O torpedeamento do Athenia
Quando a Grã-Bretanha declarou guerra à Alemanha, no dia 3 de setembro de 1939, dos 56 submarinos de Doenitiz, 46 se encontravam prontos para entrar em ação, mas somente 23 estavam aptos para operar no Atlântico. Os outros 23 eram submarinos pequenos, tipo II, de 250 toneladas de deslocamento, com alcance operacional adequado apenas para atuar no Mar do Norte.
Essa força era, como se vê, muito escassa para a tarefa que tinha pela frente,
pois, dos 22 submarinos, pelo revezamento a que estavam obrigados, para
reabastecimento etc., no máximo sete estariam empenhados em operações contra
navios mercantes no Atlântico, a qualquer momento. Longe de interromper as
comunicações inimigas e obrigar os ingleses a entrar cedo num acordo, Doenitz
sabia que seus submarinos não infligiriam mais que alguma alfinetadas.
Além disso, a eficiência dessas alfinetadas foi reduzida pelas regras impostas
às operações dos submarinos. As condições articuladas no Regulamento de
Presas estipulavam que o submarino tinha primeiro que emergir, para depois, então,
deter e examinar qualquer navio mercante. Provado o direito de afundá-lo, por
se encontrar o mercante contrabandeando carga para o inimigo, por exemplo, o
submarino tinha que, antes de mais nada, garantir a segurança da tripulação
do navio. Levando-a para bordo - uma impossibilidade palpável - no caso de um
submarino já apinhado de gente. Somente diante de navios mercantes navegando
sob escolta, ou que resistissem quando chamados a parar, ou em transportes de
tropas é que o submarino podia agir sem a necessidade de inspeção prévia. É
claro que tais obrigações deixavam o submarino vulnerável a ataque de
qualquer navio que estivesse realmente armado. Apenas ligeiramente armados no
convés, os submarinos pequenos e médios eram extremamente vulneráveis.
Outra complicação surgiu quando a França se declarou em guerra com a
Alemanha. Hitler, ansioso por evitar um choque direto com aquele país, a
despeito da declaração nominal de guerra, proibiu aos seus submarinos qualquer
ação contra navios franceses, exceto em defesa própria.
A situação tornou-se ainda mais confusa pelas circunstâncias que cercaram o
disparo do primeiro torpedo alemão contra um navio inglês. No dia em que a
guerra foi declarada, o comandante Lemp do U-30, avistou um navio de passageiros
que, segundo afirmou, navegava em ziguezague, completamente às escuras, fora
das rotas normais. Lemp concluiu tratar-se de navio de tropas; estabeleceu a sua
identidade como sendo britânico e agiu imediatamente, baseado no direito de
atacar. Seus torpedos atingiram em cheio o navio, que afundou, com a perda de
mais de cem pessoas(a maioria das vítimas era civil). Ficou então provado que
não se tratava de transporte de tropas, e sim de um navio de passageiros de
nome Athenia, que viajava da Grã-Bretanha para os Estados Unidos.
O governo britânico imediatamente acusou os alemães de travarem guerra
ilimitada, em contravenção ao direito internacional. O governo alemão negou a
acusação. Porque Lemp não mencionara a ação em seus relatório transmitidos
pelo telégrafo, só em setembro, quando o U-30 chegou à sua base e seu
comandante se apresentou a Doenitz, é que a verdade veio a lume. A ação de
Lemp vinha infringir diretamente a instrução de Hitler de travar guerra de
acordo com o Regulamento de Presa e o governo do III Reich continuou afirmando
que nenhum submarino seu fora responsável pelo afundamento do Athenia.
O Alto-Comando Naval alemão recebeu ordem no sentido de manter a questão em
segredo e Doenitz foi obrigado a mandar Lemp a eliminar o registro do
acontecimento de seu diário de guerra e substituí-lo por outra página,
omitindo qualquer referência sobre o incidente.
Numa outra tentativa de negar o envolvimento de qualquer submarino no
afundamento do Athenia, o Ministério da Propaganda alemão fez transmitir pelo
rádio a declaração de que o Athenia fora sabotado por ordens de Churchill,
então Primeiro-Lorde do Almirantado britânico, para desacreditar a nação
alemã como sendo a primeira a infringir as regras da guerra naval, mas
praticamente ninguém acreditou na mentira.
O efeito imediato da perda do Athenia foi fazer com que Hitler, ainda ansioso
por evitar hostilidades francas com a Grã-Bretanha e a França, emitisse outra
ordem limitando as atividades dos submarinos, instruindo-os para que não
afundassem navios de passageiros, de qualquer nação, a serviço do inimigo ou
não, navegando em comboio ou não.
Para o Alto-Comando Naval alemão, parecia que Hitler estava impondo restrições
impossíveis às atividades do já reduzido grupo de submarinos, mas essas
limitações foram sendo gradativamente relaxadas. A 23 de setembro, por insistência
do Almirante Raeder, Hitler aprovou o afundamento de todos os navios mercantes
que fizesse uso dos rádio quando detidos. A 24 de setembro, também por
recomendação de Raeder, foi cancelada a ordem que privilegiava os navios
franceses, e então, por estágios, eliminou-se a necessidade de cumprir o
Regulamento de Presa em áreas declaradas a 30 de setembro, no Mar do Norte; a 2
de outubro, ao largo das costas britânica e francesa, com respeito a navios de
luzes apagadas; em águas até 15 graus a oeste e, depois, a 19 de outubro, em
águas até 20 graus a oeste. A 17 de outubro, os submarinos já haviam recebido
permissão para atacar todos os navios identificados como hostis, exceto os de
passageiros e, por volta de 17 de novembro, até mesmo esta última restrição
fora cancelada. Preparava-se aos poucos, o palco para a batalha total que
Doenitz e o Alto-Comando Naval esperavam.
Mas cabe dizer que embora desde o princípio da guerra, Doenitz e seus oficiais
se irritassem com as restrições que Hitler - por razões de ordem política -
impunha às suas atividades, observavam-nas globalmente, mas se rebelaram contra
elas da melhor maneira que puderam. Estava tudo muito bem, diziam, se alta política
permitia que os navios aliados navegassem com seus contratorpedeiros, mas
obviamente a Alemanha não venceria a guerra com semelhantes táticas. Um navios
inglês conduzindo 20.000 homens passara incólume por um submarino que estava
em posição de torpedeá-lo porque o comandante, de noite, não tinha a certeza
se era um navio francês, e a França deveria ser conservada tão ilesa quanto
possível. Desde o início, Doenitz bateu-se por um irrestrito bloqueio
submarino em volta das ilhas britânicas e para que se permitisse aos
comandantes de submarinos afundarem qualquer navio que se encontrasse naquelas
imediações. Pelo menos até primeiro de janeiros de 1940 , Doenitz não
conseguiu persuadir Hitler a expedir esta ordem: fazia drôle de guerre(em francês
no original): astuto da guerra até que estivesse pronto para atacar
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