára-quedistas que descerem em torno de Sainte-Mère-Église. Em La Toche-Guyon, Speidel prescreve à 21a Pz, reserva do Grupo B, a limpeza da margem direita do Orne. Em Saint-Germain, Rundstedt alerta a Pz Lehr e a 12a Pz SS, prevenindo-as de que deverão rumar para Caen. Um pouco antes das 6 horas, o chefe de estado-maior Blummentritt chama a Berchtesgaden o adjunto de Jodl, Warlimont, informa-o das decisões de seu marechal e assegura-lhe que a invasão está desencadeada.
O sono de Hitler é intocável, mas Warlimont telefona a Jodl. Este desperta um homem cético: as descidas de pára-quedas são uma simulação; o verdadeiro desembarque não se efetuará na baixa Normandia. Na Mancha, o vento sopra com força 5. As vagas espumam. O enjôo põe à prova a maioria dos passageiros do Grande Cruzeiro. No horizonte, trovões e relâmpagos indicam o terrível embate que está sofrendo a costa normanda: 1.056 Lancaster da RAF se encarniçam contra as dez principais baterias alemães. Começaram pelas de Merville, Fontenay e Saint-Martin-de-Varreville, sobre as quais o bombardeio devia preceder a intervenção das divisões aerotransportadas; continuam por La Pernelle, Maisy, ponta do Hoc, Longues, Mont-Fleury, Quistreham e Houlgate. Nos navios, calma absoluta. No mar, dilúvio de fogo. Às 2h29 o LSH Bayfield, conduzindo o General Lawton Collins, comandante do 7o Corpo dos EUA, ancora a 17 braças de profundidade, 11 milhas ao largo de Utah Beach; 20 minutos depois, o LSH Ancon, levando o General Gerow, comandante do 5o Corpo fundeia, nas mesmas condições, diante de Omaha. Em torno dos dois QG flutuantes, todos os navios de imobilizam. Sete minutos depois, os botes de desembarque começam a dançar sobre as vagas. Um ligeiro clarão de lua dilui a escuridão, mas a costa está invisível. É irreal, quase angustiante, proceder aos preparativos para o maior desembarque da História, diante desse litoral que estaria totalmente silencioso, se não fosse o tapete de bombas que, a intervalos regulares, se abatem sobre ele.
Na água agitada, entre os pálidos salpicos de espumas, formam-se os comboios de assalto. À frente, os barcos-pilotos, seguidos pelos lançadores de fumaça. Depois, em colunas, as unidades especializadas, de PC ou patrulheiras, LCT encarregadas de levar os carros anfíbios; outras LCT lotadas de carros comuns; LCA inglesas e LCVP americanas transportam uma seção de infantaria; LCG trazendo a artilharia; LCF conduzindo a DCA; LST entupidas de homens de material; LCR trazendo as baterias de lança-foguetes. Os destróieres, galgos escoltando tartarugas, estabelecem seu posto nos flancos. Uma frota sai de outra frota e mergulha na noite, rumo a uma terra de mistério de perigo.
A distância da costa impõe uma navegação de três horas, sobre vagas de mais de um metro de altura, a esta frota de quilha rasa, dificilmente manobrável, reagindo brutalmente ao balançar das ondas. O enjôo chega mesmo a afetar as tripulações, tão recentemente habituadas ao mar. A Força U, vogando para Utah Beach, protegida pelo posto avançado de Cotentin, entra progressivamente em águas mais calmas. A Força O, ao contrário, continua a sofrer nas vagas como se fosse feito de cortiça - enquanto lentamente, como contra a vontade, o dia nasce. Nas praias atribuídas aos ingleses, a aproximação foi mais tardia. Os transportes avançaram apenas até 7 milhas da costa. Às 5h05, no momento em que a noite começa a dissolver-se, clarões verdes na superfície das águas provam que o X-20 e o X-23 estão no seu posto de balizas. Alguns instantes depois, os navios, entre os quais o Warspite e o Ramillies, ancoram e os aviões da Fleet Air Arm lançam uma cortina de fumaça para esconder a frota das baterias pesadas do Havre. A formação de tropas de assalto começa em seguida. Mas, no nevoeiro artificial, surgem três flechas. Três vedettes torpedeiras, T-38, Jaguar e Möwe, três mosquitos, uma trintena de homens, uma centena de toneladas, atacam os senhores do mar. Uma artilharia terrível os acolhe. Fazem, pois, meia-volta, retornam à cortina de fumaça - mas depois de ter lançado seus torpedos. Um destes atinge o destróier norueguês Svenney nas suas caldeiras. O barco afunda imediatamente.
Este ataque alemão, insignificante e intrépido, mostra que se conhece a aproximação da frota de invasão. Às 3h09, um dos últimos radares alemães revelou enfim numerosos navios ao largo do Port-en-Besin. O Almirante Krancke deu ordem de intervenção às flotilhas de Cherburgo e do Havre. A de Cherburgo ficou imobilizada no porto, diante da ação da aviação inimiga. A do Havre fez uma vítima: um navio de guerra entre 1.200! Partem de terra alguns tiros de canhão. No ar, uma carga de 1.630 Liberartors da USAF substitui os Lancaster da RAF. No mar, os couraçados e os cruzadores atingiram as Fire Support Areas, a 10 braças de profundidade. Seus canhões abrem fogo às 5h30, contra Sword, Juno e Gold. Sobre Omaha e Utah o ataque só principia às 5h50, havendo do americanos preferido a surpresa à demora de uma preparação. As lanchas de desembarque estão a 3.000 metros das praias. A maré é a mais baixa possível. O sol ainda não surgiu.
7a a 12a hora: 6h - 12h Utah Beach. Um dos primeiros americanos que pisa a terra francesa, exatamente às 6h39, é o Brigadeiro Theodore Roosevelt Jr, fiel à tradição de bravura dos Roosevelt de Oyster Bay, homônimos e rivais de Roosevelt de Hyde park e do “New Deal”. Adiante, em cima, atrás dele, os foguetes lançados pelo LCR fazem um barulho infernal. Roosevelt, que tinha estudado o terreno, não o reconhece. Compreende que uma corrente afastou os barcos para o sul, até a aldeia de Madeilene, onde termina o caminho de Sainte-Marie-du-Mont. Lá estava um blockhaus armado com uma peça de guerra e uma velha torre de proteção de tanque, constituindo o ponto de apoio n° 5. Os defensores, que pertencem à 3a Companhia do 919o RI, foram enterrados pelo bombardeio. Os americanos os desenterram. O oficial alemão, Tenente Janke, deixa-se fotografar ao lado deles, diante da fortaleza. Nessa praia, atingida por equívoco, porém facilmente conquistada, o desembarque se organiza admiravelmente. Alguns barcos, entre os quais um LCT, naufraga de encontro às minas, mas as equipes especiais, Underwater Demolition Teams, destroem rapidamente os obstáculos e desfazem as armadilhas. A ressaca é um débil marulhar; os homens entram na água alegremente, mais atrapalhados pela rápida maré montante do que por alguns obuses vindo das baterias de Saint-Marcouf. As ondas de assalto se sucedem. As extremidades de vanguarda da 4a DI dos EUA se lançam para os caminhos de Audouville, de Sainte-Marie e de Pouppeville, procurando ligação com os pára-quedistas de Taylor.
Diante de Omaha Beach o mar continua violento. Rolos de espuma correm sobre a areia. Os barcos de desembarque respeitaram o horário, mas a ressaca os maltrata e a espessa fumaça que cobre a costa torna difícil pilotar. À esquerda, 32 tanques anfíbios são lançados a 5.000 metros da praia, mas seus flutuadores são feitos para águas tranqüilas, e todos, salvo dois, submergem juntamente com sua equipagem. À direita, 28 outros DD deveriam ser lançados à água nas mesmas condições: avaliando com exatidão o estado do mar, o Tenente-Comandante Rockwall encalha seu LCT, em vez de fazer nadar seus pesados patos. Os carros saem da água atirando. Mas a reposta que recebem é áspera. Obuses de 88 mm os estripam, perfurando também os LCT enquanto eles flutuam novamente. O canhão não é único a falar. Rajadas de armas automáticas varrem a longa esplanada, a descoberto pela maré. Os homens que desembarcam dos LCVP tombam nas ondas, ou, se conseguem sair da água, tentam refugiar-se na areia. Os mais felizes alcançam o dique que limita a praia. Mas a areia está sob a mira do fogo. Os metralhadores e os artilheiros alemães atiram “sobre um tapete de homens”.
O oficial que comanda a ponta de La Percée telefona a seu coronel informando que vê a costa atravancada de tanques, viaturas, barcos em chamas, cobertos de mortos e feridos. Em março, Rommel passou pelo local. Sua cólera causou um efeito mágico. Se faltou material para as minas, em compensação todos os engenhos de que ele foi propagador estão acumulados na areia: uma barreira composta de elementos C ou “grades belgas”, várias filas de “cavalos de frisa”, várias faixas de “tetraedos” e de “ouriços”. As fotografias aéreas revelaram esses trabalhos - cujo efeito se pensou destruir com o desembarque em maré baixa -, mas, em virtude da orientação dos desvãos de proteção dos canhões, não revelam as armas de proteção dos flancos, aninhadas nas escarpas. Principalmente nenhum órgão de informação teve conhecimento da mais grave conseqüência resultante da inspeção de Rommel. Sustentando, como sempre, que as tropas de reserva não serviam para nada, empurrou para a primeira linha a 352a DI. Os americanos supunham cair sobre um setor mantido por um velho regimento da 719a Divisão de posição; caem sobre uma divisão de primeira ordem, cuidadosamente entrincheirada.
Uma funesta prudência americana, aliás, favoreceu a defesa. O temor dos ataques retardou de 2 a 3 segundos o lançamento das bombas jogadas pelos Liberator. A maior parte caiu a 3 ou 4 km no interior das terras. Por outro lado, o apoio naval fornecido pelos couraçados Texas e Arkansas, o cruzador inglês Glasgow, os cruzadores franceses Montcalm e Georges-Leygues foi muito rápido para produzir resultado efetivo de neutralização. As defesas costeiras ficaram, de um modo geral, intactas, e seus ocupantes, ilesos. Na ponta do Hoc um erro de identificação retarda o assalto. Os LCVP e os DUKW, que transportam o batalhão dos Rangers, dirigem-se para a ponta da Percée, mas o Coronel Rudder, cujo nome significa “leme”, percebeu o engano e retificou-o. Os Rangers escalam as escarpas debaixo da fuzilaria. Chegando ao cume, o que encontram em lugar de bateria são troncos de árvores. Os alemães haviam retirado os seis 155 mm, ao terminar a construção das casamatas. Aliás, quatro foram descobertos pouco depois, debaixo das redes de camuflagem, perto de Vierville, em Grandcamp, e foram destruídos. No fim da manhã, a situação de Omaha Beach é alarmante. Depois dos DD, os caminhões anfíbios DUKW foram liquidados juntamente com a artilharia que traziam. A praia está atulhada de material destruído. A maré alta afoga os feridos. As unidades de assalto continuam a chegar, os homens desembarcam com água até o pescoço, terminando por imobilizarem-se contra o dique. Os únicos americanos que conseguiram sair de Omaha Beach são o Coronel Canham, comandante do 116o RI, o Brigadeiro-General Cota, segundo-comandante da 1a DI, e alguns soldados que conseguiram carregar. Com ajuda de uma investida violenta abriram uma brecha na rede de arame farpado que obstruía a entrada do caminho escavado de Saint-Laurent. Acima deles, o mato queima com uma fumaça acre. Plantado no flanco arenoso do pequeno barranco, os dois chefes esperam o momento propício. Os obuses dos destróieres, que se aproveitam da maré alta para se aproximarem a 1 km, passam rente às suas cabeças e vão devastar os ninhos de resistência alemã. Também entre os britânicos, o mar fez estragos. Engoliu perto de 50 velhos tanques Centaur, equipados com obuses de 95 mm para fornecer às unidades de assalto o apoio móvel da artilharia. Mas a ressaca é muito menos violenta em Sword, Juno e Gold do que em Omaha, e os soldados da 716a DI, não valem os da 352a. O desembarque britânico se desenvolve não sem perdas, mas pelo menos sem crise grave.
No fim da manhã, na zona Gold, o ponto de apoio do Hamel mantém-se firme, mas a 50a Divisão se estende para Arromanches e Ver-su-Mer. Na zona Juno, o ponto de apoio de Courseulles também oferece resistência, mas os canadenses o contornam e se elevam sobre as colinas. Na zona Sword, o ponto de apoio de Le Brèche caiu, e o Comando n° 4, abrangendo duas seções francesas do Comando n° 10, ataca Ouistreham. Enfim, a 6a Airbone, reforçada por um desembarque de planadores, organiza-se no entroncamento de Ranville-Bénouville. No lado alemão, Jodl telefonou a Rundstedt, vetando suas pretensões: as duas divisões que o Feldmarschall pensou poder acionar diretamente só poderiam ser deslocadas com a autorização do Fuhrer - que está dormindo. Rundstedt resigna-se, sem mesmo pedir que acordem o dorminhoco. Resignação sarcástica - diz Speidel. O cabo boêmio quer comandar seus exércitos; que os comande. O generalfeldmarschall Gerd von Rundstedt lava as mãos.
Rommel está a caminho. Informado da ofensiva às 6h30, renunciou à sua audiência com Hitler e corre para retomar seu comando. Aliás, não está absolutamente convencido de que se trate do verdadeiro plano, e sim de uma diversão feita para atrair as reservas alemães à baixa Normandia. É em torno da embocadura do Somme, diz ele, que o inimigo dará o grande golpe. 13a a 18a hora: 12h - 18h Ao meio-dia, Churchill assoma à tribuna na Câmara dos Comuns. Exaspera a curiosidade de todos falando durante 20 minutos da tomada de Roma, que já não interessa a ninguém, depois descreve em termos grandiosos o desembarque que se está efetuando. “Até agora - diz - tudo se vem passando de acordo com os planos”. Em Obersalzberg, Hitler acorda. Não foi registrada sua primeira reação à notícia do desembarque. O grande comunicado será feito no Castelo Klessheim, distante uma hora de carro, na reunião em honra do novo chefe do governo húngaro, o General Astojai, convidado oficial. O programa não foi alterado. Diante do mapa da Normandia, Hitler graceja em dialeto austríaco: “Miam Miam! Eles vêm cair na boca do Grande Lobo! Bem bom!”. Todo mundo cai na gargalhada. Em seguida Hitler louva Jodl pelo seu “veto” matinal: tal como ele, não acredita que se trate da verdadeira invasão.
No Cotentin, a luta prossegue em câmara lenta. Chamado de Périers para limpar a região de Carentan com seu batalhão de pára-quedistas, o Major Barão Von der Heydte sobe ao campanário de Saint-Come-su-Mont, na entrada de Sainte-Mère-Église. O mar está coberto de navios até o infinito e centenas de pequenos barcos descarregam tropas e material. “No entanto, não tive a impressão de que uma grande batalha estava em curso. O sol brilhava. Fora alguns tiros de fuzil, tudo estava calmo. O vaivém das embarcações fazia pensar num domingo de verão no lago Wannsee...” Utah Beach e os caminhos que levam a ela estão engarrafados. O 8o RI experimenta passar pelo pântano: atola-se e desiste. Às 12h15, está feita a junção com o 501o de pára-quedistas que acaba de conquistar Poupperville, apesar de uma resistência dura. Às 12 horas, a junção faz-se em Audouville-la-Hubert, com o 502o. Os pântanos costeiros são atravessados e a 101a Airbone cumpriu sua missão.
No interior, a 82a luta. A conquista de Sainte-Mère-Eglise cortou a grande estrada de Cherburgo e dá aos americanos o controle da região alta situada entre os pântanos costeiros e os baixios de Merderet. A ação concêntrica ordenada pelos General Dollmann tem por fim retomar a cidadezinha. O 1.058o Regimento da 709a DI ataca vindo do norte: está parado no povoado de Neuville-au-Plain. Um ataque vindo do sul é também repelido. Em compensação, o 1.057o RI retoma a passagem de Chef-du-Pont e de La Fière. Muitos pára-quedistas caem prisioneiros a oeste do Merderet. Outros se reagrupam em torno da aldeia de Amfreville e sobre a elevação semeada de fazendas que a inundação desapruma, em frente a Chef-du-Pont. No setor de Omaha, o Tenente-General Dietrich Kraiss, que comanda a 352a DI comunica que susteve a invasão na própria praia. Essa convicção se reflete no comunicado de 13 horas do 84o AK; “Em Vierville o desembarque pode ser considerado repelido...” Mas Kraiss está inquieto a respeito da sua direita, ameaçada de ser absorvida pela progressão inglesa. Dirige para o leste o 915o RI, sob o comando do Coronel Meyer, dando-lhe ordem de contornar Bayeux e contra-atacar entre Bazenville e Crépon. Diante de Omaha Beach não resta qualquer reserva.
Ora, os americanos vencem a depressão em que se encontram. Por mais vivo que seja, falta ao fogo alemão densidade, continuidade, estando a praia ocupada, afinal de contas, apenas por um batalhão reforçado do 914o RI. Alguns oficiais enérgicos transpõem o dique, arrastando soldados dos mais bravos. Aproveitando a maré cheia, o LCT 30 e o LCI 54 mergulham na onda de calhaus, encalham justamente na entrada do recôncavo de Coleville, no qual os homens se precipitam. Um golpe direto de um destróier desmantela a casamata de Moulins, cujos defensores se rendem. Os bulldozers blindados abrem brechas nas dunas. Lentamente, a linha americana se ergue sobre a colina, onde as primeiras sebes, pouco desenvolvidas, fornecem abrigos. É principalmente para a direita, para Caen, que o Comando alemão orienta sua preocupação. Um poderoso instrumento se movimenta: a 21a Divisão Blindada, com o poderio de 16.000 homens, de 127 PzKw 4, de 40 canhões de assalto, de 28 peças de 88 mm, etc. Antes de mais nada, ela recebe ordens de limpar a margem direita do Orne, dos pára-quedistas que desceram durante a noite.
Chegando ao campo de batalha, apesar de sua perna ortopédica, o General Marcks vê, de golpe, que esta missão já não corresponde à situação. Encontra o coronel Oppeln Bronikovsky, que comanda o 22o Regimento de tanques, e, sob fogo, lhe dá suas instruções. Oppeln deve transportar seu regimento à margem esquerda do Orne e contra-atacar a fundo, rumo a Luc-sur-Mer. “Depende de você - diz Marcks - que a invasão seja repelida”. Deixando o coronel entregue à execução de sua missão, o general põe-se à procura de outras tropas, encontra um batalhão do 192o Pz Gr e orienta-o igualmente rumo a Luc-sur-Mer. O impossível deve ser feito para que o ataque inglês seja desbaratado, para que o desembarque se desorganize, contando com a intervenção das reservas gerais que o liquidarão. Oppeln apressa-se. Sua tarefa é difícil. O único caminho praticável do Orne é uma ponte de Caen que está de pé. O 22a Pz atravessa a cidade em chamas. Os caças-bombardeiros o perseguem à saída. Ele sobe a toda pressa a colina de Lebisey, atravessa a aldeia, desce em um pequeno vale atapetado de verdura. Quando chega diante de Biéville, os batalhões de Norfolk e Warwickshire, reforçados por canhões automotores, acabaram de tomar a localidade. Caen está a 7 km. Caen é o objetivo principal deste dia. Ainda não são 6 horas da tarde.
O encontro é áspero. Rechaçados, os tanques tentam contornar Biéville pelos vales de Périers. Destacamentos do Shoropshire Ligt Infantry e da Staffordshire Yeomanry destroem uma meia-dúzia deles. Caindo do céu, 8 bombardeiros de mergulho Typhoon incendeiam vários outros. O regimento recua, reagrupa-se nos limites de Caen. Sua intervenção impediu que a cidade fosse conquistada já na primeira noite. Contudo, não impediu a invasão. O contra-ataque da 192a Pz Gr foi mais longe. Caindo no intervalo das zonas Sword e Juno, seu ímpeto atinge o mar. Os granadeiros desembaraçam os centros de resistência de Saint-Aubin, de Luc e de Douvres-la-Délivrande, põem-se na defensiva, esperam os tanques... Esperam em vão.
No restante do setor britânico, a situação é satisfatória. A 3a Divisão canadense ganhou vários quilômetros e a 50a, reforçada pelos primeiros elementos desembarcados da 7a Armoured, aproxima-se de Bayeux. No fim da tarde, Rommel chega a Roche-Guyon. Depara com as decisões de Hitler. A 12a Pz SS, estacionada ao sul de Rouen, e a Panzer Lehr, que está na região de Dreux, são postas à sua disposição. Por outro lado, o Fuhrer proíbe toda subtração do 15o Exército, e até anulou uma ordem de Dollmann que chamava à Normandia uma parte das tropas da Bretanha. Decidiu, de uma vez por todas, que o 6 de junho é uma dissimulação, e que a verdadeira invasão ainda vai chegar. Últimas horas: 20h - 24h A batalha termina cedo. As tropas de assalto estão fatigadas e os alemães não tem meios de lançar um contra-ataque noturno. De Ranville até Sainte-Mère-Église, o fogo cessa ao por do sol.
Em compensação, a aviação noturna volta ao trabalho. Sua missão é de interditar o campo de batalha, impossibilitando a penetração das reservas inimigas. Bombas fulgurantes que os soldados alemães chamam “árvores de Natal”, Weihnachtsbäume desmascaram as colunas em marcha, e o bombardeio sistemático dos postos de passagem obrigatória multiplica as perdas e os atrasos. Bayerlein contou a Paul Carell o que foi a noite da Panzer Lehr deslocando-se rumo a Caen. Sées atravessada de bombas, depois, Argentan, às 2 horas da manhã: toda a cidade em chamas, iluminada como em pleno dia, imensa fogueira debaixo de um bombardeio ininterrupto, as ruas obstruídas por escombros, a ponte do Orne estraçalhada. Os pioneiros restabelecem uma passagem, mas Bayerlein deve caminhar através de desvios para alcançar Flers e Condésur-Noireau, igualmente arruinadas. Aponta o dia, nenhuma das cinco colunas, nas quais a divisão foi fracionada, conseguiu ultrapassar Falaise, a 25 km do campo de batalha - e os Jabos recomeçam a imobilizar contra o solo tudo que tem movimento. A Panzer Lehr deveria contra-atacar ao romper da aurora, mas não se move até a noite. Em contraste, os Aliados. Antes do cair da noite, o chefe do serviço de contra-espionagem (Ic) do 84o corpo alemão, Major Hayn, foi postar-se em Cabourg para ver com seus olhos o desembarque. “A atividade - conta ele - de um grande porto em tempo de paz”. A Luftwaffe esteve completamente ausente no correr do dia. A divisão de caça que se esperava de Metz foi totalmente destruída, e, com exceção de 3 FW-190, prontamente postos em fuga, nenhum avião de cruz negra foi visto sobre o campo de batalha normando.
À meia-noite, 75.215 britânicos e 56.500 americanos, mais 15.500 americanos e 7.900 britânicos das formações aerotransportadas, num total de mais de 155.000 homens, pisaram a França. As follow up divisions, 29a e 90a americanas e 51a e 7a blindadas britânicas estão em pleno desembarque. Rommel tinha razão: perder a batalha das praias significa a Europa aberta à invasão. A Mancha é para os anglo-americanos um freio muito menor do que é, para os alemães, a barragem desta diabólica aviação, dona do céu. Taticamente, os objetivos pretendidos para o 6 de junho à noite não foram atingidos em parte alguma. No Cotentin, o terreno conquistado é duas vezes menor do que se previu, o estabelecimento de uma cabeça-de-ponte sobre o Merderet fracassou e, ao sul, de Sainte-Mère-Église, um batalhão georgiano corta ainda a estrada de Cherburgo. Diante de Omaha Beach, os alemães terminaram por ceder Colleville e Saint-Laurent-sur-Mer, mas a penetração não ultrapassa em parte alguma 1.500 metros - e o que se queria, desde a tarde, era atingir o Aure, a 8 km das praias! No setor britânico, faltou um toque de inspiração e de audácia para que os brilhantes sucessos da manhã se convertessem nos objetivos do dia. A junção com os americanos não foi feita. A continuidade da cabeça-de-ponte não está realizada. Nem Caen nem seu aeroporto, Carpiquet, foram tomados. Diante de Bayeux, a 56a Brigada estacionou sua progressão às 20h30, quando acabava de atingir a cidade intacta e vazia de inimigos.
Apesar dessas decepções, o dia é uma magnífica vitória. Os Estados Unidos e a Inglaterra vibram de orgulho. A Europa cativa vibra de esperança. Na França, os maquis se armam, cortam as linhas telefônicas, tomam posição ao longo dos caminhos, para atormentar as colunas alemães. Os ferroviários abandonam os trens de tropas, sabotam as locomotivas e as manobras dos trilhos. Recusando-se definitivamente a associar-se às mensagens dos chefes de Estado europeus, De Gaulle lança à tarde uma proclamação que quase deixa entrever que as tropas francesas são as únicas a combater pela libertação do território nacional: “Sim, é a batalha na França e é a batalha da França.... A França vai conduzi-la com furor, vai conduzi-la em ordem. Há 1.500 anos sempre vem sendo assim que ganhamos cada uma de nossas vitórias... A primeira condição é que as ordens dadas pelo Governo francês e pelos chefes franceses qualificados sejam exatamente obedecidas... Eis que reaparece o sol de nossa grandeza....” Uma única menção, mais ou menos anônima, é feita aos ingleses e aos americanos na expressão “as forças aliadas e francesas” - sendo que estas últimas consistiam, no dia D, nos 256 “comandos” do capitão-de-fragata Philippe Kiefer. Nenhuma saudação é endereçada, nenhuma palavra de reconhecimento é pronunciada com referência aos milhares de jovens que vêm do Kansas, do Oregon, de Quebec, do Lancashire, do Saskatchewan, de todas as partes do Império Britânico, morrer na terra francesa. A cólera e o ressentimento cegam De Gaulle. O 6 de junho foi, sem dúvida, em toda sua existência grandiosa, o pior dos seus dias.
O comunicado alemão da tarde limita-se a anunciar que violentos combates se processam na costa atacada. Mas Hitler já manifestou sua impaciência e sua decepção, lançando ordem sobre ordem para que o desembarque seja rechaçado - “no mais tardar, esta noite”. Ele começa a suspeitar de um esmorecimento criminoso e até de atos de traição.
Fonte: http://adluna.sites.uol.com.br/
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