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O dia da águia Com o sucesso da primeira fase da batalha, a Luftwaffe decidiu jogar tudo contra o Comando de Caças da RAF.
Encerrada a luta no continente, a Grã-Bretanha constituía o último obstáculo à vi tória total de Hitler na Europa. Para conquistá-la, preparou-se a Operação Leão-Marinho, cuja execução exigia que a Luftwaffe varresse a RAF dos céus. Naquele momento crucial, a sobrevivência da nação britânica dependia do Comando de Caças e da coragem de seus pilotos. Só depois de eliminada a RAF os Kampfgruppen (grupos de combate) poderiam enfrentar a inevitável reação da Ma rinha britânica no canal da Mancha e no mar do Norte, tornando possível a ocupação. Mas esse objetivo imediato era prejudicado por uma série de diretrizes contraditórias, cada uma ordenando ataques a alvos diferentes e dispersando o potencial estratégico da Luftwaffe. Em 21 de julho de 1940, as Luftflotten II, III e V estavam em condições de com bate, reunidas nos campos de pouso da Bélgica, Holanda, França e Noruega. Também o teste das defesas do Comando de Caças vinha sendo conduzido a contento pela Luftwaffe. Restava, então, completar o planejamento de uma campanha total visando conquistar a supremacia aérea, numa batalha de desgaste, que deveria ocorrer em conjunto com assaltos à Marinha mercante. Goering, porém, ordenou que a Luftwaffe atacasse unidades da Marinha de guerra no mar e nos portos. Ao mesmo tempo, surgiram sérias divergências entre os comandantes das Luftflotten, uma vez que toda a estratégia da Luftwaffe estava baseada em elementos errados, por falha dos serviços de espionagem. A força da RAF, particularmente a do Comando de Caças, fora muito subestimada pelo Departamento de Inteligência.
Nos seis dias seguintes completaram-se os planos para o grande assalto, agora chamado Adlerangriff (Ataque das Águias), para início no Adlertag (Dia da Águia). Numa reunião com seus oficiais em 6 de agosto de 1940, Goering deu a ordem para o ataque assim que o tempo melhorasse sobre a Inglaterra. A data foi marcada inicialmente para 10 de agosto, mas acabou sendo adiada para terça-feira, 13 de agosto de 1940.
A Luftwaffe decola
A força total de primeira linha reunida pa ra a ofensiva somava 3.258 aviões de combate, 2.550 dos quais prontos para ação. O conjunto operacional incluía 151 aparelhos de reconhecimento, 998 bombardeiros (a maioria de Dornier Do 17Z-l, Junkers Ju88A-l eHeinkel He 111H-1 a H-4) e 261 bombardeiros de mergulho Junkers Ju 87B-1 e B-2. Os caças contavam 224 bimotores Messerschmitt Me 11 OC-2 Zerstõrer (incluindo as versões de caça e de bombardeiro) e 805 Messerschmitt Me lO9E-l a E-4, monomotores. A força era completa da com oitenta aparelhos de reconhecimento costeiro. Em 8 de agosto, ocorreram grandes ba talhas aéreas sobre o canal da Mancha e ao largo de St. Catherine Point, no último dia em que a Luftwaffe utilizou sua força maior contra comboios costeiros. A partir deste dia, as atividades do Comando de Caças e da Luftwaffe subiram números elevados. Começava a segunda fase da Batalha da Grã-Bretanha, mas o dia poderia ter entrado para a história como a “Batalha do Comboio C.W.9 Peewit”. Na noite anterior, o comboio zarpara do estuário do Tâmisa para o estreito de Do ver, onde foi localizado pelo radar alemão instalado na costa francesa. Antes da madrugada, um forte ataque mandou ao fundo três navios e danificaram outros. Às 9 horas, bombardeiros Stuka vindo de Cherburgo investiram contra o comboio, mas foram dispersos por aviões do 11º Grupo. Antes das 13 horas, outros 57 Stuka escoltados por vinte Me 110C-1 atacaram os barcos por 32 km, ao sul da ilha de Wight. Contra eles voaram quatro esquadrilhas britânicas. Às 16 horas, um novo assalto de 82 Stuka escoltados por 68 Me 109 e Me 110 fustigou o comboio. A RAF despachou sete esquadrilhas para enfrentar os alemães.
O líder da 145ª Esquadrilha (de Hurricane), comandante Peel, fez o seguinte re lato desse combate: “A 5.000 m avistamos, abaixo de nós, uma grande formação de Ju 87 vinda do sul, protegida por Me 109 voando a 6.600 m. Chegamos com o sol pelas costas e sobre a retaguarda dos bombardeiros antes que os caças pudessem reagir. Disparei uma rajada longa contra um Stuka e guinei para enfrentar dois Me 109. Começara o dogfight. Os caças inimigos mergulhavam, davam meio tonneau e atiravam em curvas ascendentes. Disparei duas rajadas de 5 segundos num Me e ele mergulhou no mar. Segui então um outro na subida e peguei-o quando ele estolou”. O comando de caças informou a destruição de 24 bombardeiros e 36 caças alemães, contra a perda de dezenove caças. Continuando sua atuação, a Inteligência da Luftwaffe acreditava que o Comando de Caças havia sofrido perdas insuportáveis em 8 de agosto, embora essa não fosse a opinião dos pilotos alemães que participavam dos combates diários. O serviço secreto alemão acabou percebendo que o sistema defensivo da RAF baseava-se no rádio e no radar, e a atuação dos caças britânicos gerou divergências quanto à melhor tática a empregar. O uso do Messerschmitt Me 110, tão bem-sucedido contra a Polônia e no oeste da Europa, estava agora em xeque. Os Me 110, quando penetravam profundamente no espaço aéreo britânico, ficavam inferiorizados diante dos Hurricane e Spitfire; já os temíveis Me 109E-4 (a última versão) eram prejudicados pela baixa autonomia. O clima instável continuava adiando o Ataque das Águias, mas grandes combates se registraram em 11 de agasto, quando Portland, Dover e embarcações no estuário do Tâmisa foram atacadas. Reconhecendo a importância do radar para a RAF, a Luftwaffe deu início a incursões falsas regulares. O Comando de Caças perdeu 32 aviões e a Luftwaffe 38, na maioria Me 109 e 110. No anoitecer de 12 de agosto, o comando britânico havia detectado uma nova e preocupante tática nas operações da Luftwaffe. As bases da RAF em Manston, Hawking e Lympne sofreram ataques e, mais importante, as instalações de radar em Ventnor, Pevensey, Dunquerque e Rye. Contra as estações CH (chain home, cadeia doméstica) de radar empregaram-se os caças-bombardeiros Me 110C-6.
As operações do esperado Dia da Águia, 13 de agosto de 1940, começaram mal: dado o clima instável pela manhã, cancelou-se o ataque. O reide inicial foi feito por 74 Do l7Z-2 do KG2 (Kampfgeschwader) na região de Sheppey, sem escolta do ZG 26 (Zerstcirergeschwader) que se separou e atacou o campo de Eastchurch e Sheerness por volta das 8 horas e 35 minutos. À tarde, começaram os ataques em grande escala, apesar da previsão de mau tempo. Às 15 horas e 30 minutos, chegou ao QG do 10º e do 11º Grupo o alerta das estações de radar. Com trinta Me 109E-4 do II/JG 53 (Jadgeschwader) adiante, a primeira vaga da Luftflotte III avançava, numa frente de 64 km, a 8.500 m, saindo da península de Cotentin; ao todo vinham 120 Ju 88A-l e 27 Ju 87B-2 escoltados por Me 110C. Os alvos eram Southampton e os campos de pouso do l0º Grupo em Hampshire. Logo em seguida, surgiu uma segunda onda do 1II/StG 77 (Stukagesch wader) com escolta do JG 27. Os combates foram extremamente duros, com muitas vitórias das esquadrilhas 152ª, 213ª, 238ª e 609ª. A Luftflotte II entrou na batalha pouco depois das 17 horas, com um duplo ataque a Eastchurch e Rochester; seus Ju 87 do IV/LG 1 (Lehrgeschwader, unidade de treinamento) bom bardearam Detling, em lugar do alvo previamente designado. Ataques a outros objetivos também resultaram inócuos, mas uma ação de caça livre (alvo à escolha do piloto) do III/JG 26, sob o comando de Adolf Galland, impôs sérias perdas a RAF. Os combates prosseguiram noite adentro: O KGr 100 (Küstengruppe, grupo costeiro) atacou Castle Bronwich e Belfast. A RAF despachou seus Armstrong Whitworth Whitley do Comando de Bombardeiros contra Turim e Milão, no vale do Pó. A Luftwaffe executou 1.435 missões e perdeu 45 aparelhos, contra treze do Comando de Caças.
O mau tempo no dia seguinte reduziu a intensidade dos combates. Ainda assim, registraram-se ataques aos sistemas de comunicações de Bristol e Portland e aos campos de pouso de Middle Wallop, Cardiff, Kemble, Andover, Sealand, HuIlavington, Yeovilton e Manston, este último atingido duramente. O dia 15 de agosto foi decisivo. Às 10 horas, 72 Heinkel He 11 1H-l do KG 26 decolaram, tendo por objetivos principais Dishforth e Usworth; Middlesbrough; Newcastle e Sunderland, na área do 13º Grupo, eram seus alvos opcionais. Um erro de navegação desviou a força alemã da rota, levando-a de encontro às esquadrilhas 41ª, 72ª, 79ª e 605ª em seqüência. As baixas foram desastrosas. Massacres semelhantes sofreram cinqüenta Ju 88A-1 do KG 30, que bombardeava Driffield, enfrentando as esquadrilhas 73ª e 616ª. As perdas da Luftflotte V ultrapassaram a metade da força enviada. No sul, as Luftflotten II e III atacaram os campos de pouso de Hawkinge, Lympne, Eastchurch, Martlesham, West Mailing, Rochester, Croydon e cidades no condado de Kent. Nesse apocalíptico dia 15, a Luftwaffe realizou 1.786 missões e o Comando de Caças 974. Setenta e nove aviões alemães e 34 britânicos caíram.
Mudança de tática
As terríveis perdas dessa “quinta-feira negra” deixaram claro que uma ofensiva to tal de bombardeiros contra a Grã-Bretanha não seria possível enquanto o Comando de Caças detivesse a supremacia aérea. O fracasso das operações diversionárias da V Luftflotte limitou os combates ao sul, onde os bombardeiros operariam dentro do protetor raio de ação dos Me 109. Além disso, ficou demonstrado que os Me 110 e os Stuka não conseguiriam cumprir suas tarefas, necessitando sempre de uma escolta de caças para não serem dizimados. Em 16 de agosto de 1940, os pilotos dos caças da RAF informaram uma mudança na tática da Luftwaffe: os staffeln (doze a catorze aviões) de Me 109 voavam dos lados e à frente dos bombardeiros, fazendo curvas para poderem acompanhar sua reduzida velocidade. Nesse dia, os alemães atacaram West Malling, Gosport, Tangmere, Brize Norton, Harwell, Lee-on-Solent, e Farnborough. Foram 1.715 missões da Luftwaffe, e 45 de seus aviões não retornaram; 22 caças da RAF caíram. Novos combates ocorreram em 18 de agosto, e os Stuka sofreram tantas baixas que se deter minou sua remoção temporária da batalha: dos 281 aparelhos disponíveis no início de agosto, 39 se perderam em catorze ataques, além dos dezoito abatidos só nesse dia.
Às 12 horas, 85 Ju 87 do StG 77 atacaram campos de pouso em Ford e Thorney e a estação de radar CH em Poling, com o KG 54 (Ju 88A-1) seguindo para Gosport. Essa força foi assediada pelas esquadrilhas 43ª, 52ª, 234ª, 601ª e 602ª. O Comando de Caças perdeu 27 aviões e dez pilotos, contra 71 aparelhos da Luftwaffe. Os combates do dia 18 de agosto figuram entre os mais terríveis da Batalha da Grã-Bretanha. Nos cinco dias seguintes, o mau tempo obrigou a uma pausa, encerrando a segunda fase da batalha. Entre os dias 8 e 18 de agosto de 1940, noventa pilotos da RAF tombaram em combate e sessenta saíram feridos. Cinqüenta e quatro Spitfire Mk 1 e 121 Hurricane Mk 1 se perderam e mais 65 ficaram danificados. A preocupação do Comando de Caças nesse momento crítico era não perder mais pilotos e repor os 350 que faltavam. |








