O ataque a Scapa Flow - Parte I


A preparação do ataque da Kriegsmarine e o histórico da famosa base da Royal Navy, Scapa Flow, nas ilhas Orcadas.

O audacioso ataque executado pelo submarino alemão U-47, dentro da baía de Scapa Flow, na Inglaterra, em outubro de 1939, representou um marco na história naval, tanto pelo seu significado como por sua bravura e destreza.

A idéia do ataque foi do Almirante Karl Dönitz, que denominou a operação de Plano “P”, uma das mais audaciosas missões da 2a Guerra Mundial.

Foi durante a 1a Guerra Mundial que os ingleses escolheram Scapa Flow, localizada nas Ilhas Orkney, na Escócia, como ancoradouro para os navios da Real Marinha Britânica. Quando a guerra começou não havia defesa específica contra os submarinos, e medidas urgentes foram tomadas para proteger a entrada e os estreitos que lhe davam acesso.

Inicialmente foram construídos e submersos 21 grandes blocos de cimento, colocadas redes anti-submarino em várias profundidades diferentes e diversas áreas foram minadas sendo apoiadas por baterias de canhões de costa. Assim, Scapa Flow foi declarada segura em 1915.

Mesmo com estas defesas, alguns comandantes de U-boat mais ousados tentaram penetrar na baía. Um destes conseguiu penetrar e lançar algumas minas, que em 5 de junho de 1916 explodiram e afundaram o HMS Hampshire no Estreito de Hoy. O Ministro da Guerra inglês e herói de Khartoum, Lord Kitchner, estava a bordo visitando Scapa Flow, em rota para a Rússia em missão diplomática, ele e sua comitiva morreram no incidente, o que provocou forte comoção nacional.

A mesma sorte não teve o Comandante Joachim Emsmann no UB-116, que tentando penetrar no estreito de Hoxa acabou batendo em uma mina e afundou. Apenas um comandante com nervos de aço, grande técnica e experiência conseguiria superar as pesadas defesas e imprevisíveis correntes, poderosas o bastante para arrastar um U-Boat fora do seu curso.

As imposições do Tratado de Versailles, assinado após o final da 1a Guerra Mundial, afetaram duramente não só a Alemanha, mas principalmente sua marinha, que desafiara a supremacia britânica nos mares. As cláusulas XXI e XXIII do tratado impunham que todos os submarinos, em número de 200, e os 74 navios de guerra deveriam ser entregues e ficariam fundeados em Scapa Flow até a decisão final de partilha entre os aliados. Os aliados estavam divididos quanto ao fato de que muitos países esperavam receber sua parte na partilha, mesmo sabendo-se que a Inglaterra, a maior potência marítima na época, estava mais preocupada em evitar o aumento da força naval de paises rivais.

Quando o comandante alemão da frota rendida, o Contra-Almirante Von Reuter, soube que os ingleses pretendiam se apoderar dos navios, ele começou a planejar o afundamento de todas as unidades, fato executado em 21 de junho de 1919, após o Almirante Reuter assinalar para os navios “Parágrafo onze confirmado”, o código do imediato afundamento. Mais de 400.000 toneladas de modernos navios de guerra afundaram, a maior perda de navios em um único dia na história naval.

Assim, Scapa Flow tornou-se para os marinheiros alemães o símbolo de uma vergonha, que foi a rendição e entrega dos seus navios, mas também o símbolo do sacrifício supremo, o lugar onde repousam ainda os restos da sua Frota de Alto Mar.

Desta forma, a idéia de um ataque a base inglesa estava ligada a idéia de vingança, e mesmo que o submarino atacante fosse perdido, pelo menos um grande navio de guerra poderia ser afundado, o que causaria pânico na Royal Navy.

Na tarde de sábado de 1 de outubro de 1939, um mês após a declaração de guerra inglesa, uma pequena lancha atravessa o porto de Kiel, na Alemanha, e vem encostar ao navio de linha Weichsel. O Kapitänleutnant Günther Prien da Marinha Alemã desembarca, e é recebido na ponte. Para o Almirante Dönitz, o nome de Prien, de 31 anos de idade, parecia o ideal para esta missão. Como homem do mar, ele entrou para a escola náutica de Finkenwärder em 1923 aos 15 anos de idade, e oito anos depois prestou prova e ganhou o seu certificado de Comandante para a Marinha Mercante. Aos 24 anos, pouco antes que a grande depressão financeira que envolveu a Alemanha o deixasse sem trabalho, o que o compeliu a se juntar a uma organização nacional-socialista de trabalho voluntário em 1932, e quando a Alemanha iniciou seu rearmamento, rompendo com o Tratado de Versailles, ele se juntou a Kriegsmarine, em 1933. Serviu em águas de Espanha durante a Guerra Civil Espanhola, e com menos de um ano como Comandante de U-Boat ele obteve a primeira vitória oficial. Ele afundou três navios em sua primeira missão de guerra, o que lhe valeu a citação para receber a Cruz de Ferro de Segunda Classe.

O Senhor Tenente-Capitão é chamado à presença do Chefe das Flotilhas de Submarinos. Prien se apresenta e é recebido pelo “Chefe” que lhe aperta a mão e depois de cumprimentá-lo, pergunta, “Você acha que um comandante determinado poderia penetrar com seu submarino em Scapa Flow e atacar a frota inimiga ali fundeada?”.

Tomado ainda pela surpresa, ele ouve o “Chefe” passar a palavra ao Tenente-Capitão Wellner, que começa a explicar. Wellner aproxima-se da mesa e curva-se sobre um grande mapa. “A guarda de defesa é a de costume como em toda parte. As medidas especiais, por mim expostas no diário de guerra, foram tomadas aos seguintes locais...”.

“Entretanto, o seu dedo vai indicando as ilhas de Orkney. No meio do mapa vejo em letras grandes: ‘Baía de Scapa Flow’. Wellner continua a explicar, mas nesse instante não posso ouvi-lo. Todos os meus pensamentos giram, desorientados em torno de um nome: Scapa Flow!”.

Depois fala o Almirante Dönitz: “Na 1a Guerra Mundial ficavam aqui as barragens inglesas”; inclina-se para o mapa, e com a extremidade do mesmo compasso mostra os pontos em questão, “talvez agora estejam de novo nos mesmos sítios. Aqui foi destruído o UB-116 de Emsmann”; a extremidade do compasso mostra o estreito de Hoxa, “e aqui estão os ancoradouros habituais da frota inglesa. As sete entradas para a baía hão de estar fechadas e bem fechadas por grandes blocos submersos. Todavia quer me parecer que um comandante decidido poderia penetrar aqui...” (a ponta do compasso passeia sobre o mapa). “É claro que não vai ser fácil, porque a corrente é muito forte entre as ilhas. Todavia, não me parece impossível! Qual é sua opinião Prien?”.

“Antes que tenha tempo de responder, já o Almirante recomeça: Não me diga por enquanto a sua decisão, reflita bem o caso, calcule bem todos os prós e contras. Até terça-feira ao meio dia espero o seu parecer. É absolutamente livre, não quero influir por forma alguma na sua decisão. Caso se convença de que não é viável o empreendimento, venha dizer-mo. Nesse caso, nenhuma censura ou sombra cai sobre si.”

Prien obteve um prazo de 48 horas para analisar e dar sua resposta. Ele levou as cartas, fotos e informações da inteligência com a missão de preparar e emitir sua estimativa cuidadosa.

Após chegar em casa, Prien pediu que sua esposa e jovem filho o deixassem a sós para poder estudar os diversos documentos secretos. Havia uma abundância de informações da inteligência sobre Scapa Flow, Dönitz já vinha planejando a aventura a algum tempo. Relatórios do Tenente-Capitão Wellner, que patrulhou a área no U-16 e fotos aéreas tomadas a 6 de setembro mostravam a Frota Metropolitana inteira ancorada, e um aumento das defesas anti-submarinas com barcos e bloqueios fundeados nas sete entradas da baía.

Mas observando as entradas da baía, encontrou falhas na defesa e apurou uma corrente de 10 nós na área. A navegação mesmo de dia era complicada e cheia de cuidados.

No estreito de Kirk, a noroeste de Scapa Flow, nas três entradas da baía, os barcos de bloqueio “Thames, Soriano e Minich” estavam posicionados de tal forma que um submarino, aproveitando a maré alta, teria que fazer um zig-zag para evitá-los. Nas noites do dia 13 e 14 a maré estaria alta, sendo um dos níveis mais altos do ano, além de não haver lua.

“Defesas, barcos de bloqueio, maré e correntes, trabalhei com estes dados como se fosse com um problema matemático”, escreveu Prien. No dia seguinte, ele se apresentou ao Almirante Dönitz que o recebeu com um olhar inquiridor por trás de sua mesa. “Ele não tomou conhecimento de minha saudação, continuou olhando como se não me houvesse noticiado. Ele olhou-me fixamente e perguntou... ‘Sim ou Não?’ ”. Prien respondeu, “Sim senhor”. “Muito bem”, disse Dönitz, que se aproximou e apertou a mão de Prien, “Prepare o seu barco imediatamente”.

O barco de Prien, o U-47, era um dos novos submarinos oceânicos, Tipo VIIB, com os quais Dönitz planejava estrangular a Inglaterra com o escasso orçamento liberado por Berlim para este fim. Ele deslocava 750 toneladas, com seus característicos tanques selados no meio da embarcação que lhe davam a autonomia de 8.700 milhas marítimas, o suficiente para circunavegar a Inglaterra ou chegar até ao meio do Atlântico. Podia fazer até 16 nós na superfície e 7 nós sob as águas, mergulhando até 200 metros de profundidade. Armado com quatro tubos de torpedos de 21 pol. na frente e outro atrás, um canhão de 88mm no deck superior e um canhão antiaéreo de 20mm junto à torre de comando.

O Oberleutnant zur See Engelbert "Bertl" Endrass, era o Primeiro Oficial, e que seria mais tarde um ás dos U-Boat no U-46 e U-567. Como Segundo Oficial, o Oberleutnant zur See Amelung von Varendorff, que no futuro iria capitanear o U-213. Navegador Wilhelm Spahr, Chefe Engenheiro Wessels e o Engenheiro da Sala das Máquinas Bohm, Timoneiro Schmidt e o resto da tripulação de 42 homens formada por voluntários, produto de rigoroso treinamento na escola dos submersíveis, que requeriam 66 ataques simulados na superfície e 66 ataques simulados submerso antes de permitir o disparo de um simples torpedo. Em 8 de outubro, uma semana após Prien ter assumido a Operação “P”, o U-47 estava pronto para partir do porto de Kiel. Não houve cerimônia, nenhuma fanfarra, exceto a saudação do Kapitän zur See (mais tarde Almirante) Hans Georg von Friedeburg, o gênio dos submarinos que ao final da guerra, sob a direção de Dönitz, assumiu a campanha dos U-Boat: “Bem Prien, seja lá o que ocorrer, já tens segurada muitas milhares de toneladas, e agora, a melhor sorte para você meu rapaz”. O U-47 acionou os seus motores Diesel e o barco estremeceu.

Fonte deste artigo: A Caminho de Scapa Flow (Ed. Clássica), Sea Wolves (Ballantine Books) e outros - Por W. Garlipp

 

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